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Nov
26
2010

Monastério dos exilados- o início da revolução

Escritor: Farley

Não há vento nem paisagem
No monastério dos exilados
Não há sons nem beleza
No monastério dos exilados
Não há palavras a serem ditas
No monastério dos exilados
Não há frases benditas
No monastério dos exilados

Eu era só mais um pretinho do subúrbio, eu tinha idéias, eu tinha ideais, meus pais trabalhavam como burros nos campos pra tirar um salário mínimo, enquanto os branquelos trabalhavam 6 horas no ar condicionado pra ganhar 10 mil, a vida é injusta, é a sina dos pretos, não era isso que iria me abalar, meus pais sempre me ensinaram que a revolução parte de dentro de si, e que brasileiro é um povo covarde, que leva pau em alambique e age como cordeiro em abate, dando a cara a tapa.

Eu era um pretinho do subúrbio, estudava pra caralho pra tentar trabalhar no ar condicionado com os brancos, aos 16 anos eu conhecia as regras do sistema, sempre soube que ele da um jeito de te botar pra escanteio quando alguma engrenagem roda ao contrário, mas um dia lendo um artigo tosco sobre mestres relojoeiros descobri que com os relógios parados não se contava o tempo, o tempo continuava passando, mas sem nada pra contar as pessoas entravam em colapso, bastava fazer com que cada relógio marcasse um tempo diferente, assim o sistema caía, e com a leveza e a precisão dos relojoeiros, comecei a fazer a minha parte pra atrasar o relógio da galera, e ver como a geral reagiria no meio do caos.meus discursos sobre a liberdade dos pretos,liberdade dos povos, sobre a opressão do sistema, da liberdade em si, me rendeu somente um apelido, o que já era muito, preto num tem apelido tem nome de guerra, meu apelido era Luther king da favela, o tempo passou e aos 26 eu e os preto tínhamos o mesmo objetivo a presidência da republica, render essa teocracia branca ao brilho dos olhos negros desse país, aos 29 fundamos eu e os negros políticos desse país o PLENO o partido da liberdade de expressão na nação opressora, um partido de oprimidos pelo sistema negros, índios, brancos pobres, no Brasil o que importa não é a cor em si, preto não é o da pele escura, é o da carteira vazia.
A partir da fundação do pleno as coisas começaram a mudar no país eu estava conseguindo fazer o tempo parar, e o sistema iria entrar em colapso. Aos 36 o sonho se realizou o PLENO teve um representante a candidatura à presidência da republica, os brancos só nos deixaram entrar na fita, por que, ora bolas… a gente era preto.

Um gordinho apresentador qualquer- é um absurdo, em um país como Brasil, os negros quererem ter um partido só deles, é voltar a época dos senhores de engenho, onde o Brasil era governado pela cor.

Esses apresentadores de TV, falam merda pra ganhar ibope, eles achavam que o preto tinha tudo que precisava comida, energia elétrica e um barraco na favela, qualquer coisa a mais era desperdício.

Nossos discursos em praças, na vala, na favela, nos renderam grande fatia da preferência dos votos, e os brancos donos de empresas ficaram revoltados com isso, eu sabia que o sistema ia entrar em colapso, eu queria atrasar os relógios, infelizmente meu plano deu certo, lembra dos senhores de engenho? Eles voltaram, e cada pretinho do PLENO era um escravo em potencial.
A vida cheira a pó, chumbo e Bombril, nesse lado da cidade que reservam pra nós, os monstros dominam nossa mente e o silêncio é sinal de perigo, um homem calado é na certa mais perigoso que os livros da santa inquisição, foi aí que eu cresci, e eu achava isso perigoso, não sabia o que era perigo, nuca havia sentido seu cheiro, até que naquela noite, numa operação comandada pelo presidente da maior empresa petrolífera do país,policiais armados invadiram todas as casas dos membros do PLENO nossas boas vindas foram cantadas ao som de pontapés e socos, sangue e choros, mataram nossos filhos e filhas, atiraram em nossas mulheres na nossa frente, preto de valor no Brasil só o petróleo, e inda querem trocá-lo por água, que é branca, tudo que não tem cor é branco, com nossas famílias, esposas, filhos, todos mortos, nos colocaram num avião, a primeira vez na história que tinham mais de 80 pretos num avião, a guerra estava feita, ONU,direitos humanos é o caralho, mataram os pretos e ninguém percebeu, ficamos numa ilha, perto de cuba, longe de tudo cercados por mar, estávamos perdidos, mas fizemos a nossa parte, o povo aprendeu a questionar, aprendeu a se fuder em alambique e revidar no moinho de cana, em pouco tempo a gente ficou conhecido como santo, e santo meu amigo, num vai pra cadeia vai pro monastério, era assim que ficou conhecida nossa ilha, monastério dos exilados, o lugar onde os pretos aguardavam que o povo acabasse com as engrenagens do sistema, e foi o caos.

Donos de empresa fecharam as empresas, por que o povo aprendeu a dar prejuízo cobrando seus direitos, aprenderam que sem trabalhadores as fabricas não produzem nada e não vendem nada, o povo aprendeu em 20 anos tudo aquilo que passou 200 anos sem saber, que até deus treme quando ouve a multidão armada, e munida de ideais, e se deus se escondeu da multidão, os senhores de engenho desse país não tiveram tanta sorte, esse é apenas um pedaço da história, de quando finalmente a revolução começou.

Exilados mandados embora de seus próprios sonhos
Que hoje não sonham em poder sonhar
Exilados no pais das maravilhas
Sonhando em nunca mais poder voltar
Todo dia nos exilamos um pouco do mundo
A noite quando abraçamos o travesseiro
Toda noite esquecemos os absurdos
E vivemos em uma noite
Um ano inteiro


Written by mnemolious in: Agenda,Contos,Farley |

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