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Oct
25
2010

Num Piscar de Olhos

Escritor: Elide Pinheiro

Toda noite debaixo da minha cama dorme um ser. Nunca olhei. Como então, vocês perguntam, eu sei que ele existe? Eu escuto sua respiração. Já tentei todas as explicações lógicas. Até já segurei a minha própria respiração para ver se era eu mesmo. Não era. Tenho certeza que ele está lá. Além da respiração, sinto sua presença. Instintivamente sabemos quando existe outra coisa viva no mesmo ambiente.

Poderia mudar de cama, de quarto, de casa, mas ele me acompanharia. Acha que me pertence. Não consigo dormir, então me sobra tempo para pensar sobre sua existência. É difícil cair no sono quando sabemos que algo nos observa. Finjo ignorar sua presença. Ele aguarda meu medo, meu pânico. Não o terá. Sempre soube me controlar, me conter. Desde pequeno quando fingia desdém ao apanhar, já mantinha os sentimentos dentro de mim.

De manhã com a chegada dos sons do dia, a casa o absorve. Sua respiração é subitamente interrompida. Só então, com um suspiro de alívio, levanto da cama. Durante o dia ajo como se minhas noites fossem normais. Sorriu, compro jornal, falo ao telefone. Todos acreditam que sou como eles. Quando me despeço, me desejam boa noite. Acham que durmo tranquilo, envolto pelos sonhos, embalado pelos sons da noite. Desprezo suas vidas fáceis.

Essa noite como num estalo lembrei como ele surgiu. Cheguei a dar um salto na cama, mas recompus-me rapidamente. Ele não pode saber que eu sei. É imprescindível que ele não saiba. Se descobrir, tenho certeza que arrumara uma maneira de permanecer comigo. Mudanças o incomodam. Foi por um descuido meu que ele me achou. Lembrei do momento em que um amigo sussurrou no meu ouvido ao me dar um abraço.

- Nossa vida pode mudar totalmente num piscar de olhos.

A partir dessa noite sua companhia tomou conta das minhas noites. Mas essa será a última. Agora, sei como eliminá-lo. Cheguei a fechar os olhos em relaxamento. Abri-los ao sentir seu desconforto. Não pude conter um largo sorriso que surgiu no escuro. Meu esgotamento já beirava o limite. Mas a lembrança de que o pesadelo chegava ao fim me manteve imóvel na cama.

De manhã com seu desaparecimento pude ocupar minha mente com os acontecimentos do dia. Iria visitar um colega de trabalho que se despedia. Lá sabia que me livraria dele. Era uma reuniãozinha.

Todos da seção haviam comparecido, mais pela bebida e comida oferecida do que pela solidariedade. O dono da casa estava radiante diante do futuro promissor que o esperava em outra cidade e num novo emprego.

Sua felicidade transbortante me nauseava. Como podia estar tão relaxado, e feliz?! Meus músculos da face doíam com o esforço do sorriso de apoio que lhe oferecia. Depois de algumas horas todos conversavam ao mesmo tempo, as cabeças já leves pelo álcool. Chegava a minha vez.

Ao despedir-me, o abracei e sussurrei:

- Nossa vida pode mudar totalmente num piscar de olhos.


Written by Elide Pinheiro in: Agenda,Contos,Elide Pinheiro | Tags: ,

4 Comments»

  • Lord Jessé says:

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    kkkkk
    -
    Não sei se entendi errado mas, ele jogou pro outro?
    -
    Então… Gostei. É interessante.

  • Elide Pinheiro says:

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    Q bom q gostou. É isso mesmo q vc entendeu.
    Agora vi q digitei sorriu em vez de sorrio, mas não tem mais como mudar. Tá me dando nervoso. rsrs

  • Shado Mador says:

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    Gostei do tipo mas não entendi como a fala do amigo pode ter causado a presença e nem como ele falar devolver.

    • Elide Pinheiro says:

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      Escrevi pensando nos problemas que muitas vezes de noite viram monstros nas nossas cabeças.
      Sempre penso também em como num momento está tudo bem e de repente um detalhe pode mudar a nossa vida completamente.
      Algo que uma pessoa diz pode trazer preocupações e mudar o nosso “bem estar”.

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