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Oct
28
2010

O quadro maldito

Escritor: Batuta Ribeiro

SENTADO EM FRENTE A sua velha e amiga máquina de escrever Olivetti, Eduardo Santos tentava escrever o último capítulo de seu livro, um romance sobre bruxaria e possessões.

“Que merda! Se não acabar este romance até maio eu vou tocar fogo em todas as páginas”.

Se havia uma coisa que Eduardo odiava mais que tudo na vida, era não ter mais idéias em seu estoque mental. As palavras vinham em conta gotas, e a história não andava.

“Esse romance vai acabar com meus pulmões”.

Quanto mais estressado Eduardo ficava, mais rápido os cigarros desapareciam de seu maço. Ele levantou-se e foi até a sala. Já estava com o silêncio da casa desde que Janaína lhe deixou.

“Aquela cadela”

Não havia mais sessões a noite de filmes de comédia romântica com Adam Sandler e cia. Nunca mais virou a noite conversando sobre coisas triviais e fofocando sobre a vida do vizinho. Naqueles dias de casado, nunca tinha experimentado a solidão de escritor.

“Estou melhor assim” pensou Eduardo jogando-se no sofá e tirando os tênis. Olhou para a parede de verde.

- Odeio verde, como eu odeio verde! – resmungou ele. A idéia de pintar de verde as paredes interiores foi de Janaína. Qualquer coisa que o levava a se lembrar dela, era motivo de ódio, mesmo que ele fosse um palmeirense convicto, agora já não gostava mais do verde.

A campainha tocou.

“Se eu ficar bem quietinho eles vão embora”

A campainha tocou mais três vezes.

- Desisto – disse Eduardo se levantando para atender a porta.

Quando abriu a porta, surgiu um homem de estatura baixa, robusto, usando óculos de armação grossa. O homem estava segurando uma mala, entre o braço e o corpo ele segurava um quadro.

- Pois não – falou demonstrando mal humor.

- Oh, bom dia meu amigo, meu nome é Davi, eu tenho maravilhas aqui para o senhor! – fazendo um largo sorriso no rosto.

“Bom dia o caralho! A única coisa maravilhosa que eu quero é uma idéia para terminar o meu livro”.

- Então é caixeiro? – perguntou sarcasticamente Eduardo.

- O senhor é bom em adivinhações – falou amigavelmente Davi.

- Olha só Davi, acredite em mim, a única coisa que eu quero neste momento é um caixeirinho me enchendo a paciência.

- Ora, se não é um escritor mal humorado – disse Davi não desistindo de seu sorriso – não fique assim, eu tenho muitas coisas interessantes nesta mala que vão alegrar o seu dia, quem sabe a patroa não fique com um suvenir.

“Espere um minuto que vou lá em cima pegar a Winchester e te mostro o meu suvenir”.

- Eu não tenho patroa amigo, e a única coisa que vai me deixar feliz é você sumir da minha frente.

O sorriso de Davi se desmanchou, sua feição de um cara de bem com a vida, logo se transformou em uma pessoa que acabara de sair de um funeral.

- Desculpe – disse Davi se virando para ir embora. Eduardo notou o quadro que o caixeiro levava nos braços.

- Eu posso ver o quadro?

- O quadro? Tem certeza? – Davi virou vagamente seu robusto corpo de lado para falar com Eduardo.

- É, quem sabe eu me surpreenda.

- Claro – Davi deixou sua mala no chão e levou o quadro até Eduardo. Davi mostrou a pintura para ele. O ambiente da pintura era em um quarto, com uma janela aos fundos com cortinas verdes, em frente uma cama de casal grande de perfil, deitada sobre a cama, estava uma mulher loira de olhos azuis fortes, ela estava deitada de lado, usando uma linda camisola de seda e olhava diretamente para Eduardo.

- Nada mal – murmurou Eduardo – quanto custa esse quadro?

- Esse quadro não está a venda meu amigo – disse Davi recolhendo o quadro para debaixo do seu braço. Eduardo deixou escapar uma risada.

- Mas que tipo de caixeiro você é? Acabou de me mostrar um quadro que não está a venda? Se não está a venda porque o carrega?

- Eu ganhei esse quadro há dois dias, quando passei em Monte Sião, e como ele não cabe na mala, tenho que carregá-lo nos braços.

- Não quer mesmo vendê-lo? É um bonito quadro. Vai ficar uma beleza na parede da minha sala.

Davi tirou um lenço do seu terno e limpou o suor do seu rosto.

- Esqueça esse quadro, ele não tem preço.

O caixeiro se virou para ir embora. Eduardo pegou no braço de Davi.

- Me perdoe se eu fui rude com o senhor, é que eu tenho passado por maus bocados, não queria ser tão grosseiro.

Davi abriu um sorriso e se virou para Eduardo.

- Tudo bem, eu já estou acostumado com isso – ele tirou o quadro debaixo do seu braço – quer saber, acho que você precisa mais desse quadro do que eu, aceite ele como meu presente.

Davi estendeu o quadro para Eduardo.

- Você não pode estar falando sério? – se recusando a pegar o quadro.

- Aceite como meu presente.

- Não vai cobrar nada mesmo?

- Nenhum centavo, é um presente.

- Porque está fazendo isso?

- Como eu disse, acho que você precisa mais dele do que eu.

- Porque eu precisaria assim de um quadro?

- Apenas aceite o quadro. Ele vai ficar uma beleza na sua parede.

Eduardo refletiu por um instante. Estava disposto a desembolsar até cem reais para comprar aquele quadro, agora iria tê-lo de graça.

“Deve ser um quadro da sorte” pensou ele pegando o quadro das mãos de Davi.

- Tudo bem Davi, eu aceito o seu presente.

- Eu já vou indo, estou atrasado – disse Davi pegando sua mala e caminhando para ir embora.

Eduardo ficou fitando os olhos daquela loira sensual deitada na cama.

- Esse quadro por acaso tem nome?

O caixeiro já estava quase na calçada quando ouviu a pergunta de Eduardo, ele se virou e abriu um sorriso malicioso.

- O olhar de Janaína.

Eduardo olhou para o sorriso de Davi como um aviso, como se ele soubesse tudo sobre sua vida. Eduardo baixou os olhos para ver outra vez o quadro e quando ergueu seu olhar para dizer alguma com Davi, ele tinha sumido. Eduardo foi até a calçada e viu Davi já bem longe, andando rapidamente.

- Sujeito esquisito – riu Eduardo voltando para a casa.

EDUARDO AJEITOU CUIDADOSAMENTE o quadro na parede da sala, a mesma que não gostava de ver, pois se lembrava do verde de Janaína. Eduardo contemplou por alguns segundos o quadro antes de voltar ao seu escritório e tentar encerrar o seu romance.

Ele ficou olhando para as teclas desgastadas da sua velha Olivetti. Mesmo já no século XXI, pleno 2010, Eduardo se mostrava o antiquado com relação à tecnologia, nem mesmo seu editor, o Paulo Medeiros, conseguiu tirar esse seu vício de máquina de escrever. Deu a ele no natal passado um laptop última geração da Apple, mas Eduardo deu o presente para um sobrinho, foi o que ele disse para Paulo, na verdade, o laptop lhe rendeu mil reais no mercadolivre.com.

“O olhar de Janaína, ironias da vida”, não acreditava em ironias, mesmo assim, pensava no quadro como uma. Aquela mulher loura, olhos azuis. Quem seria? Da onde era? Será que se chamava Janaína?

Eduardo se viu escrevendo o nome “JANAÍNA” na máquina.

- Merda! Arrancou a folha imediatamente e meteu no lixo.

Eduardo resolveu por fim desistir de escrever. O melhor seria esperar o dia seguinte. Estava cansado de dar murro em ponta de faca. Levantou-se da mesa e foi até a sala. O quadro estava torto. Ajeitou o quadro e percebeu algo de diferente nele. Embaixo da cama, tinha uma mão, ela aparecia entre o lençol branco. Eduardo olhou mais perto, não tinha visto nenhuma mão saindo por debaixo da cama quando colocou o quadro na parede. A mão tinha unhas pontudas negras. A pele da mão era dissecada.

Eduardo não deu maior importância a esse detalhe. Se afastou do quadro e observou ele, verificando se estava bem alinhado. Quando bateu os olhos no rosto da loura, uma novidade, o rosto da mulher agora estava com um largo sorriso, mostrando os dentes brancos.

- Vou sair daqui – disse Eduardo subindo as escadas, estava cansado e com sono.

Fechou a porta do quarto e deitou-se na cama sem tirar as roupas. Precisava de uma boa noite de sono para recuperar a sanidade. Estava começando ver coisas que não existiam. Pensou ele.

EDUARDO ABRIU OS OLHOS, viu o rádio relógio no criado mudo. Eram três e quinze da manhã. Eduardo se virou na cama e fechou os olhos, quando ele escutou alguém subindo rapidamente as escadas. Eduardo sentou-se a beira da cama e pensou em dar uma olhada. Um sonoro silêncio fez ele voltar a se deitar. A maçaneta girou levemente, a porta se abriu com um ranger, Eduardo estava de costas para a porta. Ele virou bem devagar para olhar na porta. Ela estava entreaberta, o facho de luz do corredor refletia no rádio relógio. Uma mão dissecada, com unhas pontudas pintadas de pretos tocou na maçaneta do lado de fora. Era a mesma mão que Eduardo tinha visto no quadro.

- Quem está aí? – perguntou Eduardo.

A mão dissecada fechou a porta bruscamente. Eduardo pulou da cama e abriu a porta. O corredor agora estava repleto de escuridão. Ele apertou o interruptor do quarto, mas a luz não se acendeu. Foi até o criado mudo tateando entre a parede e os móveis, e abriu a pequena gaveta e pegou uma lanterna.

Eduardo acendeu a lanterna e passou a luz pelo quarto. Tudo no seu devido lugar. Ele saiu para o corredor, com a lanterna ele foi percorrendo o caminho até a escada. Por onde passava, ia apertando o interruptor, mas nenhuma lâmpada se acendia. Desceu as escadas com cuidado. Chegou na sala. Eduardo escutou um baque, como se alguém tivesse caído no chão. Ele vasculhou com a luz toda a extensão da sala. Não havia ninguém ali, quando ele bateu a luz no quadro, uma surpresa, o quadro estava de ponta cabeça. Eduardo chegou mais perto, curvando sua cabeça para ver a imagem do quadro. Notou que a mão não estava mais embaixo da cama, a mulher estava sangrando em cima cama, com uma faca cravada em seu peito, mesmo assim, ela sorria para Eduardo. De repente bem na frente de Eduardo, o quadro rodou e ficou na posição normal. Eduardo deu pulo para trás, a luz da lanterna apagou-se. Ele deu umas batidas, quando a luz voltou ele jogou luz no quadro e viu a mulher em pé, com a faca cravada no peito, sorrindo com o sangue escorrendo pela boca, olhando fixamente para Eduardo, com as duas mãos estendidas, querendo enforcá-lo. Eduardo deu um passo para trás e sentiu um corpo atrás dele, a mão dissecada e pontuda grudou em sua boca, ele deixou a lanterna cair. A mão dissecada apertava sua boca com força, ele queria gritar, se soltar daquela força, mas não tinha forças.

- Você tem que matá-la – disse uma voz sussurrando no ouvido de Eduardo, uma voz rasgada, tremida, parecia um velho de setenta anos – terá que matá-la, ou ela matará você.

O alarme do rádio relógio tocou como um sino na cabeça de Eduardo. Ele acordou de sobressalto, com a respiração ofegante. Os raios de sol passavam pelo feixe da cortina. Eduardo ficou aliviado, enxugou o rosto e sentou-se na beira da cama.

“Tenho que me livrar daquele maldito quadro” foi o primeiro pensamento do dia.

A MULHER NÃO ESTAVA LÁ, foi o que Eduardo viu quando pegou o quadro. A cama estava vazia. Não havia mais a mão embaixo da cama, não havia sangue. E a loura não estava lá. Isso já não importava mais para Eduardo, ele pegou o quadro e o levou até o quintal de casa. Jogou ele no concreto do chão, pegou um vidro de álcool e despejou em cima. Acendeu o fósforo e tacou em cima do quadro. Quando a fagulha do fósforo tocou o quadro, ele pegou fogo com uma explosão, depois as chamas foram consumindo lentamente a tela do quadro. Eduardo esperou que o fogo consumisse todo o quadro, varreu os restos e meteu num saco preto, imediatamente o colocou na

Acendeu um cigarro e ficou observando a calçada. Imaginava o porquê do caixeiro ter lhe dado aquele quadro. Por que não vendeu. Ou seria sua intenção amaldiçoá-lo porque havia sido rude com ele. Eduardo não acreditava em possessões, maldições ou fantasmas, tudo o que escrevia era apenas para vender e ganhar dinheiro. Nunca acreditou em nenhuma linha do que escreveu. Mas a noite passada o fez repensar seus conceitos.

“Aquela merda toda foi verdade”.

A rua estava quieta, não passava um carro, nenhum vizinho estava cortando seu gramado, parecia uma rua fantasma. No meio do silêncio, surgiu um barulho peculiar que Eduardo conhecia bem, era o som de sua velha Olivetti, trabalhando a todo vapor.

Eduardo foi a passos apertados para dentro de casa. Passou pela porta aberta e se encaminhou para seu escritório, a porta estava trancada. Eduardo bateu na porta. A máquina não parava de tagarelar.

- Me deixe em paz, seja lá o que você for – gritou Eduardo.

O barulho da máquina parou. Eduardo girou a maçaneta e a porta se abriu. Não havia ninguém la dentro, a não ser um cigarro fumegante no cinzeiro e várias folhas jogadas no chão. Ele se agachou e pegou uma folha.

“Terá que matá-la, ou ela matará você”

Essa frase estava escrita centenas de vezes em todas as folhas.

Alguém bateu na porta. Eduardo amassou a folha e a arremessou na cesta de lixo.

Quando abriu a porta, uma surpresa desagradável, era Janaína.

- O que faz aqui? – perguntou áspero.

- Eu vim pegar o meu vestido – falou ela, tirando os óculos escuros e encarando Eduardo com seus olhos azuis.

- Que vestido? – disse Eduardo. Na verdade ela sabia do vestido, era um vestido branco de seda, idêntico ao que a moça loira usava no quadro. Nunca esperou que ela viesse buscá-lo. Janaína gostava muito de vestidos, tinha mais cinqüenta, e um a mais ou a menos, não faria diferença.

- Aquele de seda branco.

- Ah ta! – disse Eduardo passando as mãos no cabelo. Teve vontade de responder que havia queimado junto com as outras coisas dela, mas receou que ela lhe cobrasse pelo dano, e não queria dar mais nenhum centavo para a vadia – acho que deve estar abarrotado no fundo do armário, mofando junto com outras roupas velhas.

- Será que pode pegá-lo para mim, fazendo um favor.

- Pegue você mesma.

Janaína entrou se esquivando do corpo dele.

- Eu sei quanto dinheiro tem no criado mudo.

- Vai se ferrar – disse ela mostrando o dedo indicador enquanto subias as escadas.

Eduardo sorriu, e tirou um cigarro do maço. Ele ouviu a máquina trabalhando outra vez. A porta estava aberta, quando Eduardo entrou a máquina parou. Ela tinha acabado de escrever “Terá que matá-la, ou ela matará você”.

- Mas que droga é essa!

Eduardo se lembrou que havia mandado o vestido para a lavanderia, não queria mais sentir o cheiro de Janaína nele. Ele subiu as escadas tranquilamente, já imaginando que Janaína estaria fazendo a maior bagunça procurando por seu vestido.

A porta do quarto estava escancarada, Eduardo chegou a beira da porta e viu Janaína sentada na beira da cama, ela estava de costas para porta. Ela vestia o vestido branco de seda. Eduardo deu passo adentro, e percebeu que ela estava segurando algo nas mãos, pôde notar que era um quadro.

- Janaína? – perguntou ele.

- Gostei do quadro – disse ela sem se virar pra ele.

- Onde você pegou esse quadro?

- Estava em cima da cama em cima do vestido – disse ela para um desconcertado Eduardo – é maravilhoso. A mulher se parece muito comigo, não acha?

- Verdade, eu nem notei – disse ele se aproximando dela. As roupas que Janaína usava estavam jogadas do chão.

Eduardo ficou de frente com Janaína. Os cabelos dela estavam encobrindo seu rosto. Janaína não se mexia, parece que tinha entrado em transe. Ele estendeu sua mão para tocar em seu ombro. Antes viu uma gota de sangue caindo em cima da tela do quadro. Janaína deu uma risada.

- Janaína – falou Eduardo. Ela ergueu sua cabeça, e no lugar de seus olhos, estavam dois buracos negros escorrendo sangue de lágrimas, ela sorria para Eduardo.

- Gosta do Olhar de Janaína – gritou ela em meio a risadas.

Eduardo se afastou e caiu no chão. Janaína se levantou e se aproximou dele.

- Veja os meus olhos Eduardo, não são os olhos mais azuis que você já viu.

Eduardo não conseguia se mexer, como se algo lhe tivesse prendendo as mãos e as pernas, estava encostado na parede. Janaína se agachou e colocou as mãos em seu rosto. As mãos estavam dissecadas, as unhas afiadas pintadas de preto tocaram o seu rosto como uma faca. As unhas de Janaína penetraram na carne de Eduardo, ele não conseguia gritar. Apenas sentia a dor penetrando em seu corpo.

- Eu vou matar você desgraçado – disse ela apertando com mais força seu rosto. O sangue escorria por sua face, ele colocou as mãos nos punhos de Janaína e conseguiu tirar as unhas do seu rosto. Com a perna, ele a empurrou para trás, fazendo ela cair e bater a cabeça na cabeceira da cama.

Eduardo levantou-se, pos as mãos no rosto, mas as feridas não existiam, não havia sangue em suas mãos. Olhou de relance para Janaína, ela estava desmaiada, não usava mais o vestido de seda branco, nem tinha as mãos dissecadas, ou as unhas de preto. Ela estava a mesma de quando tinha chegado. Eduardo se agachou perto dela, e tirou as mechas de cabelos da sua face. Ela ainda respirava. Seu corpo estava gelado. Eduardo se ajeitou ao lado dela e lhe acolheu em seus braços.

– Janaína, acorde – sussurrou em seus ouvidos. Ela abriu os olhos. Eduardo ficou aliviado quando viu o azul brilhante de seus olhos, e não aqueles buracos negros.

- O que aconteceu? – perguntou ela atordoada.

- Eu entrei aqui e você estava desmaiada no chão.

Ela se afastou dos braços de Eduardo e se colocou de pé.

- Pode ficar com o vestido – disse ela saindo do quarto. Eduardo continuou sentado na cabeceira da cama.

A FOLHA não estava mais em cima de sua mesa. Eduardo percebeu quando entrou no escritório. A folha branca onde estava escrito “TERÁ QUE MATÁ-LA, OU ELA MATARÁ VOCÊ”.

O telefone tocou. Eduardo atendeu.

- Alô.

- Oh Eduardo, faz dois dias que estou ligando, onde você estava? – perguntou Paulo, o editor dele.

- Eu?… – Eduardo tentava não dizer que estava sendo amaldiçoado um maldito quadro – Eu estive visitando a casa de um amigo.

- Já tem idéia de quando vai terminar o livro?

- Espero que em até dez dias.

- Dez dias? Meu Deus Eduardo, esse livro era para estar na gráfica há quinze dias… Sabia que você tem um contrato para honrar?

- Dez dias Nestor, e não me ligue antes disso – Eduardo bateu o telefone. Segundos depois o telefone voltou a tocar. Irritado, Eduardo pegou o fio e tirou do conector. Mesmo assim o telefone continuava tocar. Eduardo posou a mão sobre a o telefone tirou do gancho e colocou no ouvido. O som que escutou foi de uma interferência estática, como o som de uma TV sem sintonia.

- Ela vai matá-lo – disse a voz em meio ao zumbido do telefone. Então a linha caiu.

Eduardo subiu até o quarto. O quadro estava pendurado em cima da sua cama. Só havia a cama no quadro. Um forte vento entrou no quadro e fechou a porta atrás de Eduardo. Ele tentou retirar o quadro da parede. Usou toda a sua força, mas não conseguiu.

Decidiu ir até o porão e pegar seu machado, ia se livrar daquele quadro de qualquer jeito. Quando girou a maçaneta a porta não se abriu. Esmurrou e chutou a porta várias vezes. Eduardo começou a ouvir um gemido dentro do quarto, parecia uma criança chorando. Ele olhou para todos os quantos do quarto e notou que o gemido vinha debaixo da cama. A mão dissecada saiu em meio ao lençol. As unhas pretas brilhantes, dedos longos e secos, a mão cadavérica se mexia em movimentos robóticos. A outra mão saiu por entre os lençóis, e depois a cabeça cheia de fachos de cabelos loiros sair. A cabeça levantou o rosto, era o mesmo rosto da mulher do quadro, só que agora estava dissecado, com os dois olhos arrancados, lágrimas de sangue escorriam por entre as rusgas da pele. A boca desdentada estava aberta, Eduardo podia ver vermes comendo o resto de carne dentro da boca. Ele soltou um grito de terror, e mais que tudo na vida tentava abrir a porta. A mulher estava usando o vestido branco de seda. Ela saiu completamente debaixo da cama e com movimentos arcados, ficou de pé, fazendo seus ossos estalarem. Eduardo se encolheu no canto vendo aquela figura caminhando em sua direção, ele não conseguia tirar os olhos dos buracos negros no rosto da mulher, parecia estar petrificado ao olhar para os olhos de medusa. Os dedos secos e finos da mulher tocaram o rosto de Eduardo, ele ficou face a face com a mulher. Ele via bem de perto o fundo dos buracos negros, estavam encharcados de sangue em meio a vermes. Os dedos da mulher alçaram os olhos de Eduardo, ela fincou todos seus dedos nos olhos de Eduardo.

O CORPO DE EDUARDO estava estirado no chão, seus olhos foram arrancados e colocados ao lado do seu rosto. No seu peito havia um punhal cravado. O quadro estava intacto na parede sobre a cama, a loira estava deitada com um leve sorriso no rosto. A porta do quarto se abriu vagamente, um pé entrou com cuidado para não fazer barulho, depois o outro. Davi se agachou e recolheu os dois olhos de Eduardo em um pequeno pote de vidro. Depois colocou o pote dentro de sua mala, onde havia outros potes com olhos. Davi fechou a mala e seu olhar seguiu para o quadro. Ele subiu na cama e o tirou da parede, ficou por alguns segundos vislumbrando o rosto da loira.

- Bom trabalho querida – disse ele. A loira deu uma leve piscada para Davi.


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4 Comments»

  • Thainá Gomes says:

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    Muito tenso, eu fiquei num desepero pra saber como terminava, bem sombrio, eu até fiquei com medo. Parabens, ótimo texto.

  • Maria Aparecida says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Exelente texto,vc se superou,parabéns!um abraço.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Puxa!! Ótimo texto, fiquei arrepiado várias vezes!
    Há alguns errinhos e em alguns momentos parece estar faltando palavras, mas não atrapalha a leitura.
    -
    Parabéns!!!

  • Täh says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Parabéns, excelente texto
    O envolvimento literal do Davi surpreendeu-me de maneira sublime.

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Publicado por Batuta Ribeiro

– que publicou 3 textos no ONE.

Nascido em Jacutinga/MG.

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