Souvenirs #1 – These Good People
Escritor: Lucas Carvalho
Obs.: o nome em inglês não é para fazer graça. Há um motivo: o conto faz parte de uma série de vários, cada um é o nome de um álbum que gosto bastante. Como o álbum é cantando em inglês, os nomes das músicas estão na mesma língua e, portanto, os contos também. O álbum chama-se Souvenirs, de uma banda holandesa de música alternativa chamada The Gathering.
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Ele ligou a torneira e acompanhou o fluxo de água, através de uma bolha de ar, pela extensão de toda a mangueira. Ela percorreu um caminho livre até a ponta, por onde todo o líquido jorrava na grama verde. A água atingia uma pequena extensão do gramado, e enchia apenas um pedaço da planta, enquanto o resto sofria sob o sol quente. Eu diria que a força de todo aquele jato apenas num ponto soava bastante agressivo com as folhas delicadas da gramínea. Então, ele pressionou seu dedo sobre o orifício da mangueira, e fez com que a água espalhasse sobre uma parte maior do gramado – Mas ainda assim havia muitas partes descobertas. Era nessa parte em que ele tinha que se mover sobre a coisa toda e fazer com que tudo fosse aguado. Suas pernas estavam um pouco cansadas, e então ele simplesmente resolveu que todas aquelas folhas poderiam esperar. Na verdade, elas talvez não pudessem, mas teriam.
Entrou em sua casa, ela era muito branca, com tons acinzentados – Era o que ele sempre quisera. Descansou um pouco as pernas, mas eu não sei se elas estavam exatamente fatigadas.
Bem próximo da hora de sair de casa, ele ajeitou sua roupa, um terno preto. Olhou-se no espelho algumas vezes pra conferir, e deu uma última olhada. Eu via um homem branco, com um rosto bem cheio. Seu pescoço se alongava bastante a partir do tronco, e seu tímido maxilar tinha um aspecto constantemente cerrado, com ossos saltados nas extremidades. Esse desenho servia como base para uma expressão meio pétrea, de movimentos sensíveis e um olhar meio caído: Penso pra baixo e um pouco amarelado também. Uma pelagem dura e escura recobria todo o rosto, escondendo um pouco a pele levemente machucada. Todo esse conteúdo vinha moldado em feições grosseiras e nada sutis. O cabelo volumoso completava o foco principal de uma imagem cinza-azulada, como era a cor da parede logo atrás. Eu via mais e menos que tudo isso, na verdade.
Ele via um rosto que tinha tarefas a fazer.
Sua direção nas ruas era imoral e imortal: O veículo preto passeava como flamingo entre a corja de pequenas bolinhas brancas com rodas. Elegantemente, o vulto brilhante com o sol do dia desafiava todas as outras aves daquela selva, e emanava do potente metal negro envolto em motor uma sensação uma imponência gigantesca, mas indescritivelmente frágil. Como uma uma flor de enorme beleza, eram cores e impressões que vibravam em uma intensidade quase indecente e explosiva, mas muito frágil. Era como se alguém fosse tocar e aquilo tudo se transformaria em clímax pleno. E, logo após, abutre morto no asfalto.
Ele olhou nos espelhos e pra frente e verificou se podia prosseguir. Em um momento mexendo em uma pequena bagunça próxima do câmbio, passou o cruzamento e perdeu o retorno 37. Por isso, ele prosseguiu na avenida e fez um contorno que o faria perder uns 10 ou 15 minutos, num novo caminho. Sentiu-se inchado de raiva e prosseguiu em mais caminhos errados… Errados.
“Maldita máquina estúpida”, eu pude ouvir.
Ele se perdeu, e você riria ao acompanhar a expressão estupefata do rosto inchado e vermelho. Seguindo uma rua de casas suntuosas, pegou mais um retorno errado que o levou a uma subida muito grande, e que terminou numa rua sem saída. Desceu do carro pra ligar pra alguém, pedir ajuda. Entrou no carro sem ligar, bateu a cabeça umas duas vezes no volante, reclinou o banco e parou por 3 minutos. Já eram uns 40 minutos de atraso. Apenas 3 minutos. Nada mais.
E, em determinado momento, começou uma música no rádio. Uma música que sempre o fez sentir mais do que ele poderia explicar. Uma música que não era só um som, era uma cena abstrata que nunca existira; nem na ficção.
E ele observou no espelho do retrovisor seu rosto clarear, tornar-se pálido e distorcido. Os pedaços de músculos desciam e subiam formando outras expressões, a cada segundo diferentes das formadas anteriormente. Como uma escultura mutante, sua mente e corpo reagiam àquela música como se pudesse transformar todo o metal negro em abutre. Como se todos os segundos tivessem perdido seu sentido por causa de apenas um outro. Eu observava de forma mais contextualizada, e o homem só chorava. Chorava por aquilo que era. E eu chorava junto com ele.
Ele desceu do carro e eu pude observá-lo reclinar-se sobre o, agora, abutre, e acender um cigarro ainda com as mãos tremulantes. Uma garota pálida, de cabelos volumosos e roupas acinzentadas, de aspecto vulgarmente pueril, lhe pediu que acendesse o seu cigarro, um pouco mais comprido e com filtro branco. Percebendo o estado do homem, ela reclinou o pescoço pra trás como quem analisa a situação e disse “Por quê? Você tem um carrão”.
A música ainda tocava alto no carro, sons misturados provocando a dança. Ele, num ímpeto absurdo e sem sentido:
- Te dou o que eu tiver na carteira agora, e te garanto que é bastante, se você dançar essa música comigo antes que ela acabe.
A Garota lhe estendeu um braço, e ainda, toda de graça, lhe fez uma referência com o vestido todo solto, como se fosse uma dama de tempos mais remotos. Ele lhe tomou as duas mãos e começou a balançar os corpos pros dois lados, lentamente. A Garota parecia completamente habituada a prática, e a fazia com surpreendente prazer. O Homem ainda chorava e a dança, no fim da rua, no pequeno terreno de chão de terra, se tornava cada vez mais escandalosa: Ambos davam pequenos saltos enquanto se encaravam de braços dados e, logo após, estariam dando voltas e variações dos movimentos. O Homem sorria e chorava.
Ele enxergava os cabelos volumosos da garota saltar sobre seu rosto de sorriso meio aberto. Suas roupas acinzentadas também pulavam descobrindo trechos de pele morena e, por um momento, ela foi um pedaço de sua alma. Enquanto dançavam, ele não sentia que ela precisava ser sua, ele não a queria como um homem quer uma mulher, ele não queria nem que existisse o sexo naquele momento: Ele só precisava que, enquanto a música não acabasse, ele pudesse a guiar por uma dança qualquer. E viver aquilo. Sentir aquilo como nunca voltaria a sentir.
E eu não preciso mais narrar nada: Enfim tomei forma e estava ali com os dois, no centro da dança.
Era noite quando ele saía do trabalho, com o mesmo aspecto cansado de todos os dias. Por sentir-se tenso, achou uma prostituta. Fez sexo com ela, dentro do carro, num beco escuro. Deu-lhe a quantia combinada e retomou o caminho. Metal negro governando as vias outra vez, brilhante e sórdido como se acostumara a estar.
Olhou no espelho. Viu o mesmo homem de feições duras e frias. Eu tentei ver os olhos vermelhos. Não vi, mas não foi isso que eu escolhi.
Retornei à minha onisciência impotente.
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