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Jan
18
2011

Speculum Capítulo I

Escritor: Thais Trevia

“Haja ou não deuses, deles somos servos.”
Fernando Pessoa

A primeira vez que o vi estava nevando. Os flocos de neve faziam uma suave dança até pousarem no chão. Quando era pequena, minha mãe dizia que eles eram as bailarinas do céu e que desciam devagar para que todos pudessem apreciar sua beleza. Ele estava parado do outro lado da cerca branca de madeira que separava a nossa casa da dele. Era um senhor lá pelos 70 anos a julgar pela bengala que levava nas mãos ossudas e as grossas rajadas de branco que pintavam os seus longos cabelos negros e barba. Talvez fosse o sorriso meio estranho ou mesmo a casa vazia que jazia atrás dele que não me fizeram ir com a cara dele. Hoje, assim como naquele dia, estava nevando. Minha mãe estava na cozinha preparando o café da manhã.

-Mãe, eu vou para a escola mais cedo hoje. Pode deixar que eu como lá mesmo.  –Eu disse enquanto tirava o casaco de trás da porta e o vestia.

-Tudo bem só não corra nas calçadas por que estão cheias de gelo –Ela disse enquanto colocava dois pães na torradeira.

-Eu acho que eu estou um pouco crescida para correr nas calçadas, mãe.

-Você nunca vai estar crescida para mim, filha. – Com isso ela me deu um beijo na testa e se virou de novo para a frigideira. Tranquei a porta ao sair para o jardim da frente e segui pelo caminho de pedras que levava até o portão de madeira. Lá estava ele, ao lado da cerca com o mesmo sorriso cúmplice, a bengala na mão esquerda meio trêmula e as inconfundíveis vestes vinho. Ele nunca me disse uma palavra e nem eu disse nada a ele, mas todos os dias de manhã quando eu saía para a escola ele estava parado lá com aquele sorriso. Hoje, em especial, ele parecia um pouco mais divertido, como se soubesse de algo que eu não sabia, às vezes, eu tinha vontade de ir lá e dar um chute naquele velho agourento e mal educado, mas sempre tomo fôlego e sigo meu caminho pelas ruas congeladas. Assim que cheguei à escola me dei conta de que hoje era meu aniversário, logo no dia dos testes de matemática, trigonometria e inglês, mas que presente eu ganhei.Segurei um suspiro de resignação e sentei no meu lugar de costume, terceira fila, quinta cadeira. Minha mãe havia esquecido o meu aniversario. Essa era a frase que agora se repetia como um mantra na minha mente. Quando eu nasci Laura me adotou, somos somente eu e ela desde então. Ela nunca se casou ou adotou outras crianças e eu nunca consegui imaginar como seria ter uma família enorme e barulhenta, sempre gostei do silencio agradável nas refeições, dos sábados nas feiras de livros no centro da cidade, nada poderia ter me feito mais feliz, se pudesse ter escolhido uma mãe certamente eu iria escolher Laura, talvez fosse o seu jeito meio hippie em prol da natureza ou mesmo o gosto musical excêntrico, tudo me fazia gostar dela. Ela tem o próprio espaço e me dá liberdade para fazer o que eu gosto sem me deixar largada por aí, além de que ela é bem jovem e desfrutamos de ótimas conversas juntas, sobre tudo. Justo ela, a única pessoa com quem eu consigo me abrir, esqueceu meu aniversario. As pessoas nunca gostaram de mim, algo em mim as mantém longe ou então as fazem me odiar, Laura é a única que me entende, minha única amiga, mãe, conselheira, psicóloga, ela é meu tudo e agora ela traiu minha confiança, não lembrou do dia em que eu vim ao mundo.O professor colocou a prova na minha frente e tudo que eu conseguia pensar era em traição e na raiva que estava começando a subir pelas minhas entranhas e borrando minha visão de vermelho. Respirei fundo, peguei a caneta e comecei a fazer a prova. Assim que terminei os testes, eu corri, corri o mais rápido que eu podia até tropeçar em uma raiz e cair em um dos arbustos no pátio. Pelo menos ninguém viu. Encolhi meu corpo magricela  entre os galhos secos e gelados daquele arbusto  e deixei toda a raiva ir embora, algo dentro de mim sabia que não era bom sentir raiva, mesmo quando meus olhos se enchiam de lagrimas eu nunca as deixava cair, nunca chorei e hoje não seria o dia para isso.Levantei com um pulo, emergindo da massa de galhos secos como um raio quase causando um colapso nervoso em um garoto que estava lendo um livro ali próximo e segui para o banheiro. Minhas vestes estavam molhadas por causa da neve que havia no chão, assim eu teria que passar antes no meu armário e pegar um par de meias e uma saia limpa, mas o problema era que eu teria que dar um jeito de ninguém me ver assim toda molhada. Fui passando quase correndo entre os pátios e quando cheguei aos corredores me encostava nos armários toda vez que alguem olhava para mim.

-Olhem só se não é a estranha! O que foi estranha, o gato comeu sua língua foi?! – E aqueles olhos verdes me fitavam como fogo em brasa que ardia de alegria em me humilhar. Mônica, esse era o nome da garota popular de cabelos castanhos e lisos, olhos verdes e sorriso falso que me atormentava desde o primário.Qual seria a textura daquele nariz arrebitado nos meus punhos? – Olhem só, a estranha molhou a saia.Andou caindo por ai, mas como você é desajeitada. – Com isso ela riu juntamente com as suas “amigas” e saiu andando pelos corredores, mas não sem antes bater com o ombro em mim. Respirei fundo pela milésima vez no dia e sai correndo até o meu armário. Pequei minhas vestes e disparei pelos corredores ate chegar ao banheiro feminino do segundo andar. Coloquei as meias e a saia rapidamente e quando coloquei o pé na porta da sala a sirene tocou. As últimas três aulas foram tranqüilas, mas o sentimento de traição ainda perdurava no meu coração. Sai da escola e fui para o centro da cidade atrás de algo para fazer. Comprei um chocolate quente com caramelos e chantili pra matar a fome e vaguei pelas ruas da cidade. Estava passando na frente de uma vitrine e vi um chaveiro que me chamou atenção, um leão prateado que estava com a boca aberta como se estivesse rosnando, um leão protetor, paguei a moça do balcão pelo chaveiro e continuei andando pelas ruas tranqüilas e frias ainda com o leão protetor na mão. Meu celular começou a tocar, peguei-o no bolso interno do uniforme e coloquei o aparelho no ouvido.

-Oi mãe

-“Filha, poderia me encontrar naquela loja que nós fomos ontem?”

-Claro, eu estarei ai em dois minutos – Com a cara emburrada e pronta para fazer a maior cena  virei uma esquina e segui até a loja onde minha mãe estaria esperando, era uma velha loja de antiguidades, uma senhora bem velha e bastante encurvada para frente que era a dona do local. Toda vez que entrava na loja o gato que ficava com a senhora na loja disparava pelas portas dos fundos e assim eu só sabia que ele era um borrão laranja correndo como o diabo foge da cruz. Empurrei a porta e lá no fundo da loja vi minha mãe conversando com a dona, ela sorriu para mim e veio em minha direção.

-Parabéns filha! –Minha mãe disse me dando um abraço daqueles de moer os ossos e toda a raiva e ressentimento foram embora. – Achou que eu tinha esquecido não é? Nunca eu iria esquecer você querida. Tenho um presente. Na verdade é uma tradição da minha família. Quando uma moça faz 16 anos a mãe dela tem que lhe comprar um espelho, mas um espelho bonito não um daqueles comuns, aí eu comprei esse para você. Veja se você gostou, eu já medi e vai dar direitinho naquele espaço na sua parede em que não tem nada. – Ela disse tudo de uma vez quase me afogando com as palavras, dei uma risadinha baixa e me virei para onde ela estava apontando. Nos fundos da loja, encostado na parede descascando, estava um espelho oval com as bordas trabalhadas em um material dourado meio velho e bem decorado, não era extravagante e nem era pouca coisa, na verdade eu havia amado, me aproximei do espelho e o peguei com as duas mãos o erguendo até a altura do meu rosto. Uma garota de cabelos pretos escorridos e grandes olhos azul-roxo me fitavam de volta, atrás dela uma mulher de cabelos castanhos avermelhados e olhos amendoados sorria meio nervosa esperando a resposta da garota em questão.

-Eu adorei mãe! É lindo. – Eu disse dando um sorriso que foi refletido no espelho.

-Que bom que você gostou. – Assim ela pegou o espelho e deu para a senhora embalar, voltamos para casa  com os espelho e algumas roupas novas no banco de trás enquanto tocava no radio uma musica com uma letra meio estranha que cantava a vida de uma garota que falava com anjos, de qualquer forma quando chegamos em casa ele estava parado na porta. Sim, ele mesmo, o vizinho estranho estava parado em frente a nossa porta com a bengala presa firmemente em sua mão ossuda, ele havia penteado o cabelo para trás e prendido com uma fita de couro as mechas rebeldes, trocado as vestes vinho por um conjunto azul e bege e em seus olhos negros como um céu sem estrelas havia um brilho de satisfação. Minha mãe bateu a porta do carro com força e andou determinada até entrada da casa.

-Boa noite Laura. – Ele disse com a voz serena e meio rouca acompanhada de um sorriso.

-Não em venha com essa de “boa noite, Laura”, você disse que eu tinha até amanhã de noite, Ambrósio, cumpra com as suas promessas.

-Me desculpe, mas você sabe que eu somente cumpro ordens. Você sabia que isso iria acontecer, você foi a escolhida assim como a sua irmã, deixe de adiar o inevitável, não há saída, agora se você a ama tanto como diz amar, é melhor chamar ela para dentro e  explicar tudo, por que ela esta congelando aqui fora, não isso fosse a matar, mas é incômodo. – Com isso ele abriu a porta e entrou. Sem usar uma chave. Isso estava ficando estranho.

-Mãe sobre o que ele está falando?

-Entre em casa, Layla. – Peguei as sacolas e o espelho no banco de trás e entrei em casa com pressa quase escorregando nos degraus congelados da varanda. Coloquei as sacolas na mesa de jantar e encostei o espelho no móvel da TV. O senhor, que acabei de descobrir que se chama Ambrósio, estava sentado no sofá com a bengala apoiada ao seu lado e olhando-o bem, ele era a imagem concreta da tranqüilidade.

-É melhor você se sentar – ele me aconselhou com um sorriso acolhedor, completamente diferente do sorriso meio maníaco que eu recebia todos os dias de manhã ao sair de casa para ir à escola.

-Mãe, o que está acontecendo? –Eu perguntei quando ela voltou à sala com um copo de água entre as suas mãos trêmulas.

-Layla, você sempre soube que você não era minha filha, bem não  biologicamente falando, e que quando você era bebê eu te adotei certo?

-Sim mãe eu sei disso.

-Bem.. não é a verdade. Vou te contar tudo desde o começo. – Eu acenei com a com a cabeça positivamente e me encostei na poltrona um pouco mais fundo. Boa coisa não estava por vir. Na ultima vez que vi esse olhar em minha mãe eu havia me perdido no parque durante o festival da primavera. Ela colocou o copo sobre a mesa de centro e começou– Quando eu tinha 20 anos, duas mulheres vieram à minha casa e me disseram que eu fora escolhida para ser a mãe de um ser lendário. Elas me explicaram que na terra há dois clãs que mantém o equilíbrio na terra, o clã dos anjos e o clã dos demônios. Claro que eu fiquei aterrorizada, mas elas me explicaram que os anjos se certificavam de que as pessoas boas tivessem o que mereciam e os demônios davam o castigo aqueles que eram ruins. Disseram-me que não havia inferno e no fim todos deviam ir para o céu, mas para isso as pessoas que praticavam o mal deviam receber o sua punição ainda na terra e se arrepender, assim como os bons deviam ser encorajados a continuar fazendo o bem e seguirem para o céu sem mais problemas,  contudo ser humaeceu no nos últimos séculos vinha praticando mais o mal do que o bem e o numero original de demônios não estava sendo o suficiente, assim dois novos demônios seriam criados, os mais poderosos de todos, os gêmeos. Lakhode’Lay e Lakhomon’Lay. Da língua demoníaca Lakhode é rainha e Lakhomon é rei, Lay significa demônio, traduzindo fica rainha dos demônios e rei dos demônios.

-Mãe você esta dizendo que eu sou um demônio? –Eu estava incredula, minha mãe sempre me parareceu normal, mas agora eu duvidava de sua sanidade.Ela começou a chorar e fez um “sim” com a cabeça. –Isso é impossível! -Eu escalmei frustrada, minha mãe somente balançava a cabeça enquanto as lárimas serpenteavam pelo seu rosto – Eu sou completamente normal, sem poderes, coisas estranhas ou algo do tipo isso não pode ser verdade.

-Amanhã é o seu despertar. Após o despertar todos os seus poderes serão revelados. -Disse Ambrósio que até agora havia permanecido calado em seu lugar no sofá.

-O que ela quis dizer com” punir o maus”?

-Como você acha que se deve punir uma pessoa que mata a própria família somente para usufruir do seguro social?

-Dor muita dor. – A resposta pulou para fora dos meus lábios tão rápido que nem me dei conta do que havia falado.Minha mão voou até meus lábios os tapando.Ele sorriu me mostrando uma fileira de dentes.

-Não precisa ter vergonha você é a rainha. – Isso não era de um todo ruim, eu poderia fazer justiça a todos os injustiçados, como um super herói não? Mas e minha consciência? Eu vou fazer coisas terríveis. Ambrósio se levantou e colocou o braço em volta do meu ombro.

-Ah minha querida, nós somos meros servos, apenas cumprimos ordens, Ele nos deu o trabalho sujo, nós limpamos os estigmas da humanidade, com tortura, maldade e até mesmo um pouco de sadismo, mas no fim todos vão para o céu não é mesmo? – Não pude deixar de escapar o sorriso diabólico que surgiu nos meus lábios. –Mas quer saber Layla, nós ganhamos algo em troca. Nós temos a vida eterna. Nós podemos fazer o que quisermos  e estar em qualquer lugar a qualquer hora, praticar a violência contra aqueles que a praticaram contra inocentes. Não é bom saber que no fim de cada dia você vai ter feito mais alguns seres humanos desalmados se arrependerem e irem para o céu?

-Claro que sim, Ambrósio. – Ele sorriu, pegou a bengala, deu um abraço em minha mãe e disse algo em seu ouvido, ela sorriu e me deu um abraço em seguida.

-Vá trocar de roupa, Layla. Ambrósio vai levá-la para conhecer o seu irmão e amanhã de manhã você vai estar de volta. –Sorri internamente com o pensamento, agora eu tinha um irmão.

-Qual é o nome dele? – Perguntei para minha mãe, ela somente balançou os ombros assinalando que não sabia, mas a resposta veio de outros lábios e quando aquele nome passou pelos meus ouvidos um arrepio me subiu a espinha.

-Hadrian. –Disse Ambrosio com um sorriso que nunca iria pertencer a uma pessoa sã.


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1 Comment»

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Poxa, adorei a estória e quero ler o restante.

    Sobre a escrita, achei muito boa, mas você devia ter revisado pois há alguns erros de digitação que encomodam. Preste atenção nas vírgulas também.

    Esses erros encontrei mais na parte final do texto.

    Parábéns pelo escrito e obrigado por compartilhar.

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Publicado por Thais Trevia

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