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Oct
22
2010

A Casa de Hömurein – Capítulo 1

Escritor: Johnny Von Arthoneceron

Eu me levantei junto de minha mãe, e fomos até as fontes termais tomarmos um banho em conjunto. O lábio superior de minha mãe estava ferido, e seu rosto do lado direito estava roxo. Ainda sim, ela conseguia sorrir, enquanto lavava meu cabelo e meu rosto. Eu me coloquei na sua frente enquanto ela sentava na beirada da fonte e abria as pernas para eu me apoiar na parede da piscina termal. Pude sentir alguns dos pelos pubianos me roçarem as costas, enquanto ela massageava meu cabelo. O silêncio perdurou por muito tempo no recinto, até que ela me disse, num tom de quase pesar:

-Eu não sei o que você viu ou ouviu, mas eu devo dizer que a minha vida não seria nada se alguma coisa acontecesse com vocês duas. Peço perdão a vocês duas, se tentei tirar a minha vida antes, mas eu era egoísta e de mentalidade medíocre. Agora, temos um grande problema em mãos, já que somos mulheres e temos que arcar com uma dívida que é maior do que qualquer uma de nossas posses.

-A senhora não tem com o que se desculpar. Quem tem a culpa é o meu pai, que fez negócios com pessoas perigosas, e não está aqui para honrar o nome de nossa família.

-Não fale assim de seu pai – disse ela, amenizando o tom em sua voz – Ele me fez feliz como pode e graças a ele, tivemos uma vida boa até aqui. O único defeito que ele era um homem que era cego pelo poder.

-O que a senhora pensa em fazer – eu perguntei a ela, enquanto lavava os meus olhos do líquido de ervas.

-Duas coisas – ela me disse, enquanto molhava meu cabelo com uma concha – Eu posso dar vocês para meus pais criarem e me vender como escrava.

-Não – gritei, apertando as suas pernas – Eu vou com a senhora para onde você for. Não me deixe, mamãe.

Ela percebeu meu desespero e sorriu mais uma vez, acariciando meu rosto. Em seguida disse:

-Posso dar minha casa e minhas terras, junto com a plantação do verão que vem para o clã Yamatsu e tentar casar vocês na capital.

-Mas… E quanto a você, mamãe?

-Eu sou imunda – disse, enquanto ela lançava um olhar perdido no vitral que o marido fez na frente delas – Por mais que eles me obrigaram a fazer aquela coisa feia que você viu ontem, eu acabei gostando no final, já que o seu pai não me tocava há alguns meses – ela volta a sua visão para Nomue – Eu não tenho coragem de voltar para casa de meu pai e não quero ser um estorvo para os meus filhos. Acho que vou para a capital ser dama de companhia.

E sorriu. Na época, eu não sabia que, na capital, “dama de companhia” queria dizer “prostituta”, e minha mãe, mesmo com trinta e quatro anos ainda era uma bela mulher, com atributos físicos bastante desejados pelos empregados que costumavam trabalhar para nós nos tempos áureos de nossa casa, além dos viajantes que por lá passavam após meu pai abandonar a nossa casa.

-Posso ir junto com você – eu perguntei para ela, com inocência – Eu quero ficar com você!

-Você não pode – disse ela, severamente – Eu não posso permitir que uma de minhas filhas tenha uma vida como essa. Você tem que se casar, amar o seu marido e…

E parou de falar abruptamente. Era como se ela se visse em mim, quando eu perguntei e não pude deixar de reparar que seu rosto se tornara cheio de sombras após o ato. Eu tentei entender o que se passava com ela, mas eu era muito jovem e não conseguia entender o mundo adulto. Ela desconversou em seguida, dizendo que ela não estava se sentindo bem com aquele tipo de conversa comigo e assim que eu obtivesse alguma idade explicaria algumas coisas que faltaram na minha formação. Assim que terminamos o banho, minha mãe arrumou o meu cabelo como se fosse uma adulta e me colocou em uma de suas roupas de luxo, coisa que eu sonhava havia muito tempo. Em seguida, levou minha irmã para tomar banho e fez o mesmo com ela. Apesar de eu estar adorando estar vestida como ela, eu pensava no futuro longe dali, em alguma cidade e sofria com isso, já que minha casa era o único lugar que eu tinha para ir. Quando minha mãe apareceu, ela também estava vestida elegantemente, com uma bela maquiagem que lembrava as dançarinas desenhadas nos murais da minha casa. Com aspereza, ela nos chama para o futon na nossa sala e nos comunica, como grande matriarca que era:

-Daqui até três dias, abandonaremos esta casa, onde passamos grande parte de nossa vida e partiremos para o leste, onde começaremos uma nova na cidade grande.

-Sim senhora – dissemos eu e minha irmã juntas.

-Eu vou me vender para uma casa, onde passarei o resto de meus anos de juventude e minha velhice aos meus novos senhores. Vocês irão morar com os meus pais, que ficarão responsáveis por cuidar de sua educação e de seus casamentos.

-Sim senhora – repetimos.

-E… – ela diminuiu a aspereza, visivelmente abalada – possivelmente não iremos nos ver nunca mais assim que chegarmos à capital.

-Não – gritou minha irmã Inoue – Eu não quero! Se não for para nos ver, eu prefiro não me casar e me vender junto com a senhora.

A minha reação foi mais abrandada. Sabia que a situação era mais séria do que minha irmã imaginava, mas eu não sabia como agir naquele momento. A única coisa que eu consegui dizer naquele dilema foi:

-Posso decidir o meu futuro quando chegarmos à cidade?

-Se assim desejar – disse ela, em um tom mais abrandado – Mas para onde eu vou, talvez não haja volta.

-Por que não podemos ficar junto de você – perguntou Inoue.

-Porque lhes falta o conhecimento essencial sobre o mundo – suspirou ela – Coisa que lhes proporcionarei assim que o meu convidado chegar.

Não havíamos entendido o que se passava naquele momento na cabeça de mamãe, mas entendíamos que o que estava prestes a acontecer era algo grandioso, já que raramente ela colocava as roupas mais luxuosas que possuía no guarda roupa. Enquanto aguardávamos a chegada do convidado misterioso, decidi preparar um chá verde para nós três, com alguma expectativa sobre o que aconteceria.

Quando o sol estava descendo ao chão, a sineta na frente do portão tocou: era o convidado. Fui até o portão e percebi que era o jovem Hinobu, filho do açougueiro. Era um jovem viril, com um belo corpo e sorriso, mas que raramente conversava com famílias de comerciantes justamente pela sua classe. Quando ele me percebeu vestida como uma nobre, deu um sorriso encabulado e me disse:

-Perdoe-me senhorita Nomue, mas a senhora Notsue enviou-me um recado por uma de suas damas de companhia para eu estar aqui há esta hora.

-Sim, senhor Hinobu –fiz uma reverência – Por favor, entre!

O jovem que aparentava já conhecer as instalações de minha casa entrou com segurança e me seguiu até dentro da estalagem de nossa casa. Lá, ele aguardou por alguns instantes até que minha mãe me pedisse para chamá-lo. Ele parecia ansioso e até mesmo tenso pela minha presença, mas eu desconsiderei o fato.

Assim que ele entrou no quarto de minha mãe, ele percebeu que não era apenas eu que estava ali, mas a minha irmã também aguardava o que minha mãe tinha para nos dizer. Percebíamos que ele tremia, mas a minha mãe demonstrava uma tranqüilidade quase que espiritual. Ela pediu para que nós nos sentássemos e observássemos atentamente sem fazer nenhum tipo de barulho sequer, ou seriam severamente castigadas. Ela se levantou e nos disse, enquanto se dirigia para perto do garoto:

-Nós vivemos numa nação em que o homem deve ser o centro da família, e nós, mulheres, não temos o direito de questioná-los em hipótese alguma. Não sei se isso é certo, e pouco importa já que nossos homens estão morrendo nos campos de combate, lutando contra os mesmos homens de nossa nação, que também possuem esposas ou filhas.

-Senhora Notsue, o que…

-Calado, Hinobu! Você está aqui para ser uma fonte de conhecimento, restrinja-se a isso – esbravejou para o jovem, enquanto voltava com o assunto com suas filhas – Eu, por muito tempo tive que agüentar as loucuras egocêntricas de seu pai, já que eu fui treinada por toda minha vida a ser uma boa esposa, amorosa no quarto e fiel enquanto ele estivesse fora. Pois bem, o que isso me proporcionou? Uma vida de luxos sem nenhum carinho, um homem frio que se julgava melhor do que qualquer um, muitos inimigos dos comerciantes das cidades vizinhas, uma viuvez precoce aos trinta e quatro anos e um restante de vida fadada à miséria.

Aquilo para nós foi um choque tamanho quanto foi para Hinobu. Era a primeira vez que eu via a minha mãe falar com tamanha propriedade sobre si mesma nos dezessete anos que eu a conhecia. Parecia que uma nova personalidade havia aflorado de dentro dela no momento em que aqueles homens estranhos estiveram dentro de nossa casa. Podia-se sentir uma força inacreditável em suas palavras, mas que milagrosamente soavam de maneira suave para quem ouvia.

-Durante todo o meu casamento, eu sempre me senti infeliz. Porém, toda a minha infelicidade se dissipava quando olhava os rostos dos meus adorados filhos. Hoje em dia, com Takeda morando no sul, Mihiko e Atsune casadas, só me sobraram vocês duas, minhas queridas Inoue e Nomue. Eu desejo sinceramente que vocês se casem e amem seus maridos e seus filhos, mas eu não vou obrigá-las a cometer os mesmos erros que eu. Portanto eu trouxe Hinobu, filho de meu fiel amigo Hirako para fazer a demonstração de como se portar quando um homem for cortejá-las e de como eu pretendo seguir com a minha vida, se desejarem me seguir é claro.

Eu olhei atentamente o que minha mãe fez em seguida: com uma das mãos, ela puxou a tira de tecido que segurava o seu quimono, deixando todo o seu corpo à vista para nós e para Hinobu. Ela possuía um corpo realmente bonito, que deixava a mim e a minha irmã com inveja por não termos seios tão grandes e belos, em conjunto com uma cintura delineada e um púbis tão delineado. Minha irmã olhava amedontrada, enquanto tapava a boca com as duas mãos, não acreditando no que estava vendo naquele momento. Na verdade, ambas estávamos horrorizadas, mas aquilo parecia bizarramente divertido e excitante.

-Senhora Notsue, na frente delas…

-Eu já falei para não falar – gritou agressivamente, enquanto dava um tapa no rosto dele com mesma intensidade, derrubando-o no chão – Eu já disse que você é um mero objeto de estudo. Cale a boca e faça apenas o que eu permitir que você faça!

Neste momento, pareceu que Hinobu havia entendido que a excitação do encontrou que estava tendo havia se transformado em um terrível sentimento de insegurança a respeito de sua integridade física. De um lado, uma mulher nua agressiva dando ordens; de outro estávamos eu e minha irmã, suas filhas que apenas observavam a cena, silenciosas. Parecia que ele precisava fugir de lá, mas a parede atrás dele era madeira sólida revestida com ladrilhos. Ele nada podia fazer, a não ser aceitar o fato de que ele tinha altas chances de morrer em nossa casa, o que se confirmou quando minha mãe retirou da parede do seu lado uma espada de mais de cem anos e caminhou ao seu encontro, de maneira quase que sensual. Ela colocou a espada em seu pescoço e disse:

-Você não vale o chão que você pisa, maldito.

Num golpe seco, ela corta tira de pano que segurava a roupa do rapaz, deixando-o em estado semelhante ao dela, o que nos deixou envergonhadas, já que nunca tínhamos visto um homem nu antes e os únicos pênis que havíamos visto até aquele dia eram os que os meninos filhos dos empregados nos mostravam quando éramos crianças e nos obrigavam a segurar de vez em quando para eles. Mas aquele era um pênis adulto, que em conjunto do belo corpo do rapaz, havia nos ruborizado de uma forma que nunca havíamos sentido. Em seguida, colocando-se ajoelhada a ele, deu-lhe um beijo nos lábios longo e molhado, algo que nunca havia passado por nossas cabeças.  Era uma cena estranha, nem eu e nem minha irmã estávamos entendendo o que se passava, mas era algo muito agradável de ver.

-Entendam que é algo vergonhoso o que eu estou lhes ensinando agora, mas é algo deveras necessário para a sua formação – disse, enquanto colocava uma das mãos no pênis do rapaz – Mas entendam que esse tipo de lição será importante para vocês entenderem que o poder de mudar o destino está entre vocês.

Ela beija o abdômen do rapaz, enquanto movimenta o seu pênis com uma das mãos num movimento repetitivo que o agradava. Em seguida, ela cobre o pênis com os seus lábios, e o suga lentamente, com cara de ruborização e satisfação. Ela continua com esse movimento repetitivo, por alguns minutos, fazendo com que o rapaz se contorça e solte gemidos agudos, até uma explosão de movimentos de prazer por parte dele que era difícil de acreditar.

-O mundo gira basicamente por isso – diz ela, após cuspir parte do sêmen que não havia engolido – Os homens que estão lutando lá fora se esqueceram de que o que importa na vida são apenas os benefícios que o amor nos traz. Mas para organizar a sua sociedade, é necessário construir fortes, matar pessoas e destruir as nossas personalidades, apoiando apenas um pensamento que vem das gerações antigas de nossa nação. Vocês acham isso certo?

Não tivemos tempo para responder, já que minha mãe foi novamente a Hinobu e sentou em seu colo, introduzindo o pênis dele em sua vagina, deixando-os bem visíveis para nós. Era a primeira vez que eu vi uma relação sexual, e para mim era vergonhoso ver a minha própria mãe daquela forma com um homem, mas eu não conseguia retirar os olhos da cena. Os corpos, suados com todo o movimento, pareciam dançar e os sons que ambos emanavam eram como música para os meus ouvidos, acostumados a ouvir apenas os sons do campo. E pela primeira vez, eu senti um arrepio por todo o meu corpo que inundou o vão entre minhas pernas.

Minha irmã parecia apavorada, apesar de que sua face também estava corada e sua respiração ofegante. Não desconfio o que ela estava sentindo no momento, mas percebi que ela havia lambido alguns dos dedos das mãos, enquanto observava minha mãe transar furiosamente com Hinobu no chão do quarto. Minha mãe parecia se deliciar, tanto é que no final do ato ainda conseguiu se entrelaçar no pescoço do rapaz e soltar um gemido agudo, além de lágrimas de satisfação. A cena era tão bela e tão imunda que me fascinava, profundamente.

-Obrigado pelo serviço prestado até aqui, jovem Hinobu – disse minha mãe, fazendo uma reverência ao garoto exausto no chão e se levantando em seguida – Mas creio que eles não serão mais de utilidade. Se desejar, eu lhe dou permissão para tomar um banho em nossa casa. Por favor, assim que o fizer queira se retirar, já que eu e minhas filhas temos que deixar a casa limpa para os novos donos.

-NÃO – gritou Hinobu, atirando-se aos pés dela em desespero – A senhora não pode ir! Por toda a minha vida amei a senhora Notsue mais do que a mim próprio, e sempre desejei tê-la em meus braços! Os nossos encontros dos últimos meses foram mais do que especiais para mim, eles foram a razão do meu viver! Eu não permitirei que a senhora vá!

A reação dele para minha mãe foi surpreendentemente positiva. Era estranho, mas com todas as ameaças, maus-tratos e desprezo que minha mãe utilizou durante a relação fizeram com que ele se tornasse apaixonado por ela.  Era chocante assistir a todo o desespero dele, enquanto minha mãe emanava uma impassível serenidade. Por alguns minutos, vimos o filho do açougueiro destituído de qualquer tipo de dignidade se jogando aos pés de uma mulher que tinha idade para ser a mãe dele. Aquilo me deixou completamente intrigada, mas nada me surpreenderia mais do que o que vinha a seguir:

-Obrigada por todos os anos de carinho e dedicação que teve comigo, jovem mestre Hinobu, mas é chegada a hora de você seguir seu próprio caminho – dizia ela, enquanto acariciava o rosto do rapaz – Eu sou uma mulher odiosa, por ter feito de você um objeto para sanar as minhas decepções, me aproveitando de sua juventude e de sua virilidade por todos esses anos. Mas o tempo de minha família por estas terras chegou ao fim, e logo chegarão os novos proprietários desta casa. Eu torço para que você se case e tenha seus filhos e tenha uma vida feliz, já que não tive a oportunidade de ter o mesmo.

Os dois se entreolharam e deram um último beijo, num pesado clima de despedida. Em seguida, minha irmã Atsune trouxe algumas roupas antigas que os empregados vestiam e colocou-as aos pés dele, saindo rapidamente de perto, envergonhada.

Foi a última vez que eu vi Hinobu.

Entramos no quarto e ficamos por todo o dia aguardando os vassalos do clã Yamatsu para lhes repassar o direito sobre as nossas terras.  Arrumamos bom cavalo, uma pequena carroça e um baú para colocar as nossas roupas e arrumamos a casa, com uma atenção especial ao jardim que minha mãe tanto amava. Entretanto, o líder do clã Yamatsu, Togome, só chegou após uma semana, com parte de sua família a tiracolo e com um sorriso cínico assim que entrou no portão de nossa casa.

-Senhora Inagashi, como já foi lhe dito por meus subordinados, estou aqui para receber o que é meu por direito por intermédio da senhora, já que seu marido não pode estar presente.

-Eu entendo senhor Yamatsu – disse ela, quase em tom de deboche – Entretanto, devo lhe dizer que as ações de seu filho e de seu sobrinho para comigo foram de uma indelicadeza exagerada.

-O que está dizendo – perguntou ele, parecendo desconhecer o que havia se passado na fatídica noite do estupro.

-Sugiro que pergunte aos seus protegidos – e lançou um olhar de desprezo contra Inohimoto e Kanetsu, os dois que haviam invadido sua casa dias antes que acompanhavam seu mestre – Atualmente, sou uma mulher sem honra e que não tem mais onde morar, mas na minha condição de antiga senhora feudal, o meu direito de não ser tocada por alguém que eu não deseje deveria ser mantido.

Ele ficou em silêncio por alguns instantes, parecendo não acreditar no que ouvia.  Em seguida, percebi sua face se enrijecer e o tom de sua voz aumentar, perdendo o seu sorriso característico e em seguida olhar para os dois que o acompanhavam com reprovação. Ele disse em seguida.

-Eu entendo, senhora Inagashi e providências serão tomadas – diz ele, enquanto pede a uma de suas empregadas para perto deles – Eu lhe peço o seu perdão por meus emissários e digo que isso não irá se repetir. Como prova de meu sincero pedido de desculpas, aceite isto.

Ele entrega uma pequena sacola costurada nas mãos de minha mãe. Ela, sem entender, abre e fica fascinada por pequenos pedaços de metal cintilantes de cor amarela, que brilhavam com a luz do sol.

-O que é isso – ela perguntou, quase que instintivamente.

-É a nova moeda do império, que tende a se firmar em toda a nação, chamado Ouro – diz ele, enquanto retorna a sua posição original – Veio junto com os estrangeiros, mas rapidamente está substituindo o koku como moeda. Acredito que em no máximo seis ou sete anos, haverá quantidade suficiente desse metal para controlar todo o mundo que conhecemos. Agora, se nos derem licença, desejamos tomar posse de nossas terras.

-Tudo bem – disse ela, enquanto guardava o ouro de volta a sacola – Entendam que é muito difícil para nós nos despedirmos da casa que por mais de vinte anos chamamos de lar, por isso eu levei apenas duas lembranças que nela estavam: O vitral que meu marido fez para mim quando fizemos dez anos de casado e esta flor.

Ela apontou para a carroça que estava ao meu lado: era uma muda de cerejeira, com uma pequena e frágil flor inserida num vaso de madeira, bem velho por sinal. Bem antes de meu pai desaparecer, ela dizia que a força vital daquela flor e dela estavam entrelaçadas e que quando o fim de sua vida chegasse, ela desejava que seu corpo fosse enterrado embaixo da copa de sua futura árvore para assim poder viver eternamente. Não que eu conseguisse entender na época, mas eu sinto que hoje minha mãe está a todo o momento ao meu redor e me protegendo. Eu me sinto feliz por isso, mas falar disso agora é adiantar demais minha história…

O senhor Togome pareceu não se importar com o que levávamos e nos deu as costas e entrou, junto de nossa caravana. Por um momento, pude perceber que o sol reincidia no mesmo lugar em que eu estava quando eu comecei a aprender a tocar flauta, quando tinha quatro anos de idade, sendo o meu lugar especial no jardim próximo a fonte. Por um momento, soltei uma lágrima de tristeza que surgiu como um alívio para toda a tensão que estava presa dentro de minha cabeça desde que comecei a vivenciar aquela situação junto de minha mãe e minha irmã. Dei uma última observada no lado de fora de nossa casa e dei as costas, caminhando apressadamente para perto da carroça que estava a minha espera. Assumindo as rédeas, minha mãe disse:

-Não se preocupe Nomue, pois ainda teremos riquezas bem maiores do que o olho pode enxergar.


Written by Johnny Von Arthoneceron in: A Casa de Hömurein,Agenda,Contos,Johnny Von Arthoneceron |

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