Um Segredo?
Escritor: Thomaz Caitiff
O rapaz não sabe onde está.
Não sabe como chegou ali.
Reconhece que está em uma casa que não é a sua.
O lugar é pequeno.
Está a meia luz.
É lugubre.
Cheira a repolho cozido.
Ou a capacho de trapos.
Ele não sabe bem, apenas sente o odor estranho.
Uma casa estranha.
Muito pequena para ser de uma família.
Pequena o bastante para ser de um solteiro.
Um homem.
O rapaz vira a cabeça para ver ao seu redor.
Escuro demais para ver tudo com detalhes.
Mas vê.
Tudo tinha um aspecto pisado, meio amassado.
Parece que a casa acabou de ser pisoteada por um animal violento.
É imundo.
Mais a frente, percebe a luz.
Vinha de uma porta entreaberta.
Intrigante.
Tudo escuro e uma luz acesa.
Sinal de haver gente naquele lugar.
Resolve ir verificar.
Talvez descobra onde está.
Caminha.
Vai em direção a luz.
Pisa em algo.
Um par de shorts suados.
Estão virados do avesso.
Largados no chão.
Conforme avança sente o cheiro característico de repolho cozido.
Fede.
O lugar fede.
Mas a um cheiro ainda maior.
Cada vez mais enuncia-se outro odor profundamente misturado com o primeiro.
A catinga mais pronuciada de suor.
Suor forte.
De alguém que está ali.
Mas não é apenas suor.
O rapaz leva segundos para entender.
O cheiro de repolho cozido e suor.
Somente uma única coisa pode ser sentida desta forma.
Somente uma.
E o rapaz sabe.
Ele sabe pois conhece muito bem.
Em geral, todo mundo em sua idade já conhece esse cheiro.
Sexo.
Sente-se o sexo pairando no ar.
Profundamente integrado ao local.
O sexo que acabara de ser feito.
O sexo que durará intensas horas.
O sexo gostos que envolve duas pessoas.
Dois amantes.
Esse é o lugar onde dois amantes se encontram.
Não apenas pela primeira vez.
Mas agora, o ato não está sendo consumado.
Não.
Ele já foi feito.
Mas isso não interessa.
Agora é a luz que sai do cômodo com a porta aberta que interessa.
O rapaz avança.
Confirma sua percepção.
No chão, estão largadas roupas.
Femininas.
Masculinas.
Várias roupas jogadas ao piso frio.
Jogadas não.
Arrancadas.
Arrancadas do corpo com a selvageria do tesão.
O tesão pleno.
O desejo incontrolável esteve ali.
O sexo dos amantes.
Chega a porta.
Não houve voz alguma.
Mas sente.
Não uma voz, mas uma presença.
E outro cheiro.
Seu nariz, sobrecarregado, não consegue identificar.
É meio almíscarado.
Doce e levemente salgado?
Não sabe ao certo.
Parace conhecido.
Mas não sabe com exatidão.
Ignora.
A curiosidade é muita.
Move a perna.
Dá o último passo.
Mão no vão da porta.
Move a cabeça uns centímetros a mais.
Espia.
Seus olhos arregalam.
A sobrancelha faz o seu salto.
O rapaz não acredita no que vê.
Impossível.
Agora entende como reconheceu o último cheiro.
É sim, almíscar.
E vinho tinto.
É ela.
Sim.
Ela.
A moça.
Ela está ali, de pé no banheiro da casa desconhecida.
Nua em pelo.
Como veio ao mundo.
Como ele a viu em tantos outros momentos.
Nua.
Nua e linda.
Os cabelos negros presos em um coque.
Os seios tão redondinhos.
O biquinho durinho.
A pele arrepiadinha.
Como sempre costumava ser quando ficava pelada.
Ele não acredita.
Diante de sí está a moça.
A moça, seu amor.
Sua paixão.
Seu desejo.
Seu querer.
Sua namorada.
A moça, seu maior sonho, está nua no banheiro de uma casa de solteiro.
Uma casa de solteiro cheirando a sexo.
Muito sexo.
E roupas femininas jogadas ao chão.
Jogadas com tesão.
O rapaz encolhe o corpo.
A moça não percebe que ele a espia.
Ela está entretida com um papelzinho.
Um sorriso lateral na sua boquinha.
Sorriso de felicidade.
De paixão.
Ela dobra com cuidado o papel.
Olha para a frente.
Para o espelho.
Mas seu olhar desvia do seu reflexo.
Estica a mão.
Inclina-se.
Enfia o papelzinho atrás do espelho.
Esconde.
A moça solta o cabelo.
Ajeita.
Prepara-se para sair do banheiro.
O rapaz apressa-se.
Sem fazer barulho, se afasta.
Vai para as sombras.
Agacha.
A moça pega sua roupas do chão.
Caminha até uma porta lateral.
Abre.
Ele ouve uma voz masculina.
Ela entrou em um quarto onde seu amante a espera.
O quarto do sexo.
O outro está lá.
E ela também.
O rapaz segue até a porta.
Não ousa entrar.
Não quer ver.
Vira-se e vai até o banheirinho.
Estica a mão.
Pega o papelzinho que a moça escondeu.
Desdobra.
Está tenso.
O que deve estar escrito?
Deve ser um bilhetinho.
De amor talvez?
De agradecimento pelo sexo?
Um segredo?
É um bilhetinho para o outro achar e ler depois.
Uma surpresa?
Ele segura o bilhete com as mãos tremendo.
Foca a vizão.
Vai ler
Sente um hálito roçar-lhe a nuca.
Um ar cálido que lhe dá arrepios.
Um odor leve.
De suor.
Um perfume.
Tudo escuro.
Acorda.
O rapaz arranca-se do sono.
Acorda do sonho.
Os olhos ainda pestanejando.
Era tudo um sonho.
Desliza o braço por entre os lençois.
Estão emaranhados.
Encontra um travesseiro.
Tateia na escuridão.
Procura o calor de um corpo.
O hálico cálido que lhe provoca arrepios.
O perfume.
A namorada.
Meio acordado, ainda procura a moça em sua cama.
Ela não está nela.
Não agora.
Na sua cama, durante a noite, esta só.
A moça ficou no sonho.
O rapaz esforça-se.
Abre os olhos com força.
O quarto está iluminado apenas pelos traços diagonais da luz dos postes.
Os raios de luz elétrica entram pela persiana escura que cobre a janela.
Ainda é madrugada, pensa o rapaz.
Madrugada.
Acordou de um sonho durante a madrugada.
Vira-se e pega o celular debaixo do travesseiro.
Aberta o botão.
A luzinha azul se faz presente.
No meio da tela está marcado: 3:20 da madrugada.
No canto superior mostra: nehuma mensagem.
O rapaz lia de outra forma.
Nenhuma mensagem dela.
A moça estava dormindo aquela hora.
Descansando.
Mas ele sente o peito apertar.
Não sabe o que sente.
Pode ser saudade.
Ou vontade de vê-la e ouvir sua voz, pura e simplesmente.
Talvez seja medo.
De perde-la.
Mas ela está descansando.
Ele vai deixa-la em paz.
Paz.
É o que o ele não sente no momento.
O que o rapaz sente é outra coisa.
Cheior de repolho cozido e suor intenso.
Sexo.
O sonho invadindo a vida real.
O cheiro lhe consome e o outro se torna sombra.
Uma sombra do sono.
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Gostei achei legal.
Obrigado.