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Oct
01
2010

Nascimento do Clown-parte 1

Escritor: Farley
A carta

Estava tudo calmo… Naquela rua vazia, onde de longe se ouviam os gatos sarnentos pulando os muros e ecoando seu miado maldito, como era d se esperar em uma noite de natal, todos tinham natal… Eu nunca tive… Eu nunca vi um presente que não fosse roubado, que não fosse comprado com o sangue de outro pai de família. Justiça… É um arpão atirado por uma onça pra maltratar um coelho, é tão lógica quanto à vida e tão absurda quanto à morte, e não há mais argumentos que você use que me convençam do contrário… Por que o contrário não existe, eu sei disso… Eu vivi isso… As pessoas são uma merda… E isso me inclui e você… Nós.

-
minha cara Vivian, talvez meus pensamentos não lhe estejam claros, talvez sejam só como poeira… Como névoa… E eu hoje pra você seja como uma sombra que cavalga no tempo sempre em direção contrária a luz.

-não eu não sinto mais teu gosto… Teus lábios sobre os meus… Nem escuto o palpitar do teu coração na cama… Também não toco mais seu corpo quente e te roubo calor… Nem te lambuzo com o doce que você mais gostava…

-aqui onde estou é frio, como um calvário… E eu estou ainda quase morto… A cada dia uma epopéia eu e mais mil dragões, eu e mim mesmo contra todos.já não consigo pronunciar meu nome, minha boca não se move e as palavras já não saem, culpa dos socos e chutes que já levei nesses 20 anos…

- mas… Minha cara Vivian, amanhã eu estarei lendo esta carta para ti e observando seu sorriso pálido e seu medo fluente, por que você sabe que estou aqui, que eu sempre estive aqui do seu lado… Mesmo enquanto eu estava nessa jaula… Feito um tigre

-é engraçado… Quando o medo faz um leão se transformar num carrapato, e viver a procura de sangue feito um covarde… Feito… Você se lembra? Claro que se lembra… Como esquecer?

Segundo ato

-Vivian, às vezes o silêncio nos diz as piores coisas… Quase inaudíveis, coisas ácidas… E quando um homem ama pior do que ouvir um não é não ouvir nada… Você já se trancou sozinha em um quarto calado e ficou por horas mandando o silêncio se calar, pois somente ele lhe faz dizer as maiores verdades, aquelas que você esconde em qualquer palavra falsa e sorriso forçado, claro que já não é? Por isso você é assim…

- mas fique feliz… Graças ao teu sorriso falso e ao seu silêncio você fez com que eu me calasse e aprendesse a ouvir… E enxergar coisas úteis aqui onde eu estou agora…

- Michael Myers… Companheiro de cela, meu deus Vivian, homem vaidoso, que se achava perfeito… Eu tinha que fazer algo… Não pode haver injustiças não é Vivian? E a perfeição é injusta…

- “Michael… Seu espelho ia me contar um segredo… mas quando você chegou o susto foi tão grande que o coitado quebrou… hahaha(minha risada forçada)”

- forcei-o a encarar o espelho todo dia e toda vez que ele o fazia eu sempre jogava sutilmente algum defeito para que ele fosse se odiando aos poucos.

“-” Myers, você já deu uma olhada nesse olho? Meu deus tá muito inchado você  apanhou hoje foi?”

- descobri com o tempo que é isso. A perfeição tem defeitos… As regras se quebram… E não importa como você começa uma história… Ela sempre acaba em morte.

- em dois meses de tortura minha… Myers suicidou-se, pois agora ele era normal, e ser normal num território normal, é chato… E ser chato num lugar de normais é insuportável.

-Vivian, era uma vez um Myers, você entende a ironia? A vida pode ser bela mas toas as mortes são iguais…podres.

Terceiro ato

-Vivian eu não matei ninguém ainda, mas ao mesmo tempo nós matamos todo mundo…

- é tudo uma questão filosófica na verdade, a morte nada mais é do que o término da vida… Causa natural mesmo que provocada não naturalmente. O que eu quero dizer é que a natureza nos fez fracos e inúteis, mas nós nos achamos fortes.

-tão fortes que nos damos ao luxo de nos cansar um dos outros e de vivermos  a “ nossa própria vida” o que nos afasta mesmo que subconscientemente da ação direta dos outros, fazendo que morramos para a sociedade, que nada mais é do que um conjunto de nós.

- ou seja, Vivian, morrendo para a sociedade morremos para nós mesmos, e assim a vida a partir daí é somente um suicídio…

-você me fez perceber minha cara…

- eu sei que nesse momento você está deitada pensando em sexo, se comprometendo a ser uma mulher inteira, mas me diga… Você nunca quis se matar para ver o outro lado?

-quem é você minha doce Vivian? Quem somos nós?

- eu te aguardo minha donzela, e te guardo em sete chaves, como um calabouço… Como um arco…

- essa é a beleza Vivian… Dizer tudo e não falar nada… Contradizer-me estando certo… Ah minha linda… Muito obrigado por me matar aos poucos

- esta carta minha doce, vagará pela eternidade e lhe trará de volta quando eu cumprir meus anos nesse lamento, nessa injusta justa causa que você ganhou ao me perder

O acontecido

Era noite de verão, as ruas se falavam naquele silêncio sádico, e Vivian gritava na minha cabeça, em uma daquelas lindas discussões de casal, minha mente estava perturbada, naquele dia eu havia matado pela primeira vez, eu era policial, e o bandido havia me ameaçado… Bill Clay o nome do desgraçado, ele disse:

- vou te matar desgraçado

Eu atirei e o sangue dele voou até a minha cara, me tocando me seduzindo, a verdade é que eu gostei, e Vivian sabia, ela via em meus olhos que eu gostei, mas ela não parava de falar

- você deve ir ao psiquiatra

Não, eu não precisava de uma porra de um psiquiatra eu precisava era de mais, mais daquilo que eu tanto gostara, e enquanto ela falava e minha cabeça rodava a mil, eu observava o seu decote, e quando me enchi completamente senti a raiva me consumindo, havia uma faca… Sim uma faca grande e com ela em mãos eu observei meu reflexo, já não me via somente via a raiva enfurecida de anos de vassalagem na policia, era agora que eu me saciaria, com a faca avancei em Vivian, depois tudo virou um grande borrão vermelho. Só me lembro dela gritando enquanto eu a esvairia de sangue e entranhas.

Passada a euforia e o prazer momentâneo eu me dei cona de que ela era a mulher que eu amava que eu queria dividir a vida, e aquilo me abateu, me abateu muito, o senhor me entende não é doutor?

Por isso estou aqui, fui à delegacia e confessei tudo, e os malditos me condenaram chamaram de monstro, a culpa não é minha a culpa é de Vivian, que não conseguiu me satisfazer por completo deixando buracos em mim que só foram completados quando comecei a matar, mas aqui estou agora doutor, o senhor já leu minha carta a Vivian? Acho que ela tinha razão no fim das contas doutor. Eu realmente precisava de um psiquiatra, e doutor… O senhor sabe que quando eu sair daqui você será o próximo não é? Até amanha pra próxima consulta doutor.


Written by mnemolious in: Agenda,Contos,Farley,Nascimento do Clown |

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