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Dec
15
2010

Sonho de Criança

Escritor: Daniel Angione

Escritor: Daniel Angione

Quando a pequena e sorridente Laís descobriu que as nuvens eram na verdade algodão doce, não resistiu à tentação de puxar uns fiapos aqui e ali e saboreá-los, lambendo até os dedos, enquanto brincava. Ria sozinha, pulando de uma nuvem à outra e vendo o mundo lá embaixo. Por entre a maciez de seu abrigo, conseguia enxergar um vasto campo verdejante, salteado por algumas casas e pastos onde os animais pareciam apenas pontinhos brancos.

- Mas isso é tão legal! – concluiu Laís, se agarrando no algodão doce e girando de um lado ao outro. Seu pequeno corpo de 7 anos se sentia leve como uma pluma.

- Sim, é muito legal, Laís. Mas agora você precisa vir comigo.

A imagem de um homem alto e muito bonito surgiu de dentro do algodão. Laís primeiramente o identificou como seu pai, mas então percebeu que não era esse o caso. Ela talvez queria que fosse seu pai, mas não era seu pai. Era algo diferente, com um brilho diferente. Seria um anjo?

Laís apenas riu e começou a correr do homem, pulando de nuvem em nuvem e caindo de cara no grande doce quando possível. O homem suspirou, também riu e suavemente caminhou ao lado da menina. Seus pés eram tão leves que nem afundavam ao tocar no suntuoso caminho que ele mesmo descrevia, ora de um lado de Laís, ora do outro. Intrigada, a menina foi lentamente desacelerando e perguntou:

- O senhor é um anjo?

- Bem… – ele franziu a testa, esboçando um sorriso forçado. – Sim, talvez esse seja um dos muitos nomes que eu posso receber. Venha comigo, Laís.

A menina primeiramente assentiu e caminhou até o estranho, mas com uma risada histérica passou por ele e saltou das nuvens, caindo então pelo céu infinito. Durante a queda, conseguia se virar e se mexer livremente, rasgando um invisível e delicado veludo com suas mãos e pés. Não demorou muito para que percebesse a presença do estranho novamente. Entretanto, independente da queda, ele estava de pé no ar, observando a garota.

- Por favor, Laís, você pode vir comigo? Tenho algo para lhe mostrar.

A apenas alguns centímetros do solo, a queda subitamente cessou e Laís conseguiu caminhar normalmente pelo extenso gramado. O homem ainda a seguia, agora de longe. Ela brincou, pulou, deu cambalhotas e soprou dentes-de-leão aos céus, observando carinhosamente enquanto eles se desfaziam diante do sol.

- Nossas vidas são como dentes-de-leão, Laís. Inevitavelmente, eles vão se desfazer. – suspirou o estranho, agora um pouco mais pesaroso.

- Não vão, não! – contrariou. – Se eu decidir por não soprá-los, não vão. – ela ainda os soprava.

Sem falar mais nada, o homem estendeu a mão e Laís subitamente sentiu um ímpeto de parar tudo que fazia e acompanhá-lo. Hesitou, mas não resistiu. Algo mais forte a chamava. Não conseguiu discernir por quanto tempo caminharam, se foram alguns segundos ou horas, mas logo estava diante de uma casa em chamas no meio do descampado. Reconhecia aquele lar – era seu lar – e agora queimava. Sentiu vontade de chorar, mas não tinha lágrima alguma. O homem a guiou até uma das janelas onde, através da fumaça, era possível ver uma pequena menina de 7 anos caída em meio aos destroços. Era ela mesma.

- Eu morri? – perguntou lentamente, ainda sem entender muito o que acontecia.

- Ainda não. Mas estamos quase lá. – o homem sorriu, agora um sorriso sincero, quase que inocente. Laís prontamente largou sua mão. – As crianças são sempre as que mais lutam… – riu.

Laís correu para longe da casa, gritando que não queria e que não iria a lugar algum. O estranho apenas a seguia, agora com um sorriso conformado. Após alguns passos, os olhos da menina se arregalaram fortemente e ela sentiu um impacto enorme sobre o peito, forte o suficiente para atirar seu corpo ao chão.

Quando caiu, ofegante, tentou levantar-se mas novamente a força a jogou para trás, arrastando suas costas pelas folhas caídas do Outono. O homem parou diante dela e a observou, enquanto um terceiro baque a fez gritar de susto e ser lançada, uma última vez, para trás.

- Seja feliz, Laís.

Essas foram as últimas palavras do estranho. A menina não tinha fôlego para dizer mais nada, sentia um aperto sem fim dentro do coração. Percebeu que mais um baque viria, e esse seria forte; fechou os olhos, mas nada aconteceu…

Quando lentamente os abriu, podia ver sirenes e vários rostos ao redor dela. Estava deitada e amarrada, mal conseguia se mexer. As estrelas dançavam como se estivessem em movimento, homens que pareciam paramédicos sorriam para ela e apontavam uma pequena lanterna nos seus olhos.

- Conseguimos! – disse um deles.

Laís jamais esquecera o sonho que tivera quando criança.


Written by Daniel Angione in: Agenda,Contos,Daniel Angione |

2 Comments»

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    Aeee Bem vindo

  • Thainá Gomes says:

    Thumb up 1 Thumb down 0

    Gostei, da suavidade que tem no começo e depois o susto que dá na gente quando vem a casa pegando fogo. E eu achei que iria morrer, ao longo do texto vc se surpreende e eu gostei bastante disso.

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