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Jan
11
2011

Inveja

Escritor: Marcelo Augusto Galvão

inveja

Cecyla mirou-se no espelho pela terceira vez em menos de um minuto. O reflexo continuava a mostrar a mesma jovem de feições delicadas e corpo atraente, pele bronzeada contrastando com cabelos loiros.

Nada de anormal.

Por enquanto.

Serviu-se de uma taça de vinho na cozinha da casa, observando o sol descer no horizonte marciano, a luz filtrada pelo domo que protegia a capital do planeta vermelho das ameaças exteriores. Seu olhar se fixou numa pequena mancha azulada no céu: aquela era a Terra, de onde seus pais haviam fugido cinco décadas antes.

E então Cecyla imaginou por um instante como que seria viver naquele mundo. O pensamento a desesperou, mesmo que só conhecesse os terráqueos através de vídeos na iNet; considerava os pais e os outros primeiros habitantes de Marte como pré-marcianos ou, ainda, transhumanos pioneiros.

Com os lábios trêmulos, tomou um gole demorado da taça. Lá fora, as sombras desciam sobre canais, vales e cânions.

Um som agudo atraiu sua atenção para o monitor na sala conectado à iNet. A tela mostrava mais um dos avisos do governo marciano, transmitidos desde o meio-dia quando a população fora ordenada, sem maiores explicações, a deixar seus afazeres e voltar para suas casas. Agora, o aviso pedia que todos os cidadãos continuassem em seus lares até que a situação se normalizasse; desobediência seria punida com prisão imediata.

E era só. Nenhuma informação sobre o que acontecera ou o porquê da ordem repentina. Desde que voltara correndo da universidade, ela tentara obter maiores notícias com todos que conhecia, conseguindo apenas boatos diversos.

- Os terráqueos não esqueceram da surra que levaram – Nadia dissera, os olhos de um dourado intenso brilhando na tela. A melhor amiga de Cecyla se referia ao conflito militar iniciado quando Marte declarou que, cansada dos pesados tributos, não seria mais uma colônia da Terra. Após infrutíferas conversas diplomáticas, os terráqueos tentaram invadir o planeta vermelho. Os marcianos os derrotaram com facilidade, encerrando a guerra três meses atrás.

Era o que todos em Marte pensavam.

Já a Terra tinha uma opinião diferente.

- Você sabe como eles são mesquinhos, não é? – Nadia continuou. As aulas de história haviam ensinado à Cecyla que boa parte dos terráqueos achava absurda a ideia de transhumanismo: a procura por melhoras de características físicas e mentais, usando engenharia genética e nanotecnologia, era uma afronta à natureza. Por isto seus pais exilaram-se no planeta vermelho.

Nessas ocasiões, ela sempre concluía, assim como vários dos seus compatriotas, que tudo era uma questão de inveja por parte dos “vizinhos”. Os transhumanos eram parte de uma elite de cientistas visionários, donos de corpos perfeitos e mentes centenas de vezes mais aguçadas que as dos humanos, confinados naquelas estruturas frágeis, cheias de imperfeições biológicas e sujeitas a todo tipo de enfermidade.

- A Terra quer vingança – e Nadia contou o rumor que ouvira: de alguma forma, os terráqueos haviam introduzido em Marte uma doença infecciosa, engenhada para minar o sistema imunológico transhumano, alastrando-se velozmente e com os primeiros sintomas manifestando-se em horas. Talvez até existisse uma chance de cura se a doença fosse diagnosticada no início.

Várias imagens surgiram no monitor de Cecyla, transmitidas pela amiga; mostravam, ao longo da história terráquea, humanos deformados pela peste bubônica, varíola e sífilis, definhando em hospitais, largados em valas comuns, empilhados enquanto chamas alaranjadas os consumiam para evitar maior contaminação.

A tal infecção lembrava às vítimas marcianas que elas não eram tão perfeitas como pensavam.

- Os terráqueos querem nos destranshumanizar, Cecy.

Foi nesse instante que a tela enegreceu; segundos depois, um informe do governo aparecera noticiando que, ante boatos infundados, a iNet estava sob intervenção para evitar pânico desnecessário.

E agora Cecyla estava completamente isolada.

Ela abriu uma segunda garrafa de vinho. A noite era total fora do domo; na penumbra da casa, não via seu reflexo no espelho do corredor. Outro aviso surgiu, informando que os cidadãos deveriam esperar a chegada de uma equipe de profissionais médicos. Cecyla engoliu em seco: pelo visto, o boato estava certo.

Um gemido soou na porta da frente.

O coração bateu mais rápido; seus ouvidos apurados captaram o som se repetir com força.

Alguém sentia muita dor lá fora.

Cautelosamente, ela aproximou-se da janela. Uma pessoa se encontrava em posição fetal sobre o capacho, olhos fechados e respiração ofegante. Sob as luzes dos postes públicos, feridas negras e úmidas brilhavam, desfigurando toda a pele.

Perto dali, um veículo freou bruscamente, as portas abrindo-se com rapidez.

A vítima virou a cabeça na direção da janela e levantou as pálpebras. Úlceras pequenas se espalhavam ao redor dos olhos dourados.

Cecyla sufocou um grito, levando as mãos à boca, e acabou por apalpar um caroço pequeno logo acima dos lábios.

Passos apressados ecoaram na rua. Um grupo de homens e mulheres em trajes brancos de proteção, a cruz vermelha simétrica estampada nos torsos, aproximava-se.

Médicos, finalmente. Ainda existia uma chance de salvação.

E então reparou nos tubos metálicos compridos que empunhavam. Na extremidade de cada um deles, brilhava uma chama alaranjada.

Cecyla se afastou da janela. A campainha tocou segundos depois.


Written by Marcelo Augusto Galvão in: Contos,Marcelo Augusto Galvão |

16 Comments»

  • Gabriel Monteiro says:

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    Gostei do texto. A narrativa fluiu bem e o final foi fantástico, ao meu ver. Acho que esse cenário poderia render uma história maior.

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      Valeu mesmo pelo comentário, Gabriel! Um amigo meu também disse que essa história poderia virar uma trama maior; depois do teu comentário, vou pensar em algo para explorar usando esse cenário.
      Um abraço!

  • Franz Lima says:

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    Marcelo, sua história ficou muito boa. Um enredo enxuto onde a sequência de fatos prende a atenção do leitor. Gostei do desfecho (sem ser explícito) mantendo o clima de suspense que é característico de um bom escritor.
    Parabéns…

  • Asami says:

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    Este conto, creio eu, precisa e merece uma continuação para os fatos apresentados, apofundando-os. A narrativa dinâmica me agradou bastante e o novo universo criado pelo autor é muito interessante e merece ser explorado. Muito legal ;)

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Valeu pelo comentário, Asami! Com você, já são três os leitores que acham que a história merece ser aprofundada; estou pensando agora em transformá-la numa noveleta. Um abraço.

  • Sara says:

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    Como os leitores anteriores também acho que a história poderia ter uma continuação. O suspense deixado no final é realmente muito empolgante e faz com que se tenha vontade de saber como a situação de Marte vai acabar.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Obrigadão, Sara! Taí, seu comentário já meu deu uma ideia de como prosseguir a trama :)
      E aproveitando o espaço – e acredito que seja permitido fazer autopropaganda aqui – , dia 29/08, às 15:00 horas, lá no Fantasticon ( fantasticon . com . br ), tem lançamento da antologia Imaginários (Editora Draco), na qual participo com um conto. Todos estão convidados para um bate-papo e sessão de autógrafos por lá :)
      Um abraço.

  • Andrey Ximenez says:

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    Show de bola o conto Marcelo, vale uma continuação mesmo.
    -
    O tipo de narração me agradou muito mesmo. Desde a voz do narrador, como o entrelaçamento de fatos, diálogos e vozes.
    ;)

  • Thainá Gomes says:

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    Continua isso ,por favor,tem que ter continuação

  • Vânia says:

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    Excelente conto, Marcelo! Você conduziu o texto com maestria, mantendo o clima de suspense do início ao fim. Concordo com os demais comentaristas: essa história merece continuação! Parabéns! Abraços, Vânia.

  • Vinicius Maboni says:

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    Muito bom!
    Ritmo viciante, impossivel parar de ler.
    Tá de Parabens!

  • Samila says:

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    apesar de eu não gostar do tema, a leitura me agradou muito. Bem feito e descrito… consegui até imaginar a vista de marte, a vida lá, a tensão ante o desconhecido, a peste… nossa, até me arrepiei com esse final!
    muito bom!

  • Ana Bourg says:

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    Ficou bem… medonho.

    Gostei, a leitura foi rápida e em poucos parágrafos o autor conseguiu construir esse mundo futurista e “estranho”.
    Algumas coisas, como a questão de engenharia genética, lembrou o filme Gattaca.
    O final foi sinistro.
    merecia continuação. xD O autor podia aproveitar esse cenário para novas histórias, talvez contar sobre um personagem da Terra.

    • Juliette says:

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      Concordo..
      Medonho!

      Gostei do texto, dos assuntos…deveria ter continuação, é um tema bastante rico.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    O texto flui bem, mas o clima formado pela narrativa, sei lá, não conseguiu me colocar num clima SciFi.

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