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Nov
18
2010

Reminiscência

Escritor: Rainier G. C. Morilla

reminiscencia

William estava sentado em sua poltrona. As luzes estavam apagadas e somente uma vela na mesa de centro estava acessa. A casa vazia, as janelas abertas com o vento dançando uma triste melodia nas cortinas brancas. O pó, e a luz do poste amarelado em um feixe quadrado em um canto qualquer. Um homem solitario, jogado em sua própria angustia.

Três toques na porta, a manivela girando lentamente, a porta rangendo. Timbres de madeira contra madeira a cada passo, e o fechar lento da porta. Mais passos, sons de tecidos se movendo e uma sinfonia melódica cantarolando em seu radio.

- Tudo bem Willian? – Disse sem se levantar.

- Obrigado por ter vindo Carlos. Quer um gole de whisky?

O corpo estendido em direção ao copo, as mãos tremulas derramando o liquido amarelado que escorre ao cristal. A mão estendida em direção a poltrona a sua frente.

- Sente-se, por favor.

Lento como uma pena flutuando em uma brisa suave, Carlos sentou-se na cadeira posta especialmente para ele após retirar seu terno.

- Diga Will, o que está acontecendo.

- Eu o vi hoje Carlos. – Levou o copo a boca, o liquido a garganta e os olhos miraram o teto, tentando conter uma lagrima. – Eu o encontrei andando na rua esta noite.

Carlos permaneceu em silencio, tentando decifrar a mente do amigo de infância, a quem nunca realmente conhecera.

- Ele estava andando tranquilamente, como se nada nunca houvesse acontecido. Como se o passado não existisse, como se aquilo não tivesse afetado sua vida. – Uma pausa, tênue e breve. As folhas remexidas ao relento, caindo ao chão em seu movimento pendular. – Mas me afetou. Ele destruiu tudo o que eu tinha, tudo o que eu sonhava. Minha vida escorreu entre meus dedos como areia da praia, e a alegria se foi, como uma correnteza levando tudo ao mar.

Sem ação, sem palavras, mas com tanta coisa para falar e fazer, Carlos somente observava. Semblante caido, olhos marejantes, e uma tristeza incompreensível enchiam o amago daquele lugar. E o coração, quase parava vendo Willian morrer em sofrimento.

- Eu o segui, como um ladrão pela noite. Carregava meu estilete. Uma armadilha do destino. Sem pensar lá estava eu atras dele. Como uma sombra. Silencioso, sereno, com sede de vingança.

Os cabelos negros, os óculos grossos, a pele escura e com as primeiras marcas da idade não traziam a imagem de um assassino a face de William. Mas as marcas da vida deixaram cicatrizes fundas. Saudade, solidão.

Não havia sede de ódio em sem coração. Somente a vontade de tê-la em seus braços novamente. Dançando uma canção tranquila. Bebendo uma taça de vinho. Vendo seu filho voltar a cada ano em uma ceia de natal. Juntos.

- Você não… – Carlos disse levemente, tentando compreender o que havia ocorrido aquela noite. – Quer dizer… Você…

- Não Carlos. Eu não sou um assassino. – Havia um misto de arrependimento, e de redenção em sua voz.

- Estavamos em uma rua desenta. Somente nós e o brilho de uma lua minguante em um céu coberto de estrelas. Eu me aproximei. Quando ele viu meu rosto, me reconheceu… Assim… Como eu o havia reconhecido.

Os olhos se encheram de lagrimas. Os labios tremeram. Sussurros, dor, angustia. Em olhos verdes tão belos. Tão profundos, tão fracos, tão mortos.

- Ele me olhou, sem saber o que estava prestes a fazer. Sem saber que iria tirar sua vida, mas ele… – Quase sem conseguir conter as lagrimas dentro das pálpebras e sussurando palavras numa triste melodia continuou. – Ele me pediu desculpas.

- E então qual foi tua atitude.

- O que você faria com o assassino de tua mulher, quando olha em teus olhos e diz que o que fez foi um erro, uma besteir a que poderia ser evitada? – William se exaltara a esse momento – Não pode ser evitada. Eu não posso voltar atras, eu não posso mais abraça-lá… A ultima vez que o fiz ela estava deitada no asfalto, sangrando, morrendo.

As repirações antes solenes tornaram-se intemperantes, ritmadas, fortes como um touro procurando a quem atacar.

- Eu tentei. – Disses tentando se conter – Tentei pensar que ele era um monstro. Um maniaco qualquer que destruia vidas, mas

- Uma tragada de ar, um suspiro, um momento lançado no tempo – Ele não é… Ele… É somente um homem qualquer na hora errada, no momento errado.

- Você não o vê assim.

- Não o vejo, mas é o que ele é. Ele errou mas… Culpa-lo não mudaria nada.

A cena estava impressa em uma vasta riquesa de detalhes. A iluminação falha da rua, o asfalto, a calçada, duas vidas destruidas pelo destino que os colocara outra vez frente a frente. Feridas, calos, sombra. As palavras entretanto não saiam, não queriam sair. Queriam se trancar e permanecer fechadas por toda a eternidade até que fosse embora. E o silencio pairava.

- Ele foi embora. Eu fiquei parado olhando-o. Sem ação, somente com as lágrimas pelo rosto, e a navalha caindo no chão.

- Fez o correto will… – Falou tentando acalmar o amigo.

- Matá-lo não a traria de volta, traria?

- Não. Nada traria ela de volta. – Carlos bebeu seu copo de Whisky, até agora intocado. Toda a sua atenção havia se direcionado ao interlocutor, que agora já se acalmava mais um pouco. Tirou dois charutos do bolso de seu terno. Esticando sua mão. – Pegue um, você precisa.

Depois de uma ou duas baforadas, olhando diretamente para a vitima da noite

disse.

- Sabe, as vezes a vida nos dá golpes duros. Existem tantas coisas que nunca deveríamos viver.

- A vida não faz distinção entre os bons e maus. A vida não é justa. Veja o que ela fez comigo. De um homem bem sucedido, a um homem sem propositos, sem histórias para construir, sem razões para continuar.

- Mas temos que continuar…

As palavras amigas de nada servira, ficaram dançando no ar. Buscando um destino, um caminho, uma razão para serem faladas e ouvidas. A vela no centro brincava e ambos olharam ela apagando-se. Como um pressagio, sinal, ou lembrete de que a vida e breve e como o fogo um dia se apaga.

- Você acha que um dia eu terei ela novamente. Digo.. Será que ela voltara?

- Temo que não, Will. Temo que não. – Disse levantando-se de sua cadeira.

Carlos levantou-se. Pegou seu terno, deixando-o cair em um de seus braços. Deu uma ultima tragada em seu charuto, apagando-o no cinzeiro na mesa. William olhava-o atentamente, enquanto uma lagrima escorria pelas dobras de seu rosto.

- Tenho que ir velho amigo. – Disse colocando a mão sobre o ombro de Will.

Ele queria dizer algo, perguntar se ele ficaria bem, mas ele sabia que não. Qualquer forma de tentar animá-lo ou de esquecê-la pode ser pior. Deixe que o tempo cure as suas cicatrizes.

William forçou um labio contra o outro, com um leve sorriso triste, talvez de gratidão por ter alguem em quem confiar. Seus olhos se encheram, sua garganta apertou mais ainda, e suspirou novamente.

Sons de tecidos se movendo, timbres de madeira contra madeira a cada passo, a manivela girando lentamente, a porta rangendo ao abrir e ao fechar.

A melodia continuou. No radio “Tears In Heaven”. No peito apertado, duvidas sobre a vida após a morte e o desejo de reencontrá-la no céu. Na mente milhões de pensamentos.

Dormiu ali mesmo. Sonhando dançar com ela, do jeito que ela tanto amava.


Written by Rainier Morilla in: Contos,Rainier G. C. Morilla | Tags: , ,

35 Comments»

  • Andrey Ximenez says:

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    Poizeh..
    -
    É exatamente o tipo de conto que eu gosto. O fato de não ter entrado no mérito do pq ela morreu, focando somente no psicológico.
    -
    Mt bom Rainier, mt bom
    -
    Mas vale uma revisãozinha, para afiar ainda mais o texto. Coisas bobas.

    • Rainier says:

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      Opa, desculpa pela demora na resposta e obrigado pelos elogios.
      -
      Esse foi um dos raros textos que não quis revisar 300 vezes… Acho que se eu colocar a mão para alterá-lo, mudaria muitas coisas e o texto ia se perder.

      • Andrey Ximenez says:

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        Isso é um problema.
        -
        Mas qnd digo revisão é coisa de tempo verbal em algumas parte (nem lembro agora)… realmente coisas bobas. Que não afetam em nada o texto

        • Rainier Morilla says:

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          Opa realmente tem vários erros. Obrigado pela dica.
          -
          Guns, tem como arrumar? Eu tentei alterar no wp-admin mas não tenho acesso. Como faço caso queira alterar algo?

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    O interessante é a forma de focar no personagem principal e na carga psicológica que ele carrega, sem contar detalhes da tragédia. O conto é sobre o personagem William… e basta!
    Naquele parágrafo que começa com “uma tragada de ar”… tens que tirar o travessão, pois a frase seguinte é que faz parte do diálogo. Errinhos perdoáveis de gramática, não de construção e um texto muito bem contruído e gostoso de ler. Ficou muito bom.

    • Rainier says:

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      Esse foi um dos meus primeiros contos, não me preocupei muito em lapidá-lo e acabei cometendo um tremendo erro.
      -
      Os muitos erros de português estragam a leitura, no meu ponto de vista.
      -
      Gosto de explorar o lado humano, não o lado ação. Uma pessoa pode carregar tanto, mesmo sendo tão fraco e tão frágil como o Will, encontrando força em Carlos que não disse nada, que não fez nada senão ouvir!
      -
      Isso tem um conteúdo gigantesco. Muito mais conteúdo do que própria morte de sua esposa.

  • Thainá Gomes says:

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    Tem mesmo muito mais conteúdo,no meu caso eu vi que vingança não adianta nada,parabéns você mostrou uma coisa que poucas pessoas enchergam.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      “A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena” Diria seu Madruga! rsrsrs…

      Thainá, muito obrigado. O interessante, eu acho, é que não sabemos a forma como a personagem morreu.

      Foi um assassinato, um atropelamento, um estupro? Se foi a ultima opção não deveria ser preso? A prisão e justiça, não são conceitos de vingança…

      São tantas coisas não acha? Talvez a vingaça seja justa e o protagonista foi covarde. Quantas coisas podemos colocar em jogo?

  • Thainá Gomes says:

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    Eu posso pensar melhor e te responder amanhã?É muito pra se refletir,eu não acho que ele foi covarde ele foi corasojo ele não fez o que ele desejava porque não era um assassino e tem algum caráter,no meu ver é assim,e ele devia ser preso sim,e se o protagonista mata-se o cara estaria se rebaixando oa nível dele.que comentário longo o maior que eu já fiz talvez não tenha nada com nada do qeu eu estou escrevendo.

    • Rainier says:

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      Concordo contigo.
      Mas o mesmo caráter do protagonista, lhe deu o sentimento para ele tentar matar o cara.
      Ele controlou seu impulso, pois o “vilão” pediu desculpas. Isso o destruiu, e retirou de si o motivo para matar.

      E se ele não pedisse perdão? Será que Will seria tão bondoso assim???

  • Franz Lima says:

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    Uma ótima narrativa, Rainier. As dicas sobre a grafia e pontuação são válidas, apesar de não diminuirem o valor do conto. Ótima surpresa este seu texto.
    Quanto aos temas principais vingança e perdão, serviram para relembrar a todos que um círculo que se inicia com sangue não deve ser fechado, obrigatoriamente, com ele. Nem todos precisam encarar o mal e sorrir em retribuição.
    Parabéns.

    • Rainier says:

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      Opa. Valeu Franz.
      Concordo contigo. “Um círculo que se inicia com sangue não deve ser fechado, obrigatoriamente, com ele.” – Embora em alguns casos…

  • Samila says:

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    Cara, que lindoo… muito, muito bom… bem descrito, sem falar na temática e na lição que passa…
    e bem, na minha opinião foi um atropelamento…

    • Rainier says:

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      Opa, valeu Samila. =D
      Qnd escrevi, te juro que nem pensei qual seria o motivo da morte.
      Entretanto o asfalto deixou muito sugestivo… rsrsrs…

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Mais um excelente conto, Rainier! Descrições bem feitas, diálogos bem construídos e uma história que não foi contada… Você explorou muito bem a complexidade dos sentimentos e fraquezas humanas, sem fazer julgamentos, sem entrar no mérito. Parabéns!!

    • Rainier Morilla says:

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      Obrigado novamente! Esse conto é meu xodó! rsrsrs…

      Acho que essa complexidade dos sentimentos e fraquezas humanas são fantásticas e fascinantes quando tentamos compreender.

      Gosto deste conto pois te faz pensar, o que você faria no lugar dele. E dependendo da forma como a mulher dele foi assassinada, as pessoas reagiram de formas diferentes.

      Se foi um atropelamento, como falaram, o cara não seria um monstro mas se foi um assassinato o protagonista deveria matar… É engraçado pois em ambos os casos ele matou a mulher. E mesmo sendo um atropelamento, pode ser culposo…

      Enfim, é interessante esse turbilhão de pensamentos que acredito que este texto gera.

      Mais uma vez obrigado por ler e principalmente por ter gostado.

      • Thumb up 0 Thumb down 0

        RAINIER, PARA MIM, É UM PRAZER LER SEUS CONTOS! SÃO MUITO BONS, CRIATIVOS E ESTE, EM ESPECIAL, NOS LEVA A REFLETIR SOBRE UMA MORTE, SEM SABER DAS CIRCUNSTÂNCIAS… INSTIGANTE!!!

        • Rainier Morilla says:

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          Mais uma vez, valeu pelo carinho Vânia…

          Não vou mais puxar sardinha deste conto pq já fiz isso demais, rsrsrs…

          Abraços.

  • Vinicius Maboni says:

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    Muito bom!
    Mais uma vez um grande conto Rainier.
    Merece uma revisão por questão gramaticais, nada mais que isso.
    Seus textos são sempre muito agrdaveis de ler.

    • Rainier Morilla says:

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      Mais uma vez obrigado Vinicius. Que bom que tens gostado de meus escritos. Sinto-me honrado pela tua leitura e teus comentários.

  • Luis says:

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    Muito bom, falta soh uma pequena revisao, mas tah legal !!

    • Rainier Morilla says:

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      Yeah! Primeiros passos em contos.
      Os outros já estão um pouco mais trabalhado, mesmo que ainda falte muito para perfeição.

      Valeu pelo comentário Luiz.

  • Aldo Fernando says:

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    Quando se gosta de literatura, e não se escreve tão bem quanto os grandes autores, você ao menos tem de ter a capacidade de reconhecer quando lê algo de qualidade. Felizmente eu tenho essa capacidade, rs.

    Gostei do texto. Muito bom, cara. Mesmo. O começo, a narração sobre a porta, as janelas, a maçaneta girando, a atitude do Willian…. muito bom. Parabéns

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Não tenho nada a dizer a não ser um obrigado! Valeu muito pelo comentário! Sinto-me honrado por sua leitura e satisfação.

      Não o vi ainda neste site, és novo por aqui?

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    Cara, excelente texto. Me espanta ter ficado tanto tempo na agenda. O final chega a ser emocionante. :-)

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Não achei uma boa imagem! :-/

  • Vitor Vitali says:

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    Achei a estória meio batida, mas gostei do jeito que você escreve; com uma simplicidade tranquila e indo direto ao ponto sem no entanto deixar de descrever o necessário. :)

  • Patch. says:

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    Excelente texto! Agradou bastante ^^

    “And how can I blame you,
    When it’s me I can’t forgive?”

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Não há palavras para descrever o que sinto toda vez que leio este texto. Não só por ser meu escrito, mas pelo sentimento que o William carrega e como ele lida com ele.

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