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Oct
07
2010

Desistência

Escritor: Rodrigo Braga Scop

A masmorra é escura e úmida como todas as outras. Sua diferença está na dificuldade, quase impossibilidade, de se ver a luz do dia novamente uma vez confinado àquela prisão. Nela eram encarcerados os principais oponentes do rei Thiris I, assim como os de seus sucessores: Thiris II, Thiris III e o atual rei Thiris IV. Ela fora construída a mando de Thiris I para guardar tudo e todos que, se livres, poderiam prejudicar politicamente ao rei ou ao reino de Kalinshir. Poucos já saíram vivos da fortaleza, mas ainda menos saíram vivos e contra a vontade do rei ou do conselho da cidade. E é sobre um desses raros fugitivos bem sucedidos que falarei.

Aconteceu há poucos anos atrás. Era um dia lindo, o olho de Allora brilhava sozinho no céu, algo comum àquela época do ano. Porém, para a prisioneira existia apenas frio e escuridão. Ao invés do canto dos pássaros e do chacoalhar das folhas ao vento, passos de guardas e pingos nas pedras. Ao invés da vista encantadora das colinas de Kalinshir, sombra dos guardas pelos corredores sem fim. Ao invés do cheiro das flores, mofo e putrefação.

Nas noites mais frias, usava a pouca energia que adquiria com a escassa comida para aquecer seu corpo, já que o trapo que haviam lhe dado nada esquentava. Era alimentada com uma comida suja e nojenta e era torturada, de tempos em tempos, para revelar algo que ela nem mesmo sabia. No entanto, sua maior tortura não era a feita pelos homens do rei, e sim a tortura que o ladro negro de sua mente exercia sobre o lado branco. A cada momento de raiva, precisava conter sua fúria e lutar para não entregar-se à força escura que tentava tomar conta de seu corpo. Ela já havia se entregue pelo menos uma vez à sua tendência negra e, como conseqüência, havia parado ali. Naquele lugar deprimente e enlouquecedor.

Ela era fruto de um dos tão comuns estupros nas colinas mais distantes do reino. Sua mãe, uma jovem e atraente camponesa que fora estuprada; seu pai, um elfo que fugira do reino élfico antes que fosse preso e julgado por uso de magia negra. Seu nunca conhecido parente havia lhe passado sua tormenta: a tentação da magia negra. E como a escuridão atraia, sempre, com seu enorme poder e raiva.

O maior medo da meio-elfa era ser tomada completamente pelas trevas. Medo de gostar da raiva; medo de ter a fúria e a vontade de causar sofrimento circulando livremente pelo seu corpo; medo de não conseguir retornar da escuridão.

Ela sabia que poderia fugir, ou, pelo menos, tentar fugir. Seu corpo estava fraco e sua mente também, porém as trevas lhe dariam forças.

Todas as vezes em que pensava em se entregar, relutava em favor da luz. Todas as vezes até aquele dia. Enquanto os passos dos torturadores ecoavam pelos corredores, ela pensava no que havia feito, e sido, durante sua vida. Guerreira e maga, selecionada para um esquadrão especial de Kalinshir, aventureira, assassina, amada e amante.

Uma enorme raiva e descontrole tomou conta da meio-elfa, e um açoite feito por um dos guardas que acompanhavam os torturadores culminou em fúria regada à magia negra. A prisioneira agarrou o chicote e puxou o homem em direção a si. Agarrou o pescoço da presa e drenou toda sua energia. E ali, naquele exato momento, entregava-se à escuridão. Matou outros dois guardas, sugando-lhes a vitalidade, e, já de energia reposta, atacou os dois torturadores restantes, um humano e um panthera.

De mãos vazias, agarrou o braço que a atacava e quebrou-o com uma força descomunal. Enquanto o homem caia aos berros, no chão, a meio-elfa rolou por entre os corpos, escapando de um golpe feroz do panthera, agarrou uma espada e entrou em um embate difícil com o felino-homem. Foi ferida, mas a fúria fazia com que ela nada sentisse. O panthera acabou morto, com o machado de um dos guardas que chegara depois cravado em seu peito, enquanto o dono da arma jazia, encostado em uma parede, com um rombo no pescoço.

A prisioneira caminhou até o torturador que ainda se retorcia com o braço quebrado, colocou sua mão no ombro dele e encheu-se de prazer ao vê-lo agonizando enquanto crateras, como as de algumas pestes, brotavam no corpo da vítima.

Após seu deleite com o sofrimento, retirou o machado do peito do panthera, usando seu pé para segurar o corpo, pegou a maior das espadas no chão e seguiu pelos minúsculos corredores em busca de uma saída.

Os corredores da prisão são finos, pelos quais passam apenas um por vez, e ligados a câmaras onde existe uma maior concentração de guardas.

Pantheras, minotauros e lycans, além de diversos humanos, foram mortos naquela tarde.

A meio-elfa olhou para o fim de mais um dos corredores e viu uma luz. Seguiu pelo caminho, perseguida por um enorme lycan. Ela virou, arremessou o machado, que se cravou no ombro da criatura transformada, mas o lobo-homem continuava avançando. Ela fez um movimento com as mãos, e o atacante parou, rebatendo-se como se lhe faltasse ar e chiando como um pequeno cachorro. Então, ela caminhou em direção a criatura, dando as costas para a luz, olhou nos olhos sofridos do lycan e, com enorme prazer, cravou a espada no peito dele, deixando-a ali.

Saiu pelo fim do túnel e, depois de tanto tempo encarcerada, viu o céu azul. Não se importou. Estava entregue às trevas. Estava entretida em matar.

Flechas voavam em sua direção, mas ela se mostrava tranqüila. Logo, fez surgir uma enorme esfera de energia negra a sua volta e saiu do túnel. Ergueu os braços, e diversos espíritos negros tomaram conta do céu, matando diversos arqueiros e guerreiros que a atacavam. Em meio a gritos de caos, saia dos muros da fortaleza. A última tentativa de pará-la, diversos humanos e pantheras formando uma pequena parede de escudos, acabou varrida por uma enorme onda de fogo.

E assim, do topo da fortaleza, assisti à meio-elfa cruzar algumas colinas e ir em direção às árvores de uma floresta, enquanto um mensageiro, assustado com tudo aquilo, entregava-me uma carta do conselho real, endereçada a mim, o comandante da prisão. Na carta, que eu li no ato, estava ordenada a soltura da prisioneira recém-fugida. Amassei a carta, sorri ironicamente e acompanhei a, então livre, meio-elfa sumir por entre as árvores.


Written by Rodrigo Scop in: Agenda,Contos,Rodrigo Braga Scop |

2 Comments»

  • Rainier Morilla says:

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    Rodrigo, este escrito não ficou bom.
    Começa logo no primeiro parágrafo: “E é sobre um desses raros fugitivos bem sucedidos que falarei.” – Você entregou a história inteira!

    Não há dificuldades, não há tensão. Você tinha uma boa idéia, mas não criou o clima sombrio que ela precisava.

    • RodrigoBS says:

      Thumb up 0 Thumb down 0

      Obrigado pela opinião :D
      Valeu pela sinceridade, Rainier. :)
      Concordo contigo. Realmente, devia ter tirado essa entrega da história. Eu fiz esse conto como um pedaço de uma narrativa que eu tinha planejado, mas desisti dela e coloquei o conto assim. Também achei que ficou um tanto quanto vazio e solto.
      Trabalharei para melhorar :D

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