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Nov
26
2010

O menino do balanço

Escritor: Victoria Tatini

Capítulo um
O inverno sempre foi minha estação favorita. Talvez por indicar dois meses inteiros de férias, talvez por indicar que o natal está chegando ou talvez por que todos os acontecimentos decisivos da minha vida tenha acontecido nessa belissima estação.
Meu primeiro inverno marcante foi em 2001, quando tinha sete anos. Estudava na mesma escola que estudei dezeseis anos de minha vida, tinha alguns amigos, mas apenas um se mostrou digno de meu eterno amor e gratidão. Antonie, o menino dos olhos azuis acinzentados que tantas vezes mais tarde me confundiram. Foi esse menino de belos olhos e indescritivel sorriso que aceitou perder a infancia para tentar salvar o que restava da minha.

Era um dia normal, a professora nos mandou desenhar nossas familias, estava sentado junto com Antonie, quando o ouvi perguntado
- Posso ir brincar na sua casa amanhã a tarde ? – Ele mal tirou os olhos do papel. Olhei seu perfil palido por alguns instantes e engoli a seco. Só havia uma resposta para essa pergunta, e a resposta era não, mas não sabia como dizer isso sem contar o meu segredo.
- Acho que sua mãe não vai deixar – Resposta imbecil ! É claro que a mão dele deixaria, ela nem ao menos saberia, pois nunca estava sobria o suficiente para saber de alguma coisa, e ele é claro , sabia muito bem disso
- Tenho certeza que ela não vai se importar – Disse ele, forçando um sorriso.
- Meu pai ficar muito ocupado a tarde – Pensei rápido e disse mais rápido ainda, embora tenha sentido um enjoo ao chamar o ser desumano que morava comigo de pai.
- Posso perguntar se não vou atrapalhar – Não consegui pensar em mais nada para dizer. Ele sorriu, meu silencio era um sim, involuntario, mas era um sim.
Eu e Antonie tinhamos muito em comum, sorrir quando conseguiamos algo era uma, os pais horríveis, outra.
Melissa, a mãe de Antonie, não passava de um prostituta bebâda.
Saia com um vagabundo diferente todo dia, as vezes, fugia com alguns deles e voltava meses depois, grávida, tomava um porre e no dia seguinte ia parar no hospital, pois tinha perdido o bebê. Ela fazia tudo isso para afogar a dor de ter perdido o único homem qie já tinha amado, quando o pai de Antonie era vivo, ela era uma mulhar bonita, direita, dedicada e feliz. A relação dela com Antonie era de odio e pena. Melissa o odiava pois achava que a culpa dela ter perdido o homem de sua vida era dele e ele sentia pena de sua mãe, pois ela levava uma vida tão miseravel e sem afeto quanto a dele.
Richard, meu pai, era um ser nojento, repugnante, sem coração. Eu e Antonie o odiavamos com todas as forças pelo que ele fazia com a gente, ele era um pedofilo nojento. Ele começou a abusar de mim quando minha mãe morreu, e de Antonie aos sete anos e só parou quando tinhamos quinze. Quando minha mãe era viva, ele era um bom pai, bom não, um ótimo pai.
Depois da aula, Antonie estava a mil por hora, falando pelos cotovelos, eu fingia ouvir mas estava atordoado demais para prestar atenção. Vi o carro preto e quadrado de Richard estacionando e o vi andando em nossa direção, meu coração parou e meu sangue gelou.
- Bernardo ! Tudo bem, filhão ? – Comprimentou sorridente
- Aham
- Oi senhor ! – Disse Antonie, també, sorridente
- Olá…ã ?
- Antonie – Completou
- Sim, Antonie, como vai ?
- Bem obrigado ! Posso lhe pedir uma coisa ?
- Mas é claro
- Posso ir brincar com Bernardo amanhã na sua casa ?
- Claro ! Que ótima idéia ! Bernardo nunca leva ninguém para ir brincar lá em casa, cheguei até a pensar que não tinha amigos
Eles ficaram conversando um tempo e eu fiquei perdido em pensamentos. Não sabia o que iria acontecer, mas sabia que seria ruim, muito ruim.
Até hoje me perguntam porque eu não o avisei sobre Richard, e a resposta é simples, você acreditaria ? Se seu melhor amigo disesse que o próprio pai é uma pedofilo, você acreditaria ?

E mesmo que acreditasse, continuaria sendo amigo dele como se ele não tivesse te contado nada ou fugiria, com medo ? Você teria medo ?
Se respondeu sinceramente as perguntas verá porque não contei.
Me despedi de Antonie que ia para casa a pé e me fui andando em direção ao carro.
- Seu amigo é um garoto de ótimas idéias – Disse Richard, dando a partida
- Não toque em Antonie… – Essas palavras sairam tão confiantes de minha boca que cheguei a ficar com medo da reação de Richard
- Não toque em Antonie ! – Imitou o detestavel homem, com voz melosa – Eu é que decido se vou tocar nele ou não, vocês não tem como impedir. Vocês são fracos, indefesos, vocês são caças, eu so o caçador !
Ele continuou o discurso. Do lado de fora, vi um garoto gorducho e sardento sentado na grama, ao seu lado tinha um homem bem parecido com ele, pintavam uma casa de pássaros, ambos sorriam.
Chegamos em casa mais rápido do que de costume. Como sempre, Richard fechou as cortinas e se atirou no sofá, já estava subindo a escada quando ele me chamou
- O que acha de jogarmos algo amanhã a tarde ?
- Tanto faz. Não me importo com o que você faz, pois seja lá o que for você fará
- É assim que eu gosto ! Agora venha cá
Suspirei e fui em sua direção, ele me pos em seu colo e disse carinhosamente no meu ouvido
- Amanhã vou precisar da sua ajudar, tanto para que ele fique calado quanto para que ninguém desconfie de nada, está bem ?
- Sim
- Bom menino ! – Dito isso, ele começou a acariciar meu peito e sua mão foi descendo. Meu pesadelo diario tinha começado.
No dia seguinte reuni todas as minhas forças para levantar. Andava arrastando os pés e em meus olhos haviam lágrimas prontas para cair a qualquer momento. Richard estava todo animado, sua animação era doentia. Mais do que nunca senti repulsa quando me tocou.
Ao chegar na escola, vi Antonia sorrindo inocentemente. Deixei que algumas dessas lágrimas escapassem.
- Hey bê ! O que houve ?
- Nada. Só estou um pouco cansado
Ele me olhou desconfiado, fez sinal para que me sentasse, sentei, ele passou o braço pelos meus ombro e eu encostei a cabeça no seu, chorei.
Na hora da saída, Antonie estava todo feliz e não parava de sorrir, já eu quando lembrei do que estava acontecendo vomitei atrás de uma árvore. Avistamos o carro de Richard e ele buzinou para irmos até ele.
- Obrigado por me deixar vir, senhor ! – Disse Antonie, polidamente
- Imagine ! É um prazer receber um menino tão educado como você
Ele ficaram conversando. Eu olhava para fora, me surpriendi quando uma gota de sangue escorreu pela minha mão, tinha mordido o dedo com força.
Ao chegarmos, Antonie e eu subimos para o quarto enquanto Richard disse que ia arrumar umas coisas no sotão. Eu bem sabia o que ele estava fazendo.
Uma hora depois ele nos chamou. Minha carne grudou nos ossos. Subimos pela estreita escada que levava até o sotão. Lá em cima, uma garrafa metade vermelha metade azul, um bolo de papeizinho e um homem de olhar cruel e insano, nos esperava.
- Pensei que talvez quisessem jogar um pouco
- Como se joga ? – Perguntou Antonie
- Você gira a garrafa, se o lado vermelho cair em mim e o azul em você, você vai ter que pegar um desses papeizinhos e fazer o que eles mandam. É bem simples
- Parece legal. Vamos jogar !
Sentados em um circulo. Richard girou a garrafa. O lado vermelho azul caiu em mim e o vermelho em Richard. Fiquei aliviado por poder adiar o sofrimento de Antonie mais um pouco. Peguei um papel e o li em voz alta, Antonie me olhou confuso. Levantei e me pus ao lado de Richard, que por sua vez pos as mão dentro da minha calça. Meu melhor amigo me olhava assustado, como que pedindo uma explicação.
Richard girou novamente. O lado vermelho caiu nele e o azul em Antonie.
- Você não precisara pegar papel. Tem uma tarefa especial. Afinal, você é visitae visitas merecem tratamento especial.
Antonie nem estava tão perto mas senti seu sangue gelar, ele batei a mão no chão com força, talvez estivesse procurando a minha. Richard o pegou e eu pus as mãos na frente dos olhos, mas deu tempo de ver os lindos olhos de Antonie perder o brilho e de ver um imã caindo no chão.
Duas horas depois, nossa tortura acabou. Richard foi dormir, mas não antes de dar uma surra em nós sem motivo algum e de ameçar Antonie
- Se contar a alguém, eu te mato, seu moleque !
Antonie ficou encolhido num canto, chorando e gemendo de dor o mais baixinho que conseguia. Não conseguia pensar em nada para falar para ele, não conseguia tocar nele, só conseguia pensar que meu melhor amigo tinha perdido uma coisa, uma coisa muito importante, uma coisa que não poderia ser encontrada e que lhe faria falta sua vida inteira, mas tinha ganhado outra coisa, uma coisa que ele já tinha de sobra, medo. Então Antonie tomou a mais nobre das iniciativas
- Bê, você está bem ? – Perguntou, se virado para me ver, balancei a cabeça como resposta e comecei a chorar desesperadamente. Ele me tomou em seus braços, me embalando
- Calma, calma, vai ficar tudo bem. Shh, vaai ficar tudo bem !
E realmente tudo ficaria bem, pelo menos enquanto ele estivesse lá para dizer isso.
Foi com aquele tremulo e quente abraço que pela primeira vez em anos eu me senti amado, senti como se estivesse em casa, havia descoberto meu lugar, nos braços e no coração de Antonie. Senti suas lágrimas mornas, quase quentes escorrendo pelas minhas costas, senti minhas lágrimas frias cainda em meu braço. Sempre me perguntei porque as lagrimas dele eram tão quentes e as minhas tão frias, mas tarde descobri que as lágrimas tinham a mesma tempuratura que o coração.
Alguns minutos depois, estavamos do lado de fora de casa. Perguntei a Antonie se podia acompanha-lo, ele fez um vázio “aham”, nenhum de nós disse coisa alguma o caminho inteiro.
Ao chegarmos em sua casa, ele sentou na calçada e ficou olhando para os próprios pés, eu sentei ao seu lado e fiquei prestando atenção no movimento que um pequeno pinheiro fazia. Era uma dia lindo, o céu estava claro, o sol tinha um amarelo pálido que refletia na neve, já encardida, não pude deixar de notar umas gotas vermelhas formando uma trilha onde nós tinhamos passado, era o mesmo tom de vermelho que tingia os fundilhos da calça jean clara de Antonie.

Não mais que derrepente, ouvi Antonie fazendo a pergunta que mudaria toda a nossa amizade e nossos destinos, com uma voz decidida ele pergunta
- Posso ir brincar na sua casa amanhã a tarde ?

Written by # Vic in: Agenda,Contos,Victoria Tatini |

2 Comments»

  • Thaina Gomes says:

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    Fiquei assustada, muito. Me deu uma dó deles, quase chorei me deu uma raiva desse pai. Alguns erros de ortografia, mas nada muito grave, eu sempre erro nisso.Mas eu gostei da estória.

  • Peregrina says:

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    Me deu uma pena deles. i_i
    Esse Richard merece a cadeira elétrica.
    Isso que eu chamo de um amigo daqueles.

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