Sombra Densa – Parte I
Escritor: Matheus A. Francisco
Gorlim aguardava sua parceira de missão encostado à parede da casa do mago Jaru, que para todos na cidade de Fláviam é apenas um velho corcunda e excêntrico que não gosta de ninguém. A grande maioria da população desconhece a existência dos guardiões do império, que lidam com magia, taxada de assunto dos malucos.
Gorlim é um garoto de dezessete anos que só está em treinamento para ser guardião porque esgotou toda a paciência do velho mago importunando-o quando o viu transformar uma pedra numa garça.
O garoto puxou o capuz da blusa negra para cima da cabeça, impedindo que um conhecido que passava na rua o reconhecesse naquela parte da cidade. Seu uniforme de trabalho era uma blusa preta sem adornos que continha um capuz, calça de couro preto, botas pretas e uma luva branca que cobriam suas mãos cheias de tatuagens que aumentariam sua capacidade mágica. Aquelas vestes o deixavam mais estranho do que ele já era. Olhos negros, cabelos negros, nariz fino e pontudo e orelhas pontudas, pele pálida. O pior é ser magro e alto, isso lhe dava um aspecto sombrio quando vestia aquelas roupas.
Uma garota ruiva um pouco mais alta que ele, vestindo as mesmas roupas, se aproximou segurando um lampião para poder iluminar o chão a sua frente, a madrugada estava um breu.
– Você demorou – disse Gorlim, esticando um dedo enluvado para a garota.
– Estava sem relógio, e mesmo assim não estamos atrasados – disse ela.
Caminharam até o limite da cidade e entraram num trem movido a carvão que os levou para os ermos que circundavam o império. A garota ruiva se embrenhou na mata e Gorlim seguiu-a com um pouco de dificuldade.
– Você faz mais barulho do que um porco agonizante! – disse ela, nervosa.
– Obrigado pelo elogio – Gorlim tirou uma faca com a lâmina dourada da bainha que estava em seu cinto.
– Acha que vai conseguir pegá-lo com isso? – disse ela apontando para a faca. – Não aprendeu nada com o mago resmungão?
Gorlim olhou por entre as árvores para um vulto negro que passou rapidamente.
– Aprendi muita coisa com ele, você vai se surpreender – informou.
– Certo, mas porque está usando luvas?
O som de um rosnado ecoou sutilmente até eles.
– Nada – disse Gorlim, se referindo as luvas brancas.
Dois pontos vermelhos brilharam na escuridão da floresta e tão rápido como surgiram se foram. Os olhos azuis da garota brilharam também e ela se atirou em direção ao local onde antes estava a luz, Gorlim não pode mais vê-la nem ouvi-la, ela simplesmente sumiu.
– Legal… – murmurou ele. – Agora eu morro.
Gorlim brandiu a faca e esperou o vulto vir atacá-lo, aquela era uma missão muito perigosa para um guardião em treinamento, mas sabia que em vista do viria posteriormente, até que essa era leve.
O garoto atirou um pó brilhante numa árvore que no mesmo instante ficou repleta de luz dourada. Não havia sinal de nada suspeito perto dela. O ar começou a ficar frio e os pelos do corpo dele se eriçaram, o medo do demônio que atormentava a floresta começou a abalá-lo, sua imaginação resolveu atrapalhar e Gorlim via a coisa aparecendo de todos os lugares, uma brisa gelada lhe atingiu as costas. Assustado, o garoto cortou o ar atrás de si com a faca.
O demônio não deu mais sinais. O que será que está acontecendo? Pensou Gorlim, o bicho estava se expondo no inicio, mas porque agora…
Suas suposições foram cortadas por um grito feminino que lhe chegou aos ouvidos precedidos de orelhas pontudas. Ele tentou identificar a direção de onde o som vinha, mas não foi capaz. Gorlim ouviu o mato sendo pisado, viu uma planta sumir atrás duma escuridão mais densa que passou a frente dela.
É agora, pensou. O vulto investiu contra ele, porém se conteve quando quase apareceu à luz que emanava da árvore enfeitiçada.
– Venha, medroso! – provocou Gorlim ao ver que estava protegido pela luz.
A sombra do tamanho de cão continuou parada pacientemente. A luz da árvore ficou mais fraca, depois mais fraca ainda.
– Droga! – Gorlim olhou o saquinho e viu que ele estava vazio. – Devia ter trago bastante disso como Jaru havia me aconselhado.
O animal soltou um guincho de satisfação ao perceber o que estava se passando, assim que a luz se extinguiu ele saltou para cima de Gorlim, que por sua vez pulou para o lado. As garras do demônio arranharam a árvore. Gorlim correu para dentro da floresta, desviando com a agilidade das árvores. Ele podia ouvir a respiração agitada da coisa que o perseguia.
Ainda em corrida ele se livrou da faca e tirou as luvas, o desenho dum demônio magro que estava tatuado entre outras figuras brilhou. Suas mãos se tornaram ósseas e negras, seus dedos eram lâminas enormes a afiadas, seus olhos enegreceram e seu cabelo virou tiras de sangue coagulado, seus dentes ficaram tortos e pontiagudos, suas orelhas já pontudas aumentaram…
O demônio pulou em seu colo e Gorlim atacou sua cabeça com as garras fazendo-o ir de encontro ao chão, os olhos do animal brilharam, mas foram arrancados por Gorlim, que o atacou outras inumeráveis vezes.
O bicho era do tamanho de um cão, tinham uma boca enorme similar a do jacaré cheia de dentes, patas com garras grandes, o corpo era escuro e musculoso com uma couraça negra envolvendo-o. Gorlim voltou ao normal, recolocou as luvas, procurou a faca e passou o sangue do demônio morto nela.
A garota ruiva voltou mancando e segurando o braço esquerdo que sangrava, pareceu surpresa ao ver o animal caído e Gorlim acima dele segurando uma faca ensanguentada.
– Muito bem! – disse ela. – Pena que suas finas luvas brancas estão manchadas – acrescentou com um sorriso simpático.
X – X – X
Voltaram até a cidade de Fláviam. Gorlim foi procurar Jaru em sua casa.
– Foram úteis, agora pode tirá-las porque não consigo controlar isso – disse Gorlim estendendo as mãos enluvadas. – Toda vez que as tiro alguma coisa absurda ocorre.
O velho mago se inclinou apoiado em seu cajado. Coçou a longa barba branca e franziu as sobrancelhas.
– Para tudo há um preço, você queria poder, eu lhe dei, mas não posso tirar isso de você agora – disse com uma voz fraca e rouca.
– O que?!
– Porque você nunca ouve os conselhos das pessoas, garoto? – o mago parecia irritado. – Creio que todos os guardiões já lhe disseram para não confiar em mim.
Gorlim saiu da casa, parou na rua e olhou para as luvas em sua mão, deveria começara a tentar se acostumar a elas, já que passariam muito tempo juntos.
No Comments»
RSS feed for comments on this post.








Espírito do Século. Novo RPG Pulp da RetroPunk já entrou em pré-venda!
Editora UNZA RPG estreia com suplemento GOBLINS em campanha para OLD DRAGON!
Alan Moore pede que leitores de Before Watchmen nunca mais leiam obras de Alan Moore
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
Papo na Estante 33 – Literatura de Entretenimento
Show, Don’t Tell ou Mostre, Não Diga.
Occupy Comics: Alan Moore e David Lloyd colaboram
Resenha do livro "O estranho mundo de Tim Burton"
Filhos do Éden - Herdeiros de Atlântida 

