Não Seria: Alô?
Escritor: Flavio Silva
Clara olhava no espelho e se perguntava se era real o que tinha lhe ocorrido na noite anterior… Não conseguia crer que ouviu tudo aquilo de um estranho…
Suas palavras ainda mexiam com ela apenas de lembrar
“- A beleza pertence a quem a observa e não a quem a oferece. E vejo que você é linda. Sou dono de parte de você agora. O que pretende fazer a respeito?
É claro que nenhuma resposta aconteceu. Não sabia o que fazer. Nunca havia visto esse homem antes e nem tinha buscado conhecer…
Foi assim: Clara tem um conhecido que trabalha numa ONG de apoio a pessoas com auto-estima baixo; Ernesto. Mas ele é o tipo de pessoas que convida para reuniões e encontros nos momentos mais inoportunos possíveis. Liga de madrugada, vai convidar no meio da missa, aparece no banco de reservas do futebol, aparece do nada na hora do recreio mesmo não pertencendo à escola alguma… Se o convidado não aceita tem seu nome citado num discurso previamente decorado de exemplos a não seguir e faz com que certas pessoas lhe virem o rosto por uma semana ou duas… Um mala.
Ernesto estava em mais um de seus dias de militância. E convidou Clara para ajudar na organização de um desses encontros. Ela foi, mas quando os convidados começaram a chegar ele deixou o trabalho de recebê-los com ela e foi presidir a reunião apoiando-se em outra pessoa.
Em um de seus murmúrios incompreensíveis de garota enraivecida e contida foi surpreendida pelo escandaloso toque do telefone bem a sua frente.
- Oi. Boa noite – disse a voz masculina do outro lado da linha ao invés de dizer alô – Estou ligando para justificar com uma desculpa qualquer que vou inventar agora a minha não ida a reunião de hoje.
Ela não resistiu e riu. Nunca tinha atendido alguém tão direto e sincero assim antes sem parecer grosso.
- Está tudo bem – respondeu ela – cá entre nós, não está perdendo muita coisa. Essas reuniões… Ninguém merece…
A voz do outro lado riu gostosamente e acrescentou com um gracejo:
- Quer companhia para as reclamações ou devo desligar e reclamar sozinho aqui em casa sobre essas reuniões também? Vamos lá, me ajude com uma desculpa.
Ela riu e assentiu em ajudar o estranho, mais por educação e diversão que por qualquer outra coisa. Ele disse se chamar Adan e que é poeta, músico e escritor. Ela duvidou, mas quando ele fez o silêncio dela soar profundo com palavras bonitas… Algo estalou ali dentro e tilintou por horas!
E lá estava Clara no dia seguinte na frente do espelho pensando em quando seria a próxima reunião chata do Ernesto que misteriosamente não soava tão chata assim essa manhã…
Antes de aquele dia terminar o telefone de Clara tocou e para sua surpresa era ele: o estranho cativante; Adan.
- Oi. Boa tarde. Senti falta de algo bonito no meu dia e consegui com Ernesto o paradeiro de sua beleza.
Ela estranhou a voz do outro lado não começar a conversa com um “alô”, mas assim foi bem melhor porque de alguma maneira aquele “oi” martelou em sua cabeça quase a noite toda. E o nome Adan piscou em néon imaginário na sua cabeça.
- Espero que não tenha se irritado com minha atitude – desculpou-se ele – mas era preferível correr esse risco e conseguir falar com você a esperar e ter de ir a mais um daqueles encontros…
Ela sorriu. Gostava da sinceridade daquele homem, o que inclusive foi o que a fez não dispensá-lo nos primeiros minutos de aproximação. Isso a cativava. Queria ver onde daria. Sempre se resguardando, é claro, para não entrar em outra furada.
Aqueles dois sem perceber se ligaram muitas vezes depois disso justamente por terem se ligado de modo muito especial um ao outro. “Têm males que vem para o bem”… Às vezes os antigos acertam!
Agora é um consenso que nem um nem outro têm problemas de auto-estima para participarem de tais reuniões… O problema daqueles membros é caridade demais, é mole?
Aqueles dois começaram a se falar e começaram a se gostar mesmo nunca tendo se visto. Na verdade não demorou muito para verem fotos um do outro via internet, mas não é a mesma coisa.
Descobriram para a tristeza e frustração de ambos que moravam em Estados diferentes. Parecia o fim, mas não precisava ser, tanto que não foi.
Ele largou a vida promíscua e ficou sem ninguém para esperá-la. Ela esperava alguém especial, então deu o rosto e, sobretudo a voz dele a esse “alguém”. Ambos sabiam a quem esperar e desejar e assim foi.
Em mais um dos dias em que o mundo parece não ter limites ou fronteiras os dois se conheceram pessoalmente e se tornaram então oficialmente um casal. Não seria agora que ficariam juntos. Teriam viajem para lá e para acolá a fazer para passar momentos juntos, mas aceitaram os desafios impostos para ficar juntos e se ela amava aquela voz quando dizia oi, agora ama ainda mais quando diz: eu te amo.
Hoje sou testemunha da família linda que esse casal começou, mas isso é história para outra hora, pois certo bebê acaba de cair no sono…
Boa noite.
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Eu gostei de tudo, menos do final. talvez por pensar que ele era um psicopata loucos, ou sei eu. Mas achei que o final deixou a desejar. Está muito bem escrito, parabéns!
Obrigado pelo comentário Sanchez.
Também pensei em um final mais inusitado, “menos água com açúcar” como ficou.
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Acontece que escrevi em dias diferentes, logo o tesão inicial foi se transformando a cada “sentada”, masd nãoestamos aqui paradesculpas e sim para expor e aprender.
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Obrigado por ler.
A história foi um tanto simples… Algo meio corriqueiro. Mas Gostei muito da qualidade da escrita.
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Parabéns.