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Jan
19
2011

Ordálio – Segunda Parte

Escritor: Vinicius Cortez

A luz vinda da fogueira iluminava com grandes triângulos dourados e vermelhos os rostos duros dos anciãos sentados na clareira.

Se o dia fora frio, a noite estava gelada, mas nem isso foi o bastante para apagar o interesse com que a notícia do julgamento se espalhara por Cáparra. Os cabelos brancos dos velhos visigodos faiscavam enquanto esperavam encolhidos dentro dos seus trapos furados.

Para eles, aquilo era como uma volta ao passado. Fazia mais de um século que um Gaufard, uma assembleia de guerreiros, não se reunia, e eles observavam cheios de nostalgia o garoto preso a um toco de árvore por largas argolas de ferro, ansiosos por saber que fim lhe caberia. Para mais jovens, porém, atrás dos seus escudos, aquela reunião tinha um horrível
cheiro de exumação dos mortos, o remexer num túmulo esquecido e o fedor do perigo subindo às narinas para avisar o quão imprevisível será o resultado de cada nova pá de terra fora da cova.

Até mesmo o Conde em pessoa deixara seus afazeres para presenciar a cerimônia. Arranjaram um banco de madeira para que ele sentasse, e em silêncio ele apertava os olhos e cerrava a mão sobre a boca, como se sufocasse um grito de dor. Todos daquela parte da vila sabiam que ele não saíra do seu castelo naquela noite fria apenas para dar o ar de sua graça. Até o mais obtuso homem da terra não podia deixar de perceber a aura protetora que sempre recaíra sobre Eurico, e para todos passara a ser fato consumado que a relação entre os dois, o Conde e o garoto, não era menos que de pai e filho. É claro que, como dizia Vália, um filho bastardo, mas ainda assim amado o bastante para que suas mãos não ficassem calejadas de trabalho no campo. A proteção, no entanto, não podia ser tanta, para uma prole ilegítima, que o guardasse de ser castigado por ter traído a sua cidade.

– Parece que o seu juiz decidiu ficar em casa esquentando os pés, Vália. — provocou o padre Erasmo, de pé ao lado do Conde. O Tiufado marchava de um lado para o outro, numa linha reta entre os homens do Conde e as correntes de Eurico, e não respondeu. — Talvez este frio até o tenha matado… Deus tenha piedade da sua alma.

A última declaração foi acolhida com riso nervoso pela plateia. Mas o gigante, contendo os passos impacientes, rangeu os dentes em silêncio. Apenas pequenos rolos de ar quente se desprendiam da desordem negra que separava seus olhos do resto do corpo, como se no seu peito houvesse uma fornalha que precisasse expulsar sua fumaça. Pedir ao Deus cristão pela alma de um Rachimburg era no mínimo má-educação. Vália já abria a boca para responder alguma coisa quando a atenção se desviou para um dos cantos da lareira, onde os homens pareciam abrir passagem para alguém.

– A noite quase não me deixou chegar. Venho tarde, mas aqui estou.

Todos procuraram de onde viera a voz. Avançando lentamente para o calor da fogueira, uma figura folclórica se equilibrava sobre duas pernas finas. Seu corpo inteiro era tão magro que a luz parecia passar direto por ele, e era sobretudo por causa dos seus olhos e barba que era possível vê-lo. Vália endireitou-se e com um sinal fez um de seus homens levar um banco de pedra para o Rachimburg. Este, recusando a oferta com uma careta, continuou sua marcha lenta até o corpo dobrado de Eurico.

– O que uma criança como esta poderia fazer… — disse vagarosamente, inclinado sobre os grilhões de ferro — para que fosse preciso me chamar, Vália? Será que desaprendeu a olhar os céus? Não vê as estrelas, o mau agouro que a lua sorri sobre nós? Me dê uma boa razão para acender fogo do lado da floresta numa noite como esta.

O Tiufado não demorou mais que um instante para responder antes que o padre se recuperasse da surpresa de ver o ancião. Por habilidoso que fosse em disfarçar seu nervosismo, o Tiufado não pôde evitar engolir algumas notas das palavras que disse, tal qual um menininho que tivesse sido pego aprontando:

– Ele foi o único de nós que foi ao norte no último verão. Agora, uma tropa bem armada subiu o rio e já está atravessando as montanhas… — O gigante dirigiu ao padre um olhar cheio de ódio antes de acrescentar: — Homens carregando bandeiras de cruz.

Se houve alguma mudança na expressão do Rachimburg, era impossível de perceber.

– Você chamou esses homens para cá, meu filho? — perguntou, com um toque de doçura na voz. Era improvável que não entendesse perfeitamente do novo deus que derrubava reis e vinha se espalhando como fumaça fétida desde as frias terras ao longe. Até as corças das florestas sabiam que talvez fosse destino de todos os condados godos se ajoelhar dando as costas à tradição. A afabilidade de Erasmo podia ser, afinal, só uma face de algo maior e muito mais ameaçador. – Você sabe o que eles viriam aqui fazer, não sabe? Ande, pode dizer: você os chamou ou não para cá?

Eurico ficou em silêncio. Olhou ao redor, tentou procurar apoio no Conde, no padre, mas como o Rachimburg parecia não querer se mover enquanto não recebesse uma resposta, simplesmente abanou a cabeça em negativa. E se encolheu mais ainda contra a árvore. O ancião voltou a esticar suas costas, que estalaram como se algo tivesse acabado de se partir.

– Pronto, ele não quer falar. — disse.

Até o Tiufado pareceu atordoado demais para se indignar. Finalmente, o padre conseguiu perguntar:

– Então, no seu juízo… ele é inocente?

O Rachimburg se aproximou dele. Mais de perto, seu olhar alucinado e o seu cabelo empoeirado cheio de raízes de plantas quase fez o padre recuar.

– Não foi o que eu disse, não foi o que eu disse. Não foi.

– Então, o que significa isso? — disse o gigante quase gritando. O ancião não tirou os olhos de sobre o Conde para responder:

– Significa que nós não sabemos… — Vália mordia os lábios, possesso — Ainda.

O Conde ergueu a cabeça por um segundo, como se acordasse de um sonho que seus ouvidos precisassem se empenhar para ouvir de muito longe.

– E como saberemos? — perguntou o padre.

Sem qualquer aviso, o Rachimburg se jogou contra um dos homens da guarda do Conde e, num movimento inacreditavelmente rápido, tomou sua espada na mão e avançou a passos largos para a fogueira. Encravou o metal entre as chamas e espetou a ponta da lâmina num pedaço de carvão fumegante. Parecia ter se tornado de repente dois metros mais alto.

– Os deuses podem nos dizer! — exclamou.

– Não, isso não! — guinchou o padre, erguendo as mãos pálidas.

– Por que não? Me disseram que vocês cristãos também sabem provar a honestidade de um homem!

– Mas não assim, e não com ele!

– Isso faz parte do julgamento com que você concordou, Erasmo! — interveio Vália, incapaz de disfarçar seu contentamento. — Eu quero apenas a verdade!

– Uma verdade que você não conseguirá assim. Ele é só um garoto!

Todos ficaram em silêncio. O pedaço de carvão em brasa desprendia rolos de fumaça que brilhavam na noite.

– A decisão não é sua. Nem é minha — disse finalmente o Tiufado, erguendo os olhos para o Conde.

Os rostos se viraram juntos para o homem atormentado no outro extremo da clareira, sua face torcida de horror. O Conde levou a mão à testa e por um instante pareceu que não conseguiria dizer nada. À sua frente, porém, a mancha dos homens de Vália tremulava na escuridão, pronta para desembainhar as espadas, esperando avidamente uma resposta negativa.

– Dou meu consentimento — murmurou, e se deixou cair na cadeira.

O ancião mostrou seu sorriso quase sem dentes. Os olhos do Tiufado fulguraram como os de um animal que acaba de cercar a presa. O rosto do padre era um bloco de rugas fundas. E o Conde, inconsolável na sua cadeira, enxugou na manga do manto uma lágrima dolorida que escapara.

– Abra a boca, criança. — disse o Rachimburg.

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Olá de novo!

Só vou dizer a mesma coisa da última vez: qualquer comentário é muito bem-vindo! Espero que estejam gostando da história. Agora já estamos mais perto do fim…


Written by viniciuscortez in: Agenda,Contos,Ordálio,Vinicius Cortez |

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