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Oct
07
2010

O Brilho dos seus Olhos

Escritor: Rafael Cruz

Este conto é dedicado a uma pessoa muito especial pra mim.

O outono batia à porta daquele estranho mês de abril de 2008. Alberto passara por um ano de 2007 não muito agradável e não esperava algo muito diferente no ano vindouro. Mantinha a sua rotina casa-faculdade-trabalho-casa desesperançosamente.

Naquele famigerado mês de abril, Alberto sofreu dois duros golpes circunstanciais: envolveu-se num acidente grave de carro e foi ameaçado de processo por um orgão do governo e ameaça de detenção pela polícia. Tudo por causa de um malcriado artigo escrito para um jornal, fazendo duras críticas ao poder público. Felizmente, tanto o acidente de carro quanto o blasfêmico artigo não resultaram em problemas sérios. Mas foi suficiente pra abalar o já caótico estado psicológico que se instaurava em Alberto há meses. A situação realmente parecia sem saída para ele. Bem… saída sempre há. Mas nem sempre temos à disposição as melhores escolhas. Ele sabia disso e procurou suportar corajosamente seus complexos desequilíbrios internos.

Contradizendo todas as suas impressões, o mês de abril sofreu uma reviravolta inesperada para Alberto. E tudo começou numa quarta-feira quente. Ao final da tarde, Alberto saiu à pé da faculdade em direção ao terminal onde pegaria uma condução para o centro. Cabisbaixo e muito reflexivo como de costume, prosseguiu em sua caminhada até que, num determinado camelô rippie, ele avista uma pessoa de costas, provando algumas pulseiras artesanais que ali eram vendidas. Algo chamou a sua atenção e ele reduziu o seu passo a fim de olhar com mais cuidado e tentar descobrir o motivo do seu repentino interesse pela pessoa. Talvez a roupa contrastada e única (pelo menos para Alberto) possa ter despertado a sua atenção. Não… não era apenas isso. E Alberto sabia.

Não se conteve e parou no meio da calçada, a uma distância segura, olhando fixamente para aquela pessoa. De repente, ela vira o rosto para uma direção que permite Alberto olhar toda a completude de sua beleza. Sim, Alberto não estava enganado. Existia algo a mais naquela pessoa. E aqueles olhos negros e profundos revelavam algo que ele ainda não podia traduzir. Também pudera, faziam apenas alguns segundos que ele a avistara.

Neste instante, Alberto teve um lapso de realidade e voltou-se para si. Pensou consigo mesmo: Olhe isso, Alberto. Uma garota linda, aparentemente simpática e interessante que você jamais voltará a ver na vida. Pare de olhar pra não fica cismado. Esquece isso, ok?

E seguiu seu caminho, afinal já estava bem próximo do terminal. Ao chegar, passa por uma banca de jornal, olha rapidamente para as capas de revistas. Nada que lhe interessasse. Segue em direção à lanchonete e pede um suco de pêssego batido ao leite. A funcionária rapidamente o atende e lhe entrega o suco. Ah, como eu adoro este suco! Pensou Alberto. Neste momento, ele direciona seu olhar à banca de jornal e tem um sobressalto. Lá estava ela. Com seus olhos negros exuberantes, cabelo à altura dos ombros e sua roupa um tanto quanto curiosa para ele. Era uma elegância de dar gosto. Ao seu lado estava um conhecido de Alberto, o Junior.

Pronto. Era a deixa para ele.

Alberto, por um instante, pensou que este pudesse ser um sinal de que ele precisava conhecê-la. Era talvez uma boa chance. E ele foi. Com a desculpa de cumprimentar o Junior, mas querendo mesmo era se apresentar para ela. Alberto chega até os dois. Junior o reconhece e o saúda calorosamente. Alberto retribui e, educadamente estende a sua mão para ela e se apresenta. Ela, muito simpática, o beija e se apresenta: Oi, prazer. Sou a Marina. Sua voz soa como uma perfeita bachiana para ele. O sorriso que ela abre desconcerta Alberto. Ele não esperava tamanha beleza e magia oriunda de uma única garota. Um sorriso que ele jamais esquecera. A perplexidade toma conta de Alberto, mesmo agora escondendo suas reações mais instintivas. Ele estava fascinado e mal havia conhecido a Marina.

Por ocasião da sorte, ou talvez destino, todos tomam a mesma condução em direção ao centro. Alberto enfim tem uma chance, que minutos antes era inimaginável, de conhecer a Marina. E em uma conversa entre os 3 de uns 20 minutos, Alberto pode enfim confirmar a sua impressão inicial.

Após o inesperado encontro e a separação do grupo, Alberto seguiu em seu caminho de volta pra casa, mas desta vez refletindo sobre tudo o que aconteceu. Agora ele sabia que não estava errado ao sentir algo de diferente em Marina. Ainda não sabia ao certo, mas certamente já tinha boas pistas. Algo crescia no coração de Alberto. Ele não tinha uma ideia clara do que pudesse ser, mas podia definir como uma profunda conexão com a Marina. Um sentimento de fraternidade e proteção nunca antes sentido por ele. Algo complexo, mas ao mesmo tempo simples. Algo suave, mas ao mesmo tempo intenso e atormentador. Algo precisava ser feito. Alberto precisava investigar e descobrir exatamente o que era isso que crescia dentro dele.

A partir deste marcante dia na vida de Alberto, ele pode virar uma página de tragédias emocionais e começar algo totalmente novo. Uma aventura sem precedentes. Ele não conseguia mais parar de pensar na Marina e sua mente se ocupou de encontrar maneiras criativas de conquistá-la.

Mas e a Marina? Qual foi a impressão que ela teve de Alberto? Isso era uma grande dúvida na mente dele. E ele precisava descobrir. Então começou a bolar imediatamente situações onde pudesse encontrá-la. Alberto precisava extrair o máximo de informações sobre ela pra poder tomar as atitudes certas. E felizmente ela ajudava, afinal Marina era muito simpática e conversava abertamente com ele sobre muitas coisas, inclusive assuntos mais pessoais.

Alberto começou a entender que o que sentia por ela estava além de uma simples amizade entre conhecidos. Era algo avassalador, que dominava a sua mente full time e que permeava por todas as suas células do corpo. Não adiantava. Marina estava entranhada na alma de Alberto. Era uma contaminação sublime, celestial, que qualquer ser humano gostaria de contrair.

Só que existia um obstáculo. Alberto não podia falar o que sentia pra Marina pois ela era comprometida. Ou melhor, até podia, mas sabia que não seria a melhor decisão. Ele não podia desperdiçar a sua única chance com ela. E sentia que não estava pronto pra contar. Então planejou conquistá-la de maneira gradual, através de pequenos gestos. Ele não sabia quanto tempo isso poderia levar. Mas não importava. E essa foi a sua escolha.

Apesar da melancolia do ano de 2007 e dos disparates do recém passado mês de abril, Alberto nunca deixou de ser uma pessoa atenciosa, educada, sensível, simpática e dinâmica. Era também muito sistemático e cada passo que dava era envolto de cuidados e planejamento, para que tudo desse certo. De uma certa forma, era perfeccionista e esta característica muitas vezes o levava a quebrar a cabeça em situações aparentemente simples de se resolver. Mas este era o seu jeito. Além do mais, o principal critério que Alberto marcou para usar com a Marina era ser ele mesmo. Sempre ser ele mesmo. Sem artificialidades ou exageros. Somente assim, sendo verdadeiro, poderia ter algum tipo de sucesso com Marina.

No entanto, apesar de todo o seu sistema preciso de planejamento e organização, Alberto era um sujeito bem criativo. E aliar a criatividade com organização é uma tarefa que nem todos saem bem sucedidos.

E o que exatamente Alberto fez? Foi sincero e verdadeiro com ela durante todo o tempo. Era sempre gentil, ouvia com atenção tudo o que ela falava, mostrava-se interessado pelas coisas que ela fazia e pensava. Nunca a deixava andar sozinha pelas ruas quando a situação mostrava-se um pouco mais obscura. Preocupava-se em conhecer seus gostos para poder sempre dar um presente único ou um agrado especial. Ele era muito cuidadoso com isso. E Marina? O que pensava sobre isso? Dava algum sinal para Alberto? Ele não fazia ideia. Era muito difícil para ele identificar algum tipo de sinal de uma pessoa extremamente aberta e simpática. E isso preocupava Alberto, afinal ele não via sinais de evolução em seu relacionamento com Marina. Pelo menos não por parte dela.

E o que pensavam suas amigas? Amigas estas que Alberto passou a conhecer também, porém não tinha muito contato. No entanto ele percebeu que algumas de suas amigas já desconfiavam do seu genuíno interesse por Marina. Mas ninguém o procurou para confirmar ou negar isso. Ficou tudo no campo das impressões. Será que elas chegaram a comentar essa suspeita com Marina? Certamente que sim. Mas ela não poderia dar sinais, afinal tinha um compromisso com o seu namorado. Namorado, aliás, que jamais foi citado por Marina em suas conversas com Alberto.

Meses se passaram e Alberto mantinha firme o seu propósito. Porém uma estranha aflição começou a tomar conta dele. O que é isso? Pensou ele. Mas desta vez não foi difícil descobrir. Ele sentia falta dela. Ele precisava passar mais tempo com ela e isso não estava acontecendo. Alberto sentia que estava perdendo Marina. Isso o deixou em pânico. O que fazer agora? O cerco se fechou. Alberto precisava tomar uma decisão rápida, antes que fosse tarde demais. E isso exigiria um plano ainda mais complexo. Afinal tinha que sair tudo perfeito. Ele não podia falhar. É a Marina!! Pensava ele. E esta situação revelou um grande defeito de Alberto. Ele não sabia raciocinar sob pressão. Muito menos agir. E isso seria um grande problema para suas pretensões. Alberto ficou alguns dias pensativo. Sem saber o que fazer. Sentiu-se verdadeiramente perdido. Mal podia acreditar que estava tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe de Marina.

Ele travou. Sim, acredite se quiser. Alberto travou. Não conseguiu mais avançar. Seu ponto fraco foi atingido em cheio. Entretanto algo no seu mais profundo âmago remexia silenciosamente. Era uma vontade insana de querer ser melhor. Marina o fazia querer ser uma pessoa melhor. Somente ela o motivava a querer vencer as suas limitações. Marina era a sua razão pra tudo naquele momento.

E então Alberto teve uma ideia para um plano mais do que necessário. Ele sabia que este plano seria responsável ou por um início promissor ou por um final melancólico. De qualquer maneira daria uma direção para esta situação que estava consumindo a alma de Alberto. E ele estava disposto a fazer isso.

Alberto então fez um contato. Ele precisava de algo muito especial para presentear Marina. Mesmo que fosse o seu último presente. E conseguiu exatamente o que queria. Uma parte do plano estava concluída. Depois partiu para a segunda fase do plano: Ligou o laptop e começou a escrever um pequeno conto. Um conto dedicado especialmente à Marina.

Com tudo pronto, ele marcou um encontro com ela. Um encontro que poderia ser o início de muitos ou simplesmente o encontro derradeiro. Só que o inesperado aconteceu. Ela deu um bolo nele. No dia e hora marcada, ela não apareceu. Ele tentou ligar pra ela diversas vezes a fim de saber o que acontecia, mas ela não respondia. Alberto ficou desapontado. Será que ela desconfia das minhas intenções? Tão puras e singelas? O que houve? Pensou ele.

Alberto não sabia. Não tinha respostas. Ele tentou por mais duas vezes marcar este encontro e novamente ela não aparecera. Ou desmarcava horas antes ou aparecia alguma coisa que impedia do encontro acontecer. E isso aumentava a sua angústia.

Esta situação fez Alberto refletir novamente. Por mais que ele adorasse Marina, algo visivelmente estava fora do razoável. O elo não se fechava. Será que adiantaria todo este sacrifício por uma garota que, provavelmente nem ligava para os sentimentos dele? Alberto compreendia perfeitamente que Marina estava na zona de conforto. Tinha seu namorado, estava feliz. Então era muito fácil dizer um NÃO. Ela não estava envolvida. Ao contrário de Alberto.

Ele não queria forçar ninguém a nada. Jamais fez isso na vida e jamais faria. Ele só queria que ela soubesse o que ele sentia por ela. Só isso.

Visto que um pressentimento desagradável tomava conta de Alberto e que Marina podia não corresponder aos sentimentos de Alberto, ele bolou um novo plano. O plano derradeiro. O plano que ele mesmo chamou de “A maior loucura da vida”.

Alberto tratou de arranjar secretamente o endereço da casa de Marina. Ele precisava que a mãe dela colaborasse com o seu plano. Então ele primeiro mandou uma carta endereçada a ela. Nela, ele explicava o que sentia pela sua filha, mas que prometia não forçar nenhuma situação embaraçosa. Fez uma promessa e explicou o que ele gostaria que ela fizesse. Junto à carta, ele mandou 3 convites para um jantar em um dos restaurantes mais agradáveis da cidade. Os convites eram destinados exclusivamente para a família de Marina. Alberto tinha uma habilidade inata em lidar com pessoas, então ele sabia que conseguiria o apoio da mãe de Marina. Uma semana depois, Alberto recebeu a resposta da mãe. Ela concordara!

Então, Alberto tocou o seu plano. Enviou todo o material para a mãe de Marina, com instruções precisas para a montagem de tudo. E assim ela o fez.

Numa quarta-feira, Marina chega em casa, cansada após um longo dia de trabalho e faculdade. Tudo está normal. Ela vai para o seu quarto e, para a sua surpresa, encontra uma mensagem presa no seu espelho que dizia: “A maior loucura da vida é não saber as surpresas que ela nos reserva. Abra esta porta e veja a surpresa que a vida lhe reservou desta vez”. Marina, agora sem entender nada, mas morrendo de curiosidade, abre rapidamente o seu armário. Ela encontra na prateleira principal uma rosa sobre uma linda caixa vermelha. Marina olha incrédula e chama a sua mãe.

  • Mãe, o que é isso? Pergunta surpresa.
  • Abra que você irá descobrir.

Marina abre e pula de alegria:

  • Nossa!!! Mãe, como você conseguiu isso??? É o melhor presente que eu já recebi!! Muito obrigado!!
  • Mas esse presente não é meu, Marina.
  • Ué, como assim?
  • Veja, tem mais uma coisa dentro da caixa.

A mãe de Marina aponta para um envelope branco, no fundo da caixa, com a frase “Para Marina”. Marina olha e neste instante ela começa a perceber o que está acontecendo. Somente uma pessoa poderia fazer isso por ela…

Marina abre o envelope e começa a ler. Sim, é ele! Todo o envolvimento, tudo o que Alberto sentia por ela estava naquele conto, relatado desde o dia que se conheceram. Marina emociona-se:

  • Meus Deus, tenho que ligar pra ele agora! Preciso vê-lo pra conversar com ele!
  • Presumo que isso não seja possível, querida. Ele me prometeu que não causaria problemas pra você ou para nossa família. Então ele saiu do país. Disse pra família que iria estudar, mas me confessou que ele precisava se desligar nesta realidade um tanto quanto torturante para ele. Disse-me que se sentia como se estivesse dentro de um dos contos de Edgar Alan Poe.
  • Não pode ser! E quando ele volta??
  • Disse que não tem data pra volta e pediu pra você não procurá-lo. Desculpe querida. Talvez seja este o destino de vocês.

E assim, Marina, inconformada por não ter enxergado os sutis gestos apaixonados de uma pessoa tão próxima a ela, agora tentava inutilmente entrar em contato com Alberto. Mas ela nunca mais voltou a falar ou a vê-lo em sua vida.

3 Comments»

  • Flavio Silva says:

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    Observe a concordância.
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    Seu Narrador descolado me lembrou muito aquelas cartas melosas do Programa do Gugu. Sempre lamentando ou fazendo perguntas retóricas.
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    Evite repetir tanto o nome das personagens.
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    Como era a tal roupa do primeiro encontro? Fiquei curiosíssimo.
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    Use travessões para indicar as falas e algum outro recurso para os pensamentos, pois tudo junto e misturado no parágrafo dá um embrulho nas ideias, além de ficar feinho.
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    Porque usou Bolinhas/Marcadores para substituir os trabessões de fala no final do texto? Estranho.
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    Cara, mas que Mãe FDP! aonde que minha mãe sabendo que eu poderia tomar no caneco e sofrer horrores, permitiria uma parada destas? O.o’ E ela nem disse: “eu te avisei”. FDP!
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    Enfim, o texto é um melodrama no estilo Sabrina, mas sem as 5 paginas que descrevem cada personagem sexualmente interessante ou os 3 parágrafos para descrever um beijo. Continue escrevendo e encontre seu estilo.

  • Rafael Cruz says:

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    Flávio,

    gostei do seu comentário. Obrigado mesmo. Esse conto foi o primeiro desde um longo período sem escrever. Serviu para tirar a ferrugem e ir melhorando aos poucos.

    Abraço

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    Depois de tudo o que o Flávio Silva disse, não falo mais nada.

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Publicado por Rafael Cruz

– que publicou 5 textos no ONE.

Rafael Cruz vive em Maricá-RJ, é cineasta, investidor, profissional de marketing, escritor, torce para o Fluminense, adora xadrez e uma boa partida de tênis.

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