Espelhos
Escritor: Leonardo Lazo

Clarice adorava flores, de todas as formas e tamanhos, acordava cedo para colher amoras e regar suas petúnias. Sua casa era pequena, mas bem cuidada, ao lado de um rio estreito com um moinho d’água construído por seu marido. Por trás de toda delicadeza, simpatia e simplicidade, Clarice escondia um segredo de todos que a conhecia, quando criança, foi espancada e estuprada por seu próprio irmão que perseguido fugiu jurando breve retorno. O tempo passou e Clarice sobreviveu ao tempo e esqueceu dos problemas de infância graças a sua família, encontrando um sentido para viver em seus filhos e o amor incondicional de seu marido.
O sol se punha e as crianças corriam pela casa, o aroma vindo da cozinha faria qualquer anão entrar em frenesi e o sorriso estava estampado nos rostos da família, faltavam poucas horas para que Téros chega-se. Seu trabalho na construção das muralhas da cidade de Tenuor era árduo e quando o senhor deu a ordem para o final do expediente, Téros correu, recusou como sempre o convite dos amigos para saborear o famoso hidromel do velho Golmunih e partiu. O caminho parecia mais longo aquele dia, por mais que ele corria o coração apertava, a saudade batia e a lembrança de como era bom estar em casa o deixava mais empolgado. Ao longe sentiu o aroma do jantar e esquecendo do duro dia de trabalho sorriu e pesou alto: bolo de amoras.
A passos largos, Téros chegou jogando de lado seus objetos pessoais e gritou que havia chegado, deu dois passos e escorregou em algo que a primeira vista parecia óleo negro das terras áridas, mas era sangue. O desespero tomou conta dele, e de relance olhou os corpos estirados de seus filhos. Uma tontura abateu o forte Téros, ele cambaleou até os pequenos, fechou seus olhos com as mãos tremulas, mas não conseguiu chorar. Levantou os olhos para dentro da cozinha e viu um rastro largo de sangue que passava de lá ao quarto. Foi então que as lagrimas escorreram de seu rosto, em um surto de pânico levantou-se, correu desajeitado para dentro do quarto e desabou ao ver Clarice seminua, ensangüentada, pálida e sem vida.
Téros antes de conhecer Clarice também tinha seus segredos. Ele passou uma boa parte da vida servindo aos seus próprios princípios até conhecer o amor. Clarice era sua alma, sua esperança e juntos eram como um só. O magnetismo único que os moldava fazia com que um soube-se do outro sem estar próximo. Téros segurou o choro, investigou a casa e percebeu um rastro mórbido e doentio deixando seu lar. Pensou, posso dar um funeral a minha família ou perseguir a maldita criatura. Pegou sua antiga espada de duas mãos do baú enferrujado, uma cota de malha, as botas de aço e os punhais do cinturão, enrolou o bolo de amoras em um pano, acendeu uma antiga tocha no fogão e incendiou a casa. Antes de partir deu um ligeiro beijo em Clarice sem olhá-la profundamente e arrancou de seu pescoço um amuleto que havia lhe dado no dia de sua união. O fogo alastrou-se pela pequenina casa em pouco tempo e Téros saiu pela porta da frente seguindo seu rastro de vingança.
Dias e noites pela floresta adentro, Téros enfrentou o frio, o calor, a fome, inimigos que desejavam seus pertences e monstros sua carne, mas ele não desistiu, muito mesmo murmurou, era o velho e grande guerreiro de volta aos dias de glória e carnificina. Apreensivo, ele ficou quando felizmente sua trilha havia chegado ao fim, saindo da floresta, por trás dos últimos galhos, avistou a pequena torre branca que lhe era familiar.
LithDurf, a torre dos espelhos, era uma construção de aproximadamente doze metros de altura, branca com um musgo negro corroendo suas largas vendas do tempo. Por um minuto o grande guerreiro hesitou sua entrada lembrando de um velho conto mistificado pelos anciões de sua aldeia natal. A torre dos espelhos era feita de uma magia antiga, e quem ousa chegar no fim de seus degraus não volta para casa da mesma forma que viera, algo seria perdido, escolhido, modificado, era o preço. Téros suspirou fundo, olhou para os lados e respondeu pra si mesmo, que não existia mais volta e assim deu o primeiro passo. Cuidadosamente ele foi adentrando a torre, subindo um degrau de cada vez, uma eternidade passou por sua cabeça, mas em poucos instantes ele estava ali, no ultimo degrau. A sala tinha um formato circular, não havia janelas mas era bem iluminada por uma luz que vinha do alto, no chão, ladrilhos acinzentados formavam uma estrela de oito pontas e cada uma delas apontavam para um grande espelho. Não ouvira sequer um som, um ruído e em sua pele não sentia a brisa, mas o ar não lhe faltava. Caminhou até o centro da sala e sentiu um frio gélido percorrendo sua espinha, fazendo todos os pelos do seu corpo arrepiar, sorriu, alongou as costas e caminhou até o primeiro espelho ha sua frente. Sim, era madeira de lei, um ornamento perfeito e detalhes exóticos a cada palmo que constituía a moldura, mas de certo, o que chamou a atenção do guerreiro, foram as letras antigas, que o fizeram espichar os olhos forçando sua memória a lembrar dos ensinamentos de seu velho pai, fazendo com que sua mente localizasse a resposta, “morte”.
Seus olhos moveram para o centro do espelho onde sua imagem refletida desapareceu e em seguida foi substituída por passagens de sua vida onde o tema maior era a morte. Téros dentre elas se viu carregar o corpo de seu pai até uma funda cova na planície de Balidan, viu seu amigo Polus ser esfaqueado pelas costas por seu próprio irmão Casius, viu as mortes da batalha de Leon contra os exércitos da dama da noite, viu o ultimo sopro de vida do anão Dougan Martelo de Prata, viu as lagrimas de um grifo negro formarem bolhas de sangue do pântano congelado. Téros sentiu um gosto amargo na boca quando tudo terminou de repente, e ele se viu novamente na sala de LithDurf, balançou a cabeça e andou até o grande espelho oposto.
“Vida”, esta era a palavra, e novamente Téros se perdeu nas visões do espelho e dentre elas viu seu nascimento em Balidan, viu quando salvou a vida da pequena Jasmin das correntezas do rio Badan, viu o pulo e seu corpo sendo atingido pela flecha do elfo negro que tinha em mira o valente Saramur, viu sua espada cortar o braço do soldado goblin antes dele conseguir degolar seu primo Tharant e o nascimento de seus dois filhos. Téros se emocionou e soltou um sorriso enquanto caminhava para o espelho ao lado, ele estava curioso, intrigado e não pensou duas vezes em continuar.
O guerreiro se sentiu confortável quando leu a palavra “glória” no espelho seguinte, tendo a sensação de que aquele seria seu espelho predileto e em instantes ele se viu recebendo flores das amazonas, viu os padres de Turin rezando pelo seu bem, viu a mãe de Jasmin rogar teu nome como um deus e viu todos sorrindo todas as vezes que ele entrava na hospedaria do velho Golmunih. Ele se sentiu mais feliz e correu para o espelho do lado oposto, e percebeu a armadinha quando leu rapidamente a palavra “orgulho”. Téros se viu como nunca houvera imaginado, se viu aproveitando dos amigos na hospedaria para não pagar nada, se viu esperando o mínimo de gratidão das amazonas, se viu renegar os moribundos enquanto recebia um banquete em Badan, se viu apostar com os amigos que seria o dono da cidade se derrota-se o elfo negro e se viu diversas vezes dizendo que Clarice serie eternamente sua. Téros se sentiu perdido e a voz da sua consciência soou como sinos badalando na sua cabeça, ele nunca imaginou que perderia Clarice para a morte. Nada fazia sentido, por que os rastros o levaram para aquele lugar? Por que em LithDurf? Agora era tarde, pois só lhe restava continuar.
Sem escolher ele chegou ao espelho da “coragem”, e viu todos os esforços para acreditar em si mesmo e continuar, mesmo quando tudo estava perdido e as chances de vitória eram zero. Andou até o espelho oposto e leu “medo”, revivendo todos os momentos em que ele hesitou em continuar e se deixar levar pelo caminho mais fácil, menos nobre e pouco complicado.
Faltavam apenas dois, não sabia ao certo o que lhe aconteceria, mas tinha a certeza que sairia de lá com um novo pensamento, uma nova visão de tudo que fazia parte deste homem, guerreiro, humano. O próximo espelho continha a palavra “dor”, mas ele não viu as dores que lhe foram causadas, ele praticamente sentiu a dor do goblin quando Téros decepará seu braço, sua espada de duas mãos cortar o elfo negro ao meio, Polus sofrer decepcionado com a traição de Casius e Clarice, pelo menos uma vez ao dia, lembrar do terrível ato cometido por seu irmão. A ultima visão foi de mais para o guerreiro, ver o sofrimento de Clarice não era nem de perto tudo que ele havia enfrentado na vida. Ele percebeu que o que sentia por ela era maior que tudo, era sua direção, seu caminho, sua inspiração, seu destino, era seu escudo e sua espada, seu começo e fim e nem a morte ou a vida, nem a glória e o orgulho, nem a coragem e o medo, muito menos a dor de perdê-la poderiam substituir o que ele sentia por Clarice. Ele cambaleou até o espelho oposto, e em sua moldura estava escrito “amor”, seus olhos paralisaram de forma inconsciente e Téros viu apenas uma imagem, Clarice.
O guerreiro ficou por horas preso em sua mente, sem mexer um músculo, ele evitou até mesmo piscar, foi então que as lagrimas cessaram, o corpo tomou uma postura firme, suas mãos percorreram o cabo da grande espada e com um golpe ele estilhaçou o espelho. Téros viu a imagem de Clarice desaparecer e dar lugar a estilhaços que feriam sua carne de todas as formas, de todas as maneiras, tudo em câmera lenta. A dor física tomou conta do seu corpo, o glorioso guerreiro mesmo assim não murmurou, firme, rígido, orgulhoso ele levantou a cabeça, mais uma vez enfrentando a morte, Téros deu um longo e libertador suspiro, depois deu dois passos para trás, virou-se em direção as escadas e partiu.
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ótima história!
continue assim.
[]s
adorei! Parabéns!
A história em si é muito bonita, principalmente a parte dos espelhos, que eu achei magnífica. Me surpreendi com o espelho da dor.
Daria uma ótima saga, mas está muito boa.
Carece de uma revisão na gramática, entretanto.
Pelo que vejo és jovem. Um longo caminho te espera, assim como ao guerreiro, mas tens tudo para ser vencedor. Parabéns.
Há muitos elementos similares aos personagens de Tolkien na trilogia dos anéis, Hobbit e Contos inacabados. Pena que as similaridades param por aí. Percebi seu esforço para dar vida a Téros. É fácil ver que tem potencial, mas erros ortográficos, narrativa acelerada demais, falta de pontuação e deslizes gramaticais impedem ou atrapalham a compreensão. Sugiro uma revisão rigorosa e um melhor desenvolvimento da trama que, como disse, pode ficar muito melhor. Boa-sorte e continue sempre escrevendo…