Em Nome da Cruz – A Saga de um Assassino Capítulo III
Escritor: Tomás Kroth
O Expurgo do Monastério
Cinco semanas, cinco longas e exaustivas semanas de investigações, estudos, checagens e acima de tudo, nenhuma conclusão. O caso dos dois assassinatos, do subúrbio e do celeiro, continuava sem o menor sinal de chegar a um fim. A mídia fazia festa em cima da notícia que vazara pouco tempo depois do segundo assassinato. Todos agora pareciam pensar em um assassino em série, o assassino da faca, ou seja lá qual nome os demônios midiáticos haviam criado para o caso. O fato era que a cabeça do detetive estava à prova e ele não iria deixar barato.
Em dez anos de carreira policial, o detetive Bosco jamais havia encontrado um caso sem solução. Bem verdade que só assumira o posto de detetive há pouco mais de um ano, antes disso era apenas mais um policial de ronda. Mas o que transcorria agora em suas mãos fedia e não parecia ter solução. O laudo fora conclusivo, o gordo do celeiro havia sido envenenado, o que provavelmente o levou ao suicídio. A caminhonete não fora encontrada em nenhuma de suas batidas, sempre procurando pela descrição dada pelo caminhoneiro. Tudo parecia levar ao mesmo lugar, seja lá quem fosse, havia matado duas pessoas e sumido.
Ele estava perdido em pensamentos, olhando estarrecido para as diversas fotos do celeiro e da casa, tentando encontrar alguma coisa que ainda não tivesse notado. Um detalhe que o levasse a uma direção qualquer.
Ainda divagando, foi surpreendido pelo telefone, que tocava incessantemente ao seu lado.
- Detetive Bosco, divisão de homicídios, em que posso ajudar?
- Achei tua caminhonete – disse a conhecida voz do Chefe dos Bombeiros do outro lado da linha – Acabamos de apagá-la, alguém a incendiou. E tem mais uma coisa, tu não vai gostar…
******
Algumas horas antes, no monastério, Augusto ouvia atentamente ao sermão do padre. Bebendo cada palavra com um delírio louco e um ar de incompreensão cada vez mais forte. Há algumas noites atrás recebera sua nova incumbência do Arcanjo que lhe aparecera em sonho. Sua próxima vítima era a inveja, que segundo o próprio Gabriel dissera, era um dos pecados mais nojentos que se espalhava pelo mundo. Segundo o arcanjo, nem mesmo os homens de Deus escapavam ao sentimento pútrido da inveja.
Desde aquela noite o monge Aquiliano passara a observar melhor seus colegas de monastério, notando em cada um deles o pecado que devia expulsar. Todos eram extremamente invejosos, pecadores, traidores em um ninho que era para ser puro. Cada um deles invejava Deus, tomavam por meta alcançar o inalcançável e tentavam tolamente se igualar ao magnânimo, àquele que está acima de qualquer coisa.
Cada um daqueles monges acordava, dormia e vivia apenas para tentar alcançar o Céu, invejosos daqueles que já haviam conseguido tal façanha. Ele sabia que esse tipo de atitude era reprovável e nojenta, mas não se deixaria levar por falsas ilusões, pecadores seriam tratados como pecadores. O fato de eles se auto-intitularem homens de Deus não os impedia de cometer pecados, portanto não seria ele, Augusto, o enviado dos céus para purificar a Terra, que se omitiria de realizar sua missão.
O sermão do padre havia chego ao fim, trechos dele ainda ecoavam na cabeça de Augusto, como brasas queimando sua alma, impossíveis de se ignorar. “Fazer o bem para alcançar a purificação”, “O desapego do material na busca pelos céus”, “A coragem e o fervor nas preces para ser abençoado com a eternidade”, esses e mais tantos outros trechos lotados de sentimentos impuros haviam sido proferidos na capela onde se encontrava. O asco daquilo tudo começava a afetar o monge de forma que não pode se conter, teve de se retirar.
Rumou, ainda dentro da capela, para o antigo confessionário de dois ambientes, em madeira, um belíssimo exemplar do Renascimento Italiano, diziam os monges que retirado do próprio Vaticano. Entrou na cabine dos pecadores e notou uma nítida alteração no ambiente. Os sons da missa que transcorria do lado de fora cessaram, o silêncio imperou e nada mais se pode ouvir. Um calor ameno tomou conta de seu corpo, uma sensação de pureza, de relaxamento.
Olhou ao redor em busca da fonte do já conhecido calor, seu anjo não estava ali, estava só, ainda que o sentisse. Ajoelhou-se diante da portinhola que ligava as duas cabines e começou a rezar fervorosamente em voz baixa, pedindo aos céus que lhe guiassem naquele momento difícil de sua missão. Sabia que fora mandado realizar uma oferenda a Deus por cada pecador, no entanto, o momento pedia mudanças drásticas, pedia por uma faxina em tudo que era impuro. Entre uma oração e outra, ele sentiu a cortina da portinhola ser cerrada, ergueu os olhos e não mais pode ver o que ocorria na cabine ao lado.
Imaginando que do outro lado estivesse um padre se preparando para as confissões de algum dos seus colegas de monastério, falou em tom respeitoso, baixinho.
- Desculpe-me padre, não deveria ter usado o confessionário para as minhas orações, já estou me retirando.
- Pode ficar meu filho, vim por tua causa – a voz não era do padre, era uma voz conhecida, carregada do mesmo calor que ele sentia nas mãos e no corpo, dotada da paz que somente uma voz celestial poderia carregar.
- Meu Arcanjo, obrigado por vires, estou em dúvidas quanto as minhas designações. Tenho medo de realizar algo que não agrade ao meu senhor. – Disse Augusto, sua voz vacilando, dotada de nítido desespero.
- Acalme-se meu filho. O desejo do Salvador passa por ti neste momento. Deixas-te de ser, desde há muito tempo, servo dos sentimentos mundanos. O que sentes é a voz de Deus queimando em teu íntimo e as tuas aspirações são nada mais do que reflexos da vontade d’Ele. Não tema seguir por caminhos tortuosos, pois aquele que na Rocha se firma não será abalado pelas tempestades. Não vacile diante das dificuldades do caminho, pois elas são impostas para separar os fieis dos falsos amantes a Deus.
Augusto ouviu aquelas palavras, as palavras retiradas de um lugar obscuro de seu passado, palavras que ele não ouvia desde os seus sete anos, quando fora admitido no monastério. Lembrava-se com muita dificuldade daquele tempo. Não possuía imagens nítidas de seu passado, apenas sensações e borrões, imagens desconexas e lapsos de informações que não pareciam se juntar. Sua lembrança só era nítida para dois momentos em sua vida, o falecimento da mãe e o dia em que fora encaminhado ao monastério.
Da primeira lembrança tinha imagens belas e cinzentas. Uma mulher de cabelos longos e morenos, feia em aspectos físicos, porém bela em sua alma. Lembrava-se com tristeza da imagem inerte dela em seu caixão, possuía apenas seis anos na época e trajava um pequeno terno preto, alugado especialmente para a ocasião. Lembrava-se de segurar a mão forte de um homem, um homem sem rosto que povoara seus pesadelos durante muitos anos. Da segunda lembrança, apenas recordava-se dos límpidos lençóis do hospital e da visita inesperada do padre, pedindo que o acompanhasse para uma vida plena em ensinamentos e bondade junto a Deus.
Entre essas duas lembranças, um nada. Uma sequência infindável de informações sem clareza, sem definição. Lembrava da dor, da vergonha, das costas ardidas por surras intermitentes, de uma figura masculina forte, sem rosto, muito próxima, próxima demais, de maneira desconfortável. E depois disso, a luz forte do hospital e as palavras doces do padre que lhe contava a parábola da Casa sobre a Rocha.
Voltando a si, notou-se gelado, sentindo frio. Os joelhos doloridos pelo excesso de tempo em uma posição desconfortável. Encarava o fundo do gabinete vizinho o qual a cortina não mais tapava, perguntava-se se adormecera em meio a seus devaneios. Ergueu-se lentamente e ao sair, percebeu que não estava só.
- Querido irmão! – disse-lhe um monge que lhe aguardava à porta do confessionário. – Sentimos falta de tua presença na janta e quando fomos nos recolher percebemos que ainda não havia voltado de suas preces. Perdão por lhe incomodar, mas o Padre Maurício pediu-me que lhe pusesse na cama. Ele está preocupado com sua saúde e não quer que fiques acordado além do necessário. E agora que lhe olho, percebo como estás magro e pálido, há algo que lhe incomoda, irmão?
Augusto encarou-o demoradamente. Sentia uma estranha sensação lhe percorrendo o corpo, a mesma que sentira ao encarar o glutão acorrentado, a mesmíssima sensação que o acometera ao enviar o pecador da Ira para o último julgamento. Com uma frieza que geralmente não lhe pertencia e um tom de voz excessivamente afável ele perguntou ao monge, aliviando sua alma das dúvidas que o massacravam.
- Irmão, queres ir para o Céu?
- Ora, mas que pergunta… – respondeu-lhe o monge com o olhar perplexo. – Porque pergunta tal coisa? Tens dúvida de tua vocação?
- Nunca duvidei de minha vocação nem dos desígnios que Deus impôs sob minha vida. Apenas pergunto por uma curiosidade quanto à mensurabilidade de tais desejos. Veja bem, porque gostaria de ir aos céus, meu irmão?
- Bom, creio que pelo mesmo motivo de todos aqui neste monastério, Augusto. Todos desejamos alcançar a purificação, a outra vida. Livrarmos-nos desta vida em que somos trazidos à provação e nos elevarmos à condição de homens abençoados.
- Sendo assim, pode-se dizer figurativamente que tens inveja da condição de divindade, da situação em que o Criador se encontra?
- Ora, não me entenda errado irmão, não invejo o Criador, apenas ambiciono um lugar ao seu lado…
Para Augusto já bastava, ele sorriu para o monge a sua frente e convidou-o a caminhar pela capela. Caminharam em silêncio por algum tempo, tempo no qual o monge não parava de lançar olhares furtivos e cheios de indagações a Augusto. Parecia que em sua mente as palavras do Padre Maurício iam tomando forma, tornando-se verdadeiras, Augusto de fato estava doente, sofrendo de algum tipo de problema.
Ao se aproximarem do altar onde os monges erguiam velas para suas preces, ambos pararam, olhando estarrecidos para as inúmeras velas que ardiam sobre o altar, cada uma delas carregando um pedido a Deus. Augusto contornou o pequeno altar ficando de frente para o monge, ambos se encararam por alguns minutos e trocaram sorrisos amenos. Augusto tentando passar calma em seu semblante, o outro tentando decifrar o que se passava pela mente do seu companheiro de culto. Então, ao mesmo tempo em que os olhares se separavam, Augusto agira.
Em um movimento repentino, o monge assassino virou o altar sobre o outro, jogando inúmeras velas sobre o hábito de seu colega, incendiando-o de imediato. Os gritos que se ouviram foram demasiados altos e o monge teve de agir rápido para conseguir escapar dali. Recuperou uma das velas do chão e saiu correndo da capela. A cada pedaço de tecido que encontrava no caminho, lambia-lhe com a vela, de forma que em pouco tempo mais monges gritavam, presos em seus quartos por paredes de fogo que se alastravam pelas mesas, portas e demais objetos espalhados em demasia pelas dependências do monastério.
Ao se aproximar da saída, uma voz profunda lhe disse, ao pé de sua orelha direita. “Incendeie sua caminhonete e fuja a pé pela floresta”. Ao ouvir tais palavras Augusto virou-se repentinamente para a direita, porém deparou-se encarando a si em um espelho que ornamentava o saguão de entrada do monastério. Confuso com o modo com que Gabriel resolvera lhe falar saiu correndo em direção a única saída do antigo recinto religioso. Ao passar pelas portas de entrada fechou-as e passou rapidamente as chaves pela fechadura, ouvindo os gritos dos pecadores do outro lado da porta. Com um graveto, escreveu as palavras que ecoavam em sua mente desde o encontro com o Arcanjo no confessionário. “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.”. Continuou correndo após escrever essas palavras, chegando em pouco tempo à garagem dos monges. Lá encontrou um galão de gasolina de reserva que apanhou rapidamente ao se encaminhar a sua caminhonete. Virou-o sobre os bancos e pela parte externa. Puxou um fósforo do bolso interno das vestes e riscou-o. Assistiu calmamente o fogo queimando sua caminhonete e partiu, tal qual seu arcanjo sugerira, em direção a floresta próxima.
******
O detetive Bosco desceu correndo de seu carro em frente ao que há poucas horas era um monastério, agora reduzido a muitos escombros e cinzas. O incêndio durara cerca de três horas até ser controlado, tempo que infelizmente fora insuficiente para salvar os padres e monges que ali viviam. Em tempo, duas coisas o assustavam. A primeira era o fato da porta da frente ter sido trancada por fora, a chave ainda permanecia na fechadura, e a segunda era o fato de que a caminhonete realmente parecia pertencer a seu suspeito.
Ela fora apenas parcialmente incendiada e duas coisas confirmavam suas suspeitas. Primeiro a existência de uma lona no compartimento traseiro e segundo uma chave de roda, com marcas de sangue. Essa configurava exatamente o objeto que ferira a nuca da vítima do celeiro, tal qual constava no laudo técnico. Um exame das marcas de sangue na chave seria suficiente para enquadrar o carro como pertencente ao assassino.
Porém não podia deixar de pensar, o seu assassino crescia em importância. Não eram mais dois assassinatos sem motivo, agora o número de vítimas beirava os quarenta e à medida que os bombeiros aprofundavam-se nas instalações do monastério, este número parecia crescer cada vez mais. O sentimento de que mais uma vez ele lhe fugira era dolorido demais e diante de todos aqueles padres mortos, o detetive fez uma promessa a si mesmo: não deixaria que mais ninguém morresse nas mãos desse delinquente.
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Muito bom, gostei de ver.
Que bom que gostou ^^
EDIT: Esqueci de escrever. Sairei de férias amanhã (segunda, 1/02) e retornarei dia (11/02), até lá não responderei comentários, mas comentem que quando eu voltar eu respondo!