Vingança de Cabeceira
Escritor: Antonio.LaCarne
Violei o corpo, querido K. – que me enxerga como ser indolente quando tenho dinheiro no bolso & o nariz enfeitado de pó. Desengravidei os filhos não tidos (pela ausência de afeto maior & de um pai aos olhos da família). Outras mentiras não caberão neste espaço injusto, muitas vezes fantasioso, como se ao sentar próximo dos interlocutores eles propusessem uma investigação acadêmica.
& eu me contraio, cumprimentando & espalhando poses nos espaços vazios diante das mesas, das crises existências alheias, das camuflagens comportamentais. Ensaio os passos da dança num costume de cego prestes a não enxergar o buraco, a não fazer parte do buraco. Não me contradigo através daquela promessa que foi bem vinda & logo massacrada num instante de pré-prazer.
A despedida que não desvendou um braço nu (antes) plantado com esmero. Em silencio fotografo os dois travesseiros. Organizo os bilhetes de longa data, onde K. (mentiroso) enviou pinturas, naturezas mortas enquanto eu segurava a maçã suspensa à minha fome.
Mas por estes lados, apago as luzes ou esqueço o dia, esqueço a claridade de Edward Hopper. Caio em tentação nas horas de falsa lucidez – fútil como qualquer ser humano fiel ao perigo da luxúria. Em seguida, numa sensação de êxtase, mato a reputação defeituosa de K. enviando textos para revistas de fino trato.
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Muito bom esse texto, parabéns!