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Dec
15
2010

O Despertar dos Conectados – Capítulo 1 – O Asteróide

Escritor: Luís Oselieri

No começo, quando Jennifer pensava que podia fazer tudo o que quisesse, até mesmo sair na praia para curtir as ondas, ou esquiar, era assim que ela não gostava de ser chamada pelos seus amigos, em seu celular, que ficava quase sempre desligado.  Nada mais fazia com que ela deixasse aquela praia, e assim mesmo nada podia fazer com que os outros soubessem que ela ainda nao havia desistido do plano de poder voltar para casa. A notícia do asteróide ainda permanecia em sua mente, e assim ela não conseguia esquecer todos aqueles momentos de desespero. Mas nem por isso a chuva parou para fazer com que ela ficasse mais tranquila.

Após alguns minutos olhando para seu relógio que estava em seu celular, que desta vez estava ligado, apesar da bateria fraca, ela sentia que aquele dia seria o dia mais importante de sua vida. As nuvens revelavam que ela ainda iria sair da praia e se aproximar dos soldados, que ainda estavam vigiando as ruas da cidade, mas ela ainda não sabia por que eles continuavam agindo daquela forma. O asteróide realmente parecia ter mudado a vida de todos os cidadãos do mundo.

Quando a noite se preparava para fazer com que Jennifer soltasse sua bóia das águas, correndo aflita, procurando por ajuda, tentando fazer com que tudo aquilo parecesse normal, ela escutou um barulho estranho que lhe fez lembrar de todo seu passado. Os soldados voltaram. Talvez eles estivessem mesmo tentando fazer com que Jennifer compreendesse que nada que ela fosse fazer iria mudar o destino do mundo. Tanques de guerra impiedosos destruindo o asfalto, e tentando mudar o rumo dos cidadãos, no meio da violência, não era nada mais do que o próprio reflexo de um governo novo, um governo que só sabia mostrar ao povo o sofrimento.

Jennifer entendia que para poder sobreviver naquele mundo deveria ser forte, e aguentar todas as ofensas que recebia todos os dias. Mas nem por isso ela se julgava fraca para deixar que as pessoas continuassem seguindo suas vidas, como se o asteróide nao fosse atingir o planeta. Os cientistas haviam dito, haviam explicado no noticiário, mas apesar de todas as manifestações, mostrando que o mundo nao suportaria a chegada do astro, grande parte da população preferiu continuar pensando que estava tudo normal. Mas Jennifer não queria continuar na normalidade. Ela preferia seguir o caminho da verdade, e a verdade era a mais simples de todas: a Terra iria ser destruída, se ninguém tomasse uma atitude.

Ela então saiu da praia, se afastando das ondas, e os soldados continuavam em sua mente, lhe ameaçando, como se fossem algo que iria aparecer mais cedo ou mais tarde. Mas surpreendentemente, o dia seguinte se mostrou tranquilo, apesar de todas as inseguranças que pareciam explodir a qualquer momento. Bombas, granadas, fuzis, tudo aquilo era comum de se ver na cidade de Nova Esperanca, e a cidade também significava muito para Jennifer, pois ela sabia que era uma cidade complexa, mas suficientemente bem organizada. Os cidadãos costumavam respeitar todas as leis, e as leis eram rígidas, mas não tao rígidas quanto as ordens dos soldados do novo governo.

Desde 1999, quando os humanos ainda sonhavam com a imortalidade, com todas as promessas feitas pelos cientistas que se achavam os mais experientes, os especialistas, Jennifer sabia que eles sabiam apenas dizer mentiras para fazer com que os humanos continuassem em suas zonas de conforto. Poder ficar tranquilamente em suas casas, sentados em suas cadeiras, ao som dos flocos de neve que caiam do lado de fora. Todo aquele sonho parecia cada vez mais distante, pois Jennifer sentia que quando o asteróide chegasse, iria destruir até mesmo as mais novas religiões, que surgiram em meio ao desespero da população.

No meio de toda aquela confusão, Peter parecia não se importar, ao perceber a presença de Jennifer no meio dos tanques, caminhando ansiosa, como se estivesse procurando por algo que pudesse lhe salvar daqueles homens.

“Jennifer! Estou aqui, venha logo!”

Ela então caminhou despreocupada, como se realmente não estivesse se preocupando com tudo aquilo, mas estaria mentindo para ela mesmo, se dissesse para Peter que os últimos dias haviam sido tranquilos.

“Peter, quando é que você vai até a minha casa?”

“Não se preocupe com isso, querida. Não é agora que irei sentir o calor do seu corpo.”

Ela ainda não conseguia entender aquilo, por quê ele iria fazer uma afirmação tão estúpida daquelas? Não era o  momento certo de ficar tentando dizer que ele não queria mais o seu calor. Mas ela agora estava livre, estava certa que agora as coisas iriam melhorar.

“Tudo bem, Peter, sei que você tem uma mulher mais inteligente, talvez até melhor na cama do  que eu. Mas ainda vai se arrepender, vai se arrepender de tudo que fez comigo na semana passada.”

Peter soltou um sorriso quase amargo,  e caminhou de volta para os prédios antigos, as construções que ainda não haviam sido demolidas pelo novo governo. Jennifer deixou que os ventos continuassem deslizando por seus longos cabelos negros, e continuou assim por mais alguns minutos. Já estava na hora de voltar para casa, apesar dos tanques, e de toda a violência que ameaçava nas ruas.

“Escuta, quero mesmo ter a certeza de que você não me ama mais.”

“Eu nao te amo, mas não posso… viver sem você, Jennifer.”

Os dois correram no meio dos corpos espalhados pelas ruas, e então tudo parecia congelado, como se fosse um filme paralisado, cortado, pois jennifer sabia que tudo aquilo nao poderia continuar assim, tão triste… eles correram, ignorando todos os obstáculos que se jogavam em suas frentes, e os tanques continuaram passando pelo asfalto, mostrando todo seu poder de ataque. O sol já não estava mais no horizonte, e assim nada daquilo queria dizer que as horas iriam voltar, aquelas horas boas da paixão.

“Sabe, Jennifer, queria te pedir desculpas por tudo que fiz. Mas você é uma boa garota. Não pode continuar comigo, e sabe disso.”

“Deixe disso, Peter. Sabe que nao conseguiríamos sobreviver neste mundo, sem as coisas boas. E você…”

Aquelas palavras foram interrompidas por um disparo, certeiro, mortal, destruidor, que atingiu as costas de Peter, que ainda permaneceu nos braços de Jennifer, olhando desesperado para o sangue que brotava em seu peito. Os soldados haviam chegado com todas suas armas: fuzis tão violentos, que faziam com que todos que passassem pelas ruas se abaixassem com medo, pois poderiam tomar tiros de misericórdia. O toque de recolher era comum naqueles dias difíceis, mas agora estava tudo terminado na mente de Jennifer.

“Não me deixe, nao quero continuar aqui neste mundo, sem a sua presença, Peter. Por favor…”

As lágrimas pareciam cada vez mais profundas, e ela sabia que a partir daquele dia o mundo seria outro, longe de seu amor, e de todos os pensamentos, as lembranças boas que faziam com que ela pudesse viajar para seu próprio planeta. Talvez a paz nunca iria retornar na cidade de Nova Esperanca. Talvez os dias eram feitos para que Jennifer sentisse um ódio crescente, um ódio cada vez mais desequilibrado por aqueles homens. Peter continuava em seus braços, tentando movimentar os lábios, tentando dizer mais uma palavra, mas o sangue continuava mostrando que aqueles momentos ja não eram mais de dizer qualquer coisa. Já estava morto, sem vida, como um ser que nunca havia existido. e Jennifer sabia que não adiantaria ficar ali parada.

Saiu correndo, escapando dos tanques, e dos soldados furiosos, disparando contra pessoas inocentes, demonstrando todo seu poder contra os cidadãos. As ruas estavam cheias de violência, e Jennifer queria apenas chegar em sua casa, e as lágrimas continuavam caindo como rios de tristeza. E aquela tristeza, talvez algo ainda insuperável passava por dentro de seu coração. Os últimos momentos ao lado de Peter, olhando em seus olhos, como se fosse uma jóia rara de se encontrar.

No dia seguinte, quando Jennifer sentiu a cabeça doendo como se uma bigorna tivesse a acertado, ela se lembrou de Peter, e de tudo que havia se passado na noite passada. Agora ela descansava ao lado de um cadáver, embaixo de uma ponte, olhando para a chuva, olhando para todos aqueles corpos de pessoas que nao haviam obedecido as leis. O asteróide iria se aproximar da Terra em dez dias, e isso significava um grande descontrole de grande parte da população. Muitos achavam que os deuses estavam testando seus novos seres, suas novas criações, para poder mostrar que eles mesmo eram os únicos capazes de trazer a verdadeira alegria. A paz que o mundo sonhava estava longe de ser alcançada.
Jennifer sentiu as gotas de chuva molhando seu rosto e seu corpo quase nu, e suas roupas rasgadas se misturavam com as roupas do cadáver de Peter, que demonstrava em seu rosto sem vida uma expressão vazia, mas com um pingo de esperança. Jennifer teria de voltar para casa, apesar de ter de escapar mais uma vez dos tanques, e isso seria mais um grande desafio. As ruas desertas agora revelavam uma depressão, talvez uma solidão ainda mais assustadora, e Jennifer só tinha uma única saída: sair debaixo daquela ponte.

Ela então saiu, correndo como se mais nada importasse, sentindo todas aquelas gotas d’água acertarem sua pele, e no mesmo instante, se lembrou de sua mãe. Ela devia encontrar sua mãe o mais rápido que podia, e saindo da ponte, ela simplesmente iria chegar até em sua casa mais uma vez. Os soldados continuavam atravessando as ruas com seus fuzis, ameaçando a todos. Jennifer queria poder esquecer o passado, o tempo em que ainda era apenas uma garota, sem qualquer modificação em seu corpo, e sem qualquer dispositivo de um conectado. Agora os humanos não eram mais os mesmos, e os centros de pesquisa e de integração sociais continuavam mais cheios de novos visitantes.

Jennifer saiu debaixo da ponte, tentando esquecer Peter, mas sabia que nunca mais teria a imagem positiva dele, pois ninguém que ficava morto seria capaz de cometer atos tão insanos. E Peter sempre sentiu que Jennifer não mais a amava, talvez fosse apenas uma ilusão, uma história mal contada. Jennifer seguiu, atravessando a rua ansiosa, enquanto os tanques passavam, apontando seus canos de destruição. O asteróide em breve chegaria, e com ele chegaria também a mais completa derrota dos homens.

Era de se imaginar que aquele dia chegaria, mas Jennifer ainda sentia que poderia fazer algo, pois com dez dias de prazo, um prazo nem muito longo, mas suficiente para procurar por alternativas, era o certo a se fazer. Avisar a todos, avisar que eles corriam perigo, e que talvez aquele asteróide fosse apenas uma armação do governo. Aquela notícia que havia passado em todos os canais, na tarde da segunda-feira, anunciava algo tão importante, e Jennifer sabia que a chegada de um astro significava nada para um mundo controlado por aliens, criaturas de outro planeta. A Terra já estava nas mãos daquele governo opressor, e as quatro naves, as quatro gigantescas naves, demonstravam uma tecnologia além das capacidades humanas. Cura, paz, e todas as coisas boas que a humanidade sempre havia procurado, agora tudo aquilo parecia ter sido resolvido.

Jennnifer caminhou, atravessando as ruas, seguindo pela noite, bastante cansada, e no dia seguinte teria de encontrar sua mãe, e explicar que ela estava correndo um grande perigo. Se as próximas noites fossem mesmo sinal de que a morte chegaria em um grande terror, em toda sua glória, era chegado o momento da mudança…


Written by Luís Oselieri in: Agenda,Contos,Luis Oselieri,O Despertar dos Conectados |

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