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Jan
18
2011

“O Espectro das Planícies” – Conto (Fantasia)

Escritor: Galdos

Galtor permaneceu tempo incontável olhando encosta abaixo. Não sabia há quantos dias permanecia na trilha traiçoeira, mas pouco lhe importava. Vislumbrou o céu e viu que continuava o mesmo; escuro, inflexível, com os largos olhos cósmicos em seu encalço. Se estivesse lá em cima, pensou ele, saberia qual caminho tomar num piscar de olhos. Suas perguntas tinham carência de respostas, motivo pelo qual raramente vasculhava sua mente à procura de um remédio para seus obstáculos. Galtor sentou-se por um tempo. Era noite. A planície ao seu redor era a apoteose da vastidão. Uma desolação incomum e vazia, que guardava o mistério das Eras do Tempo em seu interior.

As planícies não possuiam feições; no horizonte via-se a vasta região que era contornada por raras elevações onde nada brotava ou tinha forma; pensou que talvez fosse o primeiro errante dos ermos a disparar uma busca pelo outro lado da Vastidão, pois ninguém nunca havia sentido uma necessidade insólita de atravessar aquela planície obscura. Galtor encostou-se contra uma pedra. Estava fria. Os ventos do horizonte sopravam uma brisa em seu rosto pálido. Retirou as coisas que carregava consigo ao seu lado; desarmou o machado castigado pelo tempo, o escudo da cor do crepúsculo, os mapas que não o levaram à lugar nenhum, sua mochila de couro cru e seu cantil metálico vazio. Observou os raios do sol fugirem das sombras da noite e viu Lítios subir aos céus. A lua que trazia a madrugada. Então permaneceu recostado na pedra por um tempo imemorial, contemplado o horizonte monocromático e que se estendia até o infindável e desconhecido esboço de montanhas absurdamente altas e inalcançáveis; foi envolvido no cobertor mágico do pensamento, preso em uma filosofia primitiva sem começo nem fim, onde viu-se questionando as perguntas insoluveis, íntimas da vida. Viu que desconhecia o significado desta palavra, assim como, em um lampejo de luz, desconheceu todas as palavras que conhecia, e, como tentando agarrar-se na escuridão, desapareceu. Subiu ao universo, e ficou cego pela luz dos sóis negros; estrelas que irradiavam uma força brutalmente sombria, ao inverso do Sol ou de Lítios, como ele conhecia no princípio. Rasgou as constelações eternas, viajou através das galáxias mais remotas e frias, ermos de solidão, sem vida ou cor, e então ficou cego pela ausência das palavras e das cores.Algo o impulsionava com uma velocidade superior à da luz e da vida entre as fendas da perdição, através dos infinitos sistemas solares, galáxias, universos e multiversos; permaneceu percorrendo toda a vastidão suprema que compunha a matéria, e talvez chegou a ver além da matéria e dos átomos, quebrando a cadeia de prótons e nêutrons, destruindo-os ainda mais e vendo o que havia além dos quarks e das demais partículas. Uma energia obscura vendou seus olhos; ficou imóvel por séculos, contemplando a Paisagem sem Cor; até que, em um piscar de olhos, retornou aonde estava no princípio, sentado ao lado de uma pedra. Sentiu seu machado e escudo ao seu lado. A visão ajustou-se num piscar de olhos; recobrou os sentidos. Estava de volta. Atônito. Vômitou. Com um gesto de escárnio, levantou-se. Haviam se passado dez anos desde que deixara seu machado e escudo de lado para contemplar as Planícies da Vastidão. Largou suas coisas ante a solidão eterna, ao lado da pedra.

Estava na hora de partir

….

Por: Mateus “Galdos” M.


Categorias: Agenda,Contos |

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