Dose.
Escritor: Josue de Oliveira
No interior do quarto escuro, você se encolhe, esperando.
Começo a sentir. É um alívio. Por um segundo, chegara a me perguntar, com medo, se aconteceria. Uma dúvida estúpida, claro, motivada pelo atual estado das coisas: quase tudo que um dia pude chamar de meu tinha dado um jeito de desaparecer da minha vida, escapulir pela porta dos fundos nos momentos em que eu mais precisava, e o pouco que sobrara me deixava dúvidas se eu queria mesmo ter por perto.
Dá para ouvir a batida constante da música. Faz tremer as paredes.
O paraíso está chegando. Houve uma época em que eu precisava de muito menos para adentrá-lo, quando tudo era novo e a tal porta de que falei estava apenas começando a se abrir. Agora está escancarada, e já estou cansado de esfolar minhas mãos na maçaneta tentando fazê-la fechar novamente. Talvez seja impossível. Já vi mais de um daqueles depoimentos no fim da novela de pessoas que deram a volta por cima, que triunfaram sobre o que hoje me atormenta e vicia, e não consigo me imaginar lá, dialogando com a câmera e com quem está em casa, as palavras esperançosas saindo emocionadas à medida que os olhos vão ficando aguados. Por isso estou novamente aqui. Aqui estou seguro.
A seringa largada no chão ao seu lado. O conteúdo fazendo efeito.
O calor, o barulho, o desconforto, nada disso faz qualquer diferença. As sensações se perdem no escuro que aumenta. As lembranças agora não carregam qualquer dor, apenas desfilam a minha frente, caladas, como um varal de fotografias. Desaparece aquela mão que sempre me acompanha, aquele dedo apontado na minha cara, lembrete de que sou um fracasso, um zumbi, de que tem gente atrás de mim. Não: a única coisa que sinto é a vontade de me entregar completamente, segurar na mão desse vazio e voar por aí. Já tentei antes, não deu certo. Nunca dá, mas não desisto.
Você adora essa sensação.
É incrível. Óbvio que algo assim jamais viria de graça e, quando digo isso, não falo unicamente da grana. Falo do risco. Quando o desejo se torna incontrolável, a válvula de escape o único prazer, você faz o que tiver que ser feito. Rouba, mente, briga, apanha. E seu corpo responde. Você caminha feito um desmorto, seus olhos viram duas bigornas, o pinto não funciona mais e, quando o efeito passa…
Você não quer pensar nisso. Quando ele chegar, não vai ter passado ainda.
Não, não vai. É isso mesmo. Ele disse que não toleraria mais qualquer treta minha. Da última vez, prometi que pagaria no dia seguinte e não o fiz. Ele, naturalmente, veio atrás de mim. O som dos punhos dele cortando o ar, vindo na direção da minha boca, ficou tão marcado na minha cabeça que agora parece que vivo sob a constante ameaça de seus golpes. Ali ele deu o ultimato. Sua voz rouca ecoando nas paredes velhas da casa onde vivo e onde um dia foi feliz, a saliva pulando da boca dele como um rio poluído: se eu tentasse passá-lo para trás novamente, seria a última vez.
Você não tem mais muito tempo.
Tenho. Sim, tenho. Por favor, chegue logo. Ele não é conhecido por fazer firulas. Quando me encontrar aqui, nesse buraco sujo nos fundos da boate, o primeiro lugar onde alguém procuraria um viciado por essas bandas, irá direto ao ponto, homem de negócios que é: bala na cabeça, bum, um abraço e vá pro inferno. A fama se espalha. Ele não pode me deixar vivo. Essa é a minha esperança. Por isso roubei a dose. Por isso deixei cair minha carteira no local, com minha identidade dentro.
Você vai morrer.
Exatamente! Ele vai chegar a qualquer momento, me despachar enquanto ainda desfruto dessa doce escuridão e navego nesse oceano incrível. É perfeito. Eu, o viciado, aquele todo mundo abandonou, o que perdeu o emprego, a namorada, tudo, eu arquitetei o crime perfeito. Não é fantástico?
Seria. Se o efeito não estivesse passando.
Não. Não, não, não! Deus, por favor, eu nunca te pedi nada, eu só quero…
O que? Morrer sem dor?
Sim. Sim, é só isso. Por quê? Era perfeito, roubei a quantidade certa, não devia estar passando, não devia, não devia, não…
Calculou errado. É viciado há tempo demais. Precisava de uma dose maior. Estragou tudo.
Por favor, não! Devia durar mais! Eu não quero ir assim… não assim… não…
Tarde demais.
O homem escancara a porta com um chute e a luz chicoteia o aposento escuro. O outro o olha apavorado, consciente, murmura algo, implorando. Ele avança sem ouvir, ergue-o, encara-o por um segundo e em seguida mira o chão, onde vê a seringa. Acerta-o com força na face, depois o levanta novamente, dispara novos socos, debruça-se sobre o corpo, fazendo chover golpes pesados que fazem sangrar o nariz, a boca e o supercílio do viciado. O sangue espirra, mancha tudo. O outro tenta dizer algo, mas ele não permite. A única linguagem ali era a dele. Levanta-se e olha o ladrão. Um amontoado de massa vermelha disforme. Rosto desfigurado pela avalanche de violência. Tira a arma do cós da calça. Aponta para a cabeça.
Tiro.
Sai do quarto.
- Limpem tudo! – diz aos outros.
Afasta-se.
Sem olhar para trás.
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um pequeno relato veloz e voraz. Gostei, bem realista… mas como disse, pequeno…
talvez uma carga de drama fosse bom…
Valeu, Samila.