Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida: Livro 1
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
29 Dicas para se manter criativo:
Vaucarn
A Lenda de Fausto
Chat dos Nerds Escritores
Quer publicar?
Download do livro O Draconiano – Livro 1
Dec
20
2010
Conto em Série

As Cartas de Mondego – Terceira Carta

Escritor: Andrey Ximenez

as-cartas-de-mondego

- Quando que ele vai chegar, querido?

- Olha – disse analisando o relógio de pulso – Ele já deve estar estourando por aqui.

Um toque de campainha ressou por toda casa. Francisco levantou-se da poltrona enquanto Mirian terminava de ajeitar a mesa de almoço, colocando os talheres ao lado dos pratos de porcelana, herança de família.

Chegando à entrada, o anfitrião escancarou a porta. Em frente ao vão surgiu um homem de pele mulata e um sorriso largo alvíssimo. Vestia bombachas combinadas com uma camisa de linho leve, azul. Nas mãos trazia uma sacola larga, branca e debaixo do braço um pequeno pacote pardo.

- E ai champz – disse o recém chegado.

- E ai cara. – respondeu Francisco – Entre, tu sabes, não és visita.

- Foi-se o tempo né meu amigo.

- Claro.

Ambos entraram no hall da casa da onde, por um arco, podia-se avistar a cozinha-sala de jantar onde Mirian já colocava o prato principal.

- E ai sra. Azevedo? – cumprimentou o homem – Como estás tu e a pequena Karen?

- Vamos indo, Antonio. A pequena tem nos assustado nos últimos dias, fora isso, tudo na santa paz. Mas e tu, homem, ficaste sumido. Por onde esteve?

O homem negro então puxou uma das cadeiras coladas em torno da mesa, sentando-se em seguida. Com um sorriso largo começou a falar.

- É, fiquei meio sumido mesmo. Meu bacuri tem me trazido um pouco de dor de cabeça também. Notas ruins na escola, escolinha de futebol e essas coisas mais. – disse, acenando com a mão enquanto falava, num tom meio entediado e aborrecido. – Mas me diga, o que houve com a Karen? – perguntou, estendendo a sacola branca para o amigo, que se aproximava.

- Ah… – começou Francisco, enquanto retirava da sacola uma torta altamente trabalhada, negra com lascas de chocolate no topo. – Teve uma infecção pulmonar. A coisa foi feia. Mas levamos ela no hospital e, acredite se quiser, foi um japa estagiário que matou a charada. Receitou um remedinho e pimba, ta nova em folha.

- Estagiário han? Que milagre não ter dado merda. – riu o companheiro. – Cara – emendou – Ia quase me esquecendo. Ali na frente do teu portão tinha um pacote, peguei para ti – comentou, estendendo o pacote escuro.

- Obrigado tchê – agradeceu Francisco, pegando o pacote levemente pesado em mãos, sentando-se em seguida ao lado do amigo. Virou-a ao contrário e pode perceber um selo gravado em cera de vela derretida. Era o selo utilizado por Stephan d’Roux, o arquiduque.

- E então, o que é querido? – perguntou Miriam, enquanto colocava uma jarra com suco no centro da mesa. – É um pacote dele, do duque?

- Que duque? – perguntou o amigo, erguendo a sobrancelha.

- É uma longa história – respondeu Francisco enquanto abria o embrulho sobre a mesa.

Diante dos três surgiu uma pequena caixa de madeira, toda envernizada e uma carta dobrada ao meio. Antonio somente encarou o par de itens que brotaram do pacote, procurando os olhos de Miriam em seguida, buscando alguma resposta. Ela apenas sorriu, olhando com interesse para a caixinha nas mãos do marido.

- Bem, primeiro a carta. – disse o escritor, pegando o papel e pondo-se a ler em voz alta.

Caro amigo,

Fico feliz que o sistema de interação que criamos esteja funcionando. Os dias aqui em Mondego tem se arrastado lentamente, no passo de lesma para ser mais exato.

O tempo por aqui está frio, caindo a temperatura rapidamente com o inicio do inverno. Os pássaros já desaparecem em direção à terras mais distantes, onde o sol é farto e as frutas do verão ainda perduram.

Devo lhe parabenizar pela celebração de seu titulo de mestre. Philgrim e eu ficamos longas horas a debater sobre qual seria sua área de atuação. Ele acredita que tu sejas como ele, um arcano apto a criar realidades com palavras e encantamentos. Prefiro pensar que tendes mais ao lado da espada, daquela pesada e firme, que saboreia destinos mesmo onde o vento forte sopra.

- Perai Francisco. Primeiro tu me dizes que quem escreve é um tal de Stephan D’Roux, agora tu lês o nome de Philgrim, o Arcano. Quer dizer…

- Sim meu amigo. Stephan e Philgrim, os personagens com que jogamos tanto tempo.

- Mas que loucura é essa? – perguntou Antonio, erguendo uma de suas sobrancelhas até uma altura que se diria “respeitável”.

- Quando o Gustavo deixou de mestrar tive a idéia de escrever um romance sobre nossos personagens. Postava com regularidade no meu blog, lembra?

- Sim, mas isso já faz um tempinho, não?

- Faz sim. Mas ao que tudo indica nossos personagens ganharam vida, e agora podem se corresponder conosco. Não estão nada satisfeitos que tenha parado de ter escrito, por isso das cartas.

- Entendo. – respondeu o amigo mulato, com um sorriso cético nos lábios.

- Bem, vamos seguir a leitura.

Devo lhe dizer que ultimamente tenho tido sonhos bem peculiares. Outrora somente uma voz infantil, que até então lhe dera o nome de Will, se fazia presente. Porém com o passar do tempo outras vozes se juntaram a essa. Não sei bem o que ocorre. Mas agora já sonho com rostos pequenos, como que emoldurados em pequenas pinturas, tais quais brasões. Dessas pinturas nascem palavras de incentivo e admiração. Imagino se sabes o que está acontecendo. Se sim, mande-lhes um obrigado. As noites têm sido mais quentes desde então. Agradeça as moças singelas, de palavras doces e incentivadoras. Aos rapazes empolgados e ao garoto de fala estranha. Fico muito feliz após essas madrugadas bem acompanhadas.

Penso se já começaste a pensar sobre alguma possível aventura para mim e meu bando. Sem pressa é claro. Estou ciente das complicações em suas terras.

Quanto a uma possível aventura… Bem, estive pensando, acredito que o dragão verde Bladakkas ainda viva, nas Colinas Sem Fim. É uma boa idéia, não?

Meu amigo, creio que por hora seja somente isso. Na caixa que lhe enviei em conjunto com a carta está um poderoso elixir de nossa terra. Basta que tu fervas as folhas que enviei com leite e açúcar. Acrescente o pacote de mel que está ao fundo e tudo dará certo. Espero que funcione e em breve a vitalidade de Lady Karen esteja de volta a casa.

Um abraço para ti e todos os teus familiares.

Sir Stephan d’Roux, Arquiduque de Mondego

- Bem, cá está. Mais uma carta do duque! – exclamou Francisco, enquanto espreguiçava-se largamente.

Os olhos de Antonio saltavam de um ao outro do casal. Porém não conseguia avistar marca de piada ou qualquer coisa que o valha. Seu amigo tinha a caixa em mãos no momento. Mirian que agora aparecera com Karen nos braços aproximava-se do marido com um olhar de curiosidade.

Ele desistiu de entender no exato momento que Francisco abrira a caixa. De dentro dela pode avistar algumas folhas num tom de verde brilhante. Provavelmente menta e boldo. No lado direito, meio que coberto sobre as folhas, um pequeno frasco de vidro, de um tom azul escuro fosco.

- Isso me parece ervas comuns – comentou o mulato, espichando os olhos pro conteúdo da caixa.

- E são mesmo… Para os nosso padrões – respondeu o anfitrião, pegando as folhas nas mãos e cheirando-as – Em Area ervas assim são raras. – disse, soltando as ervas e pondo-se a abrir o frasco que a caixa continha.

Um cheiro forte e adocicado se espalhou pelo ar. – Mel! – exclamou Mirian, com uma expressão de prazer no rosto.

- Que besteira, um chá comum com mel. – desdenhou Antonio, cansado daquela loucura.

- Não é besteira meu amigo. Como te disse, ervas assim não são comuns nas terras do duque. Certamente ele está sendo um cavalheiro muito gentil. Quanto ao mel, bem, trata-se de uma bomba calórica. Normalmente, em mundos medievais, crianças morriam graças à desnutrição e má alimentação. O chá limparia o organismo e o mel daria energia para Karen, deve ser isso que ele tinha em mente.

- Sinceramente meu amigo… – começou o visitante – pra mim isso é papo de louco. Quer saber, andiammo mangiare que a gente ganha mais.

Francisco sorriu, enquanto sentava-se a mesa com o amigo. Na mente a resposta ao duque já fervilhava.


Written by Andrey Ximenez in: Andrey Ximenez,As Cartas de Mondego,Contos | Tags: ,

20 Comments»

  • Vinicius Maboni says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Caraca!
    Cada vez melhor, gostei da explicação quando às “poções de cura”.
    Ainda to encucado com como as cartas vem…
    uahauha
    Parabens Andrey, essa estória é demais.

  • Rainier Morilla says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Mais uma vez espetacular Andrey. Essas cartas trazem um gosto especial a meus olhos!
    Parabéns por mais um excelente escrito!

  • Thainá Gomes says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Andrey essa estória só melhora.Eu sempre fico animada a escrever quando leio essas cartas de mondengo.Me dá um remorço de largar meus personagens.

    • Rainier Morilla says:

      Thumb up 0 Thumb down 0

      hehe… É verdade! Dá saudade daqueles personagens que escrevemos e deixamos de escanteio.

    • Andrey Ximenez says:

      Thumb up 0 Thumb down 0

      Bah, nem fala… só de pensar que eu to blokeado a mais de 3 meses e os meus personagens tão me aguardando…

      • Rainier Morilla says:

        Thumb up 0 Thumb down 0

        Eu tenho um sério problema. Consigo criar as histórias com facilidade.O argumento e roteiro fluem de uma forma maravilhosa. Mas quando vou estruturar a história…

  • Lord Jessé says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    Adoro essa história.
    -
    E de fato, a cada carta fica melhor.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Heheheheh…
    -
    Agora me dei conta de uma coisa… A samila era uma das pessoas q mais falava desse texto, de como poderia ser maior e talz… e esse, q eu tentei caprichar e aumentar, ela ainda não leu
    -
    xD

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Uma coisa que, infelizmente, aprendi no ONE: contos longos não são lidos na internet!

      O mesmo aconteceu com o Guia do Manguaceiro. O curto saiu da agenda no mesmo dia que foi publicado! Entretanto todos reclamaram de como foi curto o conto.

      Caprichei no segundo e quase ninguém leu!

      Creio que é um mal destes tempos corridos que vivemos.

      • Thumb up 0 Thumb down 0

        Sim. Muitos já me perguntaram qual o melhor formato para enviar um conto para internet. Sempre respondo: curto.

        Hoje as pessoas não tem muito tempo para leitura (por isso as graphic novels estão fazendo muito sucesso). E ainda por cima ler em um computador, já é mais uma obstáculo.

        O esquema é ser curto, rápido, bem escrito. Pode até ser série, mas tem que ser muito bem dividida e sempre deixar um gancho para fazer com que o leitor queira ler a próxima parte (tipo Dan Brown)

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Eu vim pra responder um comentário da Asami… Cade ele?

    • Asami says:

      Thumb up 0 Thumb down 0

      Meus comments tão sumindo! Coitadinha de mim! :(

      • Asami says:

        Thumb up 0 Thumb down 0

        (Só espero que meu comentário não suma de novo… poxa, eu não falei nenhuma porcaria e fui censurada, por que?)
        -
        O que eu queria dizer é que, como outros já disseram por aqui, a cada novo capítulo a estória fica ainda melhor que a anterior. E que eu ando quebrando minha cuca pra entender como são feitas as comunicações entre os dois mundos. E que, com essa mistura perfeita de sua técnica de escrita + esse enredo incrível, é impossível não dizer que está ficando hiper incrível :D

        *benzendo o pc pra ver se o bendito comentário não sai voando*

        • Thumb up 0 Thumb down 0

          Heheheheheh
          -
          Comentei no lugar errado o das cartas…
          -
          Enfim…
          -
          O mistério só será revelado mais pra frente
          -
          Fico feliz q esteja gostando!
          -
          =D

        • Asami says:

          Thumb up 0 Thumb down 0

          Gostando muito *-* Que bom que dessa vez meu comentário não fugiu! Já fiz umas trocentas teorias aqui, mas não vou falar, porque se eu estiver certa, perde a graça :D

  • Thumb up 1 Thumb down 0

    Eu fikei qse dois meses sem aparecer aqui e a Samila ainda não leu xD
    -
    Nunca mais atendo a um pedido dela. Sem vergonham
    u.u

RSS feed for comments on this post.


Leave a Reply

Powered by WordPress. © 2009-2011 J. G. Valério