O outro cômodo da casa
Escritora: May Mory
Quando a porta da frente se fechou Joel encolheu os ombros. Fizera-se de forte mas a realidade é que estava sentindo-se muito inseguro com tudo isso. Ouviu o barulho do motor ligando o carro e então cada vez mais baixo, conforme ganhava distância. Ficou hipnotizado pelo som durante um bom tempo.
Mas que coisa mais ridícula. Sentia-se um bobo mesmo. Ele já era um adolescente e em seu primeiro final de semana sozinho em casa, estava aterrorizado. Vivia rindo de todo mundo, mas agora não achava graça nenhuma em sua situação. Seus pais tinham um evento importante para ir, Joel voltara tarde na semana passada e ao lavar a louça quebrara um precioso prato que sua mãe ganhara no casamento, aliás ele terminou de quebrar o último porque os outros cinco ele deu conta à muitos anos atrás. O último prato era especial. Seu pai já chegara a perder tudo e sua mãe o lembrava constantemente que o jogo de pratos era a última coisa de valor sentimental que restara, e fora explícita ao explicar que todos estavam proibidos de usar o último. Ela até colocara no topo do armário da cozinha. Mas Joel tinha um grande problema com regras, portanto na semana passada ele subiu no balcão, esticou a mão e tirou o prato de lá, sorrindo como se ganhasse um troféu. Após ver que o filho já usara o prato para comer a mãe só pediu cuidado, que ele até o teve mas a louça se quebrou na pia enquanto era lavada.
Até ali nada de novo. Seus pais viviam zangados com Joel e ele sempre pensara que isso acontecia por ele ser o mais velho. Após seus pais o largarem um final de semana inteiro de castigo e levando sua irmã mais nova, ainda criança para o evento onde ficariam num hotel super bacana e deixando Joel para estudar ele teve a certeza de não era querido. Está certo as provas começariam na segunda-feira, mas mesmo assim era prazeroso dramatizar um pouco. Todos seus amigos costumaram reclamar de que não eram muito amados em casa, que ninguém os compreendia. Era a moda na sua idade: precisavam achar um motivo pela qual queriam ser revoltados. Ser rebelde era legal.
Tinha muitos bons amigos na escola, sendo que Joel era o pior deles, o mais atrevido e encrenqueiro. Nenhum de seus amigos saberiam que ele estava com medo. Ele mesmo nem entendia porque se sentia assim, sempre fora tão destemido.
A tarde passou tediosa com o preparo de sanduíches e sucos de laranja. Ele comeu bem mais do que deveria e ficou sentindo-se mal pelo resto do dia. Jogava-se meio sentado e meio deitado no sofá, passando os programas pelo controle remoto com ar de poucos amigos. Sua testa estava permanentemente franzida e em protesto decidiu que não estudaria nada. Nem pensar!
Não percebeu quando mas adormeceu ali mesmo. Quando acordou sentiu-se ansioso ao perceber que abrira os olhos mas não enxergava absolutamente nada. Nunca percebeu como a sala podia ficar escura daquela forma. Levantou-se e saiu tateando às cegas à procura do interruptor. Bateu seu joelho e canelas e xingou alto, aproveitando que poderia usar o palavreado que quisesse já que sua mãe não estava ali para reprimi-lo.
Por fim acendeu a luz. Sentiu-se ligeiramente assustado com o escuro e a luz foi um alívio. O que estava acontecendo com ele? Desde quando se tornara um “mariquinha”?
Em dez minutos já se sentia terrivelmente entediado. Seus pais levaram a chave e ele foi proibido de sair deixando a porta aberta. Uma coisa era quebrar um último prato de sua mãe, a outra era deixar a porta aberta e correr o risco de terem tudo roubado daquela casa, inclusive seu amado vídeo – game. Isso nem pensar.
Mas seus pais não saberiam se ele chamasse gente para vir à sua casa. Isso também era proibido mas seus pais deveriam saber a essa altura que “proibido” era ouvido ao contrário por Joel. Empolgou-se com a ideia. Daria uma festa de arromba e limparia tudo no domingo, seus pais jamais saberiam. Se algo fosse quebrado é claro que ele colocaria a culpa em si mesmo, fazia isso muitas vezes, em especial quando bravo. Ele tinha o costume de arremessar coisas quando estava bravo.
Correu para seu quarto para telefonar. Descobrira recentemente que seu pai vinha gravando conversas no telefone debaixo, não sabia o porque. Lá em cima era sempre seguro.
Subiu a escada de três em três degraus cantarolando feliz. Que maravilhosa ideia:
-Eu sou um gênio! – gritou.
Tateou acostumado que estava com seu quarto na penumbra, procurando o aparelho em seu criado-mudo mas não o achou. Bufou e correu para acender a luz. Não estava lá! Mas é claro, seus pais saberiam que ele iria dar a primeira festa de sua vida assim que estivesse sozinho. Mas como eram chatos!
Pegou seu relógio que tocava o alarme todas manhãs e o lançou pela janela.
Desceu e ficou andando de um lado para o outro. Não queria nem olhar em direção à estante da sala pois sabia que não veria o segundo aparelho ali.
Quando tinha uns seis anos de idade ele ganhara uma arma a gás de presente, lembrou-se dela para a sua vingança. Arrancaria a janela de umas três casas vizinhas e apenas seus pais saberiam quem foi, mas jamais poderiam provar.
Desceu ao porão. A luz não acendia pois ninguém mais ia lá após terem encontrado um rato. Seu pai mandara detetizar mas mesmo assim, uma ratazana gigante traumatizara a todos com aquele cômodo. Joel corajosamente achou uma lanterna e descia, fazendo ranger a madeira das escadas. Parecia bem um filme de terror.
Era impossível ver um passo à frente, mas ele continuou firme. Sua raiva era maior do que o medo de escuro. Será que alguém supera realmente esse medo? Com tantas histórias de assombração que parecem ter se tornado moda ultimamente, ele era mais uma pessoa com a imaginação bem fértil para esse tipo de assuntos.
Mantinha a lanterna apontada para o chão, apenas para tomar cuidado para não cair. Chegou finalmente aonde queria. À sua frente estava um baú gigante, onde eram guardados os antigos brinquedos de Joel e os livros de sua irmãzinha, que era mais intelectual e guardava ali livros. Eles eram opostos e ninguém acreditava que eram irmãos, nem mesmo os parentes.
O baú abriu num longo rangido, uma aranha pulou dali, ele nem imaginara como entrara. Viu carrinhos, umas duas bonecas, bilhões de livros e uma bola de futebol. Começou à puxá-los para fora, sem cuidado, apostava como ninguém se lembrava como as coisas estavam guardadas ali. Depois de um bom tempo e já com as mãos sujas, Joel encontrou sua pistola. Seus olhos se arregalaram de prazer, um olhar malígno que se acentuava com a forma como ele mordia os lábios.
Então sua lanterna apagou.
Joel ofegou e gemeu. Agora começou a choramingar como um bebê, morrendo de medo. Estava muito longe da escada e menos ainda do andar de cima. Fora um idiota em não acender a luz lá em cima. A escuridão agora era pior do que quando estivera na sala.
Respirava com força, desesperado. Começou à caminhar para onde achava que era a escada, mas não chegava à lugar nenhum, nunca.
As lágrimas começaram à cair. Ele balançava os braços à frente de seu corpo inutilmente, não havia nada sólido para tocar em lugar algum e logo viu que estava perdido ali.
Foi quando seu coração quase parou.
Sentiu algo em seu ombro, mas ele não batera na coisa, alguma coisa tocara nele. Ele permaneceu parado onde estava, não para tentar se esconder mas sim porque não conseguia mais se mover.
Lentamente uma figura começou se fazer ver na frente dele. Joel berrou, esperneou e queria fechar os olhos, mas a curiosidade era bem maior e ele ficou ali vendo a criatura se materializar em sua frente sem poder fazer nada.
Horrivelmente, uma mulher bem velha de cabelos brancos ou levemente esverdeados mas bem claro, olhava para ele. Tinha uma malícia e maldade em seu olhar. Joel tremia e a observava com os olhos arregalados.
Ela sorriu mas era melhor até que não o tivesse feito. Era má, isso era certeza.
Ele começou à andar para trás, tentando ganhar distância entre eles mas ela se aproximou dele em um segundo e logo estavam com os rostos quase colados. Joel chorava bem baixinho agora, queria seus pais, em especial, sua mãe.
-Ah, mas eles não estão aqui agora, não é mesmo?-Disse ela com uma voz horrível e rouca, parecendo uma bruxa como a dos filmes.
-Ãhn? – começou Joel. – Você lê meus pensamentos?
-Eu leio muito mais que pensamentos menino, eu conheço sua alma.
Joel continuou parado, sem abrir a boca. Era melhor não provocar aquela coisa. Mas logo se arrependeu do que pensou. Um segundo depois e sua pistola estava na mão dela, que disparou contra ele acertando-lhe na coxa. Joel gritou de dor, achou que furou. Só podia ter sido pois doeu demais.
Ela riu jogando a cabeça para trás, exatamente como as bruxas dos filmes. Joel então sentiu-se um pouco mais corajoso, menos petrificado e tentou arrancar a arma da mão dela. Novamente se acovardou ao perceber que a arma flutuava.
Não sabia porque mas agora ele tinha certeza de onde estava a escada e correu por ela, ora subindo, ora rastejando pois caía constantemente. Conseguiu chegar ao topo no que parecia ter levado uma eternidade e saiu fechando a porta atrás de si com toda a velocidade que encontrou. Trancou-a de seu lado e foi se afastado mas de frente para a porta. Ela então começou a fazer barulhos de socos fortes, verdadeiros estrondos e ele viu que a porta não aguentaria o baque. Correu pegando uma mesa pesada e usou toda sua força para arrastá-la até a porta. Mesmo assim não aguentaria.
Ficou ali, de costas para a parede olhando para a porta que parecia pular, tamanha a violência. E se arrependeu. De tudo.
Como aterrorizava outros garotos de seu colégio, de como fora o terror da rua e em especial…como fora terrível com aqueles que desde pequeno, não sabia porque ele tanto incomodava, propositalmente: seus pais.
Arrependeu-se de como vinha tratando seus pais. Não sua irmã, era a única pessoa no mundo na qual ele era bonzinho e protetor. Mas era horrível com seus pais. Tudo o que pediam que ele fizesse, Joel sempre fizera o contrário. Se pudesse, pediria desculpas porque aquela ali atrás daquela porta era o que ele era para com o mundo. Talvez por isso a chamara, não sabia mas parecia tão claro que fosse isso…
Chorou e esperou o que acreditou ser sua morte. Aquela pistola não era nada comparando com os facões que sua mãe tinha na cozinha. E aquela coisa horrenda, provavelmente vinda do inferno atrás daquela porta não iria ter faca alguma usada contra ela, não sabia que arma poderia ferir algo que era invisível. Mas se ao menos ela fosse realmente invisível ele não precisaria ter visto a pior visão de sua vida, que ele sabia que jamais conseguiria esquecer.
Por um momento ele se questionou de algo estranho. Seu pai trancara aquele porão para sempre por causa dos ratos ou por causa dela? Agora ele percebeu que talvez seus pais soubessem daquilo e queriam lhe dar uma lição, afinal os ratos se foram, não havia motivo para manterem aquela porta fechada. Mas novamente, se eles soubessem então estariam conscientes que uma porta não poderia segurá-la pois como era possível ver, ela derrubaria aquela porta a qualquer momento.
Como o que não se quer que aconteça acaba chegando, a porta se estourou e ele fechou os olhos com força. Encolhendo-se.
Ouviu um bufar forte se aproximando e sentiu-se totalmente apavorado. Então notou que era ele mesmo que bufava, pois não respirava desde que estivera lá embaixo. Algo tocou seu ombro, mas gentilmente e ele apertou ainda mais seus olhos. Começou à chorar e à se encolher, quando ouviu uma voz familiar:
-Joel!
Temeroso ele abriu os olhos devagar. À princípio tudo estava embaçado e então ele viu seu pai. Não entendeu nada e tentou olhar o que estava atrás dele. Ninguém, nada, apenas a porta do seu…quarto? Ele olhava para seu pai e então em volta. Estava em seu quarto, deitado na cama.
-Você está bem filho? -indagou o pai.
Joel sentou-se atordoado e então perguntou:
-Pai? Você voltou?
-Claro, já é domingo à noite. Por que foi dormir tão cedo?
-Eu…eu…
Não conseguiu dizer mais nada. Sua mãe entrara no quarto e lhe deu um beijo. Sua irmãzinha adorável correu até ele e pulou em seu pescoço. Joel beijou-lhe a testa e agradeceu em silêncio poder vê-la novamente:
-Pensei que jamais a veria novamente minha linda.
Seus pais se entreolharam confusos.
Joel levantou-se e não enxugara o beijo de sua mãe como sempre fazia, mostrando que tinha nojo. Simplesmente aproximou-se e lhe deu um abraço bem apertado. Incluiu então seu pai em seus braços e sua irmã estava no meio, protestando por estar sendo esmagada pelos três.
Seus pais olharam um para o outro novamente, confusos mas divertidos:
-Precisamos deixar este menino sozinho mais vezes!-exclamou seu pai.
O resto da noite foi uma alegria para Joel. Sua mãe fez a mesma comida de sempre, não era muito criativa, mas ele saboreou o jantar como nunca. Antigamente dava algumas garfadas e sempre deixava sobrar. Nunca percebera que embora ela não variasse muito, cozinhava muito bem! Seus pais não queria falar nada talvez com medo de que sua gentileza fosse embora, mas sua irmãzinha era espontaneamente ingênua ainda:
-Joel está tão bonzinho!
A mãe deles concordou com um aceno de cabeça:
-Ele sempre é bonzinho, mas está tão bonzinho com vocês.
O pai olhou para o filho que sustentou o olhar mostrando carinho.
Joel limpou a mesa para todos e lavou a louça com o maior cuidado possível.
-Desculpe pelo seu jogo de pratos mamãe. – pediu.
Sua mãe olhou-o com prazer e não escondeu o sorriso:
-Está tudo bem. Era só um prato.
-Mas eu estava errado em pegá-lo. Jamais serei assim novamente. Sei que tinha um valor inestimável para você.
-Bem…sim, – ela respondeu. -Mas também havia uma história quanto a ele, acho que me apeguei à coisas boas. O que são coisas materiais em comparação à um filho maravilhoso estar amadurecendo?
Joel sorriu. Então se lembrou:
-História?
-Bem, não era bem uma lenda. Mas ele foi dado por uma colega da minha mãe que nem imagino porque tenha vindo em nosso casamento. Ela…bem, ela era uma cartomante que me disse que eu os mantivesse inteiros para ter sorte. Eu acreditei nela por causa de seu olhar penetrante…Bom, era besteira.
Joel estremeceu. Achou então que o espírito da mulher voltara para tirar satisfação com aquele que quebrara os pratos. Mas era ridículo. Por que alguém se apegaria tanto à louças de porcelana e se fosse, porque os daria de presente? Não fazia sentido.
-Fico feliz que eram só pratos então, mesmo assim me perdoe.
-Bem…Se você conseguir guardar um segredo filho, – começou a mãe. – Eu sempre tive uns hobbies meio mórbidos, gostava de colecionar ossinhos de animais mortos, pelos soltos de animais e cabelos humanos…quando nova. Pois bem, esta cartomante me disse que os pratos foram feitos das cinzas de sua antiga mestre que segundo ela era uma bruxa muito poderosa. Bem, eu gostei da ideia. Não acredito em bruxas ou poderes mas era feito de algo morto, então guardei. Além do mais foi-me dado na data mais feliz de minha vida, então uni duas paixões juntas. Era especial para mim por isso. Mas ninguém pode saber pois…já pensou se descobrirem que comiam sobre uma morta todos esses anos? E eu nunca culpei você realmente pela quebra, eu acho que a velha bruxa queria se libertar de nós e ela mesma dava um jeito de destruí-los.
Joel olhava para a mãe com os olhos arregalados e só então ela percebeu. Ela riu alto, e estranhamente como uma bruxa ao ver sua expressão.
-Desculpa Joel, mas nesta casa só você entenderia minhas esquisitisses pois você é igualzinho a mim quando eu era pequena, até mesmo agora na sua idade. Eu sei que você pode me entender.
-Mãe…Houve realmente…Ratos nesta casa? -indagou ele temeroso.
A mãe olhou-o com curiosidade. E então parecia que ela entendeu a pergunta:
-Oh…-exclamou. – Você…você não…Ah…-Ela continuava sem fazer sentido. – Bem, acho que você já é um pequeno homenzinho e pode entender. Não, não houve ratos nesta casa. -Ela sorriu maliciosamente.
-Mãe…-ele começou o mais baixo que pode. – Você já viu o que há no porão?
-Oh sim, já vi. Foi quando os pratos começaram à se quebrar. Mas ela ficava ali num canto, olhando para mim como se tivesse presa. Levei você, depois seu pai e então sua irmã lá embaixo mas nenhum de vocês podiam vê-la. Então decidi que tínhamos que trancar o porão.
-Ela se soltou mãe.
-E você se surpreende?
-Bem…bem mas é claro! Você não? – perguntou ele horrorizado.
-Não filho.
Ela saiu andando calmamente. Então virou-se rapidamente:
-Fantasmas existem. Eu os vejo o tempo todo.
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Interessante. Gostei bastante do conto, na verdade. A narrative fluiu bem demais e conta uma estória muito legal. Pra mim seria mais legal ainda houvesse uma continuação se aprofundadndo no passado da mãe de Joel, que atraiu bastante minha atenção.