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Oct
19
2010

As Mágicas Aventuras de um Deslocado

Escritor: João Paulo Bley Ruivo


Às vezes a maior aventura é a que é contada. Nenhuma viagem consegue ser tão aventuresca quanto os contos passados de pai para filho. Porque dizer que passou por seis dias e seis noites de angústia no Saara é muito mais aventuresco do que ir lá e descobrir que é um lugar cheio de areia e de sol forte, tão forte que você quer voltar para a casa. Quando a realidade chega, a diversão acaba e a mágica se esconde (para não ser dizimada por fatos, estatísticas e comprovações).

Mesmo em mundo de lobisomem e de vampiro eu preferia ficar. Lá, pelo menos, sofro o perigo de ser drenado, de morrer por não ter mais sangue a correr pelo corpo, depois de um aventuresco incidente com um vampiro. Pelo menos terei cicatrizes e histórias sobre lutas sangrentas com os lobos da lua cheia. Monstro é muito mais fácil de lidar do que crises, do que assassinos estupradores que te fazem perder o sono de noite. Porque para vampiro se tem estaca, para lobisomem se tem a bala de prata. Para crise, só tem corda, pistola, e, quiçá, um eventual caixão.

Nomes exóticos trazem a velha idéia da aventura. Vou-me perder nas selvas da Amazônia, ser perseguido por bandidos por entre as ruelas de Babilônia. Arrumar briga com um chefão da Arábia e fugir de camelo. Lutar contra índios enfurecidos, trocar faíscas de espada com samurais em plenas planícies do sudoeste japonês, tudo isso é muito mais tentador que um quarto mínimo de apartamento, todo cheio de infiltrações, desespero e pílulas que não conseguem te fazer pregar os olhos.

Enquanto provam que fantasmas não existem usando teoremas e leis físico-químicas, eu expulso maus espíritos da mansão abandonada com aspiradores de pó. Enquanto mostram como a gravidade funciona, eu flutuo depois de tomar uma poção anciã e descubro uma civilização aérea escondida por nuvens. Lá, combato um tirano que dominava o local e trago a antes perdida glória dos habitantes do céu. Eles me cumprimentam calorosamente, me dão presentes. Faço amizades. Tudo isso antes do documentário sobre a gravidade terminar. Pois o tempo fica muito mais produtivo nos céus.

Enquanto espadas, para serem usadas, requerem anos de treinamentos e aulas de uma hora e meia de duração depois do expediente, eu logo roubo uma da bainha do faraó milenar e, com um golpe de pura desenvoltura, corto-lhe a cabeça, mandando-o mais uma vez para sua cova amaldiçoada e repleta de escaravelhos. Talento natural é algo que os professores de esgrima nunca vão entender.

Protejo minha magia. Não deixo as insuportáveis comprovações chegarem perto dela. Nem fatos, experimentos ou qualquer coisa advinda da físico-química. Protejo-a porque ela consegue tirar de mim sorrisos, excitações, aventuras. Consegue tirar o melhor de mim, das minhas viagens às Arábias, Babilônia, Amazônia e, quiçá, até mesmo Mongólia.

Mas, por me aventurar, julgam-me digno de camisas de força. Dão-me remédios, tratamentos. Só que não sou eu quem chora no banheiro do escritório, para ninguém ouvir. Não sou eu quem tenta achar felicidade em um conjunto de pixels. Não sou eu quem se enterra em casa, tentando se proteger de estupros, assassinatos e insônias. Não tenho medos, não tenho angústias, não sinto o desespero dar nós em minha garganta. E durmo como um recém-nascido todo santo dia.

Às vezes acho que me trancam e me chamam de deslocado porque têm inveja de mim. Queriam se aventurar tanto quanto eu. Fazem de tudo para que eu seja mais um sofredor, como eles e como o resto desse mundo que nem sabe o que é magia. Eu concordo com o que eles querem fazer comigo por pena, esperando que isso faça com que eles se sintam melhores.

A vida realmente pode ser injusta. Afinal, eles só têm areia e sol intolerável enquanto tenho seis dias e seis noites no aventuresco Saara.


Written by João Paulo Bley Ruivo in: Agenda,Contos,João Paulo Bley Ruivo |

3 Comments»

  • Vinicius Maboni says:

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    Nota 10!!!
    Adorei a maneira como dois escrito. E concordo 100%
    Parabens!

  • Sara says:

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    Como disse o Vinicius ali em cima: ficou muito bom mesmo! Sem contar que a verossimilhança do conto descrito com a realidade é quase como um… “soco no estômago”. Num bom sentido, claro! :D

  • Samila says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Nossa, Nota 10 mesmo!
    estou até sem ter o que falor… foi tão real, doce, singelo…
    soco no estômago mesmo!

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