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Jan
27
2011

António Manuel

Escritor: Caio C. Pompeu

antonio-manuel

Um bocadinho de lírios e azaléias ondulava ao ritmo brando de um vento agreste. Aos poucos, sem pedir licença, uma frente fria se aproximou, escondendo o azul do céu – que antes era vivaz – com nuvens corpulentas. Logo, por ora subestimando tais lírios alvos e azaléias selvagens, as poucas árvores fincadas também entravam no espírito dessa ciranda silenciosa. Balançavam seus galhos pra lá… Balançavam-nos pra cá…

Frutas suculentas caiam e se aninhavam na macia grama mui verde. De quando em vez o solo estava salpicado de frutas por todos os lados. Eis um campo extenso, bom para se apaixonar e escrever, cuja vizinha era uma floresta misteriosa e virgem. Tudo isso e mais um pouco se situava na região norte de Portugal – Bragança.

O velho António Manuel, com certa dificuldade, agachou e apanhou uma maçã fresca, depois a poliu na manga de seu paletó marrom. O velho António, angustiado, sentia-se bastante cansado e queria ir embora para casa. Sendo o juiz, ele tentou apressar as coisas, porém não foi possível modificá-las como queria. Se ele realmente pudesse tomar partido de tudo, nada disso estaria acontecendo e, muitíssimo aliviada, sua alma ficaria. António foi escolhido e não podia abandonar o dever.

– E então?… – suspirou o velho.

– Por favor, aguarde mais um pouco.

António anuiu com a cabeça e disse:

– Tu és um bom homem, a tua vontade é de dar gosto, meu nobre, é de dar gosto!

O homem, um dos “padrinhos”, demonstrou-se grato.

Distante, um trovão valente rugiu. Deus não estava feliz. Então, aquela paisagem bucólica seria o palco de uma tragédia ante aos olhos fatigados de António Manuel e mais dois grupos compostos por, aproximadamente, cinco ou seis homens, destacando-se os protagonistas rivais duelantes: Pedro e Miguel.

Pedro e Miguel puseram-se frente a frente, separados por, mais ou menos, um palmo. Tão próximos… Um conseguia escutar o coração doutro bater desvairado. Entretanto, ninguém expressava timidez ou medo. O medo é um amigo.

“Assassino! Assassino! Assassino…”, o pensamento de Pedro martelava impiedosamente esta palavra. Ficar diante de Miguel e, por enquanto, não fazer algo, talvez fosse a pior parte. Se Pedro, por exemplo, decidi-se agredi-lo fisicamente, estaria desclassificado e a mão feroz da derrota lho torturaria para sempre; o velho António viveria sossegado.

Miguel se mantivera confiante desde há muito: não falara tanto, não demonstrara preocupações, não olhara para trás nem pros lados…

António se aproximou de Miguel e Pedro, carregando uma pequena e lustrosa caixa pesada. Sobre a tampa estava escrito Gastinne Rennette, em perfeitas letras góticas. Abriu-a e ofereceu aos dois duelantes um par de pistolas:

– Cavalheiros…

Agora cada um com arma em punho.

Eram pistolas antigas, produzidas na época de Napoleão III. Ricas em detalhes, cano longo, cabo de madeira boa, abas de aços etc. Tiveram cuidado até ao produzir os gatilhos… Uma maravilha mortífera!

Os dois rivais puseram-se de costas. Eles sabiam de cor as regras. Dez passos para começar, distanciando-os.

Um… dois… três… quatro… cinco… seis… sete…

António Manuel sentiu o coração apertado. O brilho de lâmina das pistolas se refletia nas minúsculas lentes do pincenê que equilibrara na ponta do nariz até então.

Os outros homens observavam atentamente a cada movimento.

Feito! Dez passos! Alcançado o clímax fatal daquela tarde morna de chuva rala.

Pedro e Miguel mantiveram os braços erguidos na altura do ombro. Ainda armados, um apontava para o outro.

Silêncio.

António não quis olhar. Sentia-se envergonhado, como se estivesse nu ao ar livre. Mas ninguém o observava, certamente.

Por coincidência, ouviram o primeiro e único longínquo badalar de um sino bronzeado e, em seguida, rompendo um silêncio sepulcral, o primeiro tiro foi disparado. Os pássaros voaram, os bichos – que bichos! – fizeram um barulho infernal, os cavalos relincharam com pavor e razão… Enfim, Pedro teve sorte ou aguçado reflexo, porque bastou uma bala para ferir Miguel de maneira fatal. E Miguel, o criminoso, desnorteado, primeiro sentiu algo lhe queimar no lado esquerdo do peito, lá ele pôs a mão e arregalou os olhos. Sim, era sangue quente e tão vermelho quanto nunca antes visto, banhando-lhe a palma calejada e melando seus anéis de ouro fino. Ganiu como um animal torturado:

– Ai!… Caralho.

Sabor único de sangue na boca.

Foi-se embora o último suspiro.

Os homens morrem calados.

Segundo Pedro, com louvor a justiça foi feita.

Antônio Manuel se aproximou do corpo estirado e lhe afagou os longos cabelos louros lavados com lama e água de chuva. De tal modo, o velho, enlutado, soube como dói a morte de um filho… Como dói!


Written by Caio C. Pompeu in: Caio César Pompeu,Contos | Tags: , ,

18 Comments»

  • E.U Atmard says:

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    Ah velho amigo Caio, vejo que decidiu publicar o conto aqui no ONE. Acho que já disse tudo o que tinha a dizer sobre o conto, mas reforço que o acho um conto soberbo tanto no estilo, como no contraste entre a simplicidade do enredo e a sua profundidade.

    Muitos Parabéns!

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Aaaa sabia que ele era português pela escrita. Então quer dizer que se conhecem?! :)

      • E.U Atmard says:

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        Não, o Caio é brasileiro…ele escreveu um conto para aqui para o ONE, e tirou o meu contacto, começámos a trocar e-mail, volta e meia pediu-me algumas dicas sobre como escrever em português de cá. Eu dei, e de facto eu próprio não diferenciei quando ele me deu para eu ler…

  • Caio César says:

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    E.U Atmard,

    obrigado pelo primeiro comentário. Sim, decidi publicá-lo porque sempre é válido receber a opinião de outras pessoas, como este querido sítio nos favorece. Também lhe agradeço pela opinião sincera, mesmo que eu tenha errado nos acentos ou pecado em outras coisas.
    Sobre o conto, vejo-o como uma experiência, raramente decido me focar em algo em torno do suspense, pois.

    Até breve, amigo.

    • E.U Atmard says:

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      Caio, recebeu o meu último e-mail? Eu não sei, porque entretanto mudei o meu nome de ecrâ para o meu verdadeiro, (que é Rodrigo Almeida), e que se calhar o fez não notar?…

  • Caio César says:

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    The Gunslinger,


    Sim, eu pedi alguns conselhos ao Erik sobre o português patrício.

    Assim, digo-lhe que também tenho um pé em Portugal – meus avos são de origem lusitana (e me orgulho disso!). Daí veio-me o interesse de explorar tal cultura, com a intenção de me sentir mais próximo de minhas raízes.

  • Caio César says:

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    Não recebi, Rodrigo. Mo envie novamente, por favor.

  • Andrey Ximenez says:

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    Cara… gostei do conto, embora esteja com a sensação de que deixar passar algo. Terei de rele-lo mais tarde.

  • Franz Lima says:

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    Um duelo mediado pelo pai de um dos duelistas (o assassino)… Cara, o texto teve uma fluência bem difícil de ser conseguida.
    Gostei de sua descrição do clima e do ambiente onde os homens se encontravam, além de ter um final ótimo.

  • Thainá Gomes says:

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    Eu não percebi que era um português não natural(ficou confuso)eu deveria parar de ler os comentários primeiro do que o conto.Ficou muito legal.

  • Vânia says:

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    Caio, genial seu conto! O enredo, as descrições, a maneira como conduziu até o final, tudo perfeito! Parabéns, meu caro!! Abraços, Vânia.

  • Caio César Pompeu says:

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    Apesar de alguns errinhos de acentuação que cometi, fico feliz ao saber que este conto satisfez alguém. Obrigado, Vânia!

  • Luis says:

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    Olha, gostei muito do seu conto, Caio, pela simplicidade e ao mesmo tempo pelo contexto da estoria que tah bem legal, parabens !!

  • Peregrina says:

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    Amei seu conto.
    Simples e belo,uma combinação bem especial. ;)

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Gostei muito do conto, muitos detalhes e tudo ocorre num ritmo bem calmo. Gosto de ler.

    Só esse “– Ai!… Caralho.” que achei meio deslocado hehehe… Mas um bom conto. :-)

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Caramba, não consigo pensar em nenhuma correção pra fazer! Até acho que o xingamento ajudou o conto a ficar mais real. Eu mesmo já tive um vizinho português, quando eu era pequeno, que quando a gente aprontava perto dele ele gritava exatamente assim :D
    -
    “Ai!.. Caralho!”

  • Chuck says:

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    Nossa cara, o modo como você romantizou uma cena tão “simples” por assim dizer me encantou.
    Desde o começo de texto, no balançar das folhas até o final onde o juiz afaga os cabelos do filho pode mos sentir a simplicidade da coisa que não deixa de ser profunda por causa disso.
    Vejo que tenho muito a aprender aqui no nerd escritor
    Parabéns.

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