Maria Sangrenta
Escritor: Batuta Ribeiro
Luizinho entrou em casa carregando o espelho que comprou em uma loja de antiguidades. Sua esposa Beatriz, esbravejou ao saber que ele tinha desembolsado trinta reais pelo artefato.
- Você tem o miolo mole? – falou enquanto batia o dedo indicador na testa dele – Pra que um espelho se já temos três?
- Calma benzinho, sente só a moldura – Luizinho passou os dedos na moldura dourada – o dono da loja me disse que é do século dezoito, uma raridade.
- Pode ser do século que o parta seu desgraçado, minha casa não é museu, pode tratar de devolver.
- De jeito nenhum, eu comprei com o meu dinheiro – demonstrou firmeza, mesmo sabendo que poderia levar um tapa no pé do ouvido. A esposa respirou fundo e contou até dez.
- Tudo bem Luiz, se vai ficar com este espelho, ótimo, só que pode me esquecer – foi para a cozinha pisando duro. Luizinho pensou em ir atrás dela e fazer a sua vontade, só que refletiu “eu sou homem, o rei do castelo, faço o que quiser”, e levou seu espelho para o porão.
No dia seguinte, Luizinho estava na academia de musculação. Apesar de ter pouca massa cinzenta, gostava de trabalhar os bíceps. Enquanto erguia um peso de oitenta quilos, seu amigo Paulo aproximou-se, usava uma camisetinha regata que deixava a mostra seu peito depilado e seus braços cheios de nervos suados.
- Quais as novidades?
- Ontem comprei um espelho do século dezoito, acredita?
- Nossa! – exultou o amigo com a grande notícia, só que depois de processar a informação, estranhou:
- O que é século dezoito?
- Sei lá Paulo, só sei que o espelho é raro.
- Raro?
- Raro é uma coisa difícil de encontrar.
- Legal.
- Também achei, só que Beatriz não gostou muito, queria que eu devolvesse.
- E o que você fez?
- Na minha casa quem manda é Luizinho, o fera! – se rejubilou.
- Falando em espelho, você conhece a Maria Sangrenta?
- Não, onde ela mora?
- É uma lenda urbana – Paulo baixou a voz e com seriedade completou – Se você disser Maria Sangrenta três vezes diante do espelho… Ela aparece.
Luizinho ouviu com atenção, olhou para o amigo esperando que ele completasse a frase, com a quietude dele, perguntou pausadamente:
- Se eu falar Maria Sangrenta três vezes, quem vai aparecer?
- A Maria Sangrenta.
- Mas quem é essa tal Maria?
- É uma mulher que aparece no espelho e lhe arranca os olhos.
- Porque ela faria isso?
- É uma lenda cacete! Como eu vou saber? – irritou-se Paulo.
Após um breve silêncio de constrangimento, o outro ainda pergunta:
- E se o cara for cego?
A noite, Luizinho deitou-se ao lado de Beatriz fazendo chamego pra molhar o biscoito, porém ela o afastou com o braço.
- Só depois que você devolver o espelho – intimou.
- Por causa de uma porcaria de espelho?
- Se é porcaria porque comprou?
- Porque eu quis – respondeu ríspido.
- Então vai curar a coceira com o seu espelho.
- Talvez eu vá.
- Vai.
- Eu vou.
Beatriz ficou de costas para Luizinho. Mesmo que o sexo fosse importante, ele não poderia abrir mão de sua masculinidade submetendo-se as ordens da esposa. Tinha que ser firme. Mostrar pulso.
E assim sucedeu-se, depois de uma semana, Luizinho procurava pretextos para devolver o espelho, poderia argumentar que ele não era do século dezoito ou que não fazia o seu tipo. Seria um grande tapa em sua dignidade, mas um homem não pode viver só de masturbação.
- Não! Não vou dar este gosto a Beatriz! – falou para seu reflexo no espelho – tenho que demonstrar viri… vili… viliri… viridade… droga – esmurrou a coluna não sabendo pronunciar “virilidade” mesmo que não soubesse o significado, mas era uma palavra muito usada nas revistas de musculação para descrever homens fortes.
Algo surpreendentemente inesperado aconteceu naquele instante. Luizinho teve uma idéia. “Se não tem cachorro, caço com gato”.
Mirou-se no espelho e falou:
- Maria Sangrenta! Maria Sangrenta! Maria Sangrenta!
Vasculhou o espelho em busca de uma mulher.
- Deve estar quebrado – deu uns tapas na moldura. Sentiu uma presença atrás de si e virou-se em um pulo. Quando ficou de costas, Maria apareceu no espelho. Os seus olhos eram buracos negros e por sua face escorriam lágrimas de sangue.
Ao virar-se de volta e ver aquela estranha figura, Luizinho disse:
- Ainda bem que você apareceu, preciso de você.
- Não sabe quem eu sou? – perguntou ela mostrando os dentes podres e amarelados. Luizinho afastou-se de nojo.
- Meu Deus, você não conhece escova de dentes?
- Eu quero os seus olhos.
- Se quiser os meus olhos, vai ter que levar o pacote completo.
Luizinho tirou a camiseta exibindo os seus peitos trabalhados arduamente com cento e cinqüenta flexões diárias e detalhe para a barriga tanquinho.
- O que você pensa que está fazendo?
- Eu to na seca mulher!
Como se tivesse olhos, ela o examinou dos pés a cabeça e comentou:
- Quer saber, fui.
A mulher desapareceu.
- Qual é!? Só quero uma trepadinha! – reclamou Luizinho.
Ele observou o seu rosto no espelho, inflou os músculo e cheirou o sobaco. Depois deu de ombros
- Pelo menos fiquei com os olhos.
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Eu ri, só que achei esse Luizinho e o amigo dele bem burros mesmo.
Eu ri muito.Fiquei até com pena da Maria.
UAHHAUAHUAHA
adorei!
só não gostei muito dos estereótipos do protagonista e seu amigo
Parabéns
texto bem divertido.
Valeu-se de personagens estereotipados mesmo, como apontou a Samila, mas dentro da proposta do humor fácil,se saiu muito bem.
Acho ainda que isso dá uma série, hein.
Apesar de não gostar do nome Luisinho e achar que nenhum marombado gosta de nomes no diminutivo. Este cara poderia voltar em outros “enfrentamentos sobrenaturais”. Ia ser da hora o cabra querendo dar uns tapas no saci que fica trocando os pesos de seus alteres, ou o corpo-seco, a loira do banheiro, a mulher de algodão ou até a mula sem cabeça!
hahaha!
Acho que to viajando.
Parabéns, continue a mandar contos engraçados assim, pois voc~e faz bem isso.
Hahahahahahahahahahahahahahahahahahaaaa… muito divertido mesmo! Faço minhas as palavras do Flávio. Isso dá uma série e uma das boas. Muito criativo e cômico, adorei