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Jan
18
2011

Ordálio – Primeira Parte

Escritor: Vinicius Cortez

– E se não der certo? E se eles não vierem?

– Nem tudo pode estar nas mãos dos homens. — A voz seca respondera, rasgando seu caminho através da escuridão.

*

Manhã de outono, Garun de Cáparra.

Estava frio demais para a estação, mas as pessoas pareciam não se incomodar. A chuva umedecera a madeira das casas ao redor da praça, e a brisa gelada que soprava da montanha acertava em cheio os transeuntes que tentavam pular as poças d’água. Novos feirantes haviam enchido o lugar de cores e cheiros, e ávidas mãos levantavam e abaixavam as frutas: às vezes um dedo tinha coragem de se separar do calor dos outros e apontar para algo que era logo trocado por um produto de fazenda. Num canto atrás de um estande, garotos perseguiam com gravetos uma galinha solta cujos saltos esvoaçantes apenas a sujavam mais na lama do chão.

De repente, silêncio. Apenas algumas vozes se faziam ouvir, mas agora aos cochichos. Uma roda espessa foi aos poucos se formando na entrada da feira, e a surpresa que estava inicialmente estampada nos rostos curiosos foi se dissipando. Em seu lugar, surgia o medo.

Houve um sobressalto geral quando um baque surdo de um corpo caiu inerte no chão, e alguém ergueu a voz em protesto. No centro da roda, um homem gigantesco, coberto de grossas vestes negras, acabava de lançar numa poça um garoto desacordado. O contraste entre as duas figuras era tão grande quanto seria diferença entre um urso e um gato, mas ninguém se atrevia a expressar mais do que um tímido grunhir de indignação. Porque o gigante coberto de preto, que acertou um pontapé na barriga do menino assim que ele começou a levantar a cabeça, era um Tiufado, um líder de
guerra, chefe militar, um homem de poder e violência. Suas grandes mãos ornadas de anéis se tornavam milagrosamente borrões descendo cerrados sobre o garoto, que já começava a sangrar. Suas grandes mãos ornadas de anéis se transformavam em borrões enquanto desciam, rápidas como raios, sobre o rosto do garoto, com força bastante para fazê-lo espirrar o sangue que se misturava à sujeira da terra.

– Pare já com isso, Vália! — bradou uma voz de entre a multidão. O gigante hesitou por um instante, ainda com o pulso em riste. Era um homem que não costumava ser contrariado sequer nas suas mais simples vontades: não seria difícil perceber isso pelo modo como examinou a pequena multidão ao seu redor com ar de absoluta incredulidade — encontrando, porém, nada mais que homens magros, de faces cavadas, que seguravam sacos de pano vazios senão por alguns poucos frutos murchos. Com toda a certeza, não teria sido um aldeão a falar com tanta autoridade. Seria alguém mais. Por baixo da barba desgrenhada, um sorriso foi se desenhando com o reconhecimento.

– Não vai pedir, seu porco imundo, não vai pedir em nome do seu Deus? — respondeu o gigante, dando as costas ao menino trêmulo. Empurrando os ombros da muralha de curiosos que formava o círculo, quatro braços fortes abriram caminho para um homem mirrado, envolto num surrado hábito cinzento. Seu rosto sem barba, enrugado, e seu porte pequeno contrastavam com a monumentalidade do Tiufado, que finalmente conteve sua fúria ao perceber as pontas afiadas das lanças que traziam os homens que vinham com o padre.

– Parece que hoje não preciso d’Ele, Vália. Você deve deixar o garoto ir.

– Ir?! — gritou em resposta o gigante. — Como, ir? Este homem — berrou, erguendo o garoto pelos seus trapos sujos, como se levantasse um saco de batatas. Apresentou-o à roda de olhos horrorizados, embora houvesse, e não poucos, daqueles que assistiriam o que quer que acontecesse ali com a mesma curiosidade mórbida com que esperavam a execução de um criminoso comum. O gigante o percebeu, pois recomeçou a frase mais uma vez, como se quisesse aumentar o impacto das suas palavras. — Este homenzinho… traiu o nosso povo! Por causa dele, quatrocentos homens estão atravessando as montanhas! — Um tenso instante passou enquanto o Tiufado media com cuidado os dois homens que acompanhavam o padre. Não eram tão grandes quanto ele, mas eram dois membros da guarda pessoal do Conde — Este… — cuspiu no chão — bastardo vai pagar com o próprio sangue o sangue dos meus homens que será derramado por sua causa. E não acho que chegou a hora, pelo menos ainda, de que aqueles que treinei se oponham a mim, Erasmo — disse, dirigindo as últimas palavras aos sentinelas ladeando o religioso.

– É a vontade do Conde. Se você a desobedecer, o traidor certamente não será Eurico. — Com um sinal de cabeça, o padre fez avançar os sentinelas em direção ao gigante, que deixou cair novamente o garoto aos seus pés. Arqueando as costas, ameaçadoramente desembainhou dois dedos da sua espada de campanha.

– Você e eu sabemos que eu não vou deixar o garoto ir. Se for preciso, eu vou arrancar a cabeça desses seus dois bonecos, mas ele vai comigo. Ele será levado à justiça…

– Que é exatamente o que pretendo fazer — respondeu o padre, estendendo a mão como num ato de conciliação. — O que mais você poderia querer? Entenda que o Conde não deixará impune sequer um arranhão que fizerem a esse garoto. Não seja estúpido.

O gigante retirou um pouco mais de metal da bainha, o bastante para que a pouca luz do sol refletisse na sua lâmina, como numa resposta ao brilho tênue e contínuo da corrente de ouro pendente sobre o peito de Erasmo. Baixando os olhos para ela, o Tiufado pareceu ter uma ideia.

– Ele irá à Justiça… — falou, sublinhando cada palavra. O padre rapidamente acenou em anuência. — Mas não à sua justiça.

Erasmo baixou a cabeça, sabendo o que aquilo queria dizer. Não cabiam mais perguntas. As intenções de Vália eram claras, e ainda não havia como impedi-lo de acordar o mal antigo de cuja existência os visigodos, pelo menos aqueles não misturados aos maus costumes do povo, já esqueciam ou até duvidavam. Erasmo o conhecia, mas apenas dos relatos em Latim que cobriam as paredes do seu gabinete, na paróquia. Havia nessas histórias tanta poeira, tanta velhice, que não podia acreditar que um deles sequer ainda estivesse vivo. Mas o sorriso do Tiufado, enquanto guardava a espada e mais uma vez levantava pelas roupas o garoto, era seguro e triunfante. Avançou para fora da roda de curiosos com uma só palavra dita sobre os ombros a lhe abrir o caminho.

Rachimburg – ele anunciou, e o padre sentiu um calafrio lhe subir pela espinha.

—————————————————————————–

Oi pessoal!

Esta é a minha primeira contribuição por aqui, um conto que comecei faz pouco tempo e que achei que ficaria muito bom no ONE por causa do ar meio Cornwell que ele acabou tendo. Mas eu o pus numa cidade cujas ruínas ficam fora da Inglaterra, na Espanha da Alta Idade Média, que no tempo ainda era chamada Iberia. Espero que vocês tenham gostado do começo, as outras partes já vêm!

Enquanto isso, vou lendo com atenção os comentários que vcs fizerem. Vai ser muito útil, especialmente para mim que estou começando agora!


Categorias: Agenda,Contos,Ordálio |

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