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Jan
24
2011

Ordálio – Terceira Parte

Escritor: Vinicius Cortez

Enquanto cascos gastos atravessavam as trilhas finas da floresta, o ancião segurou o garoto pelo queixo. Um silvo baixo como o de água caindo numa fogueira morta soou rapidamente quando ele introduziu o pedaço de carvão na boca de Eurico.

Enquanto este esperneava e enrubescia violentamente, o Rachimburg mantinha as mãos inexplicavelmente vigorosas, uma segurando a mandíbula e a outra no topo da cabeça, de modo a impedir que em sua dor o menino cuspisse o carvão antes da hora.

Pelo que pareceu uma eternidade, o Conde assistiu aquela cena, quase tão vermelho quanto o réu, tentando com todas as suas forças olhar para o outro lado da clareira, onde os velhos pareciam absortos no espetáculo oferecido. Ele via Vália sorrindo próximo a fogueira, seus olhos brilhando cheios de crueldade, como os de um bicho da noite que espera a presa acabar de morrer.

Finalmente, quando Eurico já parara de se debater e deixara pender seus membros com a moleza inconsciente dos desmaiados, o padre decidiu intervir:

— Basta!

O Rachimburg, imerso no seu trabalho, pareceu não escutar. Foi preciso que o padre repetisse uma segunda vez para que o ancião, resmungando alguma coisa inaudita, decidisse soltar o garoto, que foi imediatamente ao chão, usando as poucas forças que lhe restavam para cuspir a pedra negra, já não mais fumegante. Embora ninguém se atrevesse a dizê-lo, todos queriam saber o resultado, mas o Rachimburg, rabugento, limitava-se a observar Eurico como se este lhe fascinasse profundamente. O Tiufado, então, soltando uma exclamação virulenta, atravessou a clareira quase que aos saltos e, afastando o ancião com um empurrar de cotovelo, ergueu o garoto pelo queixo. Dentro, as marcas em carne viva das queimaduras não demoraram a se revelar sob a luz da fogueira. Os deuses haviam falado.

— Ele está mentindo! — anunciou o gigante, com um grito triunfante. — Agora a vida dele é minha!

E sacou sua longa espada de campanha. Os homens da sua hansa, atrás dele, estavam em polvorosa. Eurico apenas observava a cena, fraco demais para protestar, e o padre tremia, virando as costas para não ter que ver também esse derramamento de sangue. Antes que o metal da espada de Vália começasse a descer, porém, uma voz que até então não tinha sido ouvida se destacou:

— Isso eu não posso permitir! — disse o Conde, de pé novamente. Tinha a sua própria espada em mãos e seus homens já estavam formando uma linha diante dele. — Há muito tempo tens me feito provocações, Vália. Hoje terás tudo aquilo por que pediste aos deuses.

O Tiufado arqueou as costas como um animal preparando o bote. Todos na plateia perceberam, de repente, que desde o início não era outra coisa que o gigante desejara. Um a um, os guerreiros da sua hansa saíam do escuro para se juntar a ele, novos lobos de uma matilha mostrando os dentes ferozes.

O que veio em seguida pareceu passar em fulminantes segundos. Sob o sinal enérgico do Conde, suas linhas prepararam as espadas, enquanto os homens do gigante avançavam vagarosamente. Muitos dos velhos da cidade, ajudados por seus netos imberbes, não tiveram tempo de sair da clareira antes que Vália, espedaçando o primeiro escudo com um giro de espada, transformasse todo o lugar num turbilhão de sombras se digladiando. Apesar de serem mais hábeis com as lâminas do que os integrantes da tiufadia do Vália, os homens da guarda do Conde estavam numa quantidade vergonhosamente menor. Depois que alguém tivera a ideia de lançar um toco incandescente da madeira da fogueira na floresta, as chamas que consumiam as árvores logo revelaram o punhado de guardas ao redor do Conde, ceifados um a um enquanto o Tiufado marchava em direção a eles. O Conde não recuou, mesmo quando os seus homens estavam todos no chão, o último deles habilmente degolado por Vália. Ficou lá parado, sem escudo e com a espada baixa, quando o gigante parou para observá-lo.

— Onde está o Deus para quem Vossa Graça à noite pede que eu morra, agora? — perguntou o Tiufado, cheio de ironia.

— É tarde demais, Vália. Nem com duas tiufadia como as tuas conseguirias bater as forças do Duque que já estão na floresta. — respondeu o Conde, após um momento de silêncio. — Esta será mais uma terra santa, porque tu logo a lavarás com o sangue dos pagãos que te seguem.

O Tiufado parou de andar em círculos.

— Nem todos os visigodos serão servos do vosso Deus.

Ergueu a espada e com um só golpe possesso quebrou a lâmina que o Conde debilmente levantara para se proteger. O corpo do Conde despencou sem ruído, seu crânio partido em dois pelo gigante. Em seu último segundo de vida, prostrado no chão, parecia estar olhando para os grilhões de ferro que estavam presos à árvore, vazios. Alguém conseguira quebrar um dos elos da corrente. Por um segundo, o Conde pareceu sorrir. E o Tiufado, virando-se para onde estivera Eurico, soltou um grito que paralisou todos os homens que ainda estavam na clareira:

— Onde está o garoto?!


Categorias: Agenda,Contos,Ordálio |

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