Diário de anômalo
Escritor: Saulo Moreira
Descobri minha pequena anomalia ao me apaixonar pela primeira vez. Tinha 12 anos. De uma hora para outra, assim, sem nenhuma explicação, deixei de ver Laura como uma simples colega de classe. Aquela menina clarinha de olhos castanhos, franzina e extrovertida tornara-se a imagem da perfeição, a mulher mais linda do mundo, minha primeira obsessão. E minha primeira frustração também.
Laura era inatingível para mim. Eu, um tímido garoto que tinha vergonha até de falar. Demonstrar sentimentos, então, até hoje tenho dificuldade. Sempre os guardo. Como guardava somente para mim o amor que sentia. Indiferente às reações que provocava em mim, Laura desfilava sublime pelos corredores da escola. Sua beleza era tanta que eu ficava hipnotizado. Nem o futebol na hora do recreio me interessava mais. Sentado em um dos bancos de cimento que circulavam o pátio do colégio, eu observava os gestos do meu objeto de adoração. Mãos, rosto, sorrisos, olhares. E fui escondendo a paixão o quanto pude. Até que um dia, um desses dias estranhos quando a gente sabe que alguma coisa diferente vai acontecer, algo surpreendente de fato aconteceu. Foi numa daquelas manhãs quando eu ficava sozinho recolhido no canto do pátio, vivendo os devaneios de tê-la um dia em meus braços. Sem mais nem menos, me distraí por completo. Fui tomado por um curto, mas profundo estado de abstração durante alguns minutos. Coisa simples, que pode acontecer com qualquer um. Foi quando senti um leve toque no lado direito de minhas costas. Subitamente, uma forte intuição me invadiu a alma. Laura me chamava.
Ela, que até então mal tinha olhado para mim, estava ali atrás, querendo falar alguma coisa. Custei a acreditar. Custei a olhar para trás também.
Numa fração de segundo, calculei possibilidades, estabeleci teorias, imaginei mil razões para crer que não era Laura. Ela jamais estaria me tocando. Não, não podia ser ela. Há pouco, estava ali jogando voleibol com as outras garotas…Mas, a emoção, ah a velha emoção desprovida de lógica…
A emoção sepultava todos os meus cálculos, todas as minhas teorias. Dentro do peito, algo me fazia ter certeza que era ela. Respirei fundo, criei coragem e me virei. Laura sorria encantadora exclusivamente para meus olhos. Linda. Os dentes branquinhos, os olhos brilhantes, os lábios ainda com resquícios de um batom vermelho-claro que era moda entre as meninas naquela época. Falava alguma coisa que eu, tomado por um torpor até então desconhecido, não conseguia compreender. Naquele momento, fui conduzido por um força estranha, mágica. Como num destes filmes de ficção científica, eu atravessara o portal que dava acesso a um universo paralelo, à margem da compreensão humana. Estava numa dimensão avançada, num plano superior de minha própria existência. Interagia com Laura.
Não me lembro bem o que ela falou naquele momento. Também não sei a razão que a fez vir até mim. Mas lembro que, de uma hora para outra, naquele curto momento em que ela estava a poucos centímetros de mim, minha vista escureceu. As mãos e a testa suaram enquanto a garganta era tomada por um frio seco, cortante. Coordenação motora não mais existia. Minhas pernas bambearam, meu coração bateu tão forte que eu quase podia ouvi-lo. Foi a primeira vez que tive uma palpitação. Ao recobrar parte de meus sentidos, ainda vi Laura se distanciando. Ia em direção a outras meninas que, apontando para mim, gargalhavam alto numa demonstração de deboche. Eu não sabia o que realmente tinha acontecido naquele instante em que ela estava de frente para mim. O hiato na memória permanece até hoje. Como já disse, a última cena que lembro daquele estranho, revelador e único encontro é a de Laura caminhando calmamente para junto de suas colegas. Paralisado, eu não mais me preocupava com ela, nem com todo o amor que sentia até então. O amor, aliás, começou a se esvair a partir daquele instante. Em pé, intrigado e desnorteado, direcionei todas as minhas atenções para o meu próprio peito. Fiquei desorientado, quase em pânico, sem entender absolutamente nada. Apalpava-me feito um louco. Olhava para os colegas em volta. Depois, concentrei meus sentidos e busquei a calma.
Naquela bonita manhã de 1986, finalmente fui apresentado ao meu defeito de fabricação.
***
Hoje, homem feito, meu passatempo preferido é catalogar anomalias humanas. Como a maioria, senão todas, já foram devidamente registradas pela literatura médica, limito minha atuação apenas às fotografias. Não, não me basta comprar as fotografias. Se fosse este meu interesse, um simples livro de medicina legal seria suficiente. Quero, eu mesmo, registrar as cenas. Realmente gosto de analisar os defeitos físicos dos outros. Sejam externos e monstruosos, destes que causam asco e medo, seja uma pequena, rara e quase imperceptível disfunção orgânica. Como a minha. Sinto-me bem com isso. Tenho um prazer – quase patológico, admito – em me deparar com o hediondo, o estranho, o bizarro. Engana-se, no entanto, quem vê em mim traços de sadismo. Muito pelo contrário. Nutro pelos anômalos um forte sentimento de fraternidade. É como se fizéssemos parte de uma mesma família. Somos anormais no sentido correto da palavra. Fugimos ao padrão. Somos diferentes dos demais exatamente por carregar algum defeito, seja ou não de nascença. Não me refiro a anormais como indivíduos inferiores, como costuma fazer a maioria dos sãos. Mas, vamos em frente.
Ao enxergar uma vítima de algum defeito, sou tomado por uma profunda sensação de cumplicidade. Algo semelhante à felicidade que invade uma pessoa que, perdida num país distante, encontra, por simples obra do acaso, um compatriota também perdido. Não precisa nem dizer que este hobby afasta a maioria das pessoas de mim. Até hoje, diferente de todos os meus colegas de infância, não casei. Também não tenho filhos. Saí da casa dos meus pais muito cedo e hoje vivo um pouco isolado do convívio social. Bom, deixemos isso para lá.
***
No início de minhas aventuras, ia atrás de qualquer defeito. Assistia a estes programas de TV sensacionalistas só com o propósito de ver alguém como um aleijão. Seja qual fosse a deformidade, eu ia atrás. Pegava minha câmera automática e ia a procura do coitado. Dinheiro nunca foi problema, afinal não tenho grandes despesas e posso me dar ao luxo de fazer pequenas extravagâncias.
Às vezes bem recebido, às vezes mal (o que me obriga a pagar para fazer as fotos), fui criando um pequeno acervo de monstruosidades. Crianças siamesas, homens sem olhos, um senhor de duas cabeças, uma garota de doze anos que tinha um braço nas costas (e neste braço tinha uma mão com seis dedos). Mas, não nos aprofundemos demais nesses casos. Meu interesse aqui não é chocar nem expor minhas excentricidades. Quero apenas contar um pouco sobre mim. A cada novo caso registrado, faço uma pequena pesquisa e escrevo embaixo da fotografia o nome da anomalia. É divertido. A maioria das pessoas me reprova ao conhecer meu passatempo. Já soube que tenho fama de louco, de psicopata, de maníaco. Mas, por favor, me entenda. Não é nada disso. Simplesmente, gosto do que é estranho. É prazeroso, inusitado.
***
Outro dia, caminhando sem nenhuma pretensão pelo centro da cidade, eis que avistei uma cena de rara beleza estética. Desnorteado, um mendigo – devia ser novato na área, afinal eu sempre passo por ali e nunca o vi – pedia esmolas numa embalagem de queijo do reino transformada em cuia. Nada demais até aí, concordo. Mas algo me chamou atenção.
O homem não tinha rosto. Em vez de olhos, nariz, boca, orelhas, bochechas, o que se via era um naco gigantesco de carne mole e vermelha que, como uma máscara, recobria todo o rosto do sujeito. Era impossível identificar qualquer detalhe de sua anatomia facial. Aquele revestimento cheio de reentrâncias chegava a se esparramar para além do que seria um queixo, criando assim, uma espécie de barba que, em vez de pelo, era formada por uma pelanca flácida e rugosa. Confesso que me impressionei. Não devia, afinal sou acostumado com aberrações físicas e já atingi um estágio avançado de conhecimento. Mas me impressionei. Ao mesmo tempo, fiquei encantado com o que pra mim era uma novidade. De pronto, tirei minha máquina fotográfica da bolsa, coloquei uma lente de aproximação, sentei-me um pouco distante do homem e fiz umas doze chapas – Não, não uso máquinas digitais. Elas nos roubam o prazer da revelação.
De frente ao mendigo, fiz fotos horizontais, verticais, de perto e de longe. Neste caso especificamente nem precisei pedir autorização. O cara era cego mesmo. Nunca ia saber que seria um das minhas mais belas aquisições.
Em casa, ao revelar os filmes no meu pequeno laboratório, o que mais me chamou atenção foram os vasos sanguíneos que irrigavam o bolo de carne. Eram tantos. Finos, grossos, azuis, vermelhos, lineares, ramificados. Logo percebi que aquele homem jamais poderia se submeter a uma cirurgia para a retirada do pedaço de carne que lhe tomava o rosto. A massa era viva. Tinha ligações nervosas com outras partes do corpo. A deformidade facial do mendigo era seu próprio rosto e ele teria que conviver com aquilo até o dia de sua morte. Senti pena, mas logo me esqueci. Colei a fotografia no meu álbum de deformidades e, depois das pesquisas de praxe, registrei embaixo da imagem: “Elefantíase: hipertrofia de pele e tecido subcutâneo cuja circulação linfática está obstruída por infecção crônica. Também chamada de paquidermia”. Coloquei a data e o local da foto e senti a velha sensação do dever cumprido. Naquele dia, dormi feliz.
***
A fotografia do mendigo sem rosto ficou no capítulo das “deformidades externas”. Nesta mesma parte, registrei outro caso espantoso dias antes de me deparar com o bolo de carne.
Era outro mendigo e outra vez estava no centro da cidade. O corpo daquele sujeito não tinha nenhuma deformidade física congênita, mas nem por isso deixava de ser horripilante aos olhos mais sensíveis. Toda a sua pele estava inteiramente tomada por feridas purulentas. A cena foi realmente de arrepiar e por isso vale um pequeno preâmbulo. Quero contextualizar.
Era por volta do meio-dia. Saí do trabalho e fui almoçar. Pois bem, foi exatamente em frente ao prédio onde fica o restaurante onde eu almoço todos os dias. Antes de chegar perto, observei de longe um sujeito deitado num caixote de madeira. Outro, em pé ao seu lado, berrava lamentações, lia trechos da Bíblia e pedia dinheiro em um megafone. Pedia dinheiro para, segundo ele, custear o tratamento do amigo que, gemendo baixo, nu e deitado com o ventre e o rosto voltados para baixo, permanecia imóvel no caixote. Aproximei-me, ansioso por uma boa e nova aquisição. O cheiro era tão ruim, cheiro de carne podre, que as pessoas se afastavam, horrorizadas com o que viam. Umas senhoras se benziam, outras reclamavam da prefeitura que permitia uma coisa daquelas no meio da rua. Estudantes que esperavam o ônibus perto dali faziam cara de nojo e saíam cuspindo no chão. Mães protegiam boca e nariz dos filhos, nitidamente preocupadas com uma contaminação. Peguei minha máquina. Mas antes de apontar para o homem, observei detalhadamente sua a doença.
As costas, as nádegas, as pernas e a sola dos pés, enfim, todo o seu corpo estava totalmente revestido de feridas vivas, amareladas, ora secas e com enormes cascas rachadas, ora úmidas e borbulhantes. Por entre os sulcos que separavam as placas de sangue sólido, escorriam filetes de um líquido ralo e amarelado. Eu sabia do que se tratava, qualquer uma saberia. Era a velha mistura de exsudato inflamatório com leucócitos polimorfonucleares vivos e mortos juntamente com milhares de bactérias que, por sua vez, também podiam estar vivas ou mortas. O pus, meus amigos, o pus. Não havia um centímetro de tecido sadio à mostra. O mendigo simplesmente apodrecia em praça pública.
Apresentei-me ao rapaz do alto-falante, pedi para tirar fotos e ofereci uma boa quantia de dinheiro. O dobro, talvez o triplo, do que a piedade alheia garantiria durante todo aquele dia. Ele permitiu na hora. Fiz minhas fotos em meio à curiosidade geral dos transeuntes. A maioria achava que eu era algum repórter de jornal sensacionalista. Reprovaram minha atitude, mas dei de ombros. Guardei a máquina, subi para o restaurante e, indiferente à cena que presenciara minutos antes, saboreei um suculento filé mal passado com legumes cozidos, tudo irrigado com muito em azeite português extra-virgem. Delícia.
Em casa, enriqueci meu livro. Embaixo da foto, colei a etiqueta com a data, o local e os dizeres: “Escara: crosta resultante da mortificação do tecido devido a causas diversas como compressão, traumatismo repetido, cauterizações ou queimaduras”.
Sorri satisfeito e fui dormir.
***
À medida que ia me transformando num perito em matéria de deformidades e anomalias, passei a me interessar mais por casos congênitos. Curiosidades que pessoas como eu carregavam desde o nascimento. Órgãos fora do lugar, má formação óssea, gente que nasceu com apenas um pulmão, um rim, outro que conseguira engravidar a mulher tendo apenas um testículo. Anormalidades sexuais bizarras como a de um sujeito com dois pênis (um dos quais atrofiado) ou a de uma mulher de seus 65 anos que não tinha ânus e defecava por uma sonda diretamente conectada à válvula ileocecal, que, caso vocês não saibam, fica no intestino grosso. Fotografava todos.
Claro que, em algumas circunstâncias, como a da senhora sem ânus, por exemplo, só consegui focar a anomalia depois de oferecer uma bela quantia de dinheiro e prometer não identificar a vítima. Esta última parte não era nenhum empecilho, afinal eu nunca coloco o nome das pessoas nas fotos. Sequer os pergunto. Prezo pela ética.
Em todos estes casos, meus colaboradores iam parar no capítulo “deformidades congênitas”.
***
Destes, um dos primeiros que cataloguei foi o de uma garota de 4 anos que tinha o que os médicos chamam de “ossos de vidro”. Desde que tinha nascido, já tinha sofrido dez fraturas. Fêmur, tíbia, braços. Até a bacia foi deslocada durante uma simples troca de fraldas. Este caso, particularmente, me comoveu. Não que eu tenha perdido o profissionalismo, mas, sabe como é, crianças que sofrem às vezes nos comovem. Ainda mais aquela menina, que tinha uma permanente expressão de choro nos olhos. Ainda a sim, fiz a fotos, voltei para casa e, no álbum, registrei, satisfeito: “Osteogênesis imperfecta. Problema genético e hereditário”.
***
Mas foi outro caso envolvendo criança que me marcou profundamente. Aconteceu recentemente. Lendo o jornal, fiquei sabendo de uma campanha para arrecadar dinheiro com objetivo de tratar de um garoto de 5 anos que sofria de uma doença rara.
Segundo a reportagem, era uma anomalia horrível que, não fosse logo tratada, provocaria a morte da criança. O jornal não dizia que doença misteriosa era aquela. Tomado pela curiosidade, reservei o primeiro final de semana, e fui procurar o garoto. Morava numa cidade um pouco distante, mas isso não foi obstáculo. Até facilitou, porque como era uma cidade pequena, a primeira pessoa a quem pedi informações me ensinou como chegar até o garoto.
Cheguei na casa do menino e fui muito bem recebido pelos pais, humildes, mas nem um pouco submissos. Sem poder dizer que estava ali para registrar a desgraça do filho deles unicamente por conta de um hobby, menti.
Disse que era médico e que viria examinar o garoto. Os pais me informaram que pelos menos três médicos já o haviam examinado. Ainda assim, pedi para vê-lo. Eles permitiram. Mas, ao perceber minha máquina fotográfica pendurada no ombro, o pai, que parecia muito religioso, foi logo avisando que não queria nenhuma imagem do filho. Disse que não queria explorar a doença do menino, que o filho não precisava de piedade e sim de um tratamento médico, que poderiam pensar que a criança estava servindo de sustento financeiro para a família. Terminou alegando que tirar fotografias e expor os doentes era contra as leis de Deus.
Apesar de entediado com aquele festival de pieguice, ainda me contive e retruquei dizendo que as fotos eram um prática normal na medicina. Eu teria que submeter as imagens do garoto a uma junta média, que aquilo seria para o bem dele. O pai, rude, me interrompeu e, olhando firmemente nos olhos, repetiu: – Não.
Ainda que tomado por uma decepção decorrente de uma situação inesperada, concordei. Fiquei um pouco tenso com o que iria ver dali a pouco, tamanho o mistério que estava sendo criado pela situação. Ainda pensei em oferecer dinheiro para fazer as fotos, mas não o fiz por dois motivos. Primeiro, eu não sabia qual a reação do pai do menino diante de uma proposta daquelas. Logo, ele descobriria que eu não era médico e poderia até partir para a violência, prática que eu, é bom que se diga, abomino.
A outra razão era mais pragmática. Como até aquele instante eu não sabia qual era, afinal de contas, a anomalia do menino, logo concluí que não valia a pena oferecer dinheiro. E se fosse algo banal, com o qual eu já tivesse me deparado, um simples vitiligo ou uma hanseníase, por exemplo?
Ainda que a contragosto, seria obrigado a pagar para honrar minha palavra.
Diante da imprevisível dificuldade, guardei a proposta financeira para apresentá-la depois de ver o garoto. Isso se o pai do menino sinalizasse que aceitaria o dinheiro, claro.
Bom, pedi mil perdões e prometi que não faria as fotos de maneira alguma. Implorei para entrar no quarto do garoto. O pai, já estressado com a discussão e claramente interessado em se livrar de mim, concordou. Fiquei eufórico, mas evitei demonstrar qualquer manifestação de alegria. Tenho respeito pelos meus semelhantes.
Antes de entrar no quarto, porém, o homem pediu para que eu deixasse a máquina na sala. Discordei na hora. Estabeleceu-se uma nova discussão. Expliquei para ele que eu era um profissional, um pesquisador, e que aquele era também meu instrumento de trabalho. O homem argumentou secamente que, se estava proibida a foto, não seria necessário entrar no quarto do garoto com a máquina. Foi quando eu lancei mão de um dos meus sofismas decorados e argumentei.- Se o senhor tem a minha palavra que não vou tirar as fotos, porque exige que eu deixe a máquina?
Ele coçou a cabeça e, impaciente com minha insistência, encerrou a discussão quase gritando comigo. Disse que deixaria eu entrar com a câmera, mas que se alguma fotografia fosse feita me meteria um bala na cabeça. Nisso, levantou a camisa a exibiu o 38 cromado que levava na cintura. Meu coração disparou. Pedi calma e tentei simular tranquilidade. Naquele momento, depois da brutal demonstração de descortesia do homem, ainda cogitei mentalmente em me virar e ir embora. Não tolero grosserias.
Mas àquela altura, uma sensação de medo misturada com ansiedade com o que eu veria logo mais tomava todo o meu corpo. Mais uma vez falei que não faria fotografias. Dei minha palavra de novo. O homem finalmente se acalmou e abriu a porta do quarto devagar.
***
Estava escuro. O menino dormia. Antes de vê-lo, escutei seu suave ressonar. Cheguei perto da cama, mas só conseguia ver o vulto do garoto, inteiramente coberto por um grosso lençol azul-marinho. Perguntei no ouvido do pai do menino se ele podia acender a luz do quarto. Ele respondeu que sim, mas avisou que a luminosidade agredia os olhos do garoto. A luz não podia ficar acesa por mais de cinco minutos. Feita a recomendação, andou até o interruptor e ligou. Virei-me devagar para a cama onde o garoto dormia. Agora era a coberta azul que me impedia de ver o menino. Eu já estava ficando impaciente com tanto mistério. Perguntei ao pai do menino se ele poderia afastar o lençol para que eu examinasse o garoto.
O homem calmamente afastou o pano.
Fui vendo a anomalia aos poucos, à medida que o lençol era arrastado.
Uma nova palpitação me acometeu. Odeio palpitações. Tentei controlar o ímpeto de sair do quarto. Ao mesmo tempo, não conseguia tirar os olhos do garoto. Tinha uma cabeça descomunal. O diâmetro do crânio, calculei na hora, era umas oito ou dez vezes maior que o diâmetro do crânio de um homem adulto. Os olhos, o nariz e a boca tinham tamanhos normais, porém, encravados naquela cabeça gigantesca, pareciam microscópicos. Cabelos, uns poucos fios longos e avermelhados. Imediatamente soube identificar a anomalia. Tratava-se de uma hidrocefalia, uma doença caracterizada pelo acúmulo anormal de líquido cefalorraquiano no cérebro. Se você não sabe, geralmente, esta anomalia provoca um crescimento exagerado da caixa craniana. Até que não é um caso muito raro, eu mesmo já tinha fotografado dois outros hidrocéfalos. E foi exatamente por causa de minhas pesquisas anteriores que pude diagnosticar o que eu estava vendo.
O que me chamou atenção naquele caso foi a intensidade com a qual a doença vitimara aquela pobre criança. Além da cabeça exageradamente grande, o menino tinha a testa proeminente e os membros superiores atrofiados. Pequenos bracinhos que nunca iriam lhe servir. Para completar, o garoto tinha deficiência mental e sofria com convulsões sistemáticas. São duas das principais características da doença. Segundo as estatísticas médicas, 98,7% dos hidrocéfalos sofrem com estes sintomas.
Após alguns minutos de observação, levei a mão ao rosto para enxugar o suor que começou a escorrer na minha face. Olhei em volta e vi que o pai do menino tinha saído do quarto. Fui até a porta e, ainda de dentro do quarto, olhei para sala. Ninguém.
Voltei para a beira da cama. Meu coração começou a bater forte numa clara indicação de um desejo veemente que começava a me possuir. Eu tinha que aproveitar aquela oportunidade para fotografar o garoto. Seu caso era diferente dos outros. Ninguém nunca fora acometido de uma maneira tão cruel por uma hidrocefalia.
Sozinho no quarto diante da criança que dormia serenamente, comecei a calcular o risco de ceder à tentação, de registrar aquele caso. Eu precisava fazer a fotografia, estudar o caso, analisar cada detalhe, medir a caixa craniana do garoto, examinar sua formação óssea. Não, não podia perder aquela oportunidade. Mas e se o pai do menino aparecesse?
Eu seria flagrado e podia levar um tiro. Morrer. Bom, pelo menos ainda me restava a proposta financeira como último instrumento de negociação. Caso flagrado, eu ofereceria o dinheiro, uma boa quantia de dinheiro para o pai se acalmar. Todo mundo se acalma diante da chance de ganhar dinheiro.
Eu poderia argumentar que com aqueles recursos seria possível realizar o tratamento do garoto. Eu podia dizer tudo aquilo, mas estava quase paralisado por um medo crescente de ser pego. Voltei à porta do quarto e mais uma vez não vi ninguém. Fui novamente para perto do menino e tomei minha decisão.
***
Sem fazer nenhum barulho, me acocorei rente à cama, coloquei a bolsa no chão e lentamente retirei a câmera. Pus a lente mais apropriada para a situação, levantei-me e, suando, nervoso e tenso, enquadrei o menino. Antes de ouvir o primeiro disparar da máquina, com o meu dedo indicador direito já pressionando o botão que acionaria o diafragma da câmera, percebi, numa fração de milésimo (se é que isso é possível), que cometera uma falha primária e de consequência desastrosa. Esqueci de desativar o flash. Sem ter como interromper o instintivo movimento de meu dedo, fechei os olhos esperando o pior.
***
O clarão rápido e intenso acordou o garoto que, antes mesmo de me ver, gritou histérico. Eram sons diferentes, de variados timbres. Às vezes grossos e raivosos como um animal feroz, às vezes finos, desesperados, angustiantes. Coloquei a máquina no chão e cometi meu segundo erro. Em vez de sair correndo, tentei acalmar o garoto. Ele se debatia, jogava o tronco para frente, fitava-me nos olhos, balançava as pernas freneticamente. Tinha o rosto vermelho como sangue. Com uma força sobre-humana, arremessava a enorme cabeça contra o travesseiro em movimentos bruscos. Tentei contê-lo segurando-lhe o rosto. Foi pior.
Como que tomado por uma ira sem razão, o menino queria morder minha mão. Senti que da sua boca, nariz e ouvidos escorria com abundância uma água quente e fina. Devia ser o tal líquido cefalorraquiano transbordando por entre os canais externos. Eu gritava “calma, calma, calma”. Ao fazer o primeiro movimento para sair do quarto, tentar encontrar os pais do garoto e pedir socorro, senti uma forte pancada em minha nuca. Perdi o equilíbrio e caí no chão, quase desacordado.
***
Ainda caído, percebi que coronhada dada pelo pai do garoto devia ter me aberto uma grande fenda na cabeça porque eu sentia o sangue ensopar a parte posterior de minha cabeça. Ao abrir os olhos, deparei-me com um cano de revólver no meu rosto. Com o pouco de força que ainda me restava, pedi desculpas. Levei um soco no olho esquerdo que me abriu o supercílio. O homem me mandou calar a boca. Obedeci.
Pronunciando as palavras com bastante calma, disse apenas que eu iria morrer. Vi nos olhos do pai do menino a determinação típica dos injuriados. Ele falava a verdade. Estava plenamente convencido em matar aquele que, no seu entender, descumpriu ordens e tentou expor seu filho doente à execração pública.
Como única, última e desesperada tentativa de me livrar da morte, ofereci dinheiro. Disse que podia lhe dar qualquer quantia para realizar o tratamento do menino. Antes de terminar meus argumentos, levei outro soco. Desta vez no olho direito. Comecei então a chorar. Chorei feito criança. Pedi por favor que não me matasse. Com o cano do 38, ele acompanhava as lágrimas que deslizavam em meu rosto. Sorria, sádico. – Vai morrer agora, filho da puta. Vai levar um balaço na cabeça para aprender a respeitar a dor de uma família.
Balbuciando, expliquei que não iria expor o filho dele. Queria apenas documentar a doença. Levei uma coronhada na boca que me arrancou os dois incisivos superiores. Meu sangue esguichava pelo nariz e boca. Desisti de falar e esperei a morte.
O homem pôs o revólver entre meus olhos. Com os olhos cerrados, ouvi aquele sonzinho que indica que a arma foi engatilhada. Como nunca fui religioso, não fiz nenhuma oração. Só esperei. Foi quando a mulher, que ainda acalentava o filho à beira da cama, se meteu na confusão. Não exatamente com o propósito de me ajudar, mas se meteu:- Não atira na cabeça, não. Vai sujar tudo de miolo. Dá-lhe o pipoco no
coração, com o cano coladinho na camisa. Deste jeito não emporcalha a casa.
O homem concordou com a esposa. Deslizou o cano da arma lentamente até estacionar no meu mamilo esquerdo. Pressionou a arma com força contra meu tórax, olhou-me fixamente nos olhos, sorriu e disparou duas vezes à queima-roupa.
***
Antes de perder completamente os sentidos, me contorci de dor com dois projéteis quentes perfurando profundamente meu peito. Apaguei.
***
Contrariando a lógica, não morri. Claro, do contrário não estaria aqui contando um pouco de minha vida. Neste momento, estou no hospital. Mas não corro mais nenhum risco de morrer. Tive sorte de ser socorrido à tempo por algumas pessoas que viram meu corpo jogado num terreno baldio perto da casa do menino hidrocéfalo. Atendendo a meu pedido, o hospital já tratou de me trazer o meu precioso álbum de pessoas anômalas. Também me emprestaram uma Polaroide. Embora ainda debilitado pelos tiros, consegui a proeza de me auto-fotografar, coisa que até então eu não tinha feito. Hoje, consto na parte de “deformidades congênitas”.
Sob minha imagem de olhos roxos, com o nariz quebrado, sem os dentes da frente e como os lábios cortados, lê-se: “Dextrocardia: doença rara que faz com que suas vítimas tenham o coração do lado direito do tórax. A incidência entre recém-nascidos oscila entre 0,2% e 0,8%.”. Em mais de 90% dos casos, a origem da cardiopatia congênita é desconhecida.
Dextrocardia, dextrocardia. Eis a razão do meu susto ao sentir aquela palpitação estranha em frente a Laura, no pátio da escola. Eis a sina que salvou minha vida ontem, quando, na casa de um menino doente, duas balas vararam-me o peito onde deveria haver um coração.
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Interessante xD
Interesante mesmo.
Obrigado, gente.
Saulo
O texto longo nos deixa ainda mais curioso para ver como o autor vai acabar seu conto. Muito bom!
Conto muito rico em detalhes na melhor tradição dos escritos sulamericanos.Por outro lado, um tanto mórbido na linha de Edgar Poe.Sem dúvida, deixa você preso na leitura em suspense até o final com um estilo agradável, dinâmico e envolvente. Parabéns Saulo Moreira e já estou esperando pelo próximo.
Amigos, o comentário com meu próprio nome não é meu. Uma amiga leu há pouco no meu computador e estava com meu nome no campo de email. Enfim, um pequeno laspo. Longe de mim os autoelogios.
Muito bom, fera. Continue assim… sujo. A parte final do conto é o ápice. Esperamos seu livro. Léo.
Você tem que lançar seu livro. O primeiro de vários, aposto.
nossa você acha que ela pode ser uma VAMPIRA que controlou sua mente p/ fazer você sentir tudo o que você sentiu?
pro foi isso que eu conclui!!!
Ótimo conto. Informativo, interessante, com pequenas doses de bom humor “– Não, não uso máquinas digitais. Elas nos roubam o prazer da revelação..”. Ri muito lendo isso. Muito bem escrito. Parabéns!