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Dec
15
2010

A Saga das flores

Escritor: Aldo Fernando

Acontecera de novo…

Tomando um café frio, olhando pela janela do apartamento a imensidão de telhados – em diferentes tons de vermelho, de um claro desbotado até o vermelho-sangue – cobertos por linhas sinuosas de musgo esverdeado e linhas negras de fuligem úmida, numa manhã de inverno em que o céu estava nublado, ela pensava. Quedava a cabeça para frente e via a imagem do seu rosto, refletida e distorcida pela superfície de porcelana da xícara de café.

Entrelaçou os dedos das mãos, formando uma pequena rede, e nela apoiou a testa. Tirou os pés de dentro dos chinelos e ficou a balançá-los, experimentando a liberdade que ao menos os seus pés tinham. Mas não era essa a liberdade que ela queria para as suas flores.

Numa das janelas do apartamento, por onde a luz cinzenta daquela manhã cheia de nuvens entrava, estava um pequeno vaso de plantas alaranjado com desenhos de flores feitos com tinta plástica. Era um vaso feito de cerâmica, mais estreito na base e mais largo na abertura superior. E de lá se podia ver uma haste verde de planta. Porém essa haste estava seca, curvada, já não conseguia mais levantar-se e aproveitar a luz natural do sol.

A moça, a que tomava café e pensava na morte da rosa, a que balançava os pés em forma de protesto pela falta de liberdade, não se comovia com a morte da planta. Na verdade, aquilo fazia parte da “saga das flores”.

A história era até fácil de se entender: ela, que gostava de flores porém nunca havia tido jeito com a jardinagem, ganhara uma muda de azaléia. Plantou a azaléia com todo o cuidado, utilizando todo o conhecimento com cultivo de plantas que tinha, porém a pobre muda não agüentou mais do que uma semana. Sua dona tinha conhecimento de jardinagem, mas tanto quanto um advogado sabia operar alguém do coração.

Porém, não desistiu. Não desistir era o que os mais velhos e as revistas de fofoca e livros de auto-ajuda – cânones da sabedoria moderna – diziam, e ela de fato perseverou. A moça, com todo amor do mundo – amor sincero, claro – resolveu comprar uma muda de amor-perfeito e a pôs no mesmo jarro onde a finada azaléia havia feito sua última fotossíntese. Desta vez fez uma rápida pesquisa na internet e conseguiu dicas em relação à quantidade certa de água e de adubo. Mas uma saga só pode ser chamada de saga se for difícil. Já se pode deduzir que também a amor-perfeito havia ido dessa para melhor. 2 semanas, por mais que a sua dona a tenha plantado com amor sincero. Mas a sinceridade e a perfeição nunca andam juntas.

Afinal, qual seria o problema? Mau-olhado? Vodu (vudu de planta, improvável porém não impossível)? Energias negativas?

A moça que gostava de café frio – bem, na verdade não gostava. Mas o café naquela temperatura lhe era agradável. Gostar era diferente de ser agradável, ou não seria? Ou seria tudo a mesma coisa? – pensou naquelas possibilidades enquanto devorava um pote de sorvete assistindo ao noticiário das oito. Ainda com a colher na boca havia tido uma grande idéia – e a colher ficou dentro da sua boca por bem mais tempo que o normal.

E assim ela pensou: Se as pessoas podem ter estresse, e animais também, porque não as plantas? Sim… essas mesmas é que deviam ter. Paradas o dia inteiro no mesmo lugar, nada pra fazer, e ainda mais sem a companhia de uma amiga de folhas com quem pudesse desabafar sobre a má qualidade do adubo ou a carência de sol – assunto de planta que deveriam ser muitos, e se as mulheres gostam de falar então porque com as flores seria diferente?

Na tarde seguinte comprou duas mudas de margarida e um jarro de planta novo. Ao sair da loja pensou, de modo tardio entretanto, que o vendedor da loja poderia desconfiar dela comprar tantas flores. Ele poderia pensar que ou ela estava enchendo a casa de plantas, ou – e este pensamento a assombrava – poderia descobrir que ela estava matando as coitadas. Anotação mental: da próxima vez que entrasse naquela loja, o faria muito bem disfarçada.

Chegando em casa plantou as margaridas em suas respectivas moradas, onde elas ficariam por muito e muito tempo. Perdeu uma boa meia-hora tentando acertar a distância entre as flores, queria que ficassem nem tão distantes que não pudessem se falar, mas nem tão perto que acabassem enjoando uma da outra. A distância tinha de ser perfeita. Ao final o telefone tocou e ela, sem querer interromper o importantíssimo processo de escolha da distância entre os jarros e porém sem querer deixar quem quer que estivesse ligando na espera, decidiu arbitrariamente uma distância qualquer.

Será que havia sido a distância, ela se perguntava agora vendo as duas margaridas murchas e sem cor, três dias depois. Um vento um pouco mais forte bateu e uma das pequenas folhas de uma das margaridas se desprendeu da haste facilmente, seca que estava. Cadavérica. Uma terrível visão, que a fez arrepiar. E continuava a saga.

Teve de ir até o armário e escolher o lenço mais estranho que conseguiu encontrar para cobrir os cabelos, caçou um óculos-escuros que sua mãe havia esquecido ali após sua última visita ao apartamento, maquiou-se – o que geralmente não fazia, pois usava maquiagem com extrema moderação – e foi até a mesma loja.

Disfarçou a voz, o andar, os trejeitos. Após comprar duas azaléias e um jarro novo – e perceber que seu plano havia ido por água abaixo quando o vendedor dissera seu nome na saída – e após chegar em seu apartamento e subir cinco lances de escada porque o elevador resolvera enguiçar, talvez para que ela pagasse seus pecados de assassina de flores, ela desembrulhou o saco da loja e tirou o a muda, assim como o jarro novo.

A explicação para o jarro era simples: ela imaginou um hotel, como nos filmes, onde as pessoas tinham medo de se hospedar em quartos onde no passado haviam sido cometidos assassinatos ou suicídios escabrosos. Com certeza o mesmo devia se aplicar às plantas, principalmente as flores. Qual margarida, azaléia ou rosa gostaria de ser plantada no mesmo jarro onde uma semelhante havia morrido?

A moça, porém, não tinha certeza se desta vez iria dar certo. Ficou sentada na mesa, olhando de um lado o a muda promissora e do outro o jarro novo, decorado com riscos na cerâmica, que formavam o desenho de uma flor. Olhou muda e jarro, e imaginou-os unidos. Uma soma que por si só deveria dar certo, e se pudessem juntar-se sozinhos também seria de grande ajuda.

Mas aquilo nunca iria acontecer.

A moça esquentou um café, percebendo que o problema deveria estar no próprio café. Na sua temperatura, mais necessariamente. O café frio deveria estar, de alguma forma, causando aquilo ás suas plantas. Quem era esquisito o suficiente pra gostar de café frio além dela? E todos cultivavam flores sem o menor problema. Então decidiu que a partir daquele dia não tomaria mais café frio. Não sabia o porque, se a razão era científica ou espiritual, mas naquele ponto da saga ela já não sabia mais o que fazer.

Café esquentado. Flores mortas dias depois. Decepção. Nova incursão á loja.

Após alguns minutos sorvendo a bebida e olhando para a muda e jarro novos, teve uma grande idéia: conversar com a planta. Um dedo de prosa, todo dia, não faria mal e poderia pôr fim á saga das flores. Seria aquela sua última tentativa. Tudo bem que ela disse aquilo as últimas cinco vezes, mas agora ela cumpriria a promessa.

Passou a conversar com a flor, e ela de fato pôs fim à saga, mas não pelo motivo que a moça pensava que poderia dar. Acontece que ela era meio desastrada.

No terceiro dia após conversar alguns minutos com a muda, que já havia crescido alguns centímetros segundo a régua branca que ela guardava para tais imprevistos, e após as duas conversarem – mesmo que de modo unilateral: a moça falava e a flor apenas balançava uma ou outra pétala em resposta – a moça virou-se e levantou demais a mão. Sentiu que seus dedos esbarraram em algo sólido, que com o esbarrão deslizou pra frente, até um ponto em que se mostrou leve como uma pluma.

Enquanto a moça que agora gostava de café quente se debruçou sobre a janela do apartamento, boquiaberta, deixando os cabelos castanhos caírem por cima do rosto, o jarro com a flor caía lentamente, girando, tão leve que parecia flutuar, até que finalmente ele atingiu o chão. Uma pequena estrela de terra e pedaços de vaso quebrado surgiram em virtude da queda. Uma das pessoas que estava andando na calçada olhou pra cima, e a moça ergueu a cabeça no mesmo instante temendo ser pega pelo seu pequeno delito.

Abalada com a fuga repentina da flor – convenceu-se de que aquela fora uma fuga, na qual a flor se aproveitara da mão dela para escapar – a moça, que gostava de balançar os pés na cadeira, decidiu esquecer a saga das flores e procurar outra coisa com a qual se ocupar. Olhou para o computador, e viu que aquilo daria uma boa história.

E lá embaixo, por várias semanas, a flor que já era dada como morta por sua dona cresceu sem maiores incidentes. Firmou suas raízes por entre as brechas do concreto da calçada. Aproveitou da liberdade e da paisagem de asfalto.

E continuou viva.


Categorias: Agenda,Contos |

6 Comments»

  • Thainá Gomes says:

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    Eu fiquei o tempo todo intrigada pra saber o motivo das flores morrem. Achei um texto muito bonito, um tema muito novo pra mim.

  • Peregrina says:

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    Nossa!*-*
    Depois de tudo aquilo só precisou cair pra continuar viva.
    Eu também não tenho muito jeito com plantas…

    • Aldo Fernando says:

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      Isso é comum mesmo. Essa história foi baseada numa amiga que me disse ter dificuldade em manter as flores vivas por muito tempo. Aí criei a história.

  • Sanchez says:

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    Genial! Brilhante e bem humorado! amei! além de ter me identificado um pouco com a protagonista e sua dificuldade de fazer coisas banais (para os outro) :~!! fazia tempo que eu não lia algo que realmente valesse a pena!

    • Aldo Fernando says:

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      Opa, obrigado!

      De fato, coisas banais podem se tornar muito interessantes.

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Publicado por Aldo Fernando

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