As Cartas de Mondego – Terceira Carta
Escritor: Andrey Ximenez

- Quando que ele vai chegar, querido?
- Olha – disse analisando o relógio de pulso – Ele já deve estar estourando por aqui.
Um toque de campainha ressou por toda casa. Francisco levantou-se da poltrona enquanto Mirian terminava de ajeitar a mesa de almoço, colocando os talheres ao lado dos pratos de porcelana, herança de família.
Chegando à entrada, o anfitrião escancarou a porta. Em frente ao vão surgiu um homem de pele mulata e um sorriso largo alvíssimo. Vestia bombachas combinadas com uma camisa de linho leve, azul. Nas mãos trazia uma sacola larga, branca e debaixo do braço um pequeno pacote pardo.
- E ai champz – disse o recém chegado.
- E ai cara. – respondeu Francisco – Entre, tu sabes, não és visita.
- Foi-se o tempo né meu amigo.
- Claro.
Ambos entraram no hall da casa da onde, por um arco, podia-se avistar a cozinha-sala de jantar onde Mirian já colocava o prato principal.
- E ai sra. Azevedo? – cumprimentou o homem – Como estás tu e a pequena Karen?
- Vamos indo, Antonio. A pequena tem nos assustado nos últimos dias, fora isso, tudo na santa paz. Mas e tu, homem, ficaste sumido. Por onde esteve?
O homem negro então puxou uma das cadeiras coladas em torno da mesa, sentando-se em seguida. Com um sorriso largo começou a falar.
- É, fiquei meio sumido mesmo. Meu bacuri tem me trazido um pouco de dor de cabeça também. Notas ruins na escola, escolinha de futebol e essas coisas mais. – disse, acenando com a mão enquanto falava, num tom meio entediado e aborrecido. – Mas me diga, o que houve com a Karen? – perguntou, estendendo a sacola branca para o amigo, que se aproximava.
- Ah… – começou Francisco, enquanto retirava da sacola uma torta altamente trabalhada, negra com lascas de chocolate no topo. – Teve uma infecção pulmonar. A coisa foi feia. Mas levamos ela no hospital e, acredite se quiser, foi um japa estagiário que matou a charada. Receitou um remedinho e pimba, ta nova em folha.
- Estagiário han? Que milagre não ter dado merda. – riu o companheiro. – Cara – emendou – Ia quase me esquecendo. Ali na frente do teu portão tinha um pacote, peguei para ti – comentou, estendendo o pacote escuro.
- Obrigado tchê – agradeceu Francisco, pegando o pacote levemente pesado em mãos, sentando-se em seguida ao lado do amigo. Virou-a ao contrário e pode perceber um selo gravado em cera de vela derretida. Era o selo utilizado por Stephan d’Roux, o arquiduque.
- E então, o que é querido? – perguntou Miriam, enquanto colocava uma jarra com suco no centro da mesa. – É um pacote dele, do duque?
- Que duque? – perguntou o amigo, erguendo a sobrancelha.
- É uma longa história – respondeu Francisco enquanto abria o embrulho sobre a mesa.
Diante dos três surgiu uma pequena caixa de madeira, toda envernizada e uma carta dobrada ao meio. Antonio somente encarou o par de itens que brotaram do pacote, procurando os olhos de Miriam em seguida, buscando alguma resposta. Ela apenas sorriu, olhando com interesse para a caixinha nas mãos do marido.
- Bem, primeiro a carta. – disse o escritor, pegando o papel e pondo-se a ler em voz alta.
Caro amigo,
Fico feliz que o sistema de interação que criamos esteja funcionando. Os dias aqui em Mondego tem se arrastado lentamente, no passo de lesma para ser mais exato.
O tempo por aqui está frio, caindo a temperatura rapidamente com o inicio do inverno. Os pássaros já desaparecem em direção à terras mais distantes, onde o sol é farto e as frutas do verão ainda perduram.
Devo lhe parabenizar pela celebração de seu titulo de mestre. Philgrim e eu ficamos longas horas a debater sobre qual seria sua área de atuação. Ele acredita que tu sejas como ele, um arcano apto a criar realidades com palavras e encantamentos. Prefiro pensar que tendes mais ao lado da espada, daquela pesada e firme, que saboreia destinos mesmo onde o vento forte sopra.
- Perai Francisco. Primeiro tu me dizes que quem escreve é um tal de Stephan D’Roux, agora tu lês o nome de Philgrim, o Arcano. Quer dizer…
- Sim meu amigo. Stephan e Philgrim, os personagens com que jogamos tanto tempo.
- Mas que loucura é essa? – perguntou Antonio, erguendo uma de suas sobrancelhas até uma altura que se diria “respeitável”.
- Quando o Gustavo deixou de mestrar tive a idéia de escrever um romance sobre nossos personagens. Postava com regularidade no meu blog, lembra?
- Sim, mas isso já faz um tempinho, não?
- Faz sim. Mas ao que tudo indica nossos personagens ganharam vida, e agora podem se corresponder conosco. Não estão nada satisfeitos que tenha parado de ter escrito, por isso das cartas.
- Entendo. – respondeu o amigo mulato, com um sorriso cético nos lábios.
- Bem, vamos seguir a leitura.
Devo lhe dizer que ultimamente tenho tido sonhos bem peculiares. Outrora somente uma voz infantil, que até então lhe dera o nome de Will, se fazia presente. Porém com o passar do tempo outras vozes se juntaram a essa. Não sei bem o que ocorre. Mas agora já sonho com rostos pequenos, como que emoldurados em pequenas pinturas, tais quais brasões. Dessas pinturas nascem palavras de incentivo e admiração. Imagino se sabes o que está acontecendo. Se sim, mande-lhes um obrigado. As noites têm sido mais quentes desde então. Agradeça as moças singelas, de palavras doces e incentivadoras. Aos rapazes empolgados e ao garoto de fala estranha. Fico muito feliz após essas madrugadas bem acompanhadas.
Penso se já começaste a pensar sobre alguma possível aventura para mim e meu bando. Sem pressa é claro. Estou ciente das complicações em suas terras.
Quanto a uma possível aventura… Bem, estive pensando, acredito que o dragão verde Bladakkas ainda viva, nas Colinas Sem Fim. É uma boa idéia, não?
Meu amigo, creio que por hora seja somente isso. Na caixa que lhe enviei em conjunto com a carta está um poderoso elixir de nossa terra. Basta que tu fervas as folhas que enviei com leite e açúcar. Acrescente o pacote de mel que está ao fundo e tudo dará certo. Espero que funcione e em breve a vitalidade de Lady Karen esteja de volta a casa.
Um abraço para ti e todos os teus familiares.
Sir Stephan d’Roux, Arquiduque de Mondego
- Bem, cá está. Mais uma carta do duque! – exclamou Francisco, enquanto espreguiçava-se largamente.
Os olhos de Antonio saltavam de um ao outro do casal. Porém não conseguia avistar marca de piada ou qualquer coisa que o valha. Seu amigo tinha a caixa em mãos no momento. Mirian que agora aparecera com Karen nos braços aproximava-se do marido com um olhar de curiosidade.
Ele desistiu de entender no exato momento que Francisco abrira a caixa. De dentro dela pode avistar algumas folhas num tom de verde brilhante. Provavelmente menta e boldo. No lado direito, meio que coberto sobre as folhas, um pequeno frasco de vidro, de um tom azul escuro fosco.
- Isso me parece ervas comuns – comentou o mulato, espichando os olhos pro conteúdo da caixa.
- E são mesmo… Para os nosso padrões – respondeu o anfitrião, pegando as folhas nas mãos e cheirando-as – Em Area ervas assim são raras. – disse, soltando as ervas e pondo-se a abrir o frasco que a caixa continha.
Um cheiro forte e adocicado se espalhou pelo ar. – Mel! – exclamou Mirian, com uma expressão de prazer no rosto.
- Que besteira, um chá comum com mel. – desdenhou Antonio, cansado daquela loucura.
- Não é besteira meu amigo. Como te disse, ervas assim não são comuns nas terras do duque. Certamente ele está sendo um cavalheiro muito gentil. Quanto ao mel, bem, trata-se de uma bomba calórica. Normalmente, em mundos medievais, crianças morriam graças à desnutrição e má alimentação. O chá limparia o organismo e o mel daria energia para Karen, deve ser isso que ele tinha em mente.
- Sinceramente meu amigo… – começou o visitante – pra mim isso é papo de louco. Quer saber, andiammo mangiare que a gente ganha mais.
Francisco sorriu, enquanto sentava-se a mesa com o amigo. Na mente a resposta ao duque já fervilhava.
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Caraca!
Cada vez melhor, gostei da explicação quando às “poções de cura”.
Ainda to encucado com como as cartas vem…
uahauha
Parabens Andrey, essa estória é demais.
Seu contar isso perde a mágica
Se eu *
Mais uma vez espetacular Andrey. Essas cartas trazem um gosto especial a meus olhos!
Parabéns por mais um excelente escrito!
Que bom tche, meus olhos agradecem em ler isso.
=D
Andrey essa estória só melhora.Eu sempre fico animada a escrever quando leio essas cartas de mondengo.Me dá um remorço de largar meus personagens.
hehe… É verdade! Dá saudade daqueles personagens que escrevemos e deixamos de escanteio.
Bah, nem fala… só de pensar que eu to blokeado a mais de 3 meses e os meus personagens tão me aguardando…
Eu tenho um sério problema. Consigo criar as histórias com facilidade.O argumento e roteiro fluem de uma forma maravilhosa. Mas quando vou estruturar a história…
Adoro essa história.
-
E de fato, a cada carta fica melhor.
Heheheheh…
-
Agora me dei conta de uma coisa… A samila era uma das pessoas q mais falava desse texto, de como poderia ser maior e talz… e esse, q eu tentei caprichar e aumentar, ela ainda não leu
-
xD
Uma coisa que, infelizmente, aprendi no ONE: contos longos não são lidos na internet!
–
O mesmo aconteceu com o Guia do Manguaceiro. O curto saiu da agenda no mesmo dia que foi publicado! Entretanto todos reclamaram de como foi curto o conto.
–
Caprichei no segundo e quase ninguém leu!
–
Creio que é um mal destes tempos corridos que vivemos.
Sim. Muitos já me perguntaram qual o melhor formato para enviar um conto para internet. Sempre respondo: curto.
–
Hoje as pessoas não tem muito tempo para leitura (por isso as graphic novels estão fazendo muito sucesso). E ainda por cima ler em um computador, já é mais uma obstáculo.
–
O esquema é ser curto, rápido, bem escrito. Pode até ser série, mas tem que ser muito bem dividida e sempre deixar um gancho para fazer com que o leitor queira ler a próxima parte (tipo Dan Brown)
Eu vim pra responder um comentário da Asami… Cade ele?
Meus comments tão sumindo! Coitadinha de mim!
(Só espero que meu comentário não suma de novo… poxa, eu não falei nenhuma porcaria e fui censurada, por que?)
-
O que eu queria dizer é que, como outros já disseram por aqui, a cada novo capítulo a estória fica ainda melhor que a anterior. E que eu ando quebrando minha cuca pra entender como são feitas as comunicações entre os dois mundos. E que, com essa mistura perfeita de sua técnica de escrita + esse enredo incrível, é impossível não dizer que está ficando hiper incrível
*benzendo o pc pra ver se o bendito comentário não sai voando*
Heheheheheh
-
Comentei no lugar errado o das cartas…
-
Enfim…
-
O mistério só será revelado mais pra frente
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Fico feliz q esteja gostando!
-
=D
Gostando muito *-* Que bom que dessa vez meu comentário não fugiu! Já fiz umas trocentas teorias aqui, mas não vou falar, porque se eu estiver certa, perde a graça
Não teve censura!
–
Expliquei lá no outro comentário seu, sobre “comentários desaparecidos”.
Eu fikei qse dois meses sem aparecer aqui e a Samila ainda não leu xD
-
Nunca mais atendo a um pedido dela. Sem vergonham
u.u