Tempo Perdido
Escritor: Lara
O ponteiro do antigo relógio de parede passava preguiçosamente pelas horas e minutos, quase como sem vontade de dar fim àquela noite. A modesta sala de estar era decorada sem muito valor e cheirava a móveis usados e antigos. Em uma larga poltrona aveludada, um par de olhos atento acompanhava cada movimento vagaroso dos ponteiros. Impaciente, a dona dos olhos se levantou. Foi até a janela. Queria ver a lua, mas as nuvens carregadas encobriam-na. Via também uma paisagem que poderia ser qualquer lugar, ou lugar nenhum. Chovia.
A angústia findou quando fortes batidas soaram a porta. A moça que se distraíra com os pingos rolando pelo vidro, se virou rapidamente, em um instante alcançou a porta e em outro já estava nos braços do visitante, que se encontrava molhado a sua frente.
-Como foi? – perguntou ao homem, com a voz embargada.
-Como o previsto. Não temos mais o que nos preocupar. Agora a senhora é uma respeitável viúva.
-Mabel Soares. – balbuciou seu nome de solteira – Há tanto tempo que não o uso, tinha quase me esquecido.
-Mas não vai usá-lo por muito tempo.Disse o homem que a pegou nos braços e a levou para o quarto.
A lua apareceu com a sua clara e branca luz noturna, invadindo o leito do casal. Mabel levantou-se ouvindo o ronco forte de seu amante e se dirigiu ao aposento ao lado. Acendeu um cigarro e pensou em voz alta:
-Viúva.
Nunca tinha pensado em si mesma como a dama de preto chorosa e desconsolada, ou em seu marido como um defunto pálido, deitado em seu esquife. Sabia que todas essas seriam conseqüências obrigatórias do plano que arquitetara, mas estranhava em pensar nas novas posições em que se encontravam. Sentiu náuseas e retornou a poltrona. Olhou para seu ventre e sentiu raiva, desejou matar o marido morto.
Contemplando a paisagem, não viu o que seus olhos viam e pensou em sua infância. Viu o mar, a areia, seus irmãos, o começo da felicidade e da tristeza e lembrou que é impossível os separar até o final. Viu a menina que corria com pés descalços e cabelos esvoaçantes e também quando começou a ser vista como mulher e passou a ser cobiçada pelos homens; a mulher que contra sua vontade foi transformada em objeto de desejo. Sua pele branca, seus cabelos negros e olhos de um verde esmeralda atraíram-lhe homens ricos e amargos que tinham quase a idade de seu pai. Mabel só conseguia ver asco ao olhá-los, mas sua família enxergava a chance de riqueza.
Casou-se nova com um dos ricos, velhos e amargos pretendentes.Passou com ele, até esta noite, dez anos de sua vida.Os quais poderiam não ter nem existido.
Lembrou, ao olhar ao seu dedo anelar vazio, a prisão que uma simples jóia pode representar. Escutou um barulho vindo das escadas e despertou assustada de seus pensamentos.
-Está tudo bem querida? Acordei e vi que você não estava na cama.
-Claro, está tudo bem.Estava sem sono.
-Foi um dia cheio hoje, para todos nós. Disse o homem que já estava sentado aninhando Mabel como um gato em seus braços.
-Me conte como foi. Vi e revi essa cena em minha cabeça tantas vezes e agora preciso saber como ocorreu de verdade.
-Foi relativamente simples. Gordo e velho como era quase não apresentou resistência – Mabel tremeu ao lembrar do marido e se encolheu ainda mais ao corpo do amado.
-Entrei na casa com a cópia da chave que você me entregou. Passei pela sala principal, segui pelo corredor até o quarto de porta antiga e branca com detalhes em dourado. Parei por um segundo, coloquei levemente minha mão sobre a maçaneta e a girei para a direita até se abrir. Ele dormia, ouvi sua respiração forte e comecei a caminhar em direção a cama. Ali, parado ao lado do corpo vivo, mas inerte, senti mais ódio do que nunca. Alcancei o travesseiro, que ocupava o seu antigo lado da cama -agora vazio- e o pressionei com força contra o rosto adormecido. Ele se debateu por um momento e sua mão conseguiu puxar minha camisa com força, quase a rasgando. Mas quando sua mão desfaleceu, soltando minha roupa e pendendo para fora da cama, foi a certeza que a missão estava cumprida.
Mabel tinha os olhos marejados e na boca um riso incontrolável de felicidade e dor. O homem, absorto em sua narrativa, assustou ao olhar para o lado e a ver chorar. Já ia indagá-la pelo motivo do pranto quando, antecipando qualquer pergunta, ela passou suas pernas em volta da cintura dele e as finas mãos, com as unhas esmaltadas em vermelho, fecharam-se na nuca.
-Choro de alegria. Hoje, nasci de novo – e o beijou apaixonadamente.
A noite passou e, como não acontecia em muito tempo, Mabel dormiu feliz.
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Eu gostei da estória, só acho que poderia ser mais longa, explorar mais.
Olha…sei lá… para mim parece que tu simplesmente jogaste uma história imcompleta num pedaço de papel.
Quer dizer… não há nada de interessante aqui. Nada que me prenda esse texto. O se pensa no inicio se comprova no final… nada de inovador. Chato
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Mas olhe pelo lado bom, tu tens uma técnica de escrita muito boa. Noção das vírgulas, das paradas, da estrutura literária. Só o que falta é a prática de dar emoção ao leitor. Sempre lembre-se disso, o texto tem q causar alguma coisa no leitor, sempre.