Forja da Justiça
Escritor: Andre Alves
- Tranquem os portões! Tranquem os portões!
Um amontoado de soldados correu para os portões duplos, embainhando suas espadas novamente. Meia dúzia deles agarrou uma tora de madeira e a prenderam nas aparas que se estendiam pelos portões, enquanto que o resto escorava-se na madeira grossa dos portões e colocava toda a força que podia para mantê-las fechadas.
A frente deles um castelo magnífico feito de pedras negras se estendia ao céu com suas torres altas. Toda a área era circundada por uma muralha, e era ela que estava para ser destruída por um exército de apenas um homem.
- Não o deixem entrar! – ordenou o comandante, agitando-se de um lado ao outro por baixo de sua armadura prateada. – Ele vai matar a todos nós se entrar, estão ouvindo?
Em todo o jardim, alguns arqueiros arremessavam suas flechas a esmo por sobre a muralha e o portão. A chance de acertarem o alvo era minúscula, mas não havia nenhuma outra opção.
Um baque poderoso agitou os portões, empurrando-os com violência, mas sem conseguir abri-las. Mais um, e os soldados foram arremessados dois passos para frente, mas logo voltaram a imprensar o ombro contra os portões. Um terceiro golpe foi desferido e mais uma vez o caminho não foi aberto. Felizmente, depois deste parecia que não haveria o próximo.
Um dos soldados logo liberou um sorriso em seus lábios:
- Será que nós conseguimos? Pelos deuses, será que ele desis… – algo bateu em sua nuca e perfurou sua pele e ossos até chegar ao cérebro. Caiu de joelhos no chão, levando as mãos à ferida e notando algo preso ao seu corpo.
Os outros soldados se sobressaltaram, afastando-se do companheiro caído. Viram desesperados um tentáculo agitar-se no pescoço de sua vítima, com sua extremidade maior presa ao corpo dela. Parecia estar vivo por debaixo de um revestimento de elos de metal, reagindo às mãos que tentavam arrancá-las da carne.
- Da onde isso saiu? – perguntou o comandante.
- Por debaixo dos portões. – afirmou o soldado mais próximo, afastando-se da muralha.
De repente, o tentáculo parou de mover-se, e junto a ele todo o corpo da vítima paralisou-se por um único segundo, como se estivesse a escutar suas novas ordens…
A mão do soldado voou para a espada e desembainhou-a, enquanto suas pernas colocavam-no novamente de pé. Ele avançou contra o companheiro mais próximo e tirou seu sangue sem piedade. Seus olhos não mais possuíam íris e pupilas, por isso seria difícil dizer se ele estava cego ou se tinha apenas uma visão turva dos fatos.
Atacou mais uma vez quem estava próximo ao portão, deixando-o livre para a criatura que tentava penetrar as muralhas. Golpeou a esmo quem se aproximava, abrindo espaço.
Por fim, apenas mais um baque foi suficiente para quebrar a tora de madeira que trancava os portões. A entrada foi escancarada e uma criatura surgiu entre as dobradiças.
Ele era um ser de quase três metros de altura, e também em três eram seus braços. Levava duas espadas no par de braços esquerdos e um escudo – este de cor azul, mas com estrelas brancas pintadas em toda a sua área – no único braço direito.
Usava uma armadura esbranquiçada que cobria seu corpo por inteiro, sem deixar um único espaço vazio. Porém, os anos de batalhas e sangue derramado deixaram listras vermelhas por toda sua extensão, como pinturas eternas.
Não é possível ver o rosto da criatura, pois está completamente escondido por debaixo do elmo também branco e de listras vermelhas. No entanto, de sua nuca era possível ver doze tentáculos penderem, como se cabelos fossem – com o que ainda estava preso ao cérebro do soldado, eram ao todo treze.
- Ataquem! Ataquem! – ordenou o comandante, afastando-se do campo de batalha.
Flechas foram lançadas contra o corpo da criatura, porém a maioria atingiu o escudo ou então a armadura, sem trazer nenhum perigo ao alvo. Entretanto, ao lado dele, o soldado sob seu comando caiu de joelhos pela segunda vez, embora, naquele momento, tivesse dois projéteis presos ao seu peito.
- Você foi de grande auxílio, soldado. – afirmou a criatura, com uma voz que não parecia nem um pouco humana. – Um aliado corajoso que serviu perfeitamente aos interesses da justiça e que terá minha gratidão eterna.
O tentáculo soltou-se da nuca do soldado no momento em que ele tombava no chão sem vida. Subiu pela perna do seu verdadeiro dono e juntou-se aos seus iguais na nuca da criatura.
- Vocês estão contra o interesse da deusa da justiça. – afirmou a criatura, com o escudo erguido. – Possuo o direito e o dever de mostrar-lhes o caminho certo para seguirem. Esta é minha obrigação como ser superior e mais desenvolvido.
- Matem-no, pelo amor dos deuses! – urrou o comandante, às portas do castelo.
- Reação não será admitida. Eu vim para salvá-los, mas não pouparei esforços para derrotá-los caso continuem a me atacar. Seus deuses não os ajudarão, pois apenas a deusa a quem sirvo é a certa a ser seguida. Ela me ensinou as crenças corretas, a cultura correta e as atitudes corretas e como bom servo irei ensiná-los. – a espada gigantesca arrancou a cabeça de um dos soldados que corria para o ataque. – Queiram vocês ou não.
Um homem de longas vestes vermelhas se desesperava com as mãos rígidas sobre o peitoril da varanda de seu quarto. O suor escorria pela sua barba longa e grisalha e sobre sua pele parda. Levava a mão constantemente aos cabelos e os puxava com tamanha força que quase os arranca.
- Conselheiro, o que é essa coisa? – inquiriu, com uma voz chorosa.
- É um justiceiro, meu rei. – afirmou o velho cabisbaixo sentado sobre os lençóis da grande cama. – E seu reino foi escolhido para sofrer o peso da “justiça”.
- Mas o que eu fiz de errado, por Ejes? – avançou para dentro do quarto. – O povo me ama! Eu fiz até mais do que meus antecessores fizeram. Eu dei comida para o povo, construí casas, templos, dei ao povo uma guarda treinada! Onde eu não agi corretamente?
- Em nenhum momento, meu rei. – respondeu o conselheiro, mantendo em si uma calma que não mais existia em seu rei. – Não existe razão para o ataque de um justiceiro. Na verdade… sempre existe um razão, variadas razões. Quando alguém não se enquadra em seu limitado senso de justiça, merecerá ser morto. Todo rei deve agir como ele deseja, caso ultrapasse será destruído, caso seja inferior também será destruído. O senhor não cometeu nenhum erro, meu rei.
- Diga-me o que é ele, conselheiro. – sentou-se na cama, ao lado do outro. – Eu quero saber com o que estou lidando.
- O primeiro deles… O primeiro justiceiro foi o único nascido da própria deusa da justiça. – afirmou. – Ele possuía um senso de justiça puro e perfeito, alinhado à liberdade. Era um ser do bem, uma esperança para os povos oprimidos que sonhavam com um mundo de justiça e igualdade.
- E o que o fez mudar?
- Ele nunca mudou, mas seus filhos sim. Enquanto os anos passavam, a justiça evaporava da alma de cada uma das criaturas que nasceram daquele primeiro. A própria deusa da justiça os renegou, mas eles continuaram a servi-la de seu modo destrutivo. Em vez de esperança, tornaram-se ameaças a quem não seguisse sua mesma linha de ideais.
- Nem mesmo a própria Justiça está do lado dessa coisa! – rosnou o rei.
- Seus erros são mais do que freqüentes agora, na verdade, são comuns. Mesmo que por vezes mate assassinos e derrube impérios tiranos, ainda se utilizam de sua prepotência e poder para implantar suas próprias regras.
- Não posso acreditar que…
As portas do quarto foram escancaradas por um ombro poderoso. Um par de espadas sujas de sangue adentrou pelo aposento e a criatura que as empunhava tinha um aspecto calmo por debaixo do elmo frio. Ele caminhou na direção dos dois homens.
- Faça alguma coisa, conselheiro! – vociferou o rei, recuando para a varanda.
Obedecendo a ordem, o velho adquiriu uma posição livre de obstáculos e ergueu a mão em direção ao justiceiro. Um grito rouco saiu dentre seus lábios:
- Collisio!
Um raio branco eclodiu da palma da mão e cruzou o ar com velocidade em direção ao justiceiro. A magia atingiu, em cheio, o peito da criatura, mas o único resultado que criou foi um recuo de um mísero passo.
- Esta é sua pena por me atacar… – o braço forte da criatura arremessou uma de suas espadas.
A lâmina perfurou o peito do conselheiro e arremessou-o ao chão com violência. A morte logo chegou aos seus olhos, enquanto a espada cravada entre seus pulmões era encharcada pelo sangue.
- Por Ejes… – resmungou o rei. Encostou-se ao peitoril da varanda e lá ficou paralisado, sem ter para onde correr. – O que você quer de mim?
- Quero que seja feita a justiça. – afirmou a criatura, caminhando em passos calmos de encontro ao alvo.
- E que tipo de justiça você veio fazer aqui? Eu fiz tudo que podia pelo povo.
- Não vim aqui para discutir minhas razões. – disse a criatura, já a menos de dois metros do seu alvo.
- Não tenho direito de defesa? Não tenho como mostrar minhas intenções ou provar minha inocência? Por que você tem que ser o meu juiz?
- Essa é minha competência. Assim como minha deusa, eu estou acima de qualquer lei ou juiz. Sou o escolhido para proferir o direito divino.
- Então me mate logo! – urrou o rei. – Não vejo nenhum erro em meus atos, por isso me deixarei deitar nos braços da morte sem implorar uma única vez por minha vida. Terei meu orgulho intacto até chegar ao outro mundo.
A mão forte que não segurava uma espada ou escudo fechou-se envolta da gola das vestes do rei e tirou-o do contato com o chão.
- Você não morrerá hoje, monarca. – corrigiu o justiceiro. Guardou a segunda espada dentro de sua armadura e levou a mão ao peito. – Seu destino é mais grandioso do que isso. Você seguirá as mesmas normas que eu e será igual a mim. A semente da justiça se proliferará pelo mundo, e mais um passo em nome da perfeição terá sido dado.
A mão pousou sobre uma fivela que prendia a lateral da armadura em seu peito e abriu-a. Uma pele avermelhada e repleta de verrugas surgiu por debaixo do metal que fora puxado do corpo da criatura. Entre as pequenas protuberâncias, cerca de cinqüenta outras maiores tinham surgiram em um tom branco azulado e pareciam saltar das costelas do justiceiro.
- O que são essas coisas?
O justiceiro não respondeu. Largou a placa de metal e agarrou uma das protuberâncias, arrancando-a sem poupar-se da dor e deixando o seu próprio sangue deslizar pelo peito avermelhado. A protuberância agora se assemelhava a um ovo, mas agora sujo de sangue.
- Você não vai…
A mão forte enfiou o ovo entre os lábios do rei no momento em que abrira a boca e socou-a garganta abaixo. O objeto quase ficou preso, mas o justiceiro não se deu por satisfeito até empurrar o ovo para dentro do esôfago.
O justiceiro retirou a mão suja de saliva de dentro do rei e deixou-o cair de pé sobre o chão.
- O que você fez comigo, criatura? – rosnou o rei, respirando mal. – O que fez comigo, seu monstro?
- É o seu novo eu. – deu as costas ao homem e começou a caminhar para a saída, afivelando sua armadura novamente. – Veja como um presente a você e a todos no mundo. Será uma lembrança de que a justiça venceu mais uma vez. Em alguns dias, você se tornará um ser semelhante a mim, sob as mesmas leis dadas pela deusa e que as propagará aos quatro cantos.
- Você me fez igual a você? – rosnou o rei, deixando-se recostar ao peitoril da varanda.
- Tu serás um servo da justiça. Um fruto da minha perfeição. – retirou sua segunda espada de dentro das costelas do conselheiro e guardou-a junto à primeira, deixando apenas o cabo a mostra, vinda de dentro da armadura. – Minha missão, aqui, está cumprida aqui.
Atravessou as portas escancaradas e deixou para trás um homem abatido e destruído.
O rei enfiava a mão dentro da garganta, tentando induzir inutilmente o vômito. Desistiu depois de alguns minutos, levando as duas mãos á cabeça e deitando-se desolado no chão de seu quarto. A partir daquele momento seria obrigado a ser quem não queria, obrigado a seguir um caminho diferente do que desejava trilhar.
Seria mais um justiceiro.
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A narrativa desse conto ficou muito legal e a estória também. Tudo fluiu tão bem e de uma forma tão tensa e bem escrita que foi possível visualizar cada “cena” como em um filme. Ficou muito legal, espero que haja mais partes
tb achei
Não, infelizmente é só um conto mesmo… Com uma critica inclusa, mas acho que ninguém notou os detalhes.
Não gosto muito de escrever contos. Sempre quando eu acabo fico querendo escrever mais e mais sobre o tema. Esse mesmo eu já pensei em colocar alguém caçando o justiceiro, prolongar a história…
gostei do conto apesar de não fazer mto meu gosto,gosto quando yem final feliz.
Obrigado! Mas tb não foi bem um final triste…