Ordálio – Final
Escritor: Vinicius Cortez
Em algum fim de estrada nos arredores da cidade, guerreiros bem armados começavam a ver as primeiras habitações de Cáparra.
Subindo o caminho da colina que levava à pequena igreja da cidade, um vulto negro caminhava pela manhã orvalhada seguido por meia dúzia de homens armados.
Vália, depois da noite exaustiva, tropeçava nos próprios pés e escorregava na grama molhada. Por duas vezes, quase caiu. Talvez seus guerreiros pensassem, vendo o chefe ofegante no pórtico da paróquia, que os anos finalmente haviam começado a pesar sobre os seus ombros. Mas ainda não estava satisfeito.
Vália parou ali, separado por dois passos da escada que levava à nave, apoiando-se contra um dos dos arcos que cobriam os degraus da entrada do santuário. Segurava debilmente numa das mãos a espada ainda suja de sangue que não tivera tempo de limpar durante tantas caminhadas pela noite. Tomando um profundo hausto de fôlego, avançou para igreja. Ao que o seu primeiro passo soou pelo salão de pedra, a figura mirrada do padre emergiu a sua frente, bloqueando o caminho. Estava acompanhado apenas por um jovem sacristão, evidente morto de medo, que parecia prestes a fugir correndo a qualquer momento.
– Eu vou passar, Erasmo. Saia da minha frente, ou vou esmagar o que resta desse seu saco de ossos velhos. — O Tiufado ergueu a espada e deu um rosnado ameaçador.
– Você não pode. É a lei. Este é um santuário, e qualquer criminoso que porventura estivesse aqui já está perdoado. Respeite pelo menos isso e o Duque poderá lhe mostrar alguma misericórdia.
Ao som da referência ao Duque, o gigante rugiu e avançou para frente, jogando contra a parede o sacristão e o padre com um só movimento de braço. Mancando, foi até o altar, derrubando vários dos bancos antes de chegar lá, e procurou com cuidado por qualquer traço do garoto.
– Onde ele está?! — berrou. Cuspia saliva a cada sílaba. O padre permaneceu imóvel. — Está bem, faremos do seu jeito, porco. — E para os seus homens: — Vasculhem tudo. E se não encontrarem nada, façam queimar esta sujeira.
– Mas mesmo que você encontrasse o garoto não faria diferença alguma. — Pensou alto o padre de repente. Vendo que o Tiufado ouvia com atenção, porém, continuou: — Você matou o Conde, ou não matou? Fez o que queria fazer há anos, e se preocupa por causa de um menino. — Houve algo parecido com um riso asmático. — Parece que as tropas do Duque são mais numerosas do que você pensava que seriam.
A igreja ficou num completo silêncio senão por um ocasional ruído vindo dos fundos da construção, onde os guerreiros reviravam a mobília com violência. O Vália não respondeu nada por algum tempo. De costas para o padre, apenas olhava a cruz fixada no alto da parede do altar. Depois, falou num tom sinistro:
– Sim, a batalha está perdida. Na Cantalábria não conseguiram reunir as lanças necessárias para chegar aqui a tempo… E esta gente fraca de Cáparra, que não cuida do que é seu, aceitará de bom grado um novo senhor. Os cristãos do Duque logo chegarão e distribuirão cruzes feitas da madeira das árvores das tradições, e eu não estarei mais aqui para impedi-los… — Escorado no altar, olhando para a cruz, Vália parecia estar fazendo uma oração em voz alta. — Eu pus aqueles que ainda são fiéis aos nossos deuses na entrada da cidade. Eles morrerão como homens de verdade. E se o meu destino for mesmo viajar para o outro mundo como eles, levarei comigo esse traidor, um bastardo que traiu seu próprio povo.
– Não encontramos nada, senhor. — disseram os soldados ao voltar da busca. — Apenas alguns panos e as correntes partidas. Ele esteve aqui.
Vália deu um pesado suspiro de desânimo.
– Muito bem. Continuaremos procurando. Aquele pirralho não pode ter ido muito longe.
O gigante desceu do altar, e entre o agitar dos panos do seu manto negro o padre pôde ver uma ferida funda, já cinzenta, provavelmente da noite anterior. O Tiufado, percebendo o descuido, arrumou as vestes e, com um sinal de cabeça, saiu da igreja com a sua escolta, voltando a subir a colina.
– Ele é um rapaz corajoso. — Disse o padre, da entrada da sua igreja. O gigante parou para ouvir — Insistiu em ir. O máximo que o Conde o convenceu a receber foi um cavalo e dois ajudantes para atravessar as montanhas. Achava que ninguém desconfiaria dele, por não ser um filho legítimo. Era o favorito do Conde. — Vália acenou com a cabeça. Enquanto voltava a caminhar para o alto da colina, o padre se atreveu a acrescentar: — Eu sempre achei… que essa ousadia fosse coisa de visigodos.
Chegando ao topo da colina, o Tiufado se endireitou e tossiu como um velho resfriado. O padre o viu fincar de repente a espada no chão, tomar de um dos soldados a lança, e despir seu espesso manto negro, deixando a mostra seus braços largos cobertos de cicatrizes. Então o ruído surdo de cascos de cavalo pisoteando o chão sobressaltou os ouvidos cansados de Erasmo. Do outro lado da colina, mais de oitenta cavaleiros acompanhavam um garoto também montado, que se persignava. Ao seu redor, as cruzes e os signos do Duque apareciam apesar da sujeira que manchava os panos.
Vália, o gigante Tiufado, ergueu a lança como se ela fosse parte do seu corpo. Usou os olhos veteranos de centenas de batalhas e chacinas para fixar seu alvo. Sem que um som saísse da sua boca, o arremesso cortou o ar com a velocidade de um trovão.
E então ele parou para esperar a morte.
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