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Nov
22
2010

Apocalipse

Escritor: Ivan Mizanzuk

apocalipse

            Não sabia como escrever. Alfabetizado sim, escritor jamais. Há um abismo entre os dois termos, e este o engolia.

            Frequentava cursos literários como forma de tentar aperfeiçoar a arte. Exercícios, leituras, continuava medíocre. Prosa pobre, ritmo enfadonho, imaginação nula.

            Certa madrugada, horas abaixo do velho abajur, escreveu chuva, e começou a chover. Riu da coincidência.

            O resto do poema não aparecia. Deixou o papel intocado, a úmida palavra solitária gravada. O dilúvio continuava se revelando pela janela.

            Por dias os céus caíram, enterrando definitivamente o poema desejado.

            Na aula seguinte, levou apenas a chuva. Disse não ser capaz de escrever outra coisa. Riram.

            Frustrado, voltou para casa. Rasgou o papel e jogou-o no lixo. No mesmo instante, a chuva parou. Dessa vez, nem um sorriso. Admirou.

            Sua alma nublou-se instantaneamente. Sentia-se livre de qualquer canibalismo existencial – uma liberdade insuportável. Liberdade cinza, amarga. Concluiu: o artista é um pecador. Criar é ato divino. Tornava-se assim, finalmente, escritor.

            Imprudente, escreveu na mesma noite a palavra “Morte”. Em seguida, dormiu como um Deus.


Written by Mizanzuk in: Contos,Ivan Mizanzuk | Tags: , ,

33 Comments»

  • Franz Lima says:

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    Legal sua associação entre a escrita (a criação literária) e um dom semi-divino. Boa idéia!!!

    • Ivan Mizanzuk says:

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      Obrigadão Franz! Esse pequeno conto foi uma ideia que tive em uma aula de criação literária, por sinal. O tema era justamente para escrever sobre um aluno que frequentava um curso daquele tipo. Juntei com minha paixão por literatura fantástica e deu nisso. hehe

  • Samila says:

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    boa associação, mas não gostei do final… ele poderia ter feito mais, ido além…

    • Andrey Ximenez says:

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      Ou não…
      -
      Gostei bastante… bastante mesmo. Nâo tenho uma critica negativa em relação ao texto.

      • Ivan Mizanzuk says:

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        Samila e Andrey: obrigado pelos seus comentários.
        Sobre a questão de eu não ter ido mais além, caso eu o fizesse, perderia muito da força que trouxe nesse estilo mais conciso. Originalmente, o conto tinha umas 3 páginas – e muito ruim. Mudei o ponto de vista, deixei-o um pouco mais aberto (adoro pontas soltas) e me satisfiz com o resultado final. Talvez a ideia se torne futuramente um pequeno romance, mas ainda é cedo para falar qualquer coisa. De qualquer maneira, gosto do fôlego que ele tem e das (in)conclusões que o leitor pode se permitir a ter dele.

        Andrey, obrigado pelo elogio. Fico muito feliz com ele. =)

        • Andrey Ximenez says:

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          Entendo o q vc diz sobre deixar pontas soltas. É isso ai mesmo tche, tem q deixar mesmo, fazer o leitor virar um pouco dono do texto, escritor tb.
          -
          É dificil eu não achar uma falha em um texto kra, então fike duplamente feliz com o elogio, é merecido ;)

          • Ivan Mizanzuk says:

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            Poxa, obrigadão pelas palavras, Andrey. Sou realmente muito fã de pontas soltas. E é ótimo quando os leitores apreciam! Nem todos são assim. hehe

    • Thumb up 1 Thumb down 0

      Droga… comigo não funciona. Não apareceu dinheiro aqui para mim! :o

      Hehe.. Gostei muito, bem escrito. Poético. :-)

      • Ivan Mizanzuk says:

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        Pior que eu também tentei a tática do dinheiro e não rolou. Quem sabe com persistência a coisa anda, né? haha

        • Thumb up 0 Thumb down 0

          Meu Deus!

          Se o que eu escrevesse fosse realidade, seria responsável por suicidio e o Guns ficaria rico!

          Se fosse a Samila todos seriamos yaoi!

          Graças a Deus que não é assim que as coisas funcionam!

          Gostei deste conto, foi muito criativo e não gastou mais palavras do que o necessário.

  • Vinicius Maboni says:

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    Muito bom!
    Escrever sobre alguem que escreve é facinante(vide A sombra do vento e a menina que roubava livros).
    Agora escrever sobre alguem que não consegue escrever sem parecer redação de 5° ano é uma arte nobre!
    Parabens! Gostei mesmo.

    • Ivan Mizanzuk says:

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      Obrigadão, Vinicius! Ainda não li A Sombra do Vento, mas me interessei pela dica! Correrei atrás! =)

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Wow… Me impressionou! Fui pego completamente desprevinido. Muito legal, mesmo!

  • Asami says:

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    Bela associação… bela escrita, bela conclusão. Ótimo conto, conciso e arrebatador. Adorei!

  • Sanchez says:

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    bom, bem bom mesmo! gostei!

  • Thainá Gomes says:

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    Muito bom !

  • Ivan Mizanzuk says:

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    Obrigado a todos que estão curtindo o texto! Em breve eu postarei algo de novo. Espero poder agradar tanto quanto o fiz aqui! hehe

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    carai… ja havia escrito algo nessa linha. Mas, ficou bom desse jeito nao.
    -
    parabens, cara. So achei o final meio acelerado demais, sem drama. Acho que dava pra levar a personagem em direcao a palavra morte com mais estilo

  • John Macedo says:

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    A ideia é muito boa. Pena que o conto foi bem curto. mas ultimamente já nem sei se isso é um defeito. De resto, meus parabens.

  • Thumb up 0 Thumb down 1

    Muito boa! Adorei o texto, Ivan. Idéia. Não escreveu de mais nem de menos. Ficou na medida! demais! Só elogios.

  • RodrigoBS says:

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    Ba… gostei.
    Fiquei admirado em como tu conseguiu ser rápido sem deixar buracos que prejudicassem a narrativa.
    Achei um texto focado e leve. Poético, como vários já disseram. Adorei o final. :D

  • natan says:

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    oi eu tenho 9 anos eu sempre leio suas ahistórias são muitos boas vc é muito bom tem um dom muito raro pra mim adoro suas histórias

  • Andre Manente says:

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    Realmente, ótimo.

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    Muito bom!

    Curto? Não. Na medida certa digo eu.

    Gostei muito, parabéns! :-)

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    Me lembrou Ink Heart, por escrever e acontecer. No caso de Coracão de Tinta.. ele lia e acontecia. :-)

  • Vitor Vitali says:

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    Hm, bem poético. Legal. :)

  • Aldo Fernando says:

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    Muito bom. Parabéns.

  • Pedro Torres says:

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    Putz, que legal, imagine se eu tivesse esse poder…
    .-.
    seria uito bisonho.
    mas enfim, mto bom esse conto.
    =D

  • Lord Jessé says:

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    Bacana!!!
    -
    O problema foi que, qd ele rasga o papel e para de chover, eu imaginei que ele escreveria “morte”, ou coisa do tipo.
    - Mas é isso ai, parabéns

  • lobaempeledeovelha says:

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    Devorei este conto lentamente,absorvendo suas emoções e sensações instigantes.
    Considere-se minha sobremesa caro autor.
    rs…rs

  • Ana Bourg says:

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    “dinheiro!” [2]

    Realmente gostei desse trecho “a úmida palavra solitária gravada.” – é legal fazer esse tipo de brincadeira com as palavras.

    Ficou muito simpático esse texto e considerando que ele é bem antigo (né?) acredito que está bastante bom para um começo de carreira. XD

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    Cara, muito legal o texto. Também iria adorar que a palavra “Dinheiro” funcionasse, mas quem sabe se eu testar com a palavra “Paz” não tenha mais sorte, não é?

    Parabéns mesmo. Um texto curto mais que jorra criatividade.

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