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Oct
19
2010

Videomat

Escritor: Rocha Fillipe

Não estávamos nem na área comercial da cidade. E a cidade não estava nem no mapa dessa merda de estado que é o Missouri. Mas o pior de tudo é saber que você é um reles funcionário numa vídeo locadora afastada do “centro” numa cidade bunda como é Aurora.
Depois que as Movie Gallery começaram a espalhar filiais na região do Condado de Lawrence (duas aqui em Aurora), as pequenas vídeo locadoras começaram a ver seu império naufragar. Não que elas fossem grande coisa, mas numa cidade como essa, assistir a filmes (seja no cinema, no drive-in ou em casa) acaba sendo uma das únicas formas das crianças, adolescentes e jovens daqui se divertirem. Na verdade, só crianças e adolescentes mesmo. Os jovens daqui ou estão no Afeganistão (ou Iraque), ou morreram no Afeganistão (ou no Iraque). Têm os que foram pra Kansas City ou St. Louis pra estudar ou ganhar a vida. E os que ficaram, ou não tiveram chance de ir ou gostam daqui. Partindo do pressuposto que os que ficaram porque gostam daqui não são chegados a filmes e coisas do gênero (é difícil explicar, mas ambas as coisas tem relação direta), número de jovens que alugam filmes ou vão ao cinema enchem uma sala de aula. Ok, duas salas e uns quatro, cinco manés do lado de fora… Enfim! Pouca gente…

Mas pelo visto era o suficiente para que duas Movie Gallery se instalassem aqui, como eu disse, destruindo muitas vídeo locadoras que estavam no “centro” de Aurora. Só umas poucas, um pouco maiores e com clientes antigos, permaneceram. No caso, três: a AS VIDEO GOES BY, especializada em clássicos; a CLERKS VIDEO, voltada ao público nerd, mas que era uma vergonha aos verdadeiros representantes desse nicho e a ZOETROPE, que tinha duas lojas em Aurora. As pequenas vídeo locadoras, aquelas pequenas lojas de bairros, com vários títulos em VHS, que não foram relançados em DVD, ou mesmo aquelas anexadas a postos de gasolina, desapareceram. Se não agüentaram a concorrência dos DVDs, quem diria hoje, com os Blu-Rays… E é nesse ponto que não consigo entender o porquê da “minha” vídeo locadora, entupida de VHSs, não ter o movimento que deveria ter. Onde estão os saudosistas e nostálgicos de Aurora? Onde diabos estão esses malditos filhos da mãe, saudosistas desgraçados? Deem algum sentido à minha vida!
Trabalho na esquina da High St. com a North Elliot Ave., em frente ao Casey’s, do outro lado da rua. A vídeo locadora em que trabalho, a Videomat, fica no mesmo terreno da Laudromat, lavanderia que funciona 24h por dia. De um lado fica a locadora, do outro a lavanderia. Tudo no mesmo prédio (prédio aqui entenda como um bloco de concreto, de 15 x 30m, com seus 4 metros de altura, do topo do telhado até o chão, no canto de um terreno de esquina gigante, com um estacionamento pavimentado em volta dele).
O movimento não é grande. Um ou outro esquisito que aparece por aqui querendo filmes obscuros e desconhecidos na maioria. O mais impressionante disso tudo é que nesses quatro anos em que trabalho na Videomat, nunca disse que não tínhamos um filme. Pode não parecer impressionante, quando se coloca dessa forma, mas você não faz ideia dos títulos de filmes que aparecem por aqui e do tipo de gente atrás desses filmes. Por exemplo: um cara magro, muito branco, cabelos escuros, oleosos, lisos e desalinhados, olheiras e uma camiseta de uma banda de heavy-metal norueguesa qualquer, entra e pede um filme “antigo”. Ele diz que no filme aparece Ozzy Osbourne e que o mesmo é sobre uns veteranos do Vietnã que tentam sabotar a campanha política de um candidato ao Senado…
- Pô, tem até aquele maluco do Easy Rider e do Apocalypse Now
- O Dennis Hooper?
- Essa figura aí mesmo…
- Ozzy Osbourne, né? Só um pouquinho…
Ligo pro meu “chefe” (alguém precisa, urgente, escrever um livro sobre esse cara…), dou a descrição do filme, e ele me manda essa:
- The American Way, 1986. Filme do Maurice Phillips. Ele pode estar também com o título de Riders of the Storm… Procura nas comédias, lá no fundo da loja, no canto da direita, perto do pôster do Spinal Tap. Mas esse filme é uma merda! Quem tá pedindo isso aí?
Desligo.
- Lá no final da loja, canto direito, do lado do pôster do Spinal TapRiders of the Storm. Pode estar como The American Way também. Qualquer dúvida me chama…
- Valeu Annabeth…
Ah! Não tinha dito? Sou uma garota que trabalha numa vídeo locadora esquecida num canto de uma cidadezinha do Missouri. Annabeth Berkley, prazer. E, sim, minha vida é uma merda.

Meu pai sempre trabalhou na linha de trem que corta Aurora de ponta a ponta. Mas como Aurora não é um grande ponto comercial ou turístico (a única estação que tínhamos deu lugar à Câmara do Comércio, como se Aurora precisasse disso), meu pai raramente trabalhava aqui na área ao redor da cidade. Ele cuidava do trajeto entre Springfield e Neosho e Aurora era mais um ponto nesse trajeto. E a nossa casa era mais uma das muitas casas em que ele tinha uma cama pra dormir nesse trajeto. E eu era mais um dos demais filhos que ele tinha nessas outras casas. Minha mãe sabia disso, eu sabia disso e ele também sabia que nós sabíamos. Mas disfarçava bem. Se bem que a indiferença que ele tinha por mim não me deixava perceber nem saber nada do que se passava na cabeça dele. Eu o via uma a cada sete semanas por isso, pra mim, ele era o cara que sempre transou com a minha mãe e que numa dessas transas algo deu errado e desse erro, puf, saiu eu. Desde pequena tinha essa noção de como as coisas funcionavam aqui em casa. Mas só depois que aprendi com algumas amigas (e um pouco na escola) sobre esse lance de sexo, homem e mulher, que consegui colocar tudo isso em palavras. Transa, coisas dando errado, erro e consequencia. Assim eu via minha “família” e minha existência.
No ano passado quando, depois de dois meses sem ele aparecer em casa, veio à notícia de que ele foi trabalhar bêbado numa certa noite, e que a luz de uma locomotiva o cegou por um momento, o fazendo tropeçar nos trilhos e fazendo-o parar no microscópio espaço entre a roda do trem e os trilhos, não foi um choque pra mim. E foi com surpresa que vi que nem para minha mãe foi. Ela recebeu um cheque de $12.000 do seguro de vida que, por alguma razão tinha o nome dela como beneficiária, me deu $8.000 e continuou sua vida. E eu? Bem, não tinha nada o que continuar, já que a morte dele não me fez parar. Eu estava andando, ele morreu, e eu ainda continuava andando. Ponto. Guardei o dinheiro. Mas foi estranho; não fiquei muito feliz em recebê-lo. Sei lá… Indiferente, talvez. E minha mãe? Bom, ele era o homem dela. Achei que ela ficaria mal, chateada, desolada. Mas, a única diferença entre ele e o Jeff, o atual namorado da minha mãe, era que com meu pai, ela me teve. Só isso. Nesse caso, ele era o homem dela. Mas não o único homem. E foi meio que um alívio pra ela, eu acho…
Eu nunca caí nessa de ficar chatea… Quer saber? Nunca antes falei tanto do “meu pai” e não sei o que tá me levando a dizer tudo isso agora. Nunca senti falta dele. Um pouco quando eu era pequena, e ele me trazia coisas compradas nas lojinhas das estações. Mas fui crescendo e entendo como funcionavam as coisas em casa e vi que ele não tinha assim tanta importância na minha vida, a ponto de eu sentir a sua falta. Por isso, ele morreu e não há nada nisso que venha interferir na minha vida. São palavras duras pra quem vê a coisa fora do contexto, mas é assim que as coisas são. Paciência.

A porta abre e o sinal eletrônico toca do lado direito, colado no umbral. Entra Casey Douglas. Notei que ele estava perto desde que vi o Mustang 85 dele descendo a North Elliot e parando no Casey’s pra abastecer. A capota estava baixada e Audrey estava do lado dele. J.C. e Anneth (muita gente confunde nossos nomes, o que me irrita profundamente) vinham no banco de trás, com J.C. praticando um novo “método” de salvamento de pessoas asfixiadas, onde sua boca trabalhava profusamente em todo o rosto da “vítima” Anneth, enquanto suas mãos trabalhavam de maneira desordenada e descontrolada sobre toda a extensão do peito dela, com suas mãos ora em um seio, ora no outro e na maior parte do tempo, nos dois de uma só vez.  Audrey só ria na frente. Casey pula no Mustang, sem abrir a porta (admito que aquilo me deixava extasiada) e saiu cantando os pneus, atravessando a rua, passando por cima da calçada e do pequeno gramado em frente ao estacionamento da Videomat e acelerando em direção à porta. Freia faltando 5 metros pra entrar com o Mustang locadora à dentro, salta do carro e vem em direção à porta. Entra. O sinal eletrônico toca. Mas podia disfarçar e não olhar para a porta para saber que era Casey Douglas que acabava de entrar na Videomat.
Se minha vida fosse um livro, fico pensando se Casey Douglas ganharia um capítulo só dele… O conheci em frente à minha casa, quando os pais dele chegaram a Aurora. Nós tínhamos seis anos e no pouco que eu tinha vivido, sabia que Casey era o ser humano mais bonito que já tinha visto em toda minha vida. Cabelos castanhos lisos, poucas sardas em cima de um nariz perfeitamente desenhado, e um jeito de andar que ele mantém até hoje, que ainda me faz desligar por uns 5 segundos quando passa. Eles se mudaram para três casas abaixo da minha, do outro lado da rua. Quando os vi chegando, com o Vista Cruiser carregado, com um pequeno baú da U-Haul engatado na traseira, corri atrás do carro e fiquei ali, do lado da caixa do correio deles, esperando-os descer. Vi o rosto sardento dele pelo vidro do carro e foi isso o que me fez correr até lá. O vi descer do carro e ali mesmo me apaixonei perdidamente por ele.
Eu nunca tinha sentido aquilo e achei muito estranho. Se bem que nunca tinha visto um garoto como ele, o que fez um pouco de sentido, e acabei ligando uma coisa à outra. Ele saiu do carro e veio na minha direção. Disse-me “oi”, mas fiquei ali, grudada na caixa do correio, quieta olhando pra ele. A Sra. Douglas também veio, dizendo alguma coisa sobre “amiguinha veio te dar as boas-vindas” e “qual seu nome” e “vamos, entre com a gente”, mas não tive reação nenhuma quando senti o arroz, a batata amassada e os pequenos pedaços de carne que minha mãe cortava e colocava no meu prato, subindo pela minha garganta, misturada com bílis, sendo expelidos pela minha boca e nariz, direto na direção de Casey Douglas e seu rosto sardento e seu cabelo liso.
Até hoje não entendi porque aquilo aconteceu. Eu não estava doente. A comida não estava estragada. Eu não tinha visto nenhuma lesma (sinto ânsias e enjoos só de ver uma lesma) pelo caminho. Não sei se foi o nervosismo, ou o fato de que não estava preparada para me relacionar com uma família tão bonita e estruturada como era a de Casey (pelo menos superficialmente). A verdade é que o convite da mãe dele para entrar com eles naquela casa acionou algo no meu cérebro, que instantaneamente enviou a resposta para um lugar errado do meu corpo (no caso, o estômago) me fazendo, ao invés de responder “sim” ou “não” ao convite dela, despejar meu almoço sobre o pobre garoto.
Não acredito que Casey Douglas seja uma má pessoa. Não mesmo. Você não o vê por aí colocando os novatos do colégio nus nos trilhos do trem, nem fumando maconha em lugares públicos, nem acertando caixas de correio com o bastão de baseball. Mas o que você faria com uma garota que vomitou em cima de você a primeira vez que a viu? Ignora? Não. Não mesmo. Você fala pra todo mundo e procura de todas as maneiras, provar pra todo mundo (e pra garota, inclusive) de que ela é uma completa fracassada. E você faz isso com atos e palavras, escritas e faladas.
Se você for até a parte de trás do ginásio da Aurora High School, na North Olive St., que foi onde passei a maior parte da minha vida, você vai ver pichado, com tinta acrílica preta, pequeno, mas visível: ANNABETH PUKEley (Annabeth Vômito).
Pra uma garota ter seu sobrenome atrelado à palavra vômito por durante todo o Ensino Fundamental e Médio é algo bastante complicado, por incrível que pareça. Inda mais se tratando de mim. Não me orgulho em fugir dos padrões tradicionais de alunos da Aurora High School. Sempre quis estar na equipe de torcida, na equipe de Matemática ou de Discurso. Mas não me sento à mesa dos artistas, nem dos nerds, nem dos atletas, nem dos drogados. Sou uma das freaks. Não escolhi ser uma deles. Mas fui empurrada. Foi o que me restou. Por isso não me orgulho em ser uma deles. Pois nunca, nem em meus piores pesadelos, os escolheria como primeira opção de amigos. E a cada vez que sento com eles esse pensamento me corrói e sinto que não mereço a atenção nem mesmo deles.
Mas criei uma personalidade pra mim (contra a minha vontade) de garota durona. Acho que nunca, nem no Fundamental, alguém me viu chorando ou me abalando por causa do lance do vômito. Todos já teriam esquecido isso logo na 3ª ou 4ª série. Até o Casey. Mas “agradeço” à Audrey Andrews por ter tornado minha deprimente existência em algo pior do que já era. Devo a ela a constante lembrança e o grito de ANNABETH PUKEley¹  em momentos “oportunos” o suficiente para aquilo se arrastar por todo o ano letivo restante, seja na 5ª série, seja no nosso último ano na escola.
Sempre torci por eles, Casey Douglas, Audrey e o resto da turma deles, pra que fossem aprovados em Columbia, ou outra universidade longe o bastante pra que eu pudesse ter um pouco de paz, já que eu mesma não iria pra universidade. Mas a proximidade da Drury University, em Monett, a pouco mais de 21 km de Aurora e a baixa capacidade intelectual de todos eles me fez perceber que Audrey e seu ANNABETH PUKEley não me deixaria em paz tão cedo.

- E aí, Pukeley! Anda vomitando muito sobre as pessoas? – ele entra, mal olha pra minha cara e vai se metendo no corredor dos filmes de ficção-científica.
- Sério mesmo, Douglas? Ainda? Até quando vocês vão me encher com esse lance do vômito? Doze anos, cara. Doze anos! Já não é o bastante?
Ele se estica por cima da prateleira de filmes, e consigo ver a aquela linda franja lisa e os belos olhos verdes escuros me encarando. Por pouco não vomito de emoção novamente.
- Ora, ora, ora… Então você se incomoda! Sempre tão indiferente, tão superior… Annabeth Berkley não é um replicante sem sentimentos! Por que, se fosse, eu teria que dar um jeito nisso – ele diz, levantando o VHS do Blade Runner.
- Que diabos você quer dizer com isso?
- Eu adoraria ter que te caçar, garota.
Barulho de LP saindo da rotação da agulha. O tempo para e eu não consigo discernir muito bem o que acabei de ouvir. A cena ganha uns chuviscos ao mesmo tempo em que vejo Casey Douglas andando para trás, fazendo os mesmos movimentos dos últimos 48seg., mas ao contrário. A cena para de novo e volta a se mexer, se repetindo novamente como antes.
A porta abre e o sinal eletrônico toca do lado direito, colado no umbral. Entra Casey Douglas.
(…)
- E aí, Pukeley! Anda vomitando muito sobre as pessoas? – Ele entra, mal olha pra minha cara e vai se metendo no corredor dos filmes de ficção-científica.
- Sério mesmo, Douglas? Ainda? Até quando vocês vão me encher com esse lance do vômito? Doze anos, cara. DOZE ANOS! Já não é o bastante?
Ele se estica por cima da prateleira de filmes, e consigo ver a aquela linda franja lisa e os belos olhos verdes escuros me encarando. Por pouco não vomito de emoção novamente.
- Ora, ora, ora… Então você se incomoda! Sempre tão indiferente, tão superior… Annabeth Berkley não é um replicante sem sentimentos! Por que, se fosse, eu teria que dar um jeito nisso – ele diz, levantando o VHS do Blade Runner.
- Que diabos você quer dizer com isso?
- Eu adoraria ter que te caçar, garota.
É. Não ouvi errado. Ele disse que adoraria ter que me caçar. Ao dizer isso, ele se volta, como se estivesse indo embora, mas ao invés de continuar andando porta afora, ele se vira para a direita e vem em direção ao balcão com uma cara de tarado. Não estava se lambendo, nem nada parecido. Só uma cara que eu nunca tinha visto nele nem em mais ninguém. Digo isso porque ninguém nunca olhou daquela forma pra mim. Mas ele olhava. E não parava. E não desviava o olhar. E eu não sabia o que fazer, onde colocar as mãos, nem pra onde olhar. Dava pequenas olhadas pra ele e quando via que ele continuava da mesma maneira, desviava o olhar e dava pequenas risadas nervosas.
- Que merda é essa, Douglas? O que você ta fazendo?
Ele continuou vindo, chegou ao balcão e colocou as duas mãos em cima, com os braços bem abertos.
- Como você disse, Berkley, doze anos. Nunca notou nada?
- Notar? Notar o que? Que você é um grande imbecil? Você acha que vomitei em você por querer? Acha que eu quis isso? Essa merda me acompanhou pro resto da minha miserável vida. O que você queria que eu notasse?
- Que coisa, Annabeth… Sempre tão na defensiva!
- Seu filho da mãe desgraçado! Isso é o que? Um maldito joguinho seu e dos seus amigos? Um último trote pra esquisitinha do colégio?
- Annie – nunca, ninguém em todo o universo tinha me chamado de Annie antes – não sei como pagar anos de brincadeiras de mau gosto com você. Queria contornar isso de alguma forma, mas sei que não vou conseguir.
“Eu adoraria ter que te caçar, garota”, “Nunca notou nada?” e “Annie”. Isso tudo já era demais pra míseros 3 minutos de conversa. Agora “Queria contornar isso de alguma forma” era demais. Em que maldito universo paralelo eu tinha me metido?
- Casey Douglas, ou você sai daqui agora ou eu chamo a polícia, desgraçado.
- Annie, fica calma e vem comigo.
- Ir contigo? Pra onde? Qual é a tua, Douglas?
- Faz de conta que você vai me ajudar a achar um filme, lá nas comédias no fundo da loja.
A vagabunda da Audrey buzinou nesse instante. Ambos olhamos e ela abanou freneticamente a mão, dizendo pro Casey pra eles irem. Ele espalmou a mão e fez sinal pra ela esperar. Pra mim ela só mostrou o dedo do meio.
- O que você está fazendo Casey?
- Ah, estamos progredindo… Me chamando pelo primeiro nome…
- Que merda, cara, qual é a tua?
- Annie, eu sei que…
- Para de me chamar assim, por favor… (não pare de me chamar assim, por favor!)
- Eu sei que te sacaneei demais todo esse tempo. Eu só queria que soubesse que nunca quis te tratar assim. Você foi a primeira pessoa que conheci em Aurora. Por mais que, bem, que aquilo tenha acontecido, eu nunca parei de pensar em você!
- Isso não se faz Casey. Para com isso, antes que alguma coisa muito ruim aconteça.
- Me ajuda a achar O Panaca, do Steve Martin?
- Você sabe onde fica. Já pegou esse maldito filme 38 vezes, desde que abriu sua conta aqui.
- Puxa, você contou… E quando foi que eu abri minha conta aqui nessa vídeo locadora?
- Há uns dois anos atrás, três dias depois que eu…
Miserável.
- Não pode ser…
- O que, Annie?
- Já disse pra não me chamar assim (continue a me chamar assim, POR FAVOR!).
- O que “não pode ser”?
- Seu maníaco desgraçado! Você está me seguindo!
- Não. Seguindo não.
- Como não!? Por que um cara como você abre uma conta numa locadora dessas, três dias depois que uma garota que você persegue na escola começa a trabalhar aqui e pega o mesmo filme 38 vezes? HEIN? POR QUÊ?
- Isso mesmo. Você sabe a resposta. Me ajuda a encontrar O Panaca?
Eu não conseguia acreditar em nada daquilo. Aquilo não fazia o menor sentido e mais do que qualquer outra coisa, eu estava assustada e fisicamente esgotada com a quantidade de informações que meu cérebro acabara de processar, analisando as entrelinhas desse diálogo todo.
Casey pega na minha mão disfarçadamente. Eu olho para aquilo e tento gravar aquela cena o mais forte possível na minha mente. Olho pra ele e ele balança a cabeça em direção às prateleiras das comédias. Solta a minha mão, depois de dar um leve aperto nela e como um zumbi, me encaminho para a parede dos fundos da loja, fora do campo de visão de quem estava do lado de fora da locadora, ou seja, Audrey, J.C. e Anneth. Ele me segue.
Quando chego em frente à prateleira, me viro e tomo um susto quando vejo Casey e seu rosto perfeito a menos de meio palmo do meu rosto. Com uma vontade e vigor surpreendente ele passa o braço direito pela minha cintura e a mão esquerda por trás da minha cabeça e puxa para junto de sua boca. Não mostro reação nenhuma nem vejo nada. Simplesmente fecho os olhos rapidamente e coloco minha língua na boca dele, lugar antes ocupado por sua língua que, nesse momento, se instala em minha boca e começa a dançar lá dentro, como se dançasse a última valsa de sua vida.
Não consegui definir muito bem os sentimentos que começaram a correr meu corpo naquele momento. Sim, meus sentimentos percorreram meu corpo inteiro naquele intervalo de tempo que não consegui definir quão longo (ou curto) foi. Só sei que quando ele parou e lentamente se afastou de mim, olhando profundamente nos meus olhos e sorrindo, eu tive a sensação de que poderia morrer ali naquele instante, que não ligaria.
Não chorei, não fiquei estática, muito menos vomitei em cima dele. Queria era bater, bater muito na cara dele. Mas não. Sequei minha boca, olhei também profundamente para seus olhos e perguntei:
- Por quê? Por que agora, Casey?
- Eu não podia suportar a ideia de que eu iria pra Drury e não daria isso pra você. Annie, eu nunca deixei de gostar de você. Desde aquele dia em frente à minha casa senti que algo em você era especial. Não me importei nem um pouco com a questão do vômito. Não mesmo. Mas Audrey… Bem, Audrey nunca gostou de você. E quando eu contei a ela o que aconteceu, na 1ª Série mesmo, ela fez questão de fazer daquilo a chave pra acabar com a sua vida. Audrey foi a primeira garota que beijei, quando tínhamos sete anos. Depois disso, nunca mais consegui me livrar dela. Mas foi em você, Annabeth, que pensei todos esses anos. Eu só queria te dar isso antes de sair da sua vida completamente. Vou pra Drury já na próxima semana, mas não volto mais para Aurora. Ouvi dizer que você não vai pra faculdade, que talvez fosse viajar…
- Pois é, eu… Eu acho que vou me mandar de Aurora também… Isso, viajar… Canadá, talvez Europa, sei lá…
- Pois é. Dificilmente nos veremos de novo. Eu só queria, com esse beijo, te pedir desculpas e me despedir, só isso.
O sinal eletrônico da porta toca novamente e vejo a cara nojenta de Audrey por cima das prateleiras.
- Qual é, Casey, vai se enrolar muito ainda? E aí, Pukeley? Como anda o estômago? Não vá vomitar no Casey de novo, hein!
- Não vou, Audrey. Prometo. Só não posso dizer o mesmo com relação a você.
- Não achamos O Panaca. Está locado.
- Que lindo Casey. Bom pra quem locou, não é mesmo? Vamos de uma vez!
Audrey sai, batendo a porta de vidro atrás dela. Casey se vira pra mim.
- Me desculpe por isso tudo. Por todos esses anos, Annie.
Com uma voz cansada e arrastada, exausta com tudo aquilo, só consegui mandar Casey sair da minha frente.
- Se manda daqui, cara. Doze anos de sofrimento não se consertam com um beijo simplesmente. Você é tão ou mais patético que seus amigos. Eu sabia que estava certa com relação a você. Suma daqui.
Mentira. Podem ter certeza que um beijo daqueles, vindo de Casey Douglas consertam SIM doze anos de sofrimento. Aquele foi o melhor dia da minha vida.

Sentei na poltrona S-12 do trem que me levaria até Toronto. Uma mochila e um jornal embaixo do braço. Estava ansiosa pra ler a notícia, mas primeiro me acomodei. Coloquei a mochila no compartimento em cima da minha poltrona, sentei, ajeitei os cabelos atrás da orelha e abri o Aurora Advertiser na página 43. Bem em cima, grandes letras negras: PRÉDIO DA LAUDROMAT E DA VIDEOMAT DESTRUÍDO POR UM INCÊNDIO. Polícia ainda tenta determinar se a origem das chamas foi acidental ou criminosa.
Eu não diria criminosa. Não foi por vingança, nem estava de olho no seguro daquela espelunca. Ninguém se machucou, nem morreu. Então, não entendo o porquê de tanto alarde. Eu só queria me mandar de Aurora. Essa foi uma das razões.
Mas a verdade é que eu não precisava mais da vídeo locadora. Não precisa mais agüentar gente esquisita me pedindo filmes desconhecidos, nem donas-de-casa atrás de desenhos animados para entreter o filho enquanto ela dava pro entregador do supermercado, durante o expediente do marido na concessionária da Ford, na South Elliot Ave. Não precisa mais daquilo. Casey Douglas tinha ido embora. Foi para Monett, começou a faculdade, estava dividindo um apartamento com Audrey e não precisava mais d’O Panaca. A vídeo locadora trouxe Casey para mim e me fez ganhar um beijo dele. Eu não precisava mais dela.

FIM


[1] N. do autor: PUKE é uma gíria para “vômito”. Aqui, a personagem Audrey faz referência à situação ocorrida com Annabeth ligando seu sobrenome, Berkley, com a gíria puke, formando um apelido.


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