Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida: Livro 1
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
29 Dicas para se manter criativo:
Vaucarn
A Lenda de Fausto
Chat dos Nerds Escritores
Quer publicar?
Download do livro O Draconiano – Livro 1
Feb
20
2011

Inferno na Estepe

Escritor: Marcio Dalla Nora

p>Avançamos pela Rússia, por uma estrada larga e esburacada, sulcada por centenas de viaturas blindadas, a infantaria marcha aos lados da estrada em duas filas, os tanques rolam pelo meio. Greim, assim como nós, está meio sonolento na direção e sente dificuldades em manter o pesado veiculo sob controle, uma simples guinada e uma companhia inteira pode ser esmagada. Estamos indo em direção a uma cidade de porte médio, como várias outras do qual já passamos, podemos ver uma nuvem de fumaça preta envolvendo toda a cidade, deve ser trabalho da Luftwaffe, do ataque destruidor dos Panzers e da Infantaria.

Começamos a cruzar com veiculos incendiados,  os soldados mortos espalhados ao redor.

- Acertaram em cheio por aqui. Disse  Grossman lacônico, olhando pela portinhola lateral.

 Quando ainda estavamos pensando no que aconteceu ali, quatro jabos saem das nuvens roncando e atacam nossa coluna com suas metralhadoras, alguns recrutas, ainda inexperientes, correm em circulos e são abatidos pelos aviões, as balas batem na carcaça de nosso tanque com um tinido e recocheteiam furiosamente.

Esperamos os caças passarem e abandonamos o veículo, então corremos para uma das valas que foram cavadas para esse mesmo fim e nos jogamos de cabeça, na segunda passagem os jabos soltam suas bombas, causando mais pânico e destruição na coluna. Um tanque que rolava na nossa frente estava tentando manobrar, foi atingido em cheio por uma bomba que jogou o veiculo para o ar como se fosse de papelão e abriu um buraco enorme e enegrecido na estrada. Um pedaço de metal incandescente cai na calça de Weiser, que começa a praguejar.

- Filhos de uma cadela, grita ele alucinado, já ia se levantar quando nós o agarramos, Liebe lhe dá uma bofetada na cara para ele se acalmar, é  uma crise de neurose esse é o  único remédio. A torre do tanque saiu voando por cima do nosso buraco e enterrou-se no chão, não sobrou nem um trapo de uniforme da tripulação. Nosso tanque que estava perto começou a deslizar para dentro do buraco, ficando com a boca do canhão cravada no solo, mas não foi destruído. Vimos uma meia lagarta correr em chamas pelo campo e explodir numa bola de fogo.

Então os jabos se foram deixando a paisagem desolada cheia de mortos e moribundos, aumentando a quantidade de viaturas calcinadas. Voltamos para nosso tanque no buraco ainda fumegante, mas não conseguimos move-lo, as lagartas giravam em falso. Outro tanque, um tigre, prendeu os cabos e nos rebocou para seguirmos viagem.

- Melhor começarem a mexer os rabos antes que esses demônios voltem. Fala Greim olhando em volta assustado.

Estamos entrando na cidade destruída, casas ardendo, crateras nas ruas, cadáveres, soldados russos feridos e estrondos, fico pensando qual o motivo daquilo tudo? Será que não podem resolver as coisas de outra forma? Não me aprofundo muito nesses pensamentos, podem ter consequências desagradáveis, somos indiferentes ao semelhante que morre ao lado por que a guerra exige que seja assim, é quase uma regra, se não fosse a indiferença, estavamos todos mortos ou no manicômio a muito tempo.

Uma porção de russos numa trincheira a nossa frente, atiram com uma Maxim, na vã esperança de danificar o tanque, Weiser dispara a funker MG e os abate numa longa rajada, outro vem por uma rua lateral e tenta jogar uma mina magnética ativada no nosso veiculo, Liebe, que estava observando da portinhola vê o russo e atira no peito dele, que dá um grito e cai, a mina explode derrubando uma parede em cima dele.

Ouvimos os comandantes de outras viaturas avisaremo rádio que uma bateria anti-tanque está concentrada e reforçada com alguns T34. Está localizada num parque a uns 150 metros. De repente do nada, aparece o focinho de um KW2 de uma rua lateral, vira sua torre para o primeiro tanque da coluna e dispara. A bomba enorme destroça o Panther, a onda de choque nos atinge tirando o ar dos pulmões.

- O que foi isso! raios. De onde veio aquilo! Geme Grossman pálido de medo. O KW2 volta para seu beco.

-Antes de piscarmos o olho aquele inseto volta e nos manda pra lua. Digo eu.

 Agora avançamos cautelosamente, um granadeiro panzer avança colado numa parede  e espia pelo canto para observar pra onde foi o monstro e faz sinal para avançarmos. Provavelmente o KW 2 vai aparecer de novo. Dois blindados caçadores de tanques foram ao encalço do tanque russo. Vimos eles dobrarem uma esquina, está quase escurecendo, e é preciso pegar o KW2 urgentemente. Ouvimos três estrondos trovejantes e uma fumaça preta. Tomara que o tenham destruído.

Já ouvimos as explosões duras dos anti tanque russos. Uma bomba vem berrando na noite e explode muito próximo, o tanque da frente faz uma manobra brusca e atira-se para frente a toda a velocidade, nós o acompanhamos. Greim derruba uma garrafa de vodka e pragueja, pisando no acelerador com raiva. Já podemos ver as posições russas, viramos para a esquerda, para não sermos atingidos. Algumas granadas de fumaça cobrem tudo como um manto, nossa intenção é chegar nas posições pelos flancos sem que eles nos vejam. Os russos ainda atiram no meio da cortina de fumaça, e são pegos de surpresa quando começamos a atirar com todas as armas, vimos os canhões deles saltarem junto com pedras e terra, a posição vira um mar de chamas. Uns dez T34 avançaram cegamente para o lugar onde estamos, e são destroçados por fogo impiedoso.

Retomamos o avanço, as granadas explodem com seu som oco, junto com os canhões de tanques e metralhadoras, gritos humanos cortam a noite. Mais tanques t34 aparecem, agora a escuridão é total, eles ligam seus holofotes, tem um efeito sinistro. Os granadeiros panzer correm como galinhas assustadas e são amassados impiedosamente, das posições russas vem o grito inconfundivel da infantaria, o seu Urra chega até nós, ordens são dadas em russo. Com certeza é um ataque que está em curso, estamos numa espera tensa. Tudo é tomado de um silêncio repentino, então eles avançam com gritos selvagens apoiados pelos T34 e os Classe BT.

Atiramos no meio da massa cor de terra que avança, usamos bombas incendiárias, um cheiro de carne queimada fica em toda a parte, a infantaria falseia o ataque, mas os tanques continuam avançando, atingem um Panther que ainda anda um pouco em zigue -zague e torna-se uma bola incandescente de fogo, mais dois tanques nossos são atingidos e soltam fumaça pela portinhola como chaminés de fábrica. Quando estavamos descendo uma vala somos atingidos na torre, foi como um grande martelo num sino. Estamos completamente surdos. Um cano de óleo foi rompido, e teve um principio de incendio que foi controlado, ninguem ficou ferido, mas o canhão não girava mais. Na posição em que nos encontravamos eramos alvos fáceis. Abandonamos o veículo e jogamos um feixe de granadas pela portinhola, o tanque virou um vulcão. Saimos correndo pelo meio de veículos em chamas e corpos despedaçados, o barulho era horrivel. Encontramos algumas minas magnéticas no meio dos cadaveres, devia ser um batalhão de sapadores, e nos preparamos. Podiamos ouvir o tinido sinistro de lagartas de tanque. Estava tudo coberto por uma neblina espessa, não sabiamos se eram tanques alemães ou russos, ficamos a espreita, achatados no chão, o medo afetava os sentidos eu tinha vontade de sair correndo, mas isso significava morte. Os tanques já estavam muito perto, quando o primeiro apontou através do nevoeiro. Respiramos aliviados, era um tanque alemão. Nos levantamos e erguemos os braços. O tanque da vanguarda pára, dele sai uma cara preta de fuligem, é o comandante da companhia, nos oferece um cantil com conhaque.

O ataque quase dizimou o batalhão, sobrou um punhado de soldados, cinco tanques e várias outras viaturas foram destruídas, assim somos substituídos.

Fomos enviados para a retaguarda, estamos alojados numa loja de equipamentos agrícolas, os arados me lembram do tempo de infância. Nasci na Alemanha, mas meus pais se mudaram para o Brasil na década de vinte para tentar a sorte. Mais precisamente em Santa Cruz do Sul interior do Rio Grande do Sul, um belo lugar. Quando meu avô faleceu, viajei de volta a Alemanha, foi em 1936, meu pai sempre dizia que a vida no país natal devia estar muito dificil, quando ainda moravamos na Alemanha, não havia trabalho e as greves e motins eram frequentes, os trabalhadores eram espancados pela polícia, muitos foram presos.

Mas ao chegar a Berlim me surpreendi, a cidade estava bem moderna, a noite os bares e restaurantes ferviam de atividade, confesso que fiquei com vontade de ficar, e assim o fiz.

Uma bela tarde de 1936, na casa de minha avó, recebi um envelope pardo enfeitado com uma águia, era uma convocação para o Exército, meu queixo caiu.

Fui ao consulado brasileiro para tentar reverter aquela situação, e o funcionário disse o processo era muito oneroso e tal, vi que não tinha escolha.

Na mesma semana me apresentei no quartel, me mandaram de lá para a famigerada Escola de Treinamento, o famoso Sennelager em Paderborn. Uma verdadeira ante sala do inferno, depois de onze meses de treinamento duro e cruel, ganhei braços e pernas mais fortes e uma obediência de cão de caça, as punições eram muito severas as vezes sem o menor fundamento. Vezes seguidas marchei nos campos arados com o Sargento de serviço gritando ordens como um possesso, por fim acabava virando um torrão de barro, ou então ficar em posição de sentido no sol do meio-dia e o cão do inferno do sargento com seus olhos de verruma tentando pegar algum erro. Dois recrutas morreram de pneumonia durante o treinamento.

Depois do treinamento fui enviado de navio á Espanha, com roupas e documentos civis, num barco civil, para tomar parte na Legião Condor. Acabei sendo lotado numa seção de artilharia de campo 150mm, como servente. Nem cheguei a participar da ação de verdade. Nosso trabalho era  atirar obuses para o lado republicano, foi mais um treinamento do que uma batalha.

Ali que conheci alguns de meus companheiros, que lutam comigo até hoje, Walther Greim, Primeiro Cabo, motorista de tanque, baixinho e forte, que perde o controle se alguém o chama de nanico. Siegfried Liebe, Tenente, magro e alto, fala como se cuspisse as palavras. Ralph Grossman, Soldado, o Bubbi, Carregador, magro e baixinho, com cara de rato. Antes de entrar em combate fica com uma palidez mortal. Alfred Weiser, Cabo Rebaixado a Soldado raso, Rádio telegrafista, cara vermelha de bebedor de cerveja, e bom de briga, uma vez, na escola, botou um cavalo pra dormir com um soco, por que este quase o mordeu, ia enfiar a baioneta no bicho quando nós o acudimos. E eu Joachim Baden, primeiro-cabo, artilheiro.

Estendemos as barracas pelo chão, são nossos colchões, a noite está agradável mas chove, ouvimos os pingos baterem em algum lugar, fazem um barulho repetivivo. Tem um efeito anestésico. Não sei quantas horas dormi. Alguém me acorda. Quando me levanto, Weiser faz um sinal de silêncio.

Vejo Bubbi, rastejar em nossa direção e sussurra:

- Tem um batalhão inteiro ali na rua coçando o rabo, ainda não nos descobriram. - É uma boa hora pra darmos o fora.

- Dar o fora uma ova, seu rato! Responde Liebe com raiva.

- Vamos ser heróis! Mas que merda. Geme Greim.

Saimos numa porta que vai dar num beco, Liebe vai na frente e olha pelo canto da casa e faz sinal para avançarmos.

- Baden e Grossman!, montem a MG aqui, nós vamos pelo outro lado e fazemos eles correrem pra cá, e vocês mandem bala, mas só quando eles estiverem naquele trecho aberto ali, Rápido cães.

Os outros fizeram a volta pro trás da loja. Ficamos ali na chuva.

- Que merda, uma equipe altamente especializada, fazendo serviço de pé de poeira. Cochichou Grossman olhando para os russos.

- Vá reclamar com o Adolf, digo eu.

Ouvimos uma gritaria e o barulho de granadas de mão explodindo, alguns russos são jogados pra cima, são pegos completamente de surpresa. Como Liebe tinha dito, eles sairam correndo em panico pela rua, só para serem massacrados por nossa metralhadora. Fomos dar uma busca nos russos mortos e encontramos cinco cantis de vodka, dois pães duros, um saco de sementes de girassol e café.

- Será que os pagãos furaram o cerco? Ruge Liebe preocupado. Se isso acontecer ficaremos suspensos no ar.

- Acho que não. Responde Weiser, cuspindo e dando um arroto.

- Seja o que for logo veremos.  Retruca Liebe. – Melhor estarmos preparados.

Voltamos para nosso abrigo na loja, para fazer café. Quando estavamos esquentando água, ouvimos um ruido na rua, já iamos atirar quando aparece um Cabo sinaleiro com um pesado rádio nas costas.

- Com os cumprimentos do Primeiro-tenente, Kolb, disse ele alegre.

- Sabe o que está acontecendo? Pergunta Liebe ao cabo.

- Nada de mais senhor, são só alguns russos que vieram ver como estão as coisas por aqui.

- Que raio de coisa é essa? Rosna Liebe.

- Apresento o rádio de campanha modelo 1938, Senhor Tenente, diz ele com uma mesura. Qualquer coisa é só pedir Senhor. Se não chegar a tempo, a cerveja é de graça! Weiser começa a rir e Liebe o fuzila com os olhos.

Voltamos a nossas “camas”, não consigo dormir mais, com receio que apareça mais uma daquelas patrulhas russas, na sala grande só se ouve o ronco do pessoal dormindo. Fico sentado perto da janela, e observo os rastros luminosos dos projetis destinados a objetivos distantes.

O dia começa a clarear, primeiro pardo, depois avermelhado, lentamente o sol começa a nos aquecer.

Cozinhas de campanha puxadas a cavalo começam a rolar na rua em frente, uma delas para e o cozinheiro nos fornece carne de porco assada e pão ainda morno, com um grande bule de café. Como generais tomamos um suntuoso café da manhã.


Written by mnoris in: Agenda,Contos,Marcio Dalla Nora |

No Comments»

RSS feed for comments on this post.


Leave a Reply

Powered by WordPress. © 2009-2011 J. G. Valério