Souvenirs #8 – Golden Grounds (ou Os Amores de Cassandra)
Escritor: Lucas Carvalho
Obs.: o nome em inglês não é para fazer graça. Há um motivo: o conto faz parte de uma série de vários, cada um é o nome de um álbum que gosto bastante. Como o álbum é cantando em inglês, os nomes das músicas estão na mesma língua e, portanto, os contos também. O álbum chama-se Souvenirs, de uma banda holandesa de música alternativa chamada The Gathering.
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Despontam os fios de cabelo negro até a margem da cama, uma blusa preta cobre o busto, um jeans e um salto nos pés. Completamente vestida, está deitada sob a luz do teto escuro, os olhos fechados e um cheiro acre de álcool que espalha pelo quarto.
Quando deu a hora certa, ela se levantou para encontrar com o grande amor de sua vida – aquele que a tratava como dama e objeto, como causa e conseqüência, como tudo e nada. Deitaram-se na cama imunda, à beira da estrada, e transaram com a frieza daquele outubro de tempo estranho. Eles olharam para todos os lados, vestiram-se, saíram, almoçaram e fim – Ato consumado. A Dama largada ao vento, o cavalheiro pegou o ônibus.
Era outra semana quando ela se encontrou com um rapaz tímido. Olhos que se encontram, doces, calmos, serenos. Beijos. Dias incríveis, e ela tinha certeza que a música que ele cantou à ela, olhando-a nos olhos, estaria em si pra sempre, independente do que fosse acontecer a partir daquele momento.
Esses dias ela olhou umas fotos antigas, de um antigo rapaz, de um momento antigo de sua vida. Era àquele homem ao qual ela devia tudo que era: Ela nem sabe o que aprendeu, mas aprendeu tudo com ele. Ela sabia o quão este homem amava, agora, um outro. Era tudo tão turvo. Não se sentia capaz de atingir toda a plenitude, se não com ele.
Sob outras circunstâncias, Cassandra amava ainda outros homens. O Homem que ela ensinava, o homem com o qual ela aprendia, o homem que a penetrava, o homem que ela dominava, o homem que a merecia.
Foi ontem que ela se deitou comigo, e me contou sua história. Nós transamos como um só: Um ato íntimo e tão solitário… Eu sabia que ela me amava, a sua forma, e eu a minha.
Quando a fronte dela encarou-me com um copo na mão, eu sabia que conversaríamos por horas. Ela sentou na cama de alvenaria, ajeitou os cabelos para trás, destilou com copo e alma seu ar leviano. Agora eu deixarei que ela vos fale:
“(…) São como sonhos: Eles não são unitários. Eu preciso de gamas de sensações para viver. Não só o carinho que eu tenho agora, mas as todas as músicas que ressoam na minha mente, de desde muito tempo. Eu preciso delas. O homem que me ensina, o homem que me abraça, o homem que me entende. Se eu esqueço, eles voltam (…)”
.
Somos todos parte de tantos outros, mas o que eu queria sentir eu já senti, e não vou sentir mais. Eu me tornei dependente da segurança descuidada, do sorriso largo e da voz forte: do que me ensina e me ensinou, e depois caminhou pra outros lados. Talvez seja algo como missão, ensinar e ir embora.
Levantei me sentindo fria, completamente vestida. Encontrei o outro no lugar combinado e fomos até onde deveríamos ir. Transamos, na falta do que mais. Dormimos e levantamos e conversamos e comemos e fomos. Ele pra lá, e eu pra casa.
Larguei as coisas por aí por cima e fiquei assistindo àquela cena pela fresta da porta do quarto: Garoto e garota sentados juntos no sofá da sala. Ambos sorridentes, cúmplices, decidindo a melhor forma de ajudar nos custos da arquidiocese. Não havia outra forma de reagir ao sorriso no rosto dos dois, se não chorar. Não há forma de transmitir toda a ingenuidade que provinha daqueles olhares entre os dois, da união entre duas pessoas que eu guardaria num aquário, para que não saíssem por aquele portão e encarassem o que há por de trás da cortina. Voltei à sala, cumprimentei os dois novamente, agora abraçando muito forte cada um, e quase pedindo para que nunca mais saíssem por aquele portão…
Chorei, deitada na cama, por mais tantas horas, não sei quantas. Era a dor de ter tudo, e não ter nada, à frente dos que não têm nada, e têm tudo.
Ouvindo música, eu adormeci quando ouvi a voz dizer algo como “golden grounds, so absorving…”
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E a música diz o que eu sinto, quando diz que o sol ferve a minha pele: minha cabeça está encostada no vidro da janela do ônibus sacolejante, enquanto a música que a garota me passou toca lenta e pulsando longe de tudo mais aqui.
Foi tudo tão intenso. Transei, aprendi, recitei, cantei, lambi, dormi, observei, possuí, acariciei, sorri, pensei, acordei, resolvi, agitei, fingi, toquei e me despedi.
Por debaixo das rodas de um automóvel logo à frente, estava um homem jovem e robusto caído, ensangüentado, morto, na encruzilhada entre caminhos. Não dei atenção, tinham muitos sentimentos em mim, e haveria de ter alguns a ele, por parte de seus parentes.
Cheguei em casa. Esposa. Livros. Vida: desassossego outra vez.
.
Agitada e pensando nos dois homens da noite anterior (Mas com a certeza de ter sonhado com mais algum… Vestido de médico, talvez. O Sonho era confuso), Cassandra acordou agitada, com alguma música ressonante na sua cabeça, que a acompanharia pro resto do dia.
E quantas músicas permaneceriam nela para sempre?
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