Hec
Escritor: Lucas Durao
A VEZ EM QUE EU CONHECI HEC pouco tem a ver com quando a gente se conheceu. De fato foi num verão mas tantos verões depois que eu já tinha até perdido a conta e pra falar bem a verdade a gente não estava nem aí porque ninguém com essa idade está realmente aí para qualquer coisa e isso é fato. Foi numa noite quente daquelas em que a gente está realmente alheio ao mundo não porque esteja doidão mas porque está num daqueles raros momentos de reflexão que realmente vale a pena e o mundo está completamente alheio a nós. Sentados em qualquer lugar sob a luz da lua num daqueles raros momentos de cumplicidade que acontece pouco muito pouco segurando copos cheios até a metade de qualquer coisa que não idéias mas com a cabeça borbulhando delas nós conversamos.
E naquela noite eu conheci o verdadeiro Hec não aquele Hec com quem eu gostava de conversar nas noites agradáveis enquanto enfiava as mãos fundo nos bolsos vazios mas o Hec de verdade que talvez estivesse ali o tempo todo mas que talvez também tivesse se apresentado ao antigo Hec naquele momento e tomado seu lugar, não o Hec que os outros conheciam e gostavam aquele Hec ingênuo e sempre alegre e sorridente mas o Hec que talvez eu conhecesse melhor que ele mesmo o Hec para quem eu diria um dia ei cara ei Hec meu velho estou indo embora porque sabia que a resposta seria exatamente aquela que foi não mais não menos mais exatamente o que eu soube naquele momento que foi quando conheci o verdadeiro Hec e soube que ele ia dizer que ei meu velho amigo você está indo tarde suas feições estão ficando duras já então é melhor você ir mesmo.
Dizem que a amizade de verdade a gente sabe quando aparece e naquele momento eu soube. Soube porque entendi que não só a gente não precisava concordar em tudo ou discordar da mesma maneira mas que eu não dava a mínima para isso porque eu sabia quem era Hec e Hec sabia quem era eu. E eu só descobri o verdadeiro Hec num daqueles raros momentos de lucidez, não quando ele passava os braços ao redor de meus ombros pesados e dizia alguma coisa agradável com o objetivo único de distrair minha mente do buraco que estava cavando ao invés de dizer que ia ficar tudo bem – Hec nunca dizia que ia ficar tudo bem e eu suspeito que tivesse uma parte dele que realmente acreditava que ia ficar mas que ele nunca mencionava, não para mim – mas num daqueles momentos em que compartilhamos um silêncio demorado que nos dizia mais do que qualquer conversa. Num daqueles momentos em que ele desistia de me impedir de cavar meu próprio buraco e simplesmente me entregava a pá mesmo que tivesse uma parte dele – uma parte grande, daquele tipo que é difícil reprimir – que dissesse que aquele buraco era a minha cova.
Acho que ele sempre soube. No fundo, acho que foi o único naquela porra de cidade e mesmo fora dela naquele meu círculo de relações e de poucas amizades que soube. A maioria sempre achou que eu era simplesmente um babaca e não posso culpá-los por isso. Eu era tão distante deles quanto eles eram de mim. Com poucas exceções que ousavam relacionar-se comigo de maneira séria, comprometida – e que, eu posso garantir, não se arrependeram de tal – todo mundo me via do outro lado do vidro, o estranho silencioso que tem demais na cabeça e pouco na boca, que dispensa amenidades. Podia até despertar o interesse em pares de olhos curiosos o suficiente mas a verdade é que pouco importava. Assim que eu soube que não eram como eu – ou talvez eu é que não fosse como eles – perdi completamente o interesse em suas vidas despretensiosas e passei a procurar por alguma coisa. Qualquer coisa, que não achei. E a coceira em meus sapatos só aumentava.
Mas acho que Hec sempre soube. Talvez não sempre sempre como eu não conhecera o verdadeiro Hec desde o começo mas sempre desde que ele conhecera o meu verdadeiro eu que eu suspeito que talvez tenha transparecido sempre mais do que eu acreditava em cada gesto em cada expressão entediada e carrancuda em cada palavra distante. No começo foi difícil aceitar. Não posso culpá-lo. Afinal de contas, Hec teria enfatizado, você sempre teve tudo aquilo que quis, meu velho. Uma vida de conforto, o dom natural para aprender, todas as coisas e garotas que quis. Você sempre foi o exemplo a ser seguido, meu velho. E não posso dizer que ele estava errado, mas tenho minhas próprias razões e provavelmente o fato de ter tudo isso é uma delas. Então Hec se esforçou para me mostrar isso. Porque era simplesmente inaceitável que alguém que tivesse tudo o que ele queria ter pudesse estar insatisfeito. E ele tentou se agarrar a mim com todas as forças – e não foi o primeiro. Ele pegou os meus motivos um a um, arrancou-os da minha mão e tentou dar um jeito.
Lembro da vez em que ele arrancou o telefone da minha mão e viu nele o motivo mais forte não da minha ida, mas o motivo mais forte da minha não-ida. Seus olhos brilharam por uma fração de segundo porque ele soube – ele achou – que podia não ser tarde demais. Que talvez pudesse me prender novamente ao chão que segurava os meros mortais. Ele disse que não era tarde. Que ainda havia tempo, se eu quisesse. O motivo era forte, mas já tinha se perdido no tempo. Lembro que o pensamento flertou comigo por um instante.
Mas a idéia de ficar era insuportável. Sempre tinha sido.
Então ele desistiu e resolveu aceitar. Porque aquele era eu, e se ele me mudasse não seria mais. Hec soube que eu nunca seria como ele, como os outros. E não posso dizer que nunca o invejei. Aquela capacidade de sorrir a qualquer momento sem motivo aparente sempre me doeu por dentro. Era algo que eu nunca teria.
Ele soube que eu estava indo embora o tempo todo, mas nunca disse nada. Hec não queria. Talvez nenhum deles quisesse.
Antes de ir embora eu disse a ele Hec, ei Hec velho amigo, obrigado de verdade aquilo que a gente viveu não tem preço obrigado por tudo o que você me ensinou e que a gente compartilhou estou honrado de ter passado por toda essa merda com você. E sabe o que ele fez? Ele botou a porra do dedo no lábio e mandou que eu me calasse – sorrindo, sempre sorrindo. E foi naquele momento que eu soube que, não importa para onde eu fosse, aquilo ali era para sempre.
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Apesar de achar que faltou pontuação aí e que algumas partes ficaram meio repetitivas demais, eu gostei muito da forma como esse conto foi guiado.
A mente do protagonista foi bem explorada e apesar de sua vida cotidiana não ter sido abordada profundamente (dando destaque à sua relação com Hec), se pode ter uma breve noção de como ele foi.
Enfim, a forma de escrever foi hipnotizante.
Espero que publique mais textos como esse aqui no ONE, cara!
Hec, Hec, Hec… a repetição e a falta de pontuação não me deixou chegar até o final. Paragráfos também cairiam bem =/
To contigo Samila.
Eu acho que é tudo uma questão da maneira literária como cada um foi educado. Eu tentei escrever num estilo livre propositalmente praticamente sem pontuação e parágrafos, porque é pra deixar o texto fluir de uma maneira diferente. É um texto, de certa forma, pra ser lido em voz alta. É um estilo difícil, inspirado na escrita de Jack Kerouac. Tem gente que gosta e tem gente que não gosta. Vou postar mais desses assim, Sara, e pena que você não foi capaz de ler até o final, Samila.
Compreendo que se trate de um estilo, mas é realmente muito complicado. Não que seja ruim, não que o propósito não seja bom, mas o leitor realmente se perde, e foi o que aconteceu comigo. Requer atenção demais, e logo cansa rápido.
Eu acho que esse estilo cabe melhor em contos mais curtos, que não vão conseguir deixar o leitor exausto até o final… eu parei porque meus olhos arderam e minha cabeça começou a girar =/
Mas certamente, cada escritor com seu estilo, e eu respeito isso. DA mesma maneira que eu tô fazendo com você, eu já recebi inúmeras sugestões de leitores para que deixasse minhas frases menores e tentasse não usar tantos adjetivos…
é assim mesmo.
Abraços
eu acho q o luan santana e o que + mw inporta se vc me ajudar a encontrar ele eu dou uma surpresa em??????????? por favor faça isso por min eu adoro ele d++++++++++++!