A Boneca
Escritor: Gustavo Martins
O corpo frágil jazia sob o chão molhado, fugitivo de seus donos. Um sorriso estava estampado no rosto de boneca de porcelana, porém os olhos inchados pelas lágrimas revelavam o que realmente sentia. A chuva que caía violenta parecia ignorá-la, assim como todo o resto do mundo. Era uma mulher amaldiçoada pela dádiva celeste.
Seus tristes olhos negros acompanhavam aquele que homem que se aproximava. Viram-no se abaixar e tocar-lhe a face, viram seus lábios se moverem para falar algo a ela:
—Qual seu nome? – ele perguntou.
A mulher nada respondeu. Não desejava ignorá-lo, porém aquela pergunta não poderia ser respondida. Jamais tivera um nome já que de onde veio ninguém necessitava de um.
Fechou os olhos e mergulhou naquelas amargas memórias.
O quarto era escuro pois não haviam janelas e a única fonte de luz era um velho lampião que um homem vinha conferir todos os dias. Não tinha nenhum tipo de móvel ou decoração, exceto por aquele lampião. Lá vivia junto a outras meninas, todas tão crianças como ela.
Todos os dias, quando o homem vinha verificar o lampião, trazia também uma tigela com algo que vagamente lembrava comida. Ela era a menor e mais fraca de todas, portanto nunca lhe sobrava nada. Talvez conseguisse pegar algo se tentasse, mas não sentia que era necessário fazê-lo. Nunca sentia fome logo não havia razão para que comesse.
As vezes o homem vinha acompanhado de outro que parecia examinar as meninas. Naquelas não tão raras ocasiões uma garota sempre era levada para fora do quarto e voltava, horas depois, vestida com roupas novas. Ela sempre quis saber para onde as outras meninas eram levadas, pois aquilo nunca lhe tinha acontecido. Imaginava que se se comportasse bem talvez pudessem levá-la da próxima vez.
Vários anos se passaram naquela situação. De tempos em tempos as garotas eram levadas embora e outras, mais jovens, eram trazidas em seus lugares. A certa altura percebeu que eram mandadas embora as meninas que mais ganhavam roupas novas. Sentia inveja delas, pois também gostaria de poder, mesmo que por algumas horas, sair daquela prisão. Sonhava todas as noites com o dia em que sairia por aquela porta para não mais voltar.
Eis que um dia o homem do lampião entrou acompanhado de outro, um sujeito muito vistoso. Viu que o sujeito bonito apontara para ela. Uma pequena discussão entre os dois homens se seguiu, ao final da qual se viu atravessando a porta. Seu momento finalmente chegara.
Foi levada para outro quarto, dentro da mesma casa, porém completamente diferente do qual normalmente ocupava. Uma grande janela permitia que a luz pálida do luar entrasse no cômodo, dando aos móveis um ar belíssimo. Havia uma enorme e macia cama, forrada com bonitos lençóis e, ao lado dela, ficava uma cômoda, sobre a qual havia um objeto que lhe despertou o interesse. Era uma pequena caixa cor-de-rosa, com uma chave ao seu lado. Virou-a de todos os modos até que, virando a chave, conseguiu abri-la. De dentro surgiu uma pequena e elegante boneca que rodopiava ao som de uma doce melodia. Por longos minutos ela assistiu a aquele espetáculo, maravilhada. Não conseguia compreender aquilo, mas se encantava com a maneira sempre elegante da boneca.
Subitamente foi tirada do seu estado de deslumbramento pelo som da porta se fechando. Viu o homem garboso de antes aproximar-se dela, que se encontrava sentada na cama. Ele acariciou-lhe os cabelos e sorriu-lhe docemente. Aqueles gestos fizeram algo dentro dela tremer. Não compreendia aquilo, porém a sensação se repetiu quando ele encostou os lábios nos seus. Naquele instante sentiu-se confusa e perdida. Teve vontade de afastá-lo de si, porém temia o que poderia lhe acontecer e acabou por entregar-se. Quando finalmente se separaram, ele colocou as mãos sobre seus ombros e, com esforço quase nulo, fez-lhe o vestido cair sobre a cama. Daí em diante não conseguiu compreender nada mais, porém desejou gritar e fugir quando ele a invadiu. Seu corpo infantil, despreparado para aquela situação, não sabia como reagir. De início tentou resistir, mas a força do outro era maior. Correu os olhos para a boneca que, alheia a tudo, rodopiava elegante ao som da música infantil sob a luz fria do luar. Naquele momento entendeu que também era uma boneca, um brinquedo destinado a ser usado por homens. Resistiu àquela idéia com todas as forças, porém não tardou para que seu corpo não mais resistisse. Tinha doze anos quando cedeu à sua sina.
Durante os anos que se seguiram, aquela situação se repetiu incontáveis vezes. Pouco a pouco foi tomando maior conhecimento de sua situação e também de suas capacidades. Já havia se passado algum tempo desde que notara que não era como as outras garotas. Diferentemente delas não necessitava de comida para viver e quando ferida não sangrava ou sentia dor. Havia algo de errado com seu corpo, porém isso poderia lhe ser a chave para a liberdade.
Por semanas pensou numa maneira de fugir, enquanto isso testava os limites de seu corpo. Os pregos cravados na carne não lhe causavam dor, o vidro que normalmente rasgaria a garganta ao ser engolido lhe era alheio e nada sentia ao mergulhar de cabeça contra o chão. Nada lhe causava dano. Poderia executar o plano, porém ainda restava um empecilho. Outras garotas tentaram fugir antes delas e nessas ocasiões teve a oportunidade de ver que outros homens trabalhavam com o do lampião. Eles não poderiam matá-la, entretanto sabia que não poderia fazer frente à força deles. Teria de garantir que não a seguiriam, e sabia só haver um modo de fazê-lo.
Não tardou para que fosse chamada mais uma vez. O homem que a desejava era velho, gordo e decrépito, mas talvez fosse melhor assim. Se fosse jovem poderia tentar impedi-la. Porém a idéia de ter de se entregar àquele homem a enojava.
Entrou no quarto como faria em qualquer outra ocasião daquelas e o velho a seguir. Deitou-se na cama e sua carne velha e encardida esparramou-se sobre o lençol. Uma imagem verdadeiramente repugnante. O rosto horrível daquele homem a chamava de um modo que a ofendia mais que qualquer outra coisa. Fugiria agora, pois jamais se perdoaria se deixasse que aquele ser a invadisse.
Estava prestes a executar o plano quando a viu. A pequena caixa de música, agora envelhecida e desbotada, jogada num canto. Não deveria levar nada daquilo para sua vida, porém aquele objeto significava muito para ela. Sabia que não teria coragem de deixá-la para trás, sendo usada por homens como aquele. Recolheu-a carinhosamente e acariciou sua tampa esbranquiçada. Seriam livres, as duas.
Olhou para a janela para a qual tantas vezes desviou o olhar enquanto era forçada a dar-se para homens que odiava, ou na melhor das hipóteses desprezava. Agora ela seria um instrumento de libertação. O velho gordo já se levantava para buscá-la quando enfim entendeu que não poderia adiar aquilo por um instante mais. Ergueu a cabeça, orgulhosa e correu para a janela. Com um salto atravessou-a e viu o vidro tentar rasgar-lhe a pele.
Por um instante vislumbrou os prédios que se erguiam como lanças negras apontadas para o céu. Sentiu-se livre enquanto pairava no ar e, mesmo quando o vento passava furioso pelos seus ouvidos, sorriu. Fechou os olhos e entregou-se ao sonho, apenas para vê-lo desfazer-se no instante em que tocou o chão.
Ainda caída procurou pela caixa de música. Encontrou-a ao seu lado, intacta. Sorriu. Ainda estava livre. Pegou o objeto e pôs-se a correr com toda a força de seu corpo. Sabia que não tardariam a buscar seu corpo e assim que descobrissem que não morrera, iriam caçá-la. Ninguém escapava deles, não com vida.
Por longos minutos correu sozinha por entre as ruas que nunca antes vira. Aquela situação lhe era nova e a cada beco sem saída o desespero crescia em seu peito. Finalmente chegou a um rio. A correnteza era forte e qualquer um pego por ela morreria, sem dúvidas.
Olhou para a caixa em suas mãos. Não queria abandoná-la, porém aquela era sua melhor chance de salvação.
Desceu à margem do rio e procurou por um lugar onde pudesse depositar aquele que tanto apreciava. Encontrou um ponto que poderia ser facilmente visto por seus perseguidores. Por várias vezes ensaiou depositar a caixa lá, porém em nenhuma conseguiu soltá-la. Não queria se separar da única coisa que lhe era igual, mesmo que isso pudesse ser um erro. Abraçou o brinquedo com um sorriso tristonho. Não poderia, não queria deixá-lo para trás. Decidiu rasgar um pedaço do vestido e prendê-lo em algum lugar. Teria que servir.
Caminhou até o rio. Começara a chover e em pouco tempo a correnteza se tornaria ainda mais violenta. Deveria agir agora ou poderia não ter outra chance. Prendeu a caixa entre os seios, sob o vestido, e sorriu melancólica. Jamais testara se conseguiria sobreviver sem ar. Talvez morresse naquela tentativa, porém sabia que se não o fizesse seria pega e levada de volta à clausura. Para ela morrer era um destino melhor. Respirou profundamente, deixando o ar frio da noite encher seus pulmões, e entregou-se às águas bravias.
Então veio a escuridão.
Quando enfim despertou estava jogada numa margem qualquer, em meio à lama. Estava imunda, suja de barro e de dejetos, mas sorria. Libertara-se enfim. Sentiu, porém, que faltava algo sem o qual tudo se tornava vão. Procurou a sua volta pela caixa de música, mas não a encontrou. Caiu no chão, esgotada, pois sem aquele objeto nada fazia sentido. A fuga fora inútil, assim como todo seu sofrimento. Fechou os olhos e entregou-se ao pranto. Tentou recordar a doce melodia que fazia a boneca rodopiar. Sua mente viajou até o dia em que chegara à casa e daí para o dia em que vira a caixa pela primeira vez. A música ecoou em sua mente, quase como se estivesse lá. O som se aproximava cada vez mais até que, quando abriu os olhos, viu aquele homem com a caixa em mãos. Permitiu-se sorrir para ele, que acariciou seu rosto de boneca. Aquele gesto era diferente dos que tantos outros homens haviam feito, aquele toque era gentil e afetuoso:
—Qual seu nome? – ele perguntou.
Não poderia responder, pois jamais tivera um nome, porém não queria que ele se sentisse ignorado. Sorriu tentando fazê-lo entender e ele retribuiu-lhe o sorriso:
—Tudo bem. – disse o homem – Daqui para frente será meu Crisântemo, se assim desejar.
O homem estendeu a mão com a caixa para ela que sorriu ao pegar o brinquedo. Finalmente estava livre e tudo enfim tinha um sentido.
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Um texto lindo e bem escrito, me encantou.
Caramba… adorei. Bem intenso e muito bem descrito. Uma narrativa encantadora, envolvente, um pouco depressiva e que transpassa muito bem o desespero e os temores da personagem ao leitor. Muito bom, parabéns
Encantador, envolvente, os sentimentos da personagem, os detalhes…Meus Parabéns, Gustavo!!!
História linda,realmente magnífica. *-*
Me apaixonei em cada sílaba. E o melhor é que tem um belo final. n_n
Beijos de Chocolate .