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Jan
24
2011

Belial – Relatos da Queda – Capítulo VII

Escritor: Samila

Heresia

Tudo a seguir correu como eu havia imaginado, mas em uma proporção bem maior e arrasadora, a qual, diga-se de passagem, surpreendeu-me de tal maneira que eu fiquei sem ação. Sabia que Samael faria como eu havia lhe dito, por seu amor e fidelidade ao Todo-Poderoso. Mas jamais podia cogitar que meu plano teria um desfecho tão terrível quanto o que teve.

A essa altura já havia se tornado clara a todos notícia espalhada pelos Principados que não haviam caído em minhas mãos –depois de Anakiel, seduzi ainda Nanael e Haniel, que tiveram a felicidade ou infelicidade de cruzar meu caminho. Era de se esperar então que o completo aglomerado de seres celestiais voltasse sua atenção a Jardim do Édem, onde manhã após manhã, cada um dos anjos criados pelo Senhor haveria de se curvar ante a maior Inspiração.

Ficou definido que os Arcanjos, por serem o Coro de Anjos mais próximo aos Humanos, seriam os primeiros a cumprir aquela ordem absurda. Miguel, Gabriel e Rafael respectivamente foram a cada amanhecer curvar suas cabeças ante o Homem. Da mesma maneira, ficou acertado que o quarto haveria de ser Samael.

Assim que a manhã raiou e o Sol começou a se levantar, Samael desceu sobre os Jardins, repleto de aparente boa-vontade. Um belo sorriso sereno ornava sei lábios finos à medida que ele seguia em direção a Adão. Por um instante pude jurar que ele se ajoelharia sem questionar ante aquela vil criatura, ,as no fundo eu sabia que o maior Arcanjo não haveria de me decepcionar. E não o fez.

Ele se curvou, mas não na direção do Homem, e sim na direção do brilho infinito que representava a presença de Deus observando-os. Prostrado em humildade, com sua voz forte e melodiosa, proclamou:

-Curvo-me, Senhor, mas apenas ante Vós, e não ante qualquer outro.

O silêncio se fez de modo profundo, tanto que até o canto dos pássaros foi interrompido, como se aquela declaração houvesse –e havia- abalado todas as estruturas do Paraíso. Além da cara de revolta e de desaprovação proveniente do infame Adão, aquele ato -que deveria ser tomado como extremo sinal de adoração e fidelidade- não tardou a provocar uma ação por parte dos três Arcanjos que já haviam se ajoelhado.

Miguel, o qual eu já tivera o infortúnio de conhecer, foi o primeiro a descer do céu, ofuscando meus olhos com sua brilhante armadura prateada, e trazendo já em mãos a nefasta espada feita de ferro e poder. Isso para não mencionar o costumeiro e circunspeto franzido em suas sobrancelhas grossas e bonitas. Tão aparentemente cheio de si, tão ameaçador… Tão terrivelmente irritante!

Minha única felicidade em revê-lo foi notar que nem mesmo perante ele Samael perdia sua pose de altivez e majestade. E com toda sua realeza ele permaneceu, mesmo com o céu sendo cortado por outra luz, agora dourada e um tanto hostil.

Tratava-se de Gabriel, o segundo dos Arcanjos, que vinha trajando uma pesadíssima armadura totalmente feita em ouro, num modelo que seria bem mais tarde copiado pelos grandes e nobres cavaleiros medievais. Atada à sua cintura eu logo notei uma enorme espada embainhada. O segundo arcanjo guerreiro era grande, e parecia ser fisicamente forte, tal qual era Miguel. As asas eram imensas, e isso era praticamente tudo que eu poderia articular sobre sua aparência uma vez que o pouco que eu podia ver através de seu elmo eram as indefinidas sombras de seus olhos.

A última luz a descer a Terra foi o Arcanjo Rafael, e devo dizer que eu realmente fiquei impressionado com aquela figura, pelos mais variados motivos. O primeiro, crio eu, foi o rastro azulado que ele deixava por onde passava, à medida que volitava pelo ar a sua leve túnica que detinha o exato tom do céu. Era como se as finas peças do mais nobre linho houvessem sido apenas jogadas com desleixo e graça por cima de seu corpo magro e alto. Os pedaços de tecido azulado esvoaçavam sem arranjo junto aos negros e fartos cabelos, moldados belamente em uma quantidade absurda de pequenos e volumosos cachos que lhe chegavam quase até a cintura.

Tinha o porte extremamente elegante, embora sua aparência fosse demasiadamente débil. A cor de sua tez –de um moreno claro- também despertou a impressão de fraqueza, uma vez que se encontrava abusivamente pálida, como se alguma moléstia há tempos o atacasse o corpo –um absurdo, tratando-se de quem se tratava. Os braços longos e finos traziam em apertado e respeitoso enlace um vaso de barro contendo algo que, embora no momento eu ainda não soubesse do que se tratava, só podia ser no mínimo sagrado. O cuidado com o qual ele tratava aquele pote acabou por despertar em mim uma sensação agradável -e ao mesmo tempo aterradora- de pura proteção.

Mesma impressão era deixada pelos olhos um tanto fundos e sem brilho, mas detentores de um incrível e denso tom de azul escuro. Eles pareciam por algum motivo deter determinada espécie de angústia, inominável e imensurável. Algo que te fazia ter vontade de ir até ele e acolhê-lo, ignorando a falta de expressão em sua face e o efeito de fortaleza e apatia que ele tinha em si.

Mas a mais forte impressão que Rafael me passava era a de total descaso com qualquer circunstância da vida ou da existência. Era como se o Mundo e o Céu, o Homem e o Anjos, os fatos e os pensamentos; como se tudo lhe fosse indiferente. Apenas depois de observar seus argumentos compreendi que aquela frieza só podia ser uma estratégia, uma forma de se mostrar sempre o melhor dos diplomatas, pois o aparente desapego a causas e emoções poderia muito bem se comparado à ponderação e imparcialidade.

Qualidades estas que ele certamente desconhecia, descobri mais tarde.

Com tais impressões em mente, eu me pus a observar tudo o que aconteceria com a aproximação dos três Arcanjos. Miguel chegou logo falando, deixando bem clara a rispidez em sua voz:

-As ordens dadas a ti pelos Principados não foram suficientemente claras, Samael?

-Claras o suficiente para que eu tenha em minh’alma a certeza de que não devo segui-las, Miguel. –Samael respondeu prontamente, de maneira calma e suave, contrastando com os modos de seu inquisidor.

-Explica-te. –O primeiro Arcanjo guerreiro praticamente ordenou.

-Pois o motivo é simples e evidente, irmão. Não vos lembrais que a adoração é restrita apenas a nosso Pai Todo-Poderoso? Como podem esperar que eu me curve perante qualquer um além Dele?

-De fato, Samael, todos os louvores e graças são para Deus. Mas deves saber que assim como nós, o Homem foi criado com o único propósito de louvar ao Nosso Eterno Senhor, e por isso, o ato de se ajoelhar perante ele não configura como adoração, mas sim de verdadeira honra e respeito pela Maior das Criações, e, sobretudo, obediência à suprema vontade de Nosso Senhor. –Gabriel tomou a palavra, fazendo ouvir sua voz que conseguia soar quase tão grave quanto a de Miguel.

Mas Samael obviamente não se deixou levar por aquele argumento e imediatamente rebateu:

-O que exatamente faz do Homem tão grandiosa criação? No que ele é superior a nós, se não possui nosso poder, nossa luz, nossa sabedoria, nossa beleza, sequer nossas asas? No que um ser desprovido de qualquer tipo de conhecimento mais profundo acerca da própria existência e da própria consciência pode ser superior a nós, Anjos?

-Estás a menosprezar o Homem, Samael? Acaso te esqueces que Adão é a Maior Criação por ter sido criado à imagem e semelhança de nosso Deus Onipotente? Cujo a alma foi dotada do sopro do Eterno Criador, e cujo o corpo vindo do barro foi moldada por Suas próprias mãos? Como podes querer tratar tão especial criatura como sendo inferior a qualquer outra? Como podes te negar a prostrar-se ante Adão utilizando-se de tão desaforado argumento?

-Acaso te esqueces, irmão, que foram também nossos corpos e espíritos, em matéria e em luz, moldados pelas mãos do Onipotente, e de ninguém mais? Acaso te esqueces que sem o sopro que nos move e que nos impele à adoração, nada faríamos ou seríamos?

-Aonde queres chegar, falando tamanhos absurdos, Samael? –Miguel novamente perguntou, parecendo bem aborrecido.

-Quero apenas que compreendam, irmãos, que se é válido o argumento da origem Divina de Adão para que nos ajoelhemos perante ele, não seria válido, através do mesmo argumento esperar que Adão se ajoelhasse perante nós também?

-Isto é um absurdo! –Gabriel quase gritou. – Como ousas?

-Absurdo? Absurdo maior seria tratar Adão como um ser superior. No que a imagem de Adão pode ser mais semelhante à de Deus que a nossa, sendo nossos corpos tão belos e nossas asas tão repletas de luz? Como é a imagem de nosso Senhor, afinal? Sabes me dizer, Gabriel? Sabes, Miguel? Sabes, Rafael? Que imagem é essa? Caso o saibam, por favor, contem-me, pois para mim ao menos, a imagem de Deus é tão esplendorosa, e tão única, que eu jamais ousaria olhar diretamente para ela, sob pena de queimar meus olhos ante tão grandiosa luz, e de cair ante tão grande insolência!

A fala de Samael, tão repleta de lógica e coesão, certamente havia atingido em cheio o orgulho que Miguel escondia dentro de si. Pensei por um momento que ele não mais se aguentaria em sua irritação, e voaria sobre o belo pescoço do arcanjo que o desafiava em palavras. Senão o fez, foi certamente graças a um gesto contido por parte do Arcanjo de olhar azul e enigmático.

Rafael, que até então apenas assistia a tudo calado –provavelmente analisando Samael- resolveu enfim se manifestar. Com delicadeza, retirou um de seus longos cachos da lateral de seu rosto e o pôs atrás da orelha esquerda, como se aquilo fosse um preparativo para seu discurso.

-Estou decepcionado contigo, Samael, pois jamais esperei escutar qualquer demonstração de herege orgulho advinda de alguém que, assim como nós, detém a sabedoria presenteada pelo Grande Criador. –Ele falou, sua voz monótona aparentemente tentando fazer transbordar de algum lugar certo tom de pesar. –Caro irmão, tenho certeza de que és sábio o suficiente, assim como todos nós somos, para compreender que as palavras que saem de tua boca não passam de grandes e vergonhosas tolices. Logo, deves saber que as falácias que utilizas como argumentos jamais conseguirão atingir nossos ouvidos da maneira que pareces desejar.

Samael abriu a boca para contra-argumentar, mas Rafael foi mais rápido e não se permitiu ser interrompido:

-E como se não bastasse, esqueceste também de tu posição? De tua função? Esqueceste que foste criado para ser, além de um eterno adorador da grandiosidade nosso Senhor, um dos honrados guardiões da Humanidade? Deverias ser arauto do poder Divino enviado a Adão, bastião feito de bons sentimentos e vontades. O que acontece contigo então, Samael, proferindo tão odiosas palavras? Pelo teu próprio bem, meu irmão, deixa de lado esse tão vergonhoso orgulho e ajoelha-te, assim como foi ordenado por nosso tão amoroso e poderoso Pai, pois eu tenho certeza que Ele, em Sua Divina misericórdia, há de te perdoar pelos teus absurdos proferidos.

Por algum motivo, as recomendações ditas pela suave voz de Rafael soavam como ordens incisivas e severas, mais autoritárias ainda que as feitas pelos dois Arcanjos guerreiros. E aquilo, aliado ao tom seco das acusações proferidas, certamente influenciou Samael a se empenhar ainda menos no esforço de conter suas polidas, porém agressivas palavras.

-Da mesma maneira que não esperavas a arrogância que dizes advir de mim, eu não esperava advinda de ti, meu caro irmão Rafael, a enjoativa demagogia que sinto em cada uma das tuas palavras.

-Demagogia? –Gabriel adiantou-se com a voz em tom ainda mais grave de irritação e ataque. –O que queres insinuar por demagogia, Samael?

-Ora, caro irmão… Como poderia descrever, senão como demagoga, a tola maneira que vós possuís de tentar esconder as próprias falhas no ato de me acusar?

-Nossas falhas, Samael? –Miguel inquiriu com notável impaciência e agastamento. –Acaso te esqueces, irmão, quem está desobedecendo a ordens diretas dadas por Deus, através dos Principados? Acaso não te lembras, meu irmão, que a função primordial de nossa criação é a de obedecer a nosso Pai?

-Que eu saiba, caro irmão, fomos criados para adorar a nosso Pai. A Ele, e a mais nada e ninguém. –Samael reafirmou repleto de certeza.

-E que forma mais sincera de adoração podemos demonstrar, além da obediência imediata, que se guarda de qualquer questionamento acerca da Sua Divina vontade? –Rafael ponderou rapidamente, como se quisesse conter a as falas dos outros com sua sabedoria, aparentemente superior a de seus irmãos.

-Se de fato sois tão sábio e iluminado como afirma sermos todos nós, deverias saber que estás claramente enganado, Rafael. A adoração vai muito além da simples e cega obediência. Ela provém do amor puro, verdadeiro e exclusivo, e só é externado através de um espírito obstinado, que não admite a possibilidade trair tão belos sentimentos, sob hipótese alguma!

-Se bem compreendi tua fala, Samael, estás a insinuar que nós não amamos o Grande Pai da mesma maneira que tu O amas? –Miguel perguntou em um quase rugido, tamanha raiva em sua voz já tão profunda.

-Não disse que vos falta o amor, mas certamente vos falta a fidelidade que eu alimento, pois vós vos permitis adorar a outra criatura, a uma criatura inferior, como se a mesma fosse o Nosso Senhor!

-Blasfemas, Samael! –Gabriel gritou. –Blasfemas e nos ofende com a mera teoria da existência de outro ente a ser adorado como é adorado o Altíssimo! Deverias saber tão bem quanto qualquer um de nós que esta conjectura é mais do que absurda, e que nem mesmo em idéia ela pode ser tolerada! Jamais ouses proferir novamente tais palavras, sobretudo com o vil intento de ocultar o terrível crime de tua desobediência!

-E tu, Gabriel? Tu que blasfemas sob o vil intento de ocultar o teu nojento crime, teu, de Miguel e de Rafael, pela falta de fidelidade e decência, que vos permitiu abaixar a cabeça ante imperfeita criatura?

-Ainda insistes na tola tentativa de nos acusar por nossa obediência? –Miguel perguntou com uma ponta de escarnecimento e ironia.

-Não é minha culpa que vós não fostes sábios e amorosos o suficiente para compreender tão explícita ligação entre os verdadeiros deveres e a verdadeira adoração!

-Ainda ousas subpor nosso amor pelo Grande Pai? Julgas teus sentimentos de rebeldia e arrogância mais dignos do que os nossos, de obediência e humildade? Achas realmente que amas a Deus mais do que nós O amamos, e que por isso é perdoável, e até apreciável, a tua explícita desobediência? Não te envergonhas, Samael, de agir de tal maneira? –Rafael mais uma vez resolveu intervir, notando que os dois Arcanjos Guerreiros estavam provavelmente em seus limiares de paciência.

-Vós que deveis vos envergonhar, por terem sido tolos e verdadeiramente hereges, por terem vos ajoelhado perante um amontoado de barro, quando vossas cabeças foram criadas para se curvarem apenas perante Deus.

Ao ouvir isso, finalmente Gabriel perdeu sua parca paciência, e Miguel provavelmente não viu problema algum em fazer o mesmo. Ambos, que já se encontravam tão próximos de Samael, em menos de um segundo encontravam-se quase colados ao belo arcanjo, sendo observados pelo olhar morto e condescendente de Rafael. As terríveis espadas sendo desembainhadas provocaram um grande clarão ao serem brandidas ao alto de forma ameaçadora.

O terror advindo da espada férrea de Miguel já me era conhecido, mas um espanto ainda maior me tomou quando vi a espada de Gabriel. A impressão que tive ao observá-la foi que seu fio era formado pelo mais poderoso relâmpago advindo da mais terrível tempestade, sendo esta fruto do mais ardente momento de ira Divina. E por essa impressão, tornara-se evidente para mim que não poderia haver mais adequado instrumento para se fazer valer a punição de um Pai vingativo e poderoso.

Certamente tão magnífico poder teria feito qualquer outro anjo desfalecer ante sua simples proximidade, mas Samael manteve sua característica pose de majestade, parecendo não temer nada, mesmo estando sob a mira de tão perigosas armas.

Com um pequeno sorriso que denotava algo semelhante ao escárnio, ele perguntou:

-Pretendem me punir, irmãos? Estão esquecendo que apenas a Deus está reservado tal direito?

Miguel deixou um pequeno sorriso semelhante ao de Samael surgir em suas feições raivosas, e eu imagino que Gabriel tenha feito o mesmo abaixo de seu elmo. E como se dissessem em silêncio para Samael fazer o mesmo, olharam ambos para o céu.

O mais belo Arcanjo olhou para onde lhe fora indicado, e neste exato momento eu notei, com grande pesar, uma terrível transformação na feição dele. Assim que seus olhos alcançaram a altitude cerúlea depararam-se com a presença pouco amistosa de dois Principados, os quais o olhavam de maneira inquiridora. Foi então que ele –e eu– compreendemos:

-O direito já nos foi concedido, Samael. –Miguel disse-lhe em tom de vitória.

Ante aquela certeza a expressão de Samael, sempre tão calma e altiva, se desfez imediatamente, dando lugar a uma outra, que demonstrava terror e descrença. Senti um forte aperto em meu peito ao contemplar tão aterradora mudança naquele rosto que eu sempre admirei e gostei de observar. Dentre todos os pecados e heresias realizados naquela manhã sobre o Édem, o que fizeram o com Samael foi certamente o pior.

Foi extremamente angustiante ver Samael por um instante fechando seus olhos, como se mergulhasse na esperança que, ao abri-los, tudo de ruim que estava acontecendo consigo desapareceria, e que aquelas malditas espadas não estariam mais com suas lâminas voltadas para si. Os dois Arcanjos guerreiros ao seu lado, no entanto, pareciam imunes à misericórdia que sua bela figura triste despertava.

Samael recuou, compelido, mas sabia que não teria como fugir. Vendo-se sem muitas opções, rapidamente levou sua mão direita a um dos tantos alvos véus que formavam sua túnica, presos à sua cintura. Gabriel pareceu compreender o que para mim ainda não tinha lógica alguma, e por isso adiantou-se. Foi então que eu vi pela primeira vez o belo e quente líquido vermelho manchando a pele, e em seguida a Terra.

Com sua maldita espada metálica, Miguel provocou um pequeno embora profundo corte na bela e alva mão de Samael. Aproveitando-se do susto causado pela dor de ter aquela lâmina de ferro transpassando sua carne, Gabriel agarrou as brancas vestes de Samael e sem dó o jogou com força contra o solo.

Os pés descalços que nunca haviam sequer tocado a Terra arranharam-se contra pequenas pedras, e o mesmo acontecera com a parte descoberta de seus braços. Ele imediatamente tentou se levantar, mas quando se deu conta, tinhas as grandes mãos Miguel agarrada a seus cabelos, e os pés de Adão diante de sua face, a qual fora literalmente esfregada contra o chão.

Tendo passado por tão grande humilhação, seu corpo –assim como o meu- pareceu paralisar-se por alguns segundos. Tempo suficiente apenas para ter a infeliz certeza de que aquilo era real, que a punição fora verdadeira; que ele tinha agora a testa rente ao chão e se encontrava prostrado ante os pés de Adão.

Ficou lá, parado, mesmo após ter os cabelos soltos por Miguel, e só se moveu quando notou as mãos de Rafael envolvendo sua mão ferida. Puxou-a com rispidez, não permitindo que o Arcanjo da Cura utilizasse da Água Sagrada que ele trazia em seu pote.

Samael ergueu seu rosto e encarou com profunda tristeza e mágoa as faces pouco amigáveis e piedosas de seus três irmãos. Desviou o olhar vítreo, e então encarou longamente a Luz onipotente e onipresente que representava a presença do Criador. Aposto que sentiu naquele momento louca vontade de chorar, assim como eu próprio sentia então.

O arrependimento tomou-me assim que vi os olhos cinzentos tendo a costumeira frieza substituída pelos genuínos ceticismo e desapontamento. Era notório que algo muito importante dentro do coração e do espírito de Samael acabava de se perder, e por isso minha indignação crescia a cada instante. Como poderia Ele, tão amoroso Pai, fazer aquilo com tão grandioso filho? Como poderia Ele fazer aquilo justamente com Samael, a mais brilhante Estrela, o mais belo e esplendoroso rebento? Como poderia Ele fazer aquilo apenas para engrandecer Adão?

Senti-me verdadeiramente abismado ante aquela situação, e mesmo sabendo que fora eu a provocar aquilo tudo, devo confessar que jamais imaginaria tão incrível e poderoso ser sendo exposto a um castigo cruel e sujo como aquele. Tive que me segurar muito para não atender ao ímpeto de voar até lá apenas para poder limpar com minhas vestes a bela face que agora se encontrava maculada pela lama e pela terra. Se não o fiz, de fato, era porque sabia que um ato daqueles apenas faria com que o nobre Samael se sentisse ainda mais humilhado.

Ele passou a mão esquerda com certa rispidez pelo seu rosto, e olhou para sua mão direita, machucada, suja de sangue e barro.

O maldito barro que dera origem a Adão.

Por fim olhou para o Homem, o real motivo de toda aquela desgraça. Olhou-o de uma maneira incrivelmente furiosa, a qual eu reconheci como sendo a mesma maneira que eu olhei para Adão quando o mesmo levantou sua bruta mão contra Lilith. Vi puro ódio naqueles olhos, e nisso senti que ninguém mais no mundo poderia me compreender -compreender meus sentimentos- tão bem quanto Samael poderia naquele momento. Embora não tenha como incluir certeza acerca disso, creio que foi naquela ocasião que o grande Arcanjo jurou pela primeira vez sua vingança contra Deus e contra a Humanidade.

Após alguns momentos de lamuria, ele se levantou por fim, deixando-me admirado por sua resiliência em recuperar sua postura altiva e suntuosa. Era como se aquele castigo injusto e destruidor não o tivessem abalado de maneira alguma. Olhou a todos com desdém, e por fim ruflou suas asas e partiu do nosso campo de visão.

Quebrado e magoado, eu sabia.

12 Comments»

  • Asami says:

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    Sem palavras OO”"” Estou assustada até agora com a ação desse cap, com a profundidade, intensidade, tensão. Fiquei lerda depois que terminei de ler e tentava digerir o que tinha acontecido. Espetacular… acho que é essa a palavra mais proxima desse capítulo. Perfeito também chega perto. Acho que não houve um sentimento meu que não se manifestou enquanto lia esse capítulo: expectativa imaginando o que aconteceria com Samael, animação diante da discussão dos anjos, revolta ao ver o tratamento que Samael recebeu, pena de Samael. Tristeza ao ver como ele foi humilhado… até crei um certo carinho por ele O_o”"” Só você mesmo pra me fazer ficar morrendo de dó do Samael, Sami :P

    • Samila says:

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      Obrigada, meu bem! que bom que gostaste! esse capítulo demorou exatamente por causa desse diálogo do dos arcanjos, coisinha chata, viu?XD
      mas que bom que deu o resultado esperado =D
      beijos e obrigada por ler =*

  • thiago says:

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    parabéns, ótimo cap, senti a tensão durante toda a leitura, muito ansioso pelo próximo.

    • Samila says:

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      Que bom que gostaste ^^
      Esse capítulo deu trabalho por conta do diálogo filosófico, e teve leitor que odiou xD
      mas bem, só esse sair da agenda para eu postar o outro, então, comentem por favor.

  • Peregrina says:

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    Fiquei com muita raiva de Miguel,Rafael e Gabriel. E muita pena de Samael,só assim mesmo pra eu sentir pena dele.
    Se eu fosse Belial não teria permitido que fizessem isso.
    Mal posso esperar pelo proximo cap ,Samila. *-*

    • Samila says:

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      Tb senti raiva deles, Peregrina! E bem, vc tem que entender que o belial AINDA não é tão corajos….
      Obrigada por ler, meu bem! beijinhos

  • Lord Jessé says:

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    Meu caneco furado.
    -
    EStou sem palavras Sammy, algo percorre meu corpo de uma forma que não sei explicar, algo que geralmente só acontece comigo quando escuto ou faço solos!!!
    -
    Não sei se é magnifico, estupendo ou até perfeito, não há palavras para descrever.
    -
    E o que pergunto é: O que queres afinal, com isso? Me fazer chorar diante tanta poesia???
    -
    Parabéns é pouco a dizer, queria poder dizer mais, queria poder expressar o que sinti lendo esse cap. e o que sinto agora, mas não consigo.
    -
    Se não estivesse tão distante de mim, eu lhe daria um abraço bem apertado. ^^
    -
    Acho que além de parabéns tenho que dizer obrigado por tão fascinante leitura.
    -
    que vontade de gritar. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!! …

    • Samila says:

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      Nhai, agora que ficou emocionada fui eu, lendo isso tudo aí… ç_ç
      Sinta-se abraçado, Lord!
      Obrigada por ler e comentar! que bom que gostou tanto assim do texto! *-*

  • teu says:

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    se eu ver eu vou grita muito

  • Miyaneo says:

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    Bem, eu só vou dizer aqui que eu amei ler LOL
    Porque eu sou meia suspeita (meia não, muito) pra falar dos personagens. Não gosto de uns, mas amo outros cof cof cof
    Mas esses meus amores lá aumentam com a leitura deste seu conto, muito maravilhoso.
    A narração, Samael sujo de lama, ódio e desejo de vingança, agora nem me pergunte se eu fiquei com dó dele, né -q
    Beliel, Beliel… LOL
    NHAW, adorei, você escreve muito, mas muito foda e de um jeito que me vicia completamente T_T
    Eu li em dois dias com meu tempo vago pra leitura de contos, aí eu quase morri do primeiro dia para o segundo dia, tão forte era meu desejo de continuar, parece que a parte do meu cérebro que guarda as informações de leitura deste, estava latejando implorando por mais palavras >.<
    NAHW

  • Rods Netto says:

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    Perdoem a minha ignorância. Descobri este site há pouco tempo e, mesmo gostando da maioria das coisas que li, nenhum outro me fascinou tanto! Tô clicando em tudo que posso tentando encontrar os anteriores, os posteriores, mais coisas da Samila e, para meu desapontamento, nada encontrei.

    Me sinto um idiota. Alguém me socorre?! hehehe

    Parabéns por tudo! G-E-N-I-A-L!!!

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