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Feb
01
2011

E Você? O Que Faria?

Escritor: Ricardo Ragazzo

e-voce-o-que-faria

O sol a pino transformava o congestionamento em algo muito mais insuportável do que o normal. Mesmo com a bela vista da praia ao lado, o calor, somado ao defeito no ar condicionado, fazia com que pai e filho implorassem para atingir seu destino o mais rápido possível. A camiseta já havia sido rebaixada à toalha de rosto, absorvendo o incessante suor produzido pelo corpo. Os vidros abertos podiam não trazer muito conforto, porém serviam como único obstáculo para evitar que o carro se transformasse em um forno móvel.

A temperatura passava dos 37 graus, e o rádio, única distração da dupla, já começava a criar conflitos entre os dois, uma vez que o pai insistia em ouvir seu samba-religião, enquanto o garoto desejava sintonizar seu i-pod para ouvir alguns clássicos do mundo metal. O pai, claro, venceu a discussão e o rapaz, já emburrado, tacou o objeto em cima do painel do carro.

Foram necessários poucos minutos para que o aparelho eletrônico servisse de isca e fisgasse logo seu primeiro assaltante. Um rapaz, aparentemente menor de idade, vestindo uma camiseta rasgada do Real Madrid, abordou o carro pela janela do motorista, apontando um revólver enferrujado para a cabeça do pai. Queria dinheiro, mas nenhum deles tinha mais do que alguns trocados. Então, ordenou ao moleque que passasse o aparelho que repousava em cima do painel. O garoto obedeceu, porém, o pai, sabendo da paixão do filho pelo objeto, intercedeu tentando roubar a arma do assaltante. O tiro entrou pela têmpora esquerda e estraçalhou o cérebro do homem que praticamente morreu na hora. O assaltante fugiu, e o garoto desesperado, saiu do carro, pegou-o no colo e disparou pela avenida com o pai semi-morto nos braços. A tecnologia permitiu que o desespero do rapaz fosse eternizado e transformado em MB. Uma dor tão particular sendo dividida com tantas pessoas. Nosso mundo globalizaDOR.

O caso virou assunto principal nos jornais e telejornais do país, com os canais de televisão explorando as imagens chocantes daquela cena que emocionou o Brasil. O filho virou alvo de entrevistadores e programas de TV querendo se alimentar em primeira, segunda ou terceira mão, dos detalhes mais sórdidos e pulsantes daquele dia terrível. E o garoto foi. Em princípio, erguendo a bandeira da justiça e  da paz; até o dia em que um desses programas vespertinos apelativos, trouxe à superfície a história sobre sua banda batizada como Tenores do Rock. O convite para a apresentação do grupo naquele mesmo programa surgiu imediatamente – não importava o quão ruim pudesse ser o menino-heroi e seus parceiros, o que importava é que essa combinação de menino com heroi vendia e ponto final!

E lá foram Oswaldo e seus amigos mostrar seu repertório. Ocorre que, curiosamente, os garotos eram muito bons, na verdade, geniais! Daqueles que só não haviam feito sucesso ainda por falta de oportunidade, e após a apresentação naquele canal de televisão bombaram convites para shows e propostas trazidas por empresários que gostariam de gerenciar suas carreiras – e as carreiras dos meninos também, se é que vocês me entendem…

A coisa virou uma bola de neve incontrolável, e em poucos anos os Tenores do Rock foram fabricando sucesso após sucesso, vendendo 12 milhões de cópias com apenas dois álbuns. Oswaldo virou sensação mundial e começou a ser chamado para tocar com seu grupo em eventos internacionais, ao lado de bandas como Oasis, Coldplay, Rush e U2. Seu sucesso repentino foi considerado superior ao obtido pela banda Guns And Roses na década de 90, mas seu talento era aclamado até pelos críticos. Poucas eram as vozes que ousavam se levantar para criticar Oswaldo e sua banda. E assim foi, até o momento auge de sua carreira com a conquista dos Grammys de Melhor Álbum do ano, Canção do ano, Grupo de Rock, Canção de Rock, Álbum de Rock e Melhor Artista Novo.

E foi ao receber esse último prêmio, que Oswaldo resolveu discursar em homenagem ao pai. E quando disse a frase “daria tudo para tê-lo aqui comigo”, sentiu um vento gelado soprar em sua nuca e percebeu todos a sua volta paralisados como se houvessem sido congelados por um tempestade de neve. Tudo imóvel, completamente inerte. Até o tempo. Só então percebeu uma figura alta, raquitica, com riso fácil e olhar sombrio, encarando-o. Não sabia quem era, mas sentiu sua espinha congelar mais do que tudo a sua volta ao observá-la ali, parada, à espreita, como uma ave de rapina.

Finalmente, o silêncio foi quebrado por uma simples frase dita pela figura misteriosa “Seu desejo é uma ordem” e, então, um bater de palmas fez com que o tempo tomasse um rumo inverso, como carro em marcha-ré.

Oswaldo viu o tempo voltar e toda sua trajetória de sucesso sendo apagada por uma enorme escuridão que envolvia seu futuro que agora virava passado. Era como um carro dando ré e vendo a estrada à sua frente ser apagada por uma enorme borracha negra, deixando nada além de um vasto e tenebroso breu. Shows, entrevistas, mulheres, tudo se apagando como se nunca houvesse acontecido, exceto pelas memórias gravadas em seu cérebro. Três anos – os melhores de sua vida, por sinal – sendo evaporados como água no deserto. Sempre sonhara em fazer sucesso com a música, e agora que atingira seu objetivo, via tudo escorrendo por entre seus dedos, como minúsculas partículas de areia.

Até o momento em que viu sua imagem carregando o pai pela avenida beira-mar. Reviveu de trás para frente, todos aqueles momentos difíceis de ser esquecidos. Ele deixando o pai semi-morto no banco e andando de costas até o seu lado do carro. A visão do assassino voltando até o carro com seu i-pod na mão, e tornando a apontar a arma para a cabeça do pai. A bala saindo do crânio de Wallace e invadindo o cano enferrujado do revólver; consertando o estrago causado ao juntar os restos de carne que como peças de um quebra-cabeça formariam novamente a imagem de um cérebro intacto.

As ameaças preferidas pelo criminoso, que faladas de trás para frente faziam tanto sentido quanto uma língua morta, mas que haviam permanecido gravadas na memória de Oswaldo por todos aqueles anos. Tudo sendo rebobinado como fita VHS até o ponto crucial em que o garoto entrega seu aparelho ao assaltante.

Então, tudo para novamente e, como num apertar de “PLAY”, passa acontecer em tempo real novamente. Dessa vez, porém, Oswaldo, ciente da reação do pai, consegue impedí-lo de tentar recuperar seu aparelho, e o assaltante vai embora sem saber o quão perto ficou de se tornar um assassino.

O garoto, agora, chorava emocionado ao abraçar o pai que não via há três longos (apesar de bons) anos. Wallace, sem saber de tudo que o filho sabia, pedia calma ao garoto que apenas lhe parecia assustado com o assalto.

Até que a “fita” da sua vida passou do “PLAY” para o “FAST FORWARD”, e o garoto pode testemunhar de antemão sua nova vida com a presença do pai. Observou como grudara nele naqueles dias que sucederam o assalto e como sua presença o fazia feliz. Não podia mesmo estar mais feliz.

Até que, um dia, tudo voltou ao normal e só então percebeu que sua banda não havia explodido. Sua versão agora em “FAST FORWARD” não conseguira as mesmas oportunidades conseguidas pelo primeiro Oswaldo. Afinal de contas, sem ninguém baleado, a cena do garoto correndo pela avenida com o pai no colo jamais acontecera. Dessa forma, não houve convites para programas e muito menos empresários interessados.

O tempo continuou passando em seu ritmo “FAST FORWARD” fazendo com que um ano parecesse pouco mais que um minuto. Os ensaios durante a madrugada somados à falta de expectativa e oportunidade foram minando os componentes da banda, que desistiram de seus sonhos um por um. Até que veio o golpe fatal: O pai de Oswaldo sofreu um derrame enquanto trabalhava em sua oficina. O garoto pode visualizar as consequências daquela fatalidade. O pai não conseguia mais trabalhar por causa da sequela que impedia os movimentos completos dos membros esquerdos, deixando ao filho a responsabilidade de cuidar da oficina, que era o único sustento dos dois.

Passou a seguir os passos do pai, vivendo  a rotina de sua vida suburbana e cuidando da oficina. O Oswaldo do presente observava inerte aquele futuro que lhe era reservado caso o pai sobrevivesse àquele maldito assalto na praia. Anteviu seu futuro até o momento em que as lembranças de sua banda não passavam de uma leve brisa na memória.  Até  que viu o pai morrendo pela segunda vez, agora, vítima de um novo e fatal derrame.

A partir daí, o tempo parou novamente, e aquela possível futuro começou a ser também rebobinado. Tudo foi se apagando assim como havia acontecido com sua primeira experiência, com a escuridão se apossando de cada pequeno pedaço.

Novamente, se viu dentro do carro diante do assaltante e do pai petrificados, assim como todo resto ao seu redor. Foi quando a estranha criatura reapareceu na frente do carro. Ali, parada, ela fuzilava o rapaz com seus olhos demoníacos, esperando que ele entendesse o grande dilema que lhe fora imposto. Sucesso ou Pai. Não teria os dois. Esse seria seu dilema. Uma vida de sucesso, fama e dinheiro ou a sobrevivência do pai e todas as consequências e dificuldades que ela traria para sua vida. A criatura, então, abriu os braços e Oswaldo percebeu que no bater das palmas teria aquele segundo para decidir se impediria o pai de reagir ou não. Só teve tempo para fechar os olhos  antes que ouvisse o mais vil CLAP de todos os tempos “ressuscitar” o mundo.

Acredito que a decisão de Oswaldo seja muito pessoal para ser contada aqui em público, mas peço que você reflita pelo tempo que achar necessário e responda a seguinte pergunta:

E você? O que faria?


Written by Ricardo Ragazzo in: Contos,Ricardo Ragazzo | Tags: ,

25 Comments»

  • Thumb up 6 Thumb down 0

    FANTÁSTICO!!!

    Embora os últimos dois parágrafos serem inúteis! Você consegui me prender nesta história. Que maestria!

    Eu digo que os dois ultimo parágrafos são inúteis, pois você já trabalhou esta pergunta em nós durante o texto inteiro. Saiba que quando o seu texto está bom, é desnecessário qualquer tipo de explicação do ponto de vista que você quis passar.

    Não sei se você expliquei direito minha idéia. Pense em contar uma piada, e depois explicar a piada. Os parágrafos foram a explicação e a explicação nunca deixa a piada melhor! Quem entendeu o texto já está mais que satisfeito.
    (E como eu fiquei satisfeito)

    Que excelente estréia aqui no ONE! Envie logo outros contos para que possamos desfrutar de mais contos desta qualidade!

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Oi, Rainier, como vai? Gostei bastante do seu comentário e de suas críticas inclusive. Em certo ponto você tem razão, eu acabo explicando algo desnecessário, mas o objetivo inicial daquele parágrafo era apenas introduzir o fato de eu não revelar a escolha do personagem, uma vez que o foco da história não é o fim e sim, o meio.

      Eu irei postar mais contos aqui, mas eu tenho um livro publicado com mais de 40 contos nesse estilo. O nome do livro é a.C/d.C (antes destes Contos, depois desses Contos) e pode ser achado pelo site da livraria Cultura (basta digitar meu nome no campo de busca).

      Olhei seu blog “Confidencialmente Público” e achei bastante interessante. Vou postar meus comentários lá em breve.

      Abrazzo Ragazzo

      • Thumb up 0 Thumb down 0

        Ricardo, você já assistiu “A Origem”?

        No final do filme de Nolan há algo que fica fabuloso em um texto, um corte seco.

        Nós já sabemos que ele terá de fazer uma escolha quando houver o aplauso. O aplauso fecha o arco perfeitamente. É exatamente este corte seco.

        Agora temos que acordar e decidir por conta própria o que aconteceu com o personagem.

      • Thumb up 0 Thumb down 0

        Vi teu livro na livraria cultura, há bons comentário a respeito dele. Fiquei interessado.

        Só me falta agora uma grana para poder comprar. Mas já está no carrinho.

        Gostei muito deste conto, e espero gostar dos próximos.

        Belíssimo conto.

        • Thumb up 0 Thumb down 0

          Rainier, não vi esse filme ainda. Irei alugá-lo hoje, se possível.

          Se eu tivesse livros ainda eu mandaria um para você sem problemas. Esse livro foi publicado por mim sem a menor perspectiva financeira, apenas como introdução no mercado. No site da Editora Baraúna, acredito que ele saia uns R$ 5 mais barato.

          Terminei um thriller policial ano passado com o título provisório de “72 Horas para Morrer” e recebi um contacto de uma conhecida editora dias atrás. Vamos ver no que dá… Autor novo é sempre uma dificuldade para ser lançado…

          Abrazzo Ragazzo

          • Thumb up 0 Thumb down 0

            Poxa cara, te desejo toda sorte deste mundo!

            É complicados os primeiros lançamentos, mas tome por exemplo o Raphael Draccon, Eduardo Spohr, Orlando Paes Filho…

            Recomendo você ler o post “LPB; ou como uma nova geração” só colocar no google e abrir o primeiro link. É um bom animo ver como anda o mercado de escritores brasileiros.

        • Ricardo Ragazzo says:

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          Rainier, acabei de submeter um novo conto chamado “Tarde Demais”. Só não sei quando vai ser publicado.

          Abrazzo

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            pode deixar, quando sair passo para comentar.

            não se esqueça de visitar nossos contos e comentar também. A interatividade no site é o que mais tem valor. :)

            Há Braços!

  • Asami says:

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    Fiquei estagnada ao ler esse conto. Ele prende por completo a atenção e faz o leitor se colocar no lugar do personagem e pensar em que atitude tomar para resolver o dilema imposto. Concordo com o Rainer: os dois últimos parágrafos não tinham muita utilidade, assim como concordo que ficou realmente FANTÁSTICO! Parabéns pela criatividade, Ricardo e espero por muitos outros contos seus :D

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    /

    Excelente conto! Me faz lembrar do “E se…”

    Grande abraço Ragazzo e sucesso

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Ragazzo, vc viu a propaganda que fiz de ti em um dos comentários em meu site?

    http://rainier.posterous.com/escritores-mais-ativos-do-o-nerd-escritor-apo

    Há Braços!

  • Ricardo Ragazzo says:

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    Oi, Rainier! Claro que eu vi! Inclusive falei com o Chico sobre seus comentários. Ele ficou super feliz com os elogios.

    Ele, inclusive, tem um site http://www.chicoanes.com.br

    Depois passa lá!

    Tenho mais dois contos pendentes no ONE!!!

    Abrazzo Ragazzo

  • Vinicius Maboni says:

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    Muito bom!
    mais um otimo conto ein
    este me lembrou Efeito Borboleta.
    Parabens!

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      Valeu, Vinicius. Que bom que te lembrou o Efeito Borboleta, porque achei esse um filme sensacional (o primeiro, é claro).

      Dei uma comentada no seu belo conto “O Caminho da Água”. Espero que curta!

      Abrazzo Ragazzo

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    Muito bom. Achei meio estranho a parte do garoto levar o pai no cólo… afinal, qual era o tamanho do pai e o tamanho do garoto?! hehe..

    Concordo com o Rainier, que os parágrafos finais não precisavam estar alí. Essa parte deixa o leitor fazer sózinho, tipo, se ele quer refletir, que reflita.. senão, deixa pra lá. :-)

    Mas gostei sim.

    • Ricardo Ragazzo says:

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      Guns, na verdade, é para se ficar sub-entendido que o garoto é um rapaz de 17, 18 anos. Talvez eu tenha me expressado mal ao usar o termo “garoto”.

      Valeu o comentário!

      Abrazzo Ragazzo

  • Peregrina says:

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    Ótimo conto,faz a gente refletir bastante. De qualuqer forma,amei a história.Posta mais contos pra gente. XD

  • Ricardo Ragazzo says:

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    Galera, tem um conto novo meu aqui no ONE.

    “Quem Matou John Kennedy da Silva?”

    É só procurar pelo meu nome que acha.

    Abrazzo Ragazzo

  • Alex Tzimisce says:

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    SENSACIONAL!
    Fiquei intrigado logo no início e, de repente, me vejo em descrições ótimas e com uma curva de expectativas que me deixou boquiaberto.
    Está de parabéns!

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