Perdido em algum momento da Gêneses
Escritor: Gustavo Henrique
Gustavo Henrique
O que faz uma pessoa ser ela mesma é o que faz seus sonhos se tornarem reais. O que faz seus demônios ganharem vida é o que faz seus anjos serem leais, mas o que faz tamanha distorção ganhar forma?
O tamanho das perguntas não diz quem somos, tão pouco a grandeza de suas respostas não fazem de uma filosofia algo realmente palpável. Somos apenas o irreal materializado em formas abstratas. A forma disforme, o meio infinito, o justiceiro vingativo ou a utopia alcançável.
Quem sou? Sou apenas aquele que posso ser…
Houve um momento de total silencio, não mais se ouvia a chuva no lado de fora, não mais se ouvia o estralar da lenha na fogueira, não mais se ouvia o coração daquele ajoelhado no carpete bater freneticamente em desespero, não mais se ouvia os gritos de terror vindo de um longe perpétuo, o que não lhe pode, leitor, ser de sua surpresa uma vez que estes gritos já se calaram a alguns momentos atrás.
Não só o som deixou naquele momento de existir, como também deixou de existir a ação. A cena lentamente se congelara até a estagnação total. A sala continuava mal iluminada, um jovem nitidamente apavorado estagnou-se ajoelhado sobre um carpete encharcado de sangue, sangue este do continuamente retalhado e quase morto corpo de sua recente esposa que lutava para manter uma respiração fraca, moribunda e inútil aos pés daquela criatura que magistralmente compunha toda a cena,
E então, como se retomasse o play em velho vídeo de terror, a cena lentamente começava a se tornar inestática, A chuva voltou a cair sobre a soleira da janela, o fogo voltou a queimar a lenha de forma a fazê-la reclamar, o coração do jovem voltou a bater freneticamente, o assoalho velho de madeira voltou a ranger sobre os passos da criatura que, mesmo sobre as condições ideais, em câmera lenta se aproximava daquele que prostado permanecia sem produzir nenhum som audível ou ação visível.
Ás vezes me mostro incomum a tamanha cena de carnificina, peço perdão a quem me lê por ferir seu superego ao afirma que, de uma forma macabra, às vezes me divirto em ver casais jovem e cheios de esperança em suas vidas longas e prosperas acabar de forma tão horrenda, nojenta e sangrenta.
Acredito que, em certas formas, a dor mostra-se igualmente divertida aos olhos de quem vê, posso simplesmente me mostrar empático a situação e dizer ao mundo que tamanha façanha da existência é inconcebível aos meus olhos, que esta atrocidade é culpa de uma consciência em dualidade contrária a minha. No fundo até quero acreditar nesta teoria, mas sei que se eu cavar este fundo mais um pouco vou encontrar apenas a mim mesmo.
Não meu leitor, desculpa minha total falta de discernimento, a real forma de existir deste pensamento deve ser creditada a mais pura e inesgotável forma de observação até hoje criada, a inveja.
Ás vezes, apenas quero ver a esperança ser destruída tão facilmente como as garras daquela criatura fatiam as carnes que a muito batalham pela suas vidas. Dessa forma, tento mostrar a ela, a esperança, que na dependência de toda a existência ela não é a mais forte, tão pouco a mais importante ou a mais astuta. Mostro então as garras do medo e a forço a aceitar toda sua incapacidade perante as armas daquela criatura que astutamente criei armei e amei.
Mas a esperança teima em não fazer minha vontade, ela permanece ali incrustada na existência de tudo e de todos, não só do bem quanto também do mal, ela permanece ali, no infinito, no meio termo da luz e do espaço, na região inalcansada de toda a distorção, no meio termo do inteiro e no inteiro meio termo, exatamente no mesmo lugar que eu, esperando bobamente ser invocada para poder transformar milagrosamente a existência daquele que a aceita.
E quando tudo parece não mais haver, caminhando no nada vejo todo esta ação no qual me dou por morada neste momento. Na superfície me deparo com “…todo esse sentimento que eu criei, toda essa cena que eu criei, nada mais foi do que uma crença cega sobre a suposta superioridade do criador sobre a criatura”.
Indignado, olho dentro e vejo “…tudo não passou de uma invejosa vontade de morar sozinho no coração e na alma de tudo e de todos, matando dessa forma não a vida, mas sim a própria esperança”.
Embriagado por sentimentos infindáveis e irracionais pulo no oculto e infinito centro da cena e quando caio em seu fundo vejo com os meus próprios olhos “…eu estava apenas tendo esperança, eu só estava desejando o impossível amor incondicional de tudo e todos”.
E como se a esperança esfregasse em minha face o ínfimo poder da minha onipotência, acho misturado na lama do fundo desse buraco algo parecido com “… a esperança só permanece ao meu lado, onde sempre estive, estou ou estarei, pois assim eu desejo”.
Criei as aspas e os refrões da existência. Criei o canto, o manto e o pranto. Criei a dor, o amor e o poeta. Criei o sonho o delírio e a Utopia. Criei o eu o tu e o nós, Criei o tudo, o nada e os vários. Tudo para em mim e só em mim viverem, e então criei a esperança, e a esperança acabou por criar o seu criador.
Sim, eu não poderia me esquecer: eu também crie o casal, como também criei a criatura e também criei você. Porém em relação aquela criatura que a muito matou aquele casal, saiba que desisti de criá-la, ou melhor, se você está lendo estas linhas, as tome como um registro existente de que eu a criei quando quis criar tudo, mas infelizmente a esperança não a deixou existir.
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Por Deus que eu poucas vezes li um conto que me deixasse tão atordoada e sem palavras. Maravilhoso enredo escrito de uma forma a jogar o impacto na cara do leitor e prendê-lo desde a primeira até a última linha. O assunto, a forma de abordá-lo, a introdução, a conclusão… creio que só possa resumir em uma palavra: genial. Parabéns, Gustavo, espero por outros contos seus por aqui
Valew Asami, valew mesmo pelo comentário. Cara você não sabe da satisfação que você me deu ao ler o seu comentário.
Primeiramente por você ter gostado tanto, cara, sem palavras para expressar o carinho que você demonstrou ter pelo meu conto, muito obrigado.
E segundo, fico muito satisfeito de ter conseguido atingir o meu objetivo com este conto, que por sinal você já disse, que era “atordoar”, “impactar” e “brincar com constantes reviravoltas na história”.
Agora, posso te fazer uma pergunta, o que você achou do fato da história ter duas vozes narrando, uma em terceira e a outra em primeira?
Cara, mais uma vez muito obrigado, e eu prometo não vou ficar mais tanto tempo sem responder, prometo…
um abraço.