A Sociedade – Parte II
Escritor: Andre Alves
- Se apressa, Vítor! Já tá na hora! Você quer me fazer chegar atrasado? – gritou Raul Correia, por trás da porta trancada.
- Tô quase acabando! – gritou Vítor de volta, amarrando o cadarço do tênis.
Pegou a mochila a seu lado e levantou-se da cama, apressado. Girou a chave da porta, que a escancarou quando puxou a maçaneta. Deu direto para a sala. Não era uma casa grande (nem tinha primeiro andar), muito menos tinha aparelhos de última geração (ficava surpreso como a televisão ainda ligava) e os móveis estavam bem gastos (os cupins já pagavam até aluguel). Era apenas mais uma casa de uma família de classe média baixa.
Uma buzinada veio do lado de fora da casa, junto a um ronco de motor.
- Já vou, mãe. – avisou, virando o rosto para a cozinha.
- Vá com Deus. – respondeu a mulher, lavando alguns pratos.
Entrou na garagem e saiu pelo portão de ferro. No canto da rua calçada, um Gol o esperava.
Sentado em frente ao volante estava um homem barbudo e careca, combinação nem um pouco atrativa, conhecido como Raul Correia. Como sempre, mantinha um semblante dócil e amigável mesmo com a pressa queimando sua paciência.
A luz dos postes e da lua, parada em um céu negro de nuvens escassas, fornecia uma pequena claridade. Nem mesmo a noite amenizava o calor de março, obrigando Vítor a derramar uma ou outra gota de suor na camisa azul que usava.
- Vamos, vamos! – apressava o homem, vendo o filho contornar o carro.
- Tudo pronto! – abriu a porta do carro e sentou-se no banco da frente. – Já pode tocar pro Norte, seu Raul.
- Da próxima vez se apresse mais um pouquinho. Eu tenho que chegar no horário, pra poder colocar comida na sua boca. – passou a primeira e colocou o carro em movimento. – E você? Por que está tão devagar hoje? Não há ninguém te esperando na escada?
- Sempre tem, pai! Desde que eu entrei pra universidade.
- E então, – sorriu malicioso. – você já afogou o ganso?
- Pode parar. Não vou falar disso com você! Isso não é da sua conta.
- Então isso quer dizer um não? – perguntou, sentindo um pouco de decepção. – Tá certo eu vou te dar umas dicas! Pra você levar ela pra cama, você primeiro tem que levar ela para um local apropriado. Lá, comece botando a mão na perna dela e vai subindo, bem deva…
- Pelo amor de Deus, pare com isso! Eu não sou mais um adolescente de catorze anos.
- Você não quer ouvir a voz da experiência? Se eu não tivesse me casado com sua mãe, você teria no mínimo duas madrastas por noite.
- Não me coloca uma imagem dessas na minha cabeça, por favor, eu posso ficar com problemas psicológicos.
- Você já é velho, não dá mais pra ter traumas psicológicos. Mas tudo bem, vamos mudar de assunto. Como estão os estudos? Qual foi sua última nota?
- Sabe, eu acho que eu não tenho uma pegada forte. Eu preciso dar uma apalpada na bunda ou algo assim?
- Não mude de assunto! – disse, perdendo o sorriso e tornando o semblante paterno. – Eu sei que em algumas matérias você não tem se saído bem.
- Confie em mim, pai. Minhas notas nessa matéria só vão aumentar.
- Assim espero, meu filho.
Pegaram mais outra rua, dessa vez bem mais larga, que cruzava quase metade da cidade e que passaria, daqui a alguns minutos, ao lado da universidade.
Bem à frente, uma estrela solitária cruzava o caminho deles, quase como se lhes indicasse o caminho. Depois de já estar lá há tanto tempo, ninguém mais a admirava…
Um Honda Civic negro parou em uma das vagas do estacionamento do primeiro setor da universidade, quase em frente à escadaria que leva ás salas. No volante, estava uma jovem de cerca de vinte anos e de rosto sério.
O estacionamento ficava mais cheio a cada segundo. Quem chegava se dirigia para a escadaria, soltando alguns olhares para dentro do carro da jovem quando passavam em sua frente. As mulheres pareciam olhá-la com um pouco de inveja, às vezes passando um pouco de desprezo, enquanto os homens a olhavam com sorrisos simpáticos ou, ao menos na tentativa, sedutores.
Antes de sair do carro, colocou a cabeça na frente do retrovisor e ajeitou algumas mechas do cabelo.
- Devia ter dado um jeito antes de sair de casa. – afirmou, com uma voz no mínimo magnífica.
Ao terminar, abriu o porta-luvas e tirou de lá duas facas, tinham perto de quinze centímetros e dentes em um dos lados.
Olhou para os dois lados do estacionamento e, quando percebeu que não havia ninguém por perto, levantou as pernas por sobre o volante e enfiou cada uma das facas por dentro das meias. Desceu as pernas e arrumou a calça de modo a encobrir as armas.
Pegou a bolsa sobre o banco do passageiro e verificou se não tinha esquecido a pistola em casa. Estava lá. Colocou a bolsa no ombro. Puxou um caderno e um livro do banco de trás e saiu do carro, travando-o com um apertar de botão.
A alguns metros dali, um gol vermelho entrou no estacionamento e não deixou de ser notado pelos olhos treinados da moça.
Dirigindo, vinha um senhor de barba grisalha e sem nenhum fio de cabelo. Entretanto, a garota concentrou mais atenção a quem vinha do lado dele, um jovem na faixa dos vinte anos de curtos cabelos negros e olhos da mesma cor. Tinha um nariz redondo e pele avermelhada que afirmava um pouco de descendência indígena. Também, era de um porte médio, mas não cultivava seus músculos.
Ao vê-lo, a garota alargou um sorriso, perdendo instantaneamente a seriedade.
- Falei que ela estaria esperando. – disse Vítor.
- Nunca termine com ela, filho. Ela é a nora que eu sempre pedi a Deus.
- Pelo amor de Deus, eu nunca irei apresentar você a ela!
- Não me diga que tem medo do seu velho pai?
- Claro que sim. Se ela tiver um infarto por causa do susto, eu nunca iria me perdoar.
O carro parou bem em frente à jovem, e Vítor desceu em meio a risos.
- Eu volto de ônibus hoje. – afirmou, ao se distanciar.
O pai confirmou com um abanar de cabeça e, antes de colocar o carro para andar, mostrou um largo sorriso para a garota ao lado do filho, que foi retribuído gentilmente.
Quando o pai já estava um pouco distante, Vítor virou-se para a namorada, colocando um sorriso apaixonado no rosto ao admirá-la de cima a baixo. Como alguém não poderia amar uma mulher assim?
Os cabelos macios brilhavam em baixo da pouca luz que iluminava a noite, bem-tratados por uma vaidade incontestável. O sorriso, com seus lábios delicados e de batom docemente avermelhado, transbordava confiança e ousadia, clamando por um beijo. Os olhos deixavam transparecer toda sua alma, serena e alegre, mas que sabia o momento certo de agir e se impor.
Não havia mulher no mundo que tivesse uma pele como a do rosto dela, macia, delicada e de beleza surreal.
Pernas grossas e quadril largo. E os seios… Meu Deus, os seios… pareciam…
- Ei, baby, eu estou aqui em cima! – sorriu ela, com um sotaque que se perdia enquanto os anos passavam. Ela se mudou há quase três anos para o Brasil, acompanhando a mãe, Michelle Proud, a qual Vítor ainda não teve o prazer de conhecer e que veio para ser a presidente da filial de uma multinacional que Vítor nunca teve interesse em saber o nome…
- Oh, sim… Como é que está, Jennifer? – deu-lhe um beijo nos lábios, refrescando-se com a quentura e maciez.
- Seu pai parece ser legal. – disse ela, virando-se para subir a escada.
- Ele é. Mas nunca confie nele perto de uma mulher. – aconselhou, acompanhando-a de mãos dadas. Começaram a subir a escadaria. – E então? Como é que está esse ombro? – tocou de leve em um local mais volumoso por debaixo da blusa onde o curativo se escondia.
- Está melhorando aos poucos. Dói pouco agora.
- Já faz mais de duas semanas, não é?
- Foi uma queda feia. – mentiu ela. – Talvez eu tire essa semana.
- É, essas duas semanas tem sido bem difíceis pra mim. – brincou.
- Minha dor não conta, não é?
- Minha abstinência também não?
- Muito engraçado, você. – sorriu, dando uma cotovelada de leve em seu braço.
Subiram o último degrau e andaram pela passagem de concreto entre a areia até chegar ao Bloco H. Meia dúzia de salas se alinhava em um dos prédios do complexo de salas, estes ligados entre si por um único corredor perpendicular.
Chegaram à calçada do Bloco e caminharam até a sala onde tinham suas aulas. Depois de um leve desvio de um grupo de pessoas que conversavam em frente à primeira sala, tomando de um lado ao outro a calçada, foram interrompidos:
- Bora, Vítor! – cumprimentou um dos homens do grupo, de um nariz de tamanho considerável, estendendo-lhe a mão. – E como está minha querida Jennifer?
- Muito bem. – disse a jovem, acenando com a mão.
- Já faz duas semanas, Mion. – sorriu Vítor, apertando a mão do homem. – Já conseguiu se recuperar do carnaval?
- E já estou no ponto pra semana-santa.
- Te vejo mais tarde. – afirmou Vítor, distanciando-se.
Em frente a H3 – a sala onde os dois estudavam – outro grupo também se formava. Era um bando de vinte pessoas de várias idades, desde o início da maturidade até a faixa dos cinqüenta, e dos dois sexos.
- Boa noite. – desejou Jennifer, ao se aproximar. Largou a mão de Vítor e cumprimentou a beijos no rosto cada uma do círculo de amigas.
- Boa noite, pessoal. – disse Vítor, beijando o rosto de uma ou outra até ser chamado por alguém mais distante no grupo…
- Ei, Vítor, venha aqui. – chamou um homem de pouco mais de trinta anos, franzino e de uma robusta barba, conversando com outras cinco pessoas. – Venha desempatar a discussão, aqui.
- É o são-paulino safado fazendo confusão de novo? – riu, sob os protestos do mais velho do grupo. – Deixa eu chegar que eu boto ele no canto. – adiantou-se na direção dos amigos, deixando Jennifer conversando mais atrás e distribuindo alguns apertos de mãos no caminho.
- Já ouviu alguém dizer que o São Paulo tem chance de ser campeão esse ano?
- Se o mundo for acabar logo depois do campeonato, é até possível.
- Qual é o ano que o São Paulo não disputa o título? – protestou o velho.
Pelo canto do olho o rapaz viu uma mulher, na faixa dos trinta anos, se aproximar. De aspecto calmo e inteligente e de baixa estatura, ela passou entre os homens que cessavam suas conversasaos poucos.
- Vamos lá, pessoal? – chamou a mulher, entrando na sala. – Nada de futebol, até o intervalo.
- Deixa que, mais tarde, eu digo as razões deu ter certeza de que o Flamengo será campeão mais uma vez esse ano. Depois que eu acabar vocês vão até ter certeza que o Sport nunca passou nem do segundo lugar!
- Deixem o futebol pra outra hora, crianças. – pediu a professora.
Todas as pessoas do lado de fora acompanharam a mulher sem reclamar, dirigind-se para as cadeiras de frente para o quadro branco, enquanto que ela, para a mesa do professor.
Vítor se encontrou novamente com Jennifer na entrada para a sala e ele a deixou passar a sua frente. Os dois caminharam para as últimas cadeiras das primeiras fileiras e sentaram-se um do lado do outro.
Vítor soltou a mochila de lado, enquanto Jennifer ajeitou a bolsa e os livros sobre a carteira. Uma mecha de cabelo caía em frente ao seu rosto e ela ajeitou-a para trás da orelha…
- O que é isso? – perguntou Vítor, confuso. Aproximou uma das mãos para garota e distanciou uma das mechas do cabelo até ver o couro cabeludo.
A alguns centímetros acima da orelha esquerda, havia uma cicatriz de dois ou três centímetros em forma de meia-lua. Vítor nunca a havia visto.
- Isso é novo? – perguntou. – Nunca vi isso.
A jovem afastou a mão do namorado e ajeitou os cabelos, com um pouco de impaciência.
- Está mais atento, agora? – perguntou ela, retoricamente, e explicou, em seguida: – Tenho isso desde os seis anos. Uma lembrança não tão boa de uma das árvores do Central Park.
- Mas como eu nunca vi isso? – repetiu.
- Não é algo que dê pra reparar tão facilmente, e eu também não saio mostrando. – afirmou. – Me impressionei por alguém ter reparado.
- Vamos lá, gente! – chamou a professora.
Os alunos se endireitaram nas cadeiras, inclusive Vítor, esquecendo momentaneamente do assunto que tratava com Jennifer, esta que abria o caderno e fingia também esquecer o tópico, conseguindo facilmente mascarar seu alívio.
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Essa parte, realmente, ficou muito sem graça, mas tinha que ser colocada. Mas vai melhorar, pode ter certeza.
Pode ter menos ação, mas tem que ter uma parte para apresentar os personagens e deixar algums suspeitaS, não é mesmo?Essa parte levantou boas suspeitas.Estou no aguardo da continuação!
já coloquei a próxima parte pra revisão, vamos esperar… Na verdade, foram duas de uma vez só. xP
essa parte ficou sem nenhuma ação,mas continue assim que a historia ta ficando mas interessante.
e eu to bem curiosa pra saber o que vai acontecer.
Ação zero, só introdução de personagem mesmo…
Guns, vai chegar a parte 2 não?
*correção* Guns, vai vir a parte 3 não?
Sim, claro.
soon…
Pessoal, faz até um tempo q eu não comento nem posto nada, mas foi por um bom motivo: terminei meu primeiro romance, As Nove Famílias. Na verdade, já estava pronto desde o ano passado, mas fiz algumas revisões.
Trata-se exatamente da continuação desta série aqui, mas com um outro nome! Ficou bom, ao menos é isso q me disseram… Pois bem, quem estiver interessado, passa lá no site do agbook e dá uma procurada! E deixa um comentário claro!
O link é este aqui: http://www.agbook.com.br/book/125050–As_Noves_Familias . Lá tem a sinopse do livros e as primeiras páginas para darem uma lida!
E, moderador, libera aí o link, por favor!! Agradeceria muito!