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Jan
25
2011

Lições

Escritor: Abreu

Você percorre meu corpo com uma das mãos. Acha que eu não vou sentir com todos aqueles casacos e três camisetas que me esquentam nesse dia de inverno-frio-nevante.

A sua mão treme um pouco, eu consigo sentir. Alias, eu consegui sentir quando você se aproximou na primeira vez. Na verdade, eu vi você antes mesmo que me visse. Foi dobrando a esquina da Carter com a Persepolis, na frente daquela barraca de comida do China. Você estava encostada nela, de costas para o chinês cozinheiro quando ele espetava uns pedaços de carne e preparava a grelha. Você falava alguma coisa com ele, e eu saco de cara que você está mancomunada com o China. Ele é um grande filho da puta gente-fina, eu vou te dizer isso mais tarde e você vai concordar comigo.

A sua mão desce mais pelo meu corpo e eu vou crescendo um sorriso idiota por estar tão certo de suas ações. Mas no fundo eu estou torcendo para que você me surpreenda de alguma maneira. Eu preciso de alguém que faça isso, alguém que pense diferente de mim. Eu gosto de notar esse tipo de qualidade logo no primeiro contato que tenho com uma pessoa, e esse é  o primeiro contato que eu tenho com você. Você não me surpreende. Por enquanto.

Você não me toca por inteiro, é só a ponta do seu dedo deslizando suavemente pela minha jaqueta de maldito inverno glacial sobre uma antiga vermelha desbotada que eu tenho. Já começa errando. Não pode ser assim. Você tem sim que acompanhar a linha do corpo da pessoa, mas não pode se entregar tão facilmente. Não pode nunca, jamais, tocar a pessoa. Alguém mais treinado ou neurótico sentiria o seu dedo delicado descendo por dois casacos e três camisetas. Eu senti.

Agora chega a parte difícil, quero ver como você se sai.

Por enquanto tudo bem. Você consegue mimetizar o meu ritmo. Seus passos são iguais aos meus, você pisa com a mesma força que eu no chão. Tudo perfeito. Tudo fácil demais. Só que você ainda não saca qual é a minha. Você não percebe que a minha maneira de andar é diferente, e que não precisa se esforçar nem um pouco para copiá-la, pois só um tipo de pessoa no mundo anda dessa maneira.

A sua mão vai até a minha cintura, e abaixo. Você chega onde tem de chegar, e quando consegue alcançar seu objetivo eu seguro o seu pulso tão rápido que você não tem tempo nem de levar um susto.

E olha pra mim com esses seus grandes olhos verdes arregalados e me surpreende pela primeira vez. A sua mão tremida era nervosismo mesmo. Seus olhos são verdes e só. Nada de vermelho. Você está lúcida. Não usou pedra, sinth, nem porra nenhuma. Isso é bom. Eu não quero uma viciada.

Você me diz que vai chamar a polícia e eu agora dou meu sorriso irônico. Seu cabelo é preto e desfiado, esses cortes andrógenos que voltaram sabe-se lá porque caralhos depois de 20 anos esquecidos pela moda. Mas ele lhe cai bem e não te dá uma cara de puta, mas de moça de respeito e confiável. O que é difícil de encontrar por essas bandas.

Eu falo que seria melhor não chamar a polícia, porque você provavelmente já tem algum rolo com ela e que eles não acreditariam em suas palavras. Eu também digo que delegacia não é lugar para uma garota como aquela na minha frente e não consigo ler do quanto você acaba tomando isso como um elogio. Não gosto de pessoas que não posso ler, mas por algum motivo inexplicável eu gosto disso em você.

Pergunto se é minha carteira que você quer, e você não diz nada. Eu mesmo pego ela com minha mão livre, porque a minha ocupada ainda aperta o seu pulso. Eu a levo até a altura do seu rosto e digo que pode pegar e abrir.

São mão livre faz isso. A outra, esquerda, é coberta com uma luva de couro. Menina esperta, usou a mão sem luva para tentar me furtar. Quanto mais sensibilidade e tato você tiver disponível, maiores as suas chances de sucesso.

Você parece não ter aprendido isso com ninguém e age de uma maneira completamente natural. Você não tem técnica nenhuma. Mas parece conseguir se virar. Tem todas as qualidades e trejeitos necessários. Consegue andar no mesmo ritmo que a vítima, agir sem atrair a atenção de ninguém mais.

Ninguém na rua parece nos dar atenção.

Consegue se misturar na multidão mesmo nessa ceninha que fazemos. Você parece realmente especial, e é só instintos e naturalidade. Isso é bom. Isso me surpreende. Você me sai uma bela surpresa.

Quando vê que não tem dinheiro nenhum na minha carteira eu tenho vontade de lhe dar uma aula sobre como as coisas funcionam com gente como nós. Não deixamos nosso dinheiro na carteira.

Eu peço que olhe a minha ID. Você olha. Eu digo que esse é o meu nome e que pode me chamar assim, depois pergunto o seu.

Seus olhos verdes não mais estão arregalados, mas ainda estampados com a maior dúvida e estranheza que jamais esperaria que essa situação toda a levasse.

Pergunto porque queria me roubar, e você me vem com uma desculpa que eu quase considero. Olha cara, foi mal mas eu precisava disso para comer e eu tenho irmãos que-, você começa dizendo mas para, cortada por uma leve risada minha.

Eu respondo que eu também. Sete. E você olha para a minha cara desconfiando se eu tenho mesmo sete irmãos. E nem percebe o que eu estou fazendo esse tempo todo. Chegando a conclusão que eu menti, assim como você, uma expressão meio indignada toma forma no seu rosto.

E essa expressão cresce ainda mais até virar um misto de surpresa com indignação na quarta potência. Ai olha para a minha mão que até agora segurava minha carteira e vê que eu estou com a sua.

Eu olho o seu nome e digo que é um grande erro levar sua identidade para um furto, assalto ou qualquer ilicitude que você pense em cometer. Você me indaga então porque eu estava com a minha, e eu simplesmente respondo que não pretendia naquela noite fazer nada de errado. Naquela noite eu estava limpo e só queria me distrair um pouco, mas você apareceu subitamente como uma brincadeira do destino e eu fui tomado por maquinações que preferia deixar esquecidas até o dia seguinte.

Você não entende mais nada. Novamente. Faz essa cara de dúvida mista com indignação que eu muito simpatizo, só não revelo isso ainda.

Eu solto levemente o seu pulso e você parece nem perceber. Impulsos elétricos naturais tomam conta do seu corpo e vão do sistema nervoso até sobrancelhas que se arqueiam quando você ouve o meu pedido.

Eu digo que se está assim com tanta fome para me roubar, se não aceitaria jantar comigo. Num lugar discreto, mas bom. Sem preocupações, polícia ou barracas de comida chinesas de procedência questionável.

Mais impulsos elétricos, dessa vez mais fortes, que a fazem tirar sua mão parada no ar e livre de meu domínio quando percebe que não imponho mais força bruta sobre você. Você tem uma cara assustada, e segura o pulso com a mão de luva de couro.

Não se faça de fingida. Não botei tanta força assim pra lhe segurar.

E então? Eu pergunto.

E então o que? Você devolve.

Jantar.

Você para e pela cara que faz parece refletir por longos minutos, mas na verdade passam-se só alguns segundos. E então me devolve uma pergunta.

O que eu ganho com isso? É a pergunta.

Um jantar, eu respondo.

Se você aceitar, mais tarde eu falo que ganharia também uma parceria com o melhor ladrão que você jamais vai encontrar naquele cu de mundo em que estávamos.

Me pergunta onde.

Brazil, eu respondo.

Você dá um sorriso meio de quem não acredita no que acabou de ouvir, meio de quem fazia graça com minha proposta, e ainda devolve que eu não tenho grana nem cartão para um lugar como o Brazil.

Primeira lição: onde guardamos nosso dinheiro. Eu respondo enquanto me ponho em direção ao restaurante.

Você percebe que estou falando sério. Ando alguns passos, viro e olho para você mais uma vez. E eu acho que assim consigo transmitir uma genuína confiança como completo estranho para uma garota de cabelos negros e olhos verdes que queria me roubar.

Fale mais sobre isso, você diz com aquela cara que alunos fazem em aulas realmente interessantes enquanto me segue até o restaurante.


Written by abreu in: Abreu,Agenda,Contos | Tags: ,

6 Comments»

  • Thaina Gomes says:

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    Vai ter continuação ou acaba aqui?

  • Samila says:

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    Bem bonitinho enredo, doce apesar de muito simples. O estilo, todavia, me incomodou um pouco, provavelmente porque não estou acostumada a esse tipo de narrativa. Às vezes o testo parecia engatado, arrastando-se, mas no geral eu gostei.

    • Samila says:

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      Coisa feia, Sam… Texto é com ‘x’ ‘-’

    • abreu says:

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      Poxa, bonitinho? Jamais imaginaria que alguem usaria essa palavra pra descrever o conto xD

      Que estilo de narrativa vc se refere?

      e obrigado pelo review, Samila :)

      • Samila says:

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        Bonitinho pq vi aí o incio de um romance bem fofo XD

        -
        Por estilo de narrativa -devo- estar me referindo à escolha de narrar em segunda pessoa(algo pouco usual, e muito intimista), e sobretudo o jeito que você narrou, o que vc revelou a principio, o que deixou para revelar só depois… não sei explicar… Me deixou incomodada.
        Mas como disse, gostei

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