Mistérios da Morte – Parte 1
Escritor: Luís Oselieri
O ferreiro levantou seu facão para o alto, caminhando com rapidez sobre a terra coberta de cinzas, e então uma gigantesca sombra cobriu a maior parte das colinas do Reino dos Mortos. Mistérios da vida e da morte, da luz e da escuridão, luz que se extinguia e sombras que alimentavam a alma do ferreiro, que ainda conseguia olhar para o alto, ainda enxergando o próprio destino que talvez nunca lhe revelaria a verdade que tanto buscava. Enxergando demônios do passado, demônios que devoraram sua mulher e seus filhos, que surgiam durante as noites sem sono, surgiam com suavidade e elegância dignas de príncipes escolhidos para o próximo reinado. Com a idade de um velho ancião, a experiência de um ferreiro talvez não significava quase nada para sessenta anos de idade mal aproveitados.
Experiência já não contava nos campos de batalha, já havia se passado uma década, havia escapado pelos dedos do ferreiro como grãos de areia de uma ampulheta de cinco minutos. Escapado através do tempo, através do sofrimento de um homem, que não mais enxergava a dor de poder carregar nos braços, alguém que nunca mais poderia olhar em seu rosto e dizer palavras tranquilas, que agora permaneciam enterradas na memória de um velho homem.
Agora talvez seria o momento certo de partir, talvez aquela estrada seria a melhor escolha, aquela porta para o paraíso estava apenas lhe esperando, ou apenas a porta larga do inferno.
Larga como a lâmina de seu facão, como o escudo trincado de ferro repleto de flechas cravadas. O ferreiro posicionou o escudo, posicionou de acordo com os ataques sobrenaturais vindos de todas as direções, de todos os cantos do Reino dos Mortos. Todos os terrores possíveis e imagináveis haviam caminhado por aquelas terras, os espíritos obscuros e sorrateiros, espíritos malignos que espreitavam atrás das colinas negras. Há muito tempo o maligno havia controlado corações de grande parte dos guerreiros do mundo antigo, muito antes da época em que os homens ainda seguiam seus próprios desejos.
Antes mesmo da invasão dos espectros, mesmo ainda quando o ferreiro sonhava em poder deixar o vilarejo, ainda que seu pai fosse contra sua vontade, que parecia cada dia mais forte, parecia querer mostrar ao mundo que ele era maior do que o medo, e querer deixar a infância para se tornar um homem corajoso era o seu maior desejo. Deixar para trás todos aqueles caminhos de derrota, para se tornar o melhor guerreiro, agora não significava qualquer coisa para um homem de sessenta anos de idade. Não entendia o motivo de ficar velho, entendia apenas que um dia iria morrer, apenas na hora certa, na última passagem para o Grande Reino.
Última jornada em direção ao que o ferreiro julgava ser sua salvação, uma jornada perigosa que parecia cada dia mais incerta de seu verdadeiro destino, perigosa mas ao mesmo tempo satisfatória, pois se conseguisse atravessar aquelas terras com vida… Se deixaria levar pelos ventos da vitória, deixaria as gotas da chuva molharem seu corpo rejuvenescido, livre da velhice, da maldição dos homens comuns.
Aquela maldição havia sido passada durante incontáveis gerações, havia atormentado a mente do ferreiro durante décadas de sofrimento, atormentando sua alma de forma que agora nem mesmo Samantha, sua mulher, conseguia acalmar seu coração. Acalmar os ânimos de um pobre mortal não era uma tarefa fácil de ser conquistada, os passos através das cinzas pareciam cada vez mais difíceis, passos pesados, lentos, de um ferreiro velho e triste. Um pobre diabo perdido na escuridão da morte, pobre corpo enfraquecido pelas marcas do tempo, apenas um corpo de um idoso, de alguém que esperava um dia entender o final de uma vida.
“Alguém andou invadindo minhas terras… andou brincando com os mortos, Devollen?”
Com bastante dificuldades, e bastante vontade de saber de quem era aquela voz, o ferreiro respondeu:
“Brincar não é um privilégio para guerreiros, e não sei quem é você, apareça logo.”
“Eu sei de todo seu passado, Devollen. De suas viagens escondidas, suas fugas para os lugares sagrados. Fugir é a melhor estratégia para um guerreiro velho como você, não é mesmo?”
“É o que eu deveria fazer agora, o tempo já não está mais ao meu lado.”, Devollen respondeu, enquanto olhava para o céu encoberto pela gigantesca sombra.
“Tempo não é algo com que possamos contar. Não queria que terminasse sua vida dessa forma… tão miserável… e doentia.”
“E queria me observar do alto de seu trono? Me olhar com seu ar de desprezo, olhar para um verme mortal, para um homem que nunca entendeu a vida como deveria?”
“Um guerreiro como você, Devollen… guerreiro dos tempos em que os reinos eram defendidos pelas espadas de homens corajosos, dos tempos de reis orgulhosos, de nada deveria se arrepender.”
“Nada mais vale a pena neste mundo. Sinto como se estivesse cada dia mais perto do destino dos mortais. Como poderia suportar este futuro?”
“Devollen, poderia esquecer tudo isto e voltar para casa, esquecer que é apenas um velho, que irá morrer como todos os humanos que passaram por este mundo.”
“Irei aceitar perder minha vida como um covarde? Perder todos os sonhos, todos os caminhos parecem me levar ao mesmo destino… agora apareça logo, criatura!”
“Quer mesmo que eu apareça? Mesmo que continue com seu tagarelar irritante, quero que saiba que não sou uma criatura, Devollen. Eu sou seu pai.”
Sou seu pai… aquelas palavras soavam como um pesadelo, palavras difíceis de serem engolidas pelo velho guerreiro.
Devollen abriu os olhos e desta vez percebeu que não conhecia aquele lugar cercado de barras de ferro verticais. Abriu as palmas das mãos, enquanto continuava sentado, as horas em que passou meditando pareciam ter se passado tão rápidas que ele nem mesmo se lembrou de proteger as costas contra os caçadores de dimensionais. Horas aproveitadas para conhecer melhor o Reino dos Mortos, aproveitadas de forma que tudo ao seu redor já estava distante o suficiente para pensar em retornar à vida. De fora da jaula de ferro, e fora dos domínios obscuros da mente de Devollen, um homem de rosto coberto de pêlos grossos sorria de forma macabra.
Aquele homem lembrava muito a figura de seu pai, lembrava a autoridade e o respeito que ele costumava impor, a verdadeira mão do castigo que sempre acertava a carne de Devollen, uma verdadeira força desnecessária para que ele entendesse que não podia mais voltar a usar o cubo. Sem mais forças para continuar se debatendo para sair daquelas grades, e mais longe de sua sanidade, longe do cubo, do artefato que encontrou quando era uma criança medrosa, Devollen chorou como nunca havia chorado em toda sua vida.
Chorou, e suas lágrimas cobriram o piso impregnado de sangue seco, suas mãos tremiam e seus pés descalços não conseguiam mais acompanhar as ordens de sua mente, para que desse mais alguns passos. Que homem merecia aquela vida, longe de sua família, de seus amigos? Seus maiores apoios agora descansavam em tumbas cinzentas espalhadas em um cemitério qualquer. Mas de alguma forma sentia que sua vontade de sair daquela jaula era maior, de poder escapar e fazer rolar a cabeça daquele homem, poder tirar a vida de mais um caçador de dimensionais.
Devollen pensou, e enquanto tirava com as mãos as últimas gotas de sangue que descansavam em seus lábios, com uma vontade imensa de descobrir o motivo pelo qual havia sido capturado de forma tão fácil, resolveu que poderia tentar mais um recurso. Poderia esperar que o homem se distraísse, esperar a hora em que o vigia da noite chegasse, a escuridão serviria para Devollen se esconder entre as caixas de madeira lacradas que estavam em um dos cantos da jaula de ferro. Talvez aquelas caixas serviriam também para serem destruídas, mas aquelas horas de espera pareciam cada vez mais difíceis, e Devollen não queria perder sequer mais um minuto.
“Não está dormindo, velhote?”, o homem de queixo quadrado e barba grande negra perguntou, e se aproximou das grades de ferro.
“Está cego, ou está fingindo que não enxerga? Ou fingindo que consegue me vigiar, é isso?”
“É isso. Que bela noite para poder acabar com mais um… dimensional.”, o homem disse, arregalando os olhos castanhos.
“Vocês, será que um dia conseguirão compreender a beleza? Que não estamos aqui neste mundo para competir com os de vida eterna? Não quero fazer algum mal, mas quero entender o sentido… da vida, e da morte.”
O homem apontou para Devollen um rifle de plasma BT-45, e respondeu:
“Da vida talvez você não entenda, mas da morte logo irá entender.”
“Espere, se vai mesmo me trazer a morte, vai precisar de carregar esta arma.”
“Preciso apenas de explodir seu pescoço, velhote.”, o caçador de dimensionais disse, e em seguida puxou o gatilho.
“Apenas atire logo, seu filho duma puta. Atire antes que eles cheguem e arranquem essa sua barba de travesti.”
“Eles? Do que está falando?”
“Que covarde, está agindo como um grande covarde, não consegue nem mesmo usar um BT-45.”
Subitamente, o homem disparou um tiro para o alto, e caiu sem vida no chão, com um imenso buraco em seu peito.
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