Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida: Livro 1
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
29 Dicas para se manter criativo:
Vaucarn
A Lenda de Fausto
Chat dos Nerds Escritores
Quer publicar?
Download do livro O Draconiano – Livro 1
Oct
28
2010

Um homem destruído

Escritor: Thiago Lepre

O ferro quente da espingarda ardia em seu braço, onde haviam várias marcas com o formato da boca da arma. Ele fazia aquilo para se lembrar de cada pessoa que matava. Não queria esquecer. Cada pessoa que morria com um disparo de sua arma era um indivíduo, um filho, uma mãe, uma avó. Mas ele não se incomodava em matá-las, sabia que as estava tirando de suas próprias misérias. Acabando com o sofrimento pelo qual eram obrigados a passar todos os dias e nem sequer conseguiam ver.

Lucas era um rapaz normal, vida mediana, aparência mediana, foi mediano em sua escola e em tudo mais, sua mulher era mediana. Nada a seu respeito chamava atenção. Trabalhava em uma grande empresa mas tinha um cargo muito pequeno, exercia funções repetitivas o dia todo, sem sequer levantar sua cabeça para olhar em volta. Sabia que todos estavam fazendo as mesmas coisas. A única característica de Lucas que poderia chamar a atenção mas nunca era vista era sua capacidade de entender o que ninguém mais entendia. Ele sabia que aquela situação pela qual todas as pessoas passavam todos os dias de suas vidas não era normal.

Ele percebeu esse fato em uma noite chuvosa, enquanto caminhava para pegar seu transporte público para casa. Simplesmente parou na chuva, abaixo da placa que demarcava onde pararia o veículo de transporte público e se deu conta. Estava perdendo sua vida. Sendo jogada pelo ralo, gota a gota, grão a grão, molécula a molécula. Havia percebido o sofrimento que o dominava, a angústia incessante e o constante estado de torpor.

Apesar de ter notado tudo isso no espaço de um simples instante, não lhe deu muita importância, achou que havia ficado maluco, pois sabia que todos viviam suas vidas daquele modo, o que havia de errado com aquilo? Sabia que era o único meio de conseguir as coisas que queria. Mas aquilo lhe corroía, sabia que sua vida não poderia ser só isso. Só um emprego, só um carro, só uma casa ou só aquela televisão nova de milhões de polegadas que ele nunca assistia.

A viagem para sua casa passou rapidamente, sua mente estava em chamas, não conseguia parar de pensar naquilo que havia finalmente percebido. Todas as pessoas não são mais humanas, são somente gado. Apenas animais sendo levados de um curral para outro. Um curral para comer, um curral para dormir e outro para produzirem.

Ninguém mais pensava ou se preocupava com o que estava fazendo, simplesmente o faziam, mas não se questionavam do porquê faziam aquilo, ou sequer pensavam no tempo de suas vidas que estava ali, sendo totalmente desperdiçado, pouco a pouco, em suas funções maçantes e repetitivas, que nunca lhes geraria qualquer benefício.

Todos haviam passado a viver somente no período em que não estivessem trabalhando e quando não estavam trabalhando, estavam comendo e assistindo suas lindas televisões de milhares de polegadas, com programas que lhes impediam de pensar, deixando-os somente mais insensíveis e entorpecidos a tudo, até o dia em que finalmente morressem.

Tudo aquilo passava em sua cabeça e não sabia o que fazer, tinha certeza que não poderia abandonar tudo e correr, pois não haveria como se manter, como comer, como se vestir ou se proteger. Qual era sua opção? Só conseguia ver uma, engolir a angústia e o desespero que sentia e continuar realizando sua tarefa como parte do gado, da massa sem cérebro que todos os dias ia para o trabalho, cumpria sua função idiota no curral onde ficava e quando terminavam, voltavam todos espremidos em caixas de metal para suas casas, seu curral de alimentação e após comerem como porcos iam para seu pequeno curral onde dormiam, sem qualquer felicidade ou sonhos, simplesmente dormiam, para começar tudo novamente. Ele teria que se manter fazendo isso, não tinha saída!

Passaram-se alguns dias e Lucas foi se tornando cada vez mais mal humorado e irritado, mas nunca demonstrava, não falava mais com ninguém, nem sequer sua esposa mediana e desinteressada, havia se isolado completamente dentro de si, estava consumindo todas as suas forças para se manter controlado e trabalhando e vivendo como todos o tempo todo.

Até que começou a sofrer com pesadelos horríveis, onde ele havia se tornado um porco, sendo empurrado de um lugar a outro para comer ou ficava espremido em um pequeno cercado com vários outros porcos, até que era levado para o abatedouro e lá dentro via uma máquina destinada a matá-lo e quando as grandes lâminas encostavam na sua carne de porco, ele acordava, sempre antes de ver qualquer gota de sangue voar. Em razão de tais pesadelos ele simplesmente parara de dormir, não conseguia mais se acalmar o suficiente para dormir, a sensação de estar perdendo sua vida e cada segundo lhe deixava desesperado e acuado, não queria ser um porco indo para o abate, lutaria contra isso!

No dia seguinte, aparentemente estava normal em sua ida ao trabalho, mas havia passado a noite estudando sobre diferentes tipos de armas de fogo, a insanidade estava se agarrando pouco a pouco. Sua mente estava sendo destruída.

Quando a semana de trabalho acabou, Lucas tinha olheiras enormes e um olhar apavorante, era definitivamente um homem louco além da recuperação. Largou sua esposa em casa e saiu em direção a uma favela que ficava entre seu local de trabalho e sua casa. Estava com as economias de uma vida toda em seu bolso. Sabia o que queria e esperava que conseguisse.

Subiu o morro em que a favela ficava, todos o olhavam, mas ninguém ousava lhe dirigir a palavra, sua loucura era demais até para pessoas acostumadas com a violência, todos estavam com medo.

Chegou até uma pequena casa no topo do morro, onde haviam lhe dito com dedos trêmulos e olhos assustados que morava o dono do morro. Ele era o homem a se falar para achar aquilo que queria. AA-12, esse era o nome de seu sonho de consumo naquele momento. Não era uma televisão, um sofá ou sequer um carro. Era uma espingarda. Mas não qualquer espingarda, era uma espingarda calibre 12 totalmente automática, ela disparava 300 tiros por minuto, com uma precisão assustadora e carregava 32 cartuchos em cada pente. Era um pequeno monstro.

O dono do morro resistiu um pouco a vender aquela arma para aquele cara com expressão totalmente enlouquecida, mas ele tinha dinheiro suficiente para pagar por aquilo, então decidiu que não se importava tanto assim.

Lucas desceu o morro com a arma colocada em uma caixa de papelão grande, pois era de um tamanho impressionante, grande o bastante para assustar, mas pequena o suficiente para que pudesse carregá-la e usar sem qualquer problema.

Havia tomado uma decisão, havia visto a única possibilidade de sair daquela loucura. Assustar tanto as pessoas que elas seriam obrigadas a ver aquilo a que se negavam. Iriam ver como tinham se tornado gado inútil e burro, mesmo que para isso fosse necessário matar alguns deles.

Na manhã seguinte ele se vestiu normalmente, calça preta, camisa branca de mangas curtas, gravata vermelha discreta, sapatos pretos com meias sociais pretas, seu óculos com aros prateados e sua pasta. Na saída pegou a caixa de papelão com um sorriso e foi embora sem se despedir da esposa, mas ela não se importava então ele imaginou que não haveria qualquer problema.

Pegou o transporte público como normalmente fazia e mesmo com os olhares atravessados por causa da caixa de papelão enorme que carregava, sentia-se bem, mesmo sem dormir e vendo algumas sombras se mexerem do jeito errado, estava bem, iria trabalhar normalmente.

Chegou na empresa, colocou sua maleta embaixo da pequena mesa em que trabalhava e soltou carinhosamente a caixa de papelão sobre a mesa. Abriu cuidadosamente o pacote, colocou a tira de proteção da arma em volta do pescoço, tirou-a da caixa calmamente, sentindo o peso daquele monstro de aço negro e não conseguiu se segurar, riu baixo, um riso de alívio, pois finalmente os pesadelos parariam, todos veriam que eram somente gado e poderia ficar em paz, sabendo que os humanos voltariam a ser humanos, seu propósito se cumpriria.

Andou tranquilamente até a sala ao lado da que ocupava, abriu a porta e disse “Bom dia!” com um sorriso sincero. Não receberia de volta o sorriso, pois nunca havia recebido um bom dia honesto em toda sua vida, mas naquele dia não se importava. Assim que pôde ver que a pessoa, um homem de cabelos encaracolados negros e uma roupa igual à sua, mas com a única diferença de usar uma gravata azul marinho ao invés da vermelha, havia percebido a espingarda, ele disparou um tiro que estremeceu as paredes da sala, ecoando por todo o corredor e causando um buraco redondo no peito do homem, através do qual se conseguia ver a cor bege da parede atrás. O homem teve tempo de colocar a mão em seu ferimento antes de cair morto, estava com uma expressão de simples incômodo por aquilo, não era uma expressão de terror ou medo, apenas uma pequena expressão de incômodo por ter sido interrompido em sua sala.

O barulho fez com que todos saíssem de suas pequenas salas beges sem janelas para ver o que havia acontecido. Na porta da sala, logo atrás de Lucas, colocaram-se mais ou menos 20 pessoas, com as mesmas expressões do homem morto. Incômodo. Nada mais do que isso. Lucas colocou o cano fumegante da arma contra seu antebraço direito, sentindo a pele arder e queimar. Quando desencostou a arma de seu braço, percebeu a pequena marca de queimadura redonda em seu braço e sabia que nunca mais se esqueceria da expressão daquele homem, um animal insensível e triste que havia morrido para que os outros pudessem perceber o que estava acontecendo, mas ainda não havia terminado.

Ele se virou para todas aquelas pessoas paradas com um sorriso no rosto, mas agora não era mais um sorriso de alegria, mas sim um sorriso triste e forçado, como quem sabe que aquilo que estava fazendo não era agradável, mas tinha que ser feito. Ele disparou todos os tiros, matando todas as pessoas que estavam naquele corredor bege, com as salas igualmente beges, tudo para manter as pessoas como animais bem comportados, nada poderia lhes tirar a atenção, nem mesmo uma cor viva, sempre havia o bege, o tom brando que acalmava e impedia que as pessoas vissem além das paredes e de seus trabalhos ridículos.

Lucas queimou com a arma seu braço para marcar quantas pessoas haviam morrido naquele lugar horrível, pelo menos na morte elas voltavam a ser humanos, somente pessoas, nada mais de currais ou tevês de várias polegadas para derreter o cérebro ou comida para entreter a boca.

Ele saiu pelo saguão principal, a polícia já havia chegado para garantir que todos permanecessem como animais, eram a força do mundo produtivo, todos tinham que se manter comportados ou sofreriam as consequências. Ele estava cansado de sofrer com tudo aquilo, abriu as portas de vidro da empresa com toda a força que lhe restava depois de tudo aquilo e gritou “Não sejam mais animais! Rebelem-se! Vocês são pessoas! Todos temos o direito de sermos felizes!”. Quando terminou de gritar escutou um estouro alto, como alguém houvesse estourado uma bexiga grande do outro lado da rua. Sentiu uma pontada quente em seu ombro e o calor começou a se espalhar por suas costas e seu braço, olhou e percebeu que aquela pontada era um tiro, estava sangrando. Decidiu que precisava assustar ainda mais as pessoas. Recuou para dentro das portas de vidro, sabia que não atirariam pelas portas, pois aquilo destruiria a fachada da grande empresa e essa fachada valia muito mais do que qualquer pessoa. Apoiou a arma no chão, pegou vários cartuchos que tinha enfiado nos bolsos das calças antes de sair, recarregou a arma completamente, mais 32 cartuchos cheios de pequenas esferas de ferro, que sairão da arma mais rápidas do que a velocidade do som e irão causar muito estrago. As pessoas só aprendem através da dor e do choque.

Assim que a arma estava recarregada ele começou a disparar furiosamente, como a arma era automática e muito bem feita, só tinha que se concentrar em virar a arma para onde quisesse destruir. Matou várias pessoas, a arma cuspia fogo e ferro como se fosse um dragão do inferno, uma força de destruição impossível de ser parada. Os policiais devolviam os tiros com tudo o que podiam, mas a loucura de Lucas o impossibilitava de se importar com os tiros, iria cumprir sua missão não importava o que acontecesse. Continuou disparando continuamente até que escutou o clique do pente da arma vazio. Se ajoelhou e esperou os tiros começarem a ecoar. Sabia que não sentiria nada além do calor do sangue escorrendo e depois morreria, havia feito o melhor que podia.

Mas passaram-se alguns segundos enquanto estava ajoelhado, até perceber que nenhum tiro vinha em sua direção. Sua audição voltou aos poucos e conseguiu captar muitos gritos e o som de madeira batendo em metal. Abriu seus olhos e viu que as pessoas que estavam na rua haviam pegado pedaços de madeira e estavam combatendo os policiais. Estes por sua vez não sabiam o que fazer, pois as pessoas estavam desarmadas e eram em número assustador! A multidão pisoteou os homens da lei, gritando enfurecida, como selvagens.

Lucas demorou para perceber o que havia acontecido, mas quando percebeu a felicidade lhe inundou, as pessoas finalmente haviam se libertado, aquela revolta se espalharia por todos os lugares e todos poderiam ser felizes do jeito que achassem melhor. A consciência disso fez todo o cansaço dos vários dias sem dormir finalmente lhe alcançar, sua cabeça pesava e não conseguia manter os olhos abertos. Sentia frio, pois já havia perdido sangue demais, mas nada disso importava, os seres humanos haviam voltado a ser humanos. Livres!


Written by Thiago Lepre in: Agenda,Contos,Thiago Lepre |

3 Comments»

  • Thainá Gomes says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Me deu uma angústia esse texto. E ainda me lembrei de GTA.O cara saiu atirando na policia e em todo mundo. ~Só fiquei meio em entender o final, quando as pessoas batem nos policiais.

    • Thiago Lepre says:

      Thumb up 0 Thumb down 0

      Por mais estranho que isso pareça, fico feliz que tenha te angustiado, meu objetivo foi esse mesmo.

      O final eu tentei aproximar o máximo possível de V de Vingança, o quadrinho, não o filme, se não leu eu recomendo!

      Abraços e obrigado pela leitura!

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    aaaeee, thi!!
    parabéns pelo texto e pela publicação!!

    a intenção de deixar a gente em agonia você super atingiu! rsrs!

    amei!

    bjinhus!

RSS feed for comments on this post.


Leave a Reply

Powered by WordPress. © 2009-2011 J. G. Valério