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Oct
26
2010

Valsa com corpos

Escritor: Farley

Ela me deu três coisas: uma vida um sonho e uma pele. Eu era apenas uma sombra de alguém que um dia já viveu,  quando ele morreu fui largado no mundo, abandonado vagando a procura de sentido pra vida, até que um dia ela passou com seu salto sua calça jeans e sua blusa decotada, preocupada com o mundo…parecia que finalmente o sentido da minha existência  apareceu, a sombra que ela projetava estava na minha frente, era uma silhueta perfeita, parecia esculpida por um anjo qualquer, eu uma sombra marginal, e ela uma sombra angelical, sem escrúpulos toquei o lábio de sua sombra  e enquanto ainda havia sol, nos beijamos sem pronunciar uma palavra, o sol se escondeu e junto com ele nós dois sumimos, não sei bem ao certo o que acontece com nós sombras quando o sol se vai, só sei que não há mundo, ficamos inertes até a luz voltar, quando a luz voltou ela já tinha ido, levando consigo a sua sombra, comecei a procurar a cidade, rondei por todos os lados, viajava em cada centelha de raio para achar o objeto dono de tão bela silhueta,  só faltava uma casa na cidade, ela tinha que estar lá, não havia outro lugar, entrei por debaixo da porta graças ao abajur, e a vi dormindo sua sombra me viu e quando me aproximei ela perguntou meu nome, respondi que não sabia, que não importava, ela veio até mim, e então passamos a noite juntos, demos risadas, contamos piadas, contei minha história pra ela, ela se emocionou.

Acontece que a  dona  da sombra acordou-se e viu minha sombra ao lado da dela, o retrato das silhuetas se encostando em quase uma só, deve ter despertado algo nela, que naquele momento pulou sobre minha sombra e comigo fez o que há muito não fazia com homens de verdade, depois ela chorou sobre mim, qualquer um que visse tal aberração se espantaria com o fetiche dela por sombras, ela não era aceita pelo mundo, por ser deprimida não alegrava os ambientes e nunca achava seu lugar no mundo, mas do meu lado apenas uma sombra, ela sentia-se feliz, pena que a sombra dela parecia não se importar com sua felicidade, no começo a sombra aceitava numa boa, era um relacionamento comum, mas com o passar do tempo aqueles encontros obscenos entre uma mulher e uma sombra  foram perturbando-a, os garotos da vizinhança, viam a mulher deitada no chão e esfregando-se e começavam  a se perguntar que loucura era aquela, realmente era uma loucura, a sombra dela passou a ter nojo dos nossos encontros mas ela estava lá sempre debaixo de mim e sua dona, a sombra dela estava apaixonada por mim tanto quanto a dona, eram duas loucas, desvairadas, ou talvez louco seja eu de gostar de uma pessoa de verdade,  mas aquele era o significado da minha vida, ela me deu um sonho, ser real e sentir o que os reais sentem, mas eu  não era real, era impalpável, e ela uma garota indescritivelmente cabível de elogios, não era  uma verdade e sim contradição, era os altos e baixos  de uma vida inteira, uma eterna complicação.

Ela não se cansava nunca e passávamos tarde só ela e eu, silenciosas tardes de inverno e verão,tardes loucas, como só uma deprimida depravada poderia me dar,  mas com o passar das semanas ela se sentia cada vez menos real,  e a culpa era minha que só aumentava sua depressão, ora, ela amava uma sombra, e uma sombra amava ela, dava pra ver seus olhos perdendo a cor, e seu corpo se desfazendo aos poucos, ninguém via, mas eu sabia, ela queria ser como eu e eu queria ser como ela, no fundo a gente passou a se distanciar mesmo comigo cada vez mais perto dela, e essa distancia nos matava aos poucos, a sombra dela já a tinha deixado, pois ela passava o dia todo no chão a sombra e ela era uma só, minha silhueta tinha a mesma altura dela, mas eu era mais forte, aos poucos ela foi engordando para que ela pudesse me vestir como sua segunda pele, após 4 meses lá estava ela, exatamente com os mesmos contornos que eu, ela havia bebido cândida essa manhã, não queria mais viver, e eu nada pude fazer a não ser  assisti-la cair sobre mim, iguais, um só, apaguem as luzes, sombras não existem no escuro, sem sombras eu e ela somos um só, ela me deu uma vida, me deu um sonho e no final de tudo eu ganhei uma pele.


Written by mnemolious in: Agenda,Contos,Farley |

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