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Feb
26
2011

Gotas de Melodia

Escritor: Vinicius Cortez

Rita lembra que, nos dias de chuva, seu pai a levava para um quarto nos fundos da casa e, sacando do bolso uma pequena chave de cobre, destrancava o teclado de um piano. Tirava o pano purpúreo que cobria as teclas, dobrava-o em dois ou três movimentos rápidos, marciais, e saía fechando a porta atrás de si. “Tenha cuidado”, ele dizia. E Rita dedilhava até a chuva parar.

… Quando Rita completou quatorze anos, já passara da escala e, servindo-se dos amarelados livros guardados dentro da banqueta de madeira, aprendera uma série de marchinhas nas claves de sol e de fá. Um dia veio a chuva e com a chuva entrou um homem vestindo um grande casaco de couro. Chamava-se Gurgel e era o filho mais velho de um dos sócios do pai de Rita, na empresa de cerâmica esmaltada.

– Que piano bonito – ele dissera, se sentando.

– É meu – respondera Rita.

Era Gurgel, era músico, e a arte quase o deserdara. Ainda assim era bem recebido na casa de Rita, cujo pai simplesmente dizia que sabia respeitar o silêncio.

Dali em diante, assim que chovia, Rita dedilhava à espera da estiagem, não mais sozinha.

,,

… – Meu pai o ganhou como pagamento de um senhor que não tinha dinheiro para dar – disse Rita, sentada sobre uma caixa de papelão. No piano, Gurgel se esticava de uma ponta do teclado à outra, para interpretar uma obra escrita por alguém cujo nome, gigantesco, tinha apenas duas vogais.

– É bonito – observou Gurgel, atingindo uma parte menos colorida e exigente da partitura. Os olhinhos negros se perdiam no emaranhado de sua cabeleira castanha, como carvões apagados. Tinha uns dedos longos, magros, tão finos que pareciam se emendar num só nó a cada complicação maior da execução. Rita não veria dedos como aqueles senão uma vez, à beira-mar, nas mãos de um pintor de retratos. Assim como os dedos de Gurgel se confundiam com a brancura perolada das teclas, os dedos morenos do pintor pareciam pincéis. Rita tivera vontade de comprar um retrato de si mesma ou da mão que a desenhasse, somente para ter aquilo como recordação. Mas não era a mesma coisa.

Rita tinha quinze anos.

,,,

… – Tuberculose – anunciou seu pai, lendo de uma carta à hora do almoço. Lá fora, grossas gotas de chuva despencavam contra o vidro das janelas. – Ele bem que nunca pareceu muito saudável – Quatro estações tinham passado, para encontrar Rita num verão em flor, embora nesse exato instante sua expressão fosse glacial, e ela levasse uma trêmula mão ao coração.

– Tuberculose! – repetiu.

.

… – Era um grande filho da puta – gaguejara Gurgel pai, quando o caixão terminou de descer à cova. Mas primeiro ramo de rosas que tocou o ébano lá embaixo quebrantou sua resistência, e ele se pôs a chorar, antes de se retirar, enxugando as lágrimas na manga do casaco. – Um grande…

Estava chovendo de novo e Rita, sob seu guarda-chuva, ouvia uma estranha melodia vinda do chão, como se cada gota d’água em seu impacto contra a madeira do esquife despertasse uma nota ressonante. E uma a uma as gotas de melodia foram se juntando, se juntando, até fazerem sentido. “Seria Schubert”, ela pensou, “ou talvez Chopin?”. Mas o que subia até os seus ouvidos, límpido como uma balada retinindo em cristais, era algo novo. Lembrava o que Gurgel tocava quando seus olhinhos negros cresciam, onipotentes e totisensíveis, arregalados, quando tudo queriam e nada temiam, antes de a chuva parar.

Rita jogou seu feixe de flores. E de cada canto por que passou, no caminho de volta, soava a mesma melodia ressonante. Ela nunca mais tocou num piano. Tinha todas as notas do mundo.


Written by viniciuscortez in: Agenda,Contos,Vinicius Cortez |

2 Comments»

  • Thaina Gomes says:

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    Achei muito bonito, mesmo. Tem mais não?

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      Oi Thaina! Que bom que vc gostou :)
      Bom, aqui no ONE tem um outro conto meu na agenda, o Ordálio. Mas é bem diferente desse, diferente mesmo… Se quiser pode ir no meu blog :D
      -
      vcortez.wordpress.com/category/conto/

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